Maçonaria e Islam

12 de janeiro de 2014 às 15:20

Maçonaria e Islam

 

Irm.’. Carlos Campani (Irm.’. Ibrahim)

A relação da Maçonaria com as grandes religiões nunca foi muito tranquila. Em sequência à condenação da Maçonaria pela Igreja Romana e sua posterior perseguição pela Inquisição, autoridades muçulmanas repetiram os argumentos do Vaticano, sem que fosse verificada sua veracidade, condenando a Maçonaria como anti-islâmica e proibida aos muçulmanos. Posteriormente, um dos argumentos usados contra a Maçonaria foi o fato dos maçons terem adotado sigilo sobre sua filiação, sem que os autores de tais críticas compreendessem a vinculação deste comportamento com a violenta repressão levada a termo pela Igreja Romana, que incluiu a tortura e morte de muitos Irmãos.

O Papa Clemente XII excomungou a Maçonaria em 1738, sob a pressão de seus súditos cristãos e, com a aprovação dos teólogos islâmicos que basearam-se nas palavras do Papa que os maçons eram ateus, o Sultão Mahmut I proibiu a Maçonaria. Desde essa data “maçom” passou a ser sinônimo de “ateu” no Império Otomano.

Os argumentos adotados pela Igreja para atacar a Maçonaria são inverídicos até a uma análise superficial, sendo as verdadeiras razões relacionadas com os interesses de poder temporal da Igreja Romana.

A Maçonaria Universal não é uma religião, mas uma fraternidade iniciática e simbólica, que oculta seu conhecimento em alegorias e se explica em símbolos, devotada ao progresso espiritual, intelectual e cultural da humanidade. A divisa que melhor traduz os ideais maçônicos é “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Embora não seja seu principal objetivo, os maçons dedicam-se à filantropia em suas Lojas e são muitas vezes conhecidos pela sociedade como grandes filantropos, a despeito da Maçonaria, e o maçon, preferirem um comportamento discreto e sem afetação.

O aspecto que merece alguma explicação é a razão porque afirmamos que a Maçonaria não é uma religião, embora a todo maçom seja requerido acreditar em um Ser Superior Criador do Universo, que é Deus, ao qual os maçons se referem como O Grande Arquiteto do Universo (G.’.A.’.D.’.U.’.).

As religiões não se caracterizam pela crença em Deus, havendo religiões, como é o caso do Budismo, que sequer creem em um Deus Criador, mas sim por uma mensagem salvacionista, usualmente revelada por um profeta ou avatar. Assim, a mensagem de salvação do Cristianismo, Judaísmo e Islamismo centra-se em fazer o bem para escapar do inferno, a do Budismo em safar-se da ilusão deste mundo, origem de todo sofrimento, e assim por diante. Os profetas ou avatares das grandes religiões são Budha, Moisés, Jesus Cristo, Muhammad (SAAS), os Rishis no Hinduísmo, e assim por diante. Tal mensagem salvacionista não existe na Maçonaria, nem profeta ou avatar, e este é o aspecto fundamental para entender porque a Maçonaria não é uma religião.

A motivação do maçom em fazer o bem e ajudar as pessoas em dificuldades está fundamentada exclusivamente em seu desejo de fazer o bem, desvinculado de qualquer benefício futuro dado por alguma divindade.

Isso resultou na tolerância da Maçonaria com todas as expressões religiosas, e em Lojas em que trabalham lado a lado Irmãos de diferentes religiões e denominações. Na Mesa do Livro de uma Loja maçônica figuram os livros sagrados de todas as religiões representadas na Loja, incluindo, por exemplo, a Bíblia Cristã, a Torá, o Alcorão, o Bhagavad Gita, etc. Assim, na Mesa do Livro está representada a Palavra de Lei, independente da crença individual deste ou daquele Irmão.

Esta tolerância religiosa é muito semelhante ao que acontece no Islam, onde a tolerância com “O Povo do Livro” (cristãos) é um dos mandamentos de Deus.

A liberdade religiosa é assegurada no Alcorão: “Se teu Senhor quisesse, teria feito dos humanos uma só nação; porém, jamais cessarão de divergir entre si” (Alcorão 11:118) e “Que não haja imposição na religião, porque já se destacou a verdade do erro. Quem renegar o sedutor e crer em Deus, ter-se-á apegado a um firme e inquebrantável sustentáculo, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo.” (Alcorão 2:256).

A ideia de uma fraternidade universal, fundamentada na ética da antiga Cavalaria, como é  caso da Maçonaria, não deveria ser estranha de nenhuma maneira ao muçulmano, cuja história vincula-se fortemente com a cultura árabe e a biografia do Profeta Muhammad (SAAS). Tradições de Cavalaria sempre estiveram presentes na cultura árabe e o próprio Profeta iniciou-se em uma Ordem de Cavalaria, com ideais elevados e com o objetivo de prover proteção aos peregrinos que afluiam à Kaaba, independente de qual nacionalidade fossem. Esta universalidade que é compartilhada pela Maçonaria e pelo Islam está explícita nas palavras do Sermão de Despedida do Profeta: “Um árabe não é superior a um não-árabe, nem um não-árabe tem qualquer superioridade sobre um árabe; o branco não tem superioridade sobre o negro, nem o negro é superior ao branco”.

Em sua juventude, o Profeta Muhammad (SAAS) foi testemunha da fundação pelos Quraishitas de uma Ordem de Cavalaria, destinada a promover a justiça e a proteger os fracos; o próprio Profeta foi iniciado nesta Ordem em ritual de iniciação feito na Kaaba, bebendo de um recepiente, água vertida sobre a Pedra Negra e recolhida no recepiente. O ritual consistiu em beber da água vertida e, com a mão direita erguida acima das cabeças, prestar juramento na Ordem de servir a humanidade, fosse em favor de um Quraishita ou de um estrangeiro. As motivações e o ritual de iniciação seriam facilmente reconhecidos por qualquer maçom. O Profeta, que prestou o juramento, mais tarde, após a revelação do Alcorão, afirmou: “Estive presente na casa de Abd Allah Ibn Judan quando fizemos o pacto de excelência; não trocaria minha participação em tal pacto por uma tropa de camelos vermelhos; e se hoje, no Islam, fosse chamado a participar dele, eu o faria com satisfação” (Ibn Ishaq, 86).

A vinculação que é feita entre a Maçonaria e os Templários é um outro fator a ser considerado aqui. Os temores dos muçulmanos com relação a isso são resultantes das famigeradas cruzadas em que muçulmanos e cristãos enfrentaram-se pelo domínio da Terra Santa. Devemos em primeiro lugar separar os Templários, monges guerreiros que formavam uma Ordem de Cavalaria para proteger os peregrinos cristãos, dos ignorantes, crueis e violentos cruzados que conquistaram Jerusalém e mataram indiscriminadamente, em sua conquista, árabes muçulmanos e cristãos, incluindo velhos, mulheres e crianças, entre outras atrocidades inomináveis.

Em verdade, a Maçonaria Moderna deriva diretamente dos pedreiros medievais que construíram os castelos e as catedrais medievais, sendo sua origem entre os Cavaleiros Templários pura lenda, alimentada pela Maçonaria Inglesa para obter boas relações com a Igreja – sem sucesso, é claro. Se muitos Cavaleiros Templários acabaram filiando-se à Maçonaria após a proibição da Ordem Templária pela Igreja e sua posterior perseguição, isso não justifica tese que sustente uma origem da Maçonaria na Ordem dos Cavaleiros Templários.

A Maçonaria encontra-se presente em todo mundo, incluindo países de maioria islâmica, como são os casos da Tunísia, Palestina, Líbano, Jordânia, Turquia e Marrocos. Mesmo a Arábia Saudita possuiu Lojas maçônicas até 1962, embora não existam mais nos dias de hoje. No Marrocos, em 23 de março de 1973, o Supremo Tribunal de Casablanca, após um longo processo judicial, deu o veredito de que a Maçonaria era compatível com o Islam. No Egito, a Maçonaria foi proscrita em 15 de julho de 1978 pelo entendimento de que ela era uma entidade sionista, argumento que não se sustenta a uma análise mais aprofundada e que confunde religião com política do Oriente Médio. Na Algéria, onde a Maçonaria floresceu no início do século 20, hoje encontra-se proibida. No Irã, após a Revolução Islâmica, os maçons foram perseguidos e mortos e a Maçonaria proibida.

Concluindo, acreditamos ter evidenciado elementos que nos levam a crer que não há incompatibilidade entre a Maçonaria e o Islam, sendo os elevados ideais éticos dos maçons compatíveis com a moral islâmica e com o que é recomendado pelo Alcorão. Na verdade, dificilmente encontraríamos na Europa uma Instituição mais compatível com o que é recomendado pelo Profeta que a Maçonaria Universal. Somente os radicais fundamentalistas e extremistas, cegos por suas ideias, poderiam rejeitar as ideias liberais da Maçonaria, mas estes, claramente, estão em desacordo, por ignorância e/ou desvio psicológico-comportamental, com a própria religião que juraram professar. A despeito destes extremistas, que cometem atos condenáveis, o Islam é uma religião pacífica e tolerante, completamente compatível com a ética maçônica e a tolerância que sempre caracterizou a nossa Ordem.

~ por Rosemaat Abiff em 22/05/2014.

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