Evocação Sexual

Tanith consagração 7

O Uso da Corrente Ofidiana nas Operações Goéticas

Uma Perspectiva Diacrônica

Fernando Liguori e Antônio Vicente

Que o Adepto seja armado com seu Crucifixo Mágico

e provido com sua Rosa Mística.

……..

O Crucifixo Mágico é o Bastão do Magista;

a Lança do Sacerdote; simbólica do Lingam.

Sua Rosa Mística é a Taça da Sacerdotisa, simbólica da Yoni.

Aleister Crowley, Liber XXXVI – A Safira Estrela

O presente texto é uma revisão do artigo publicado em 2005 na revista Sothis Vol. I, No. 6, com o título A Energia Sexual nos Ritos Goéticos. Essa revisão pretende alinhar o Arcano[1] com a Gnose Tifoniana. Um texto assim exige uma abordagem bem extensiva, mas o espaço não nos permite. Portanto trataremos resumidamente de temas importantes e específicos no universo da goécia. Mas antes de entrarmos no tema principal deste ensaio, que é a utilização da Corrente Ofidiana nas operações goéticas, faremos uma breve retrospectiva acerca da fórmula mágica utilizada na construção deste texto. Eu me refiro ao Arcano ou Segredo Supremo de uma organização espiritual conhecida como Ordem dos Templários Orientais, O.T.O.

A Ordem dos Templários Orientais

A O.T.O. é uma Ordem mágica e secreta que, desde o seus primórdios, manteve-se como zeladora de uma gnose sem precedentes na história do hermetismo moderno. Como um relicário sagrado, a Ordem guardou um segredo capaz de retificar o homem, libertando-o do cativeiro degenerado de seus instintos mais primitivos, ensinando-lhe o empunhar bem sucedido da baqueta mágica. Este mistério, acessível somente aos adeptos mais avançados da Ordem, popularmente ficou conhecido como magia sexual.

Em 1917, Theodor Reuss (1855-1923), um líder moderno da Ordem, publicou uma encíclica bombástica:

Que seja sabido que existe desconhecido ao grande público, uma Ordem muito antiga de sábios cujo objetivo é a melhoria e evolução espiritual da humanidade por meio da conquista do erro, auxiliando homens e mulheres em seus esforços para reconhecer a verdade. Esta Ordem já existia nos tempos mais remotos e há muito tem manifestado a sua atividade em segredo e abertamente no mundo com nomes diferentes e de várias formas: ela causou revoluções sociais e políticas e provou ser a rocha da salvação em tempos de perigo e infortúnio. A Ordem sempre empunhou a bandeira da liberdade contra a tirania em qualquer forma que esta aparecesse, seja clerical, despotismo político, social ou opressão de qualquer tipo.

A esta «ordem secreta» toda pessoa sábia e espiritualmente iluminada pertence por direito de sua natureza: pois todas, mesmo não sendo pessoalmente conhecidas, são um na sua finalidade e objetivo e todas elas trabalham sob a orientação de uma luz da verdade. Nesta Sociedade Sagrada ninguém pode ser admitido por outro, a menos que tenha o poder de entrar por si mesmo em virtude de sua própria iluminação interior e nem pode alguém depois de ter entrado uma vez ser expulso, a menos que expulse a si mesmo, tornando-se infiel aos seus princípios, esquecendo novamente as verdades que aprendeu por experiência própria.

Tudo isso é sabido pela pessoa iluminada.

Mas é conhecido apenas por poucos que existe também uma organização externa, visível aos homens e mulheres que, tendo encontrado o caminho para o real autoconhecimento e viajado por areias escaldantes, estão dispostos a dar aos outros desejosos de entrar nesse caminho o benefício de sua experiência, atuando como guias espirituais para aqueles que estão dispostos a serem guiados.

Enquanto inúmeras sociedades, associações, ordens, grupos etc. foram fundadas nos últimos trinta anos em todas as partes do mundo civilizado, todos seguindo alguma linha de estudo oculto, ainda há apenas uma antiga organização de místicos verdadeiros que mostram ao buscador a Estrada Real para descoberta dos Mistérios Perdidos da Antiguidade e o desvelamento da Única Verdade Hermética.

Essa organização é conhecida no presente como:

Antiga Ordem dos Templários Orientais

Ordo Templi Orientis

Senão: Fraternidade Hermética da Luz

É uma Escola Moderna da Magia. E como as antigas escolas de magia, ela deriva seu conhecimento do Oriente. Este conhecimento nunca foi revelado ao profano, pois deu imenso poder para o bem ou o mal aos seus possuidores. Foi gravado em símbolos, parábolas e alegorias, exigindo uma chave para a sua interpretação.

Os símbolos e glifos da Maçonaria foram originalmente derivados desse mistério mais antigo.

Esses símbolos da antiga Maçonaria, dos Rosacruzes, a arte sacra dos antigos Chemi (egípcios), a corrente dourada de Homero etc. são diferentes aspectos de Aquele Grande Mistério. Todos eles requerem uma chave para revelar seu real significado subjacente. Existe, no entanto, apenas uma Chave Correta e ela deve ser utilizada da maneira correta.

Essa chave pode ser colocada ao alcance de todos aqueles que estão preparados desinteressadamente para estudar e trabalhar por sua posse, se candidatando como membros da Ordem dos Templários Orientais «O.T.O.».

A O.T.O. «Ordo Templi Orientis» é um corpo de iniciados em cujas mãos está concentrado o segredo do conhecimento de todas as Ordens Orientais e de todos os graus maçônicos existentes. Seus chefes são iniciados no mais alto posto e reconhecidos como tal por todos capazes de tal reconhecimento em todos os países do mundo. A Ordem é internacional e tem conexões existentes em todos os países civilizados do mundo.

Esse manifesto, nascido no âmago de uma comunidade vegetariana isolada na Suíça, fez fervilhar o caldeirão imaginário da mente de muitos buscadores em um tempo em que a Europa estava cansada e dividida, antes pela Revolução Russa e logo em seguida pela Primeira Grande Guerra. Não era para menos. Reuss alegava participar e liderar uma comunidade de adeptos possuidores de um segredo inigualável, que deixava para trás anos de conhecimentos esotéricos há muito obsoletos. Ele inaugurava uma nova era de revolução hermetista, pois estava disposto a colocar a prova o Arcano que compunha o cerne de todas as escolas e tradições: o sábio uso da Corrente Ofidiana.[2]

Os mistérios mais antigos eram de uma natureza física e não metafísica. Havia uma versão esotérica e exotérica deles. Todavia, a metafísica era a versão exotérica e nãovice-versa. Isso é provado no décimo sétimo capitulo de O Livro dos Mortos, um dos mais antigos livros conhecidos pelo homem. Aqui, lado a lado com o texto original, aparece um comentário do sacerdote iniciado, explicando a prática de acordo com o método da Gnose ou Tradição Mágica. A sabedoria secreta, oral ou oculta incorporada no comentário refere-se às origens físicas dos conceitos abstratos que aparecem no texto; as questões espirituais são explicadas em termos de fenômenos físicos, mais precisamente fisiológicos. Estas explicações eram geralmente reservadas aos adeptos iniciados e a razão para sua ocultação era devida a natureza física da Gnose, a qual se tornou, na verdade, a sabedoria proibida de eras posteriores. Os antigos podem não terem estado familiarizados com a psicologia, a sexologia e a endocrinologia como conhecidas hoje, mas eles muito certamente estavam familiarizados com o uso oculto daCorrente Ofidiana, cujo manuseio impróprio leva ao desastre.[3]

Com o passar das eras a humanidade perdeu essa «visão», passando a olhar para fora e se esquecendo do universo interior. O exotérico tornou-se esotérico e o Arcano Oculto perdeu-se nas noites do tempo. Nesse período, as religiões e cultos de massa começaram a nascer e a visão psico-fisiológica dos processos espirituais se condensou nas mãos de poucos adeptos.

Em tempos modernos, um iniciado de calibre, o Dr. Carl Kellner (1850-1905), alquimista e yogī,[4] o primeiro líder moderno da Ordem dos Templários Orientais,[5] preservou no Ocidente o Arcano que aprendeu diretamente dos lábios de adeptos orientais. Sua missão era constituir uma assembleia de iniciados qualificados a experimentar, compreender e transmitir o Secretum Secretorum que habilmente havia aprendido em suas incursões.[6]

Nas reuniões secretas do Círculo Secreto, como apresentado por Reuss na primeira edição de seu Oriflamme de 1904, Kellner instruía os membros no trabalho com oscakras e a Serpente de Fogo «kuṇḍalinī», preparando a estrutura energética dos adeptos para o controle e manipulação da Corrente Ofidiana. Ele desenvolveu um método próprio de iniciação baseado na evolução dos cakras, o que permitia os iniciados experimentarem níveis distintos de consciência e a percepção de uma realidade muito além daquela que olhos normais poderiam perceber. Por algum tempo Kellner conseguiu agrupar pessoas hábeis e preparadas para o trabalho mágico. Infelizmente, com a sua morte, o Círculo Secreto foi perdendo sua estrutura. Os dois líderes que o sucederam, Theodor Reuss e Aleister Crowley (1875-1947) já na Ordo Templi Orientis, contribuíram para disseminar um conhecimento incompleto do processo que primeiro se iniciou com Kellner, não por ineficiência ou inaptidão, mas por falta das verdadeiras chaves para interpretação do Arcano Secreto. Kellner deixou uma grande lacuna, tamanha sua proficiência. Ele era um adepto notável. Reuss não possuía a mesma capacidade.

Sob sua liderança, o Círculo Secreto se ampliou, tornando-se a Ordo Templi Orientis. Todavia, sua única contribuição foi, quem sabe, à manutenção e a zeladoria do Arcano. Ele não mediu esforços para continuar o trabalho de Kellner, mas infelizmente não possuía o mesmo alcance ou calibre de seu antecessor. Por volta de 1912, Reuss conheceu aquele que seria então o terceiro líder moderno da O.T.O., Aleister Crowley. Alegando que Crowley havia revelado o segredo da Ordem no capítulo trinta e seis de seu O Livro das Mentiras, Reuss o elevou ao Grau IXº e em seguida, na Alemanha, o nomeou Rex Summus Sanctissimus Xº, Grande Mestre Nacional para Irlanda, Iona e toda Bretanha. Em 1925 Crowley assumiria, definitivamente, a liderança da Ordem, após a morte de Reuss em 1923.

Baseando-se na sua experiência com o Arcano e nos seu próprio modelo de iniciação, Crowley redefiniu as bases dos mistérios transmitidos pela O.T.O. Entretanto, assim como Reuss antes dele, Crowley não tinha em mãos as mesmas chaves recebidas por Kellner diretamente de adeptos orientais. Isso, de certa forma, deu nascimento a inúmeros equívocos futuros que continuam a se perpetuar até os dias de hoje em alguns ramos da Ordem. Embora Crowley conhecesse de certa forma o mecanismo do Arcano Secreto da O.T.O., ele desconhecia completamente o trabalho da sacerdotisa, o que o levou a inverter e às vezes perverter a verdadeira gnose do Arcano. Como não fazia distinção sexual entre homens e mulheres, Crowley criou fórmulas mágicas que distorciam o Arcano, dando nascimento a um sistema de feitiçaria sexual de envergadura duvidosa.

Mas um de seus maiores discípulos, Kenneth Grant (1923-2011), que também assumiu a liderança da seção inglesa da Ordem, restaurou os ensinamentos originais trazidos por Kellner, reestabelecendo a O.T.O. como um relicário transmissor de uma poderosa gnose. Grant restaurou a O.T.O. como a Ordem Tântrica Ocidental reformulando todo o sistema de magia sexual do Soberano Santuário da Gnose. A este trabalho nós damos continuidade na Ordo Tifoniana Occulta.

Crowley certa vez escreveu: «Minhas observações sobre o Universo convencem-me que existem Seres de inteligência e poder de uma qualidade muito superior do que qualquer coisa que nós possamos conceber como humano; eles não são necessariamente baseados nas estruturas nervosas e cerebrais que nós conhecemos; a única chance para a humanidade avançar como um todo é fazer com que individualmente cada humano entre em contato com estes Seres». Muito tempo antes dele, Henrique Cornélio Agrippa (1486-1535) escreveu: «Por meio de consagrações theúrgicas, a alma de um homem pode ser preparada para receber espíritos e anjos».[7]

Kenneth Grant levou muito a sério essa conclusão de Crowley. Seu trabalho possibilitou novos mecanismos de contato com entidades praeter-humanas dos mais variados tipos, das mais variadas épocas, dos mais variados rincões e dimensões do universo. Por meio da tecnologia espiritual do Tantra, Grant demonstrou que este «acesso» ou «contato» com tais entidades só se efetiva através da elevação da Serpente de Fogo em doses diárias, quanto ocorre à expansão da mente e a liberação da energia. A mente torna-se consciente dos seus estrados subconscientes mais profundos. Na Tradição Oculta esse processo é denominado Contra a Luz.[8]

O Arcano ou o Segredo do IXº O.T.O.

A magia sexual se baseia na premissa de que nenhuma causa pode ser impedida de seu efeito. Qualquer descarga de energia, de qualquer natureza, tem um efeito em todos os planos. E se por algum motivo os resultados em um plano são impedidos, eles se manifestam em outro. A descarga de energia nunca é perdida e ela forma uma imagem astral da ideia dominante na mente no clímax da cópula. A expansão da consciência produzida por um orgasmo magicamente controlado projeta no astral a imagem produzida pela mente. Por esta razão, o Arcano sempre foi mantido longe da mente profana. Na mente ordinária, essa ideia é geralmente uma imagem luxuriosa. Isso cria uma tendência, um hábito «saṃskāra» que se fixa na mente. Consequentemente isso se torna cada vez mais difícil de controlar. Os membros da O.T.O. são treinados em erradicar essa tendência negativa antes de serem admitidos ao Soberano Santuário da Ordem, pois somente um adepto pode manipular com impunidade a corrente sexual e administrar com sabedoria as volições da Serpente de Fogo. Se o buscador despreparado se aventura nesse terreno perigoso, sua prole mágica será, sem sombra de dúvida, uma horda de obsessores dos mais variados tipos. O abuso e a execução deliberada do Arcano engendra entidades qliphóticas, fantasmas compostos de matéria tênue que dominam a estrutura psíquica e se alimentam de fluídos nervosos.

O adepto treinado evoca imagens específicas que se tornam instantaneamente vivas. Elas são conexões dinâmicas com os centros mais sutis e profundos da consciência e atuam como catalisadores para a finalidade da operação mágica. O objetivo da magia sexual é, portanto, encarnar essas imagens através do uso correto da energia. Para isso, é necessário formular a vontade com cuidado e estrita economia de meios. Não deve haver nada na mente no momento do orgasmo exceto a imagem da «criança» que se pretende trazer ao nascimento. Mas mesmo o alto iniciado tem de se resguardar de possíveis obsessões trazidas dos recessos mais profundos do subconsciente. Para isso ele invoca guardiões mágicos e instaura guardianias em todas as direções do espaço.

Na linguagem do Culto Theriônico, nós podemos dizer que «Magia é a Ciência e a Arte de causar Mudança em conformidade com a Vontade». Isso requer uma fusão total da mente e o corpo. A mente é a fonte da imagem e é a função do corpo reproduzir essa imagem em seu próprio plano. Em outras palavras, a Vontade deve ser incorporada e ser transformada em carne. Magia é o meio técnico para se encarnar a Criança-Vontade «thelema». O homem é a mente; a mulher é o corpo. Sua polarização no congresso sexual gera um êxtase criativo que serve como uma matriz da qual a Criança emerge. A união apaixonada dos opostos é a fórmula do Aeon de Horus, o Aeon da Criança «Coroada e Conquistadora», porque encarna a Palavra de seu genitor; neste sentido é Ra-Hoor-Khuit – o universo recreado de acordo com a Vontade; o resultado da Magia. O Homem é a Palavra; a Mulher é o Ato; a Criança é a Palavra feita carne pelo Ato. Esta é a magia do IXº O.T.O. Somente quando a mente e o corpo se encontram em concordância, i.e. quando a mente concentra a imagem ou «criança» que o corpo está para parir, é que o ato de criação mágica é possível. Essa criança é raramente uma criança humana, mas é física no sentido que influencia o plano material.

A mente é o undécimo sentido ou princípio sutil e reside no ājñā-cakra. O corpo é a soma total dos cinco órgãos dos sentidos e seus correspondentes objetos; ele está concentrado no mulādhārā-cakra, o cakra fundamental. A mente é a máquina mágica que cria a imagem; o corpo é necessário para dar-lhe expressão e para projetar-lhe na esfera material.

O Aeon da Criança Coroada e Conquistadora é uma maneira simbólica de dizer que na presente era o homem aprenderá como materializar o pensamento e torná-lo verdadeiramente criativo. Por meio desta magia sexual de Thelema será possível produzir uma raça de seres que serão de todas as maneiras superiores àquela gerada pela utilização casual – mais corretamente, abuso – das energias sexuais.

Em termos mágicos, a criança é a prole da Vontade «phallus» e da Imaginação ou a faculdade de criar imagens «kteis». Em outras palavras a criança é o Logos de Thelemae Ágape. «Coroada e Conquistadora» descreve a criança-amor como sujeito da Vontade; daí «amor sob vontade» ser a fórmula da magia; é também a fórmula do IXº O.T.O. O Bebê no Ovo mencionado n’O Livro da Lei é a mágica criança-pensamento em sua cápsula áurica ou ākāśica, pronta para ser lançada para dentro do espaço «i.e. o ventre de Nuit».

A abordagem tradicional das Escolas de Mistérios

Ao analisarmos a evolução e o desenvolvimento da magia sexual nas Ordens e Escolas tradicionais no Ocidente notamos uma completa falta de conhecimento acerca do trabalho da sacerdotisa ou como gostamos de colocar, o Ofício de Babalon. Comumente a mulher é tida como um «receptáculo», participando das operações mágicas como mera coadjuvante. Isso ocorre por vários fatores. A mente ocidental é machista. A maior parte das instruções sobre o tema, secretas ou públicas, estão em uma linguagem destinada aos homens, dando pouca ou nenhuma atenção as necessidades femininas. Essa abordagem machista e patriarcal corrompe o Arcano. A magia sexual é uma ciência derivada dos tantras.[9] O Tantra é uma cultura de adoração a Mãe Divina, a Śakti Universal. Nessa cultura a mulher é o cerne da tradição, provedora de conhecimento, iniciação e poder mágico. Para os tāntrikās, todas as mulheres são a encarnação e expressão da Deusa e devem ser reverenciadas por seu poder e mistério. Kenneth Grant se referiu a tradição tântrica como a mais fiel repositária da Gnose Tifoniana nos dias de hoje.[10] A doutrina Estelar da Mãe e seu Filho, Seth, está preservada no âmago do Tantra e os verdadeiros devotos da Deusa serão inundados com seus kālas a partir de sua conexão com a tradição e a correta execução de seus ritos.

O Tifoniano é um devoto da Śakti, portanto, um tāntrikā. Silenciosamente em seus ritos ele invoca as sutis emanações da Deusa Negra dançando ao som das Esferas Estelares na medida em que realiza a Missa. Na escuridão do corpo da Grande Mãe ele chama o terrível dragão das profundezas no despertar do Aeon sem Palavra que reluz como um relâmpago que ilumina a consciência.

O Viṣvakośa-tantra diz: «Nenhuma iniciação é válida sem mulheres, carne e peixe». Similarmente, um texto Sahajiyā declara: «Se você não se submeter a uma manjari«mulher» e contar somente com o conhecimento teórico, nunca poderá compreender Kālī pela cultura espiritual». Os Sahajiyās não utilizam peixe ou carne, mas no que concerne a parceira para o abraço místico, possuem a mesma ideia acerca da companhia feminina conforme ensinado nos tantras.

A Tradição Tifoniana opera a Corrente Ofidiana em sua fórmula primordial, resgatando a Mulher Escarlate no Ofício de Babalon como o pilar central das operações mágicas.

A Mulher Escarlate

A Mulher Escarlate pode ser compreendida por sua mitologia. O adjetivo escarlate tem referência na Corrente Tifoniana sobre a qual o Novo Aeon é baseado, pois é a cor de Ares, Orus ou Hórus. Áries no zodíaco representa o Homem Verde, o Poder Vernal do Sol. Escarlate é a cor da flama que inicia a corrente vernal anual que se «vinga» da seca escuridão dos meses de inverno. Noutro sentido, escarlate é a substância vermelha da fonte feminina universal, um mênstruo de energia mágica. É o aspecto negativo e destrutivo da magia negra[11] ou bruxaria lunar. Neste sentido a Mulher Escarlate é a expressão de Kālī, que é primordialmente a deusa dos períodos estelares e lunares, portanto, Tempo «kāla».

Um dos primeiros métodos de se calcular o tempo foi através das emanações periódicas da cinocéfala, utilizada pelos sacerdotes do antigo Egito para este propósito. O Tempo é o mênstruo no qual todas as formas materiais surgem, se transformam e finalmente se dissolvem. «O melhor sangue é da lua, mensalmente», diz O Livro da Lei. Isso se refere particularmente ao aspecto Kālī da fórmula. «Melhor» são os trabalhos de transmutação e dissolução, em outras palavras, para magia, a energia tendendo a mudança.

O nome Babalon é utilizado para designar o ofício da Mulher Escarlate. Ele difere-se da versão apocalíptica não somente em sua ortografia, mas também porque o conceito bíblico da Mulher Escarlate é uma corrupção da antiga tradição mágica da qual – fora dos Santuários de Iniciação – a prostituição do Templo é a única forma lembrada. A tradição tem sido preservada no Tantra hindu e tibetano que descrevem cerimônias que envolvem a utilização dos kālas «elixires-medicinais» que empregam a exsudação de sacerdotisas especialmente treinadas. As mulheres de «perfume de doce-cheiro» ou suvasinīs têm mais do que uma correlação literária com o «perfume de doce-cheiro de suor» mencionado n’O Livro da Lei (I:27). A fórmula da Mulher Escarlate é a fórmula dasuvasinī.

Frater Ani Abthilal (David Curwen), eminente membro do Soberano Santuário da GnoseO.T.O. e adepto vāmācāra, escreveu sobre as suvasinīs em seu famoso Comentário Tântrico: «Elas são senhoras de perfume-adocicado […] selecionadas para desempenhar o papel da Mãe. Elas devem ser buscadas como o único refúgio, […] embora sejam escolhidas em uma das formas mais raras de magia que pertencem a esta escola de adoração, o ponto focal principal é a mulher, a única suvasinī

Nos śāstras «escrituras» do tantrismo, a suvasinī é uma «sacerdotisa» no sentido em que ela é o veículo escolhido da Deusa Suprema ou Poder Mágico «mahā-śakti». Seu corpo contém zonas de energia oculta intimamente relacionada à rede de nervos e plexos associados com as glândulas endócrinas, os cakras. Como a Deusa Suprema, ela é representada yantricamente[12] pelo Śrī Cakra e mantricamente pelas vibrações secretas que invocam a Energia Criativa primordial em sua forma lunar ou feminina, i.e. em uma forma especialmente adequada para manifestação. Seu mantra nunca foi anotado ou escrito porque ele somente pode ser transmitido oralmente. O Śrī Cakra é, portanto a assinatura da Mulher Escarlate, já que ele delineia a fórmula da Deusa, seja de Nuit, Ísis, Kālī etc., não faz diferença.

Quando a Serpente de Fogo «kuṇḍalinī» é elevada e colocada em atividade, ela energiza os cakras da Mulher Escarlate gerando vibrações que influenciam a composição química de suas secreções glandulares. Depois de se apropriar do amṛta precipitado em qualquer um dos cakras, essas vibrações transformam-se em fluídos que fluem através da saída genital da sacerdotisa. As «fragrâncias» ou «essências» emanadas de cada cakra são assim disponibilizadas para inúmeros objetivos e quando consumidas como sacramento, transformam-se em ojas, pura energia mágica.

No Soberano Santuário da Gnose O.T.O., existem vários métodos para se obter os kālasda Deusa. O método aqui discutido é o do IXº O.T.O. e é equivalente à antiga fórmula Egípcia de Nuit, a Deusa do céu noturno, representada antropomorficamente por uma mulher nua arqueada sobre a terra.[13] A imagem anterior desta fórmula conforme demonstrada na Estela de Ankh-af-na-Khonsu[14] sugere o viparita-maithunā, o modo de congresso sexual da Deusa, no qual a sacerdotisa se coloca sobre o sacerdote. A fórmula viparita-maithunā é o símbolo da total reversão dos sentidos necessária para o completo despertar da Serpente de Fogo.

Os escritos dos siddhas de Tâmil contêm vários avisos em relação aos perigos de se evocar estes kālas em um cakra que ainda não foi propriamente preparado para recebê-lo. N’O Livro da Lei (II:26-27) Hadit exclama: «Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para saltar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se Eu inclino para baixo minha cabeça, e verto veneno, em seguida é arrebatado da terra, e Eu e a terra somos um. Existe grande perigo em mim […].»

As forças dirigidas para baixo são carregadas com vibrações venenosas. Elas podem ser utilizadas para trabalhos de materialização e dissolução e – com efeito mortal – em trabalhos de magia negra. A absorção dos kālas carregados com a corrente dirigida para cima transforma a consciência humana e torna possível o contato e comunicação com entidades transcendentais. Inversamente, a absorção do veneno coloca o homem em contato com os mundos demoníacos e com os elementais mais inferiores. [15]

O Ofício da Mulher Escarlate

Como mencionado, a maioria das Escolas de Mistérios da Tradição Ocidental que operam com magia sexual não compreendem o «papel» ou o «ofício» da Mulher Escarlate. Nas instruções disseminadas sobre o tema, a mulher tem «servido» de «receptáculo» para obra do sacerdote. Esse é uma das principais causas de falhas nas operações mágicas: a inaptidão em compreender a importância da sacerdotisa, aliado ao despreparo e a falta de unidirecionamento da mente dos participantes envolvidos. Para que a prática da magia sexual esteja alinhada ao Tantra, a Mulher Escarlate tem de ser restaurada em sua posição como o pilar central da operação mágica. As sacerdotisas que operam no Soberano Santuário da Gnose O.T.O. são yoginīs do Círculo Kaula.

Para que uma operação de alto nível possa ser executada, a sacerdotisa oficiante precisa ter proficiência em técnicas tântricas específicas como a sahajolī-mudrā, mūlā-bandha eśāmbhavī-mudrā. Precisa manipular os vāyus internos, fazendo com que o prāṇa se encontre com samāna na região do agni-maṇḍala afim de causar a explosão da matéria liberando a energia «kuṇḍalinī». É necessário conhecer, despertar e manipular os cakrase as nāḍīs. Sem esse preparo preliminar, muito provavelmente a resultado nunca será o esperado. Crowley tratou dos resultados distintos em De Art Magica.

Apresentando a Tradição da Goécia

Quando utilizamos o termo «goécia», não nos referimos apenas ao sistema de magia conectado ao Legemeton. Goécia é um termo que abrange todo sistema de conjuração demoníaca, incluindo a magia qliphótica. É a arte negra ou doutrina das sombras, uma tradição genuína do caminho da mão esquerda e sua doutrina é considerada avançada e perigosa, embora as pessoas não costumem dar a ela o mérito que lhe cabe. A goécia é uma magia ctoniana e telúrica. Ela convoca as forças do submundo e do abismo. Portanto, sua prática é sombria, conectada as experiências do lado noturno. Mais especificamente, a goécia é um sistema de magia que envolve a penetração nos estratos mais profundos do subconsciente, a morada dos «espíritos» e «demônios» que representam energias biológicas primordiais desassociadas da onda de vida humana ou legião dos vivos. Goécia significa «urro», «uivo», «bramido» ou «vociferante», o que descreve a maneira de como se evocar as bestas das profundezas através do processo denominado Contra a Luz.

A goécia ocupa um lugar de proeminência entre os ocultistas ritualisticamente inclinados e é conhecida genericamente como a arte negra. Suas convocações demoníacas acompanhadas de sigilos sugestivos e poderosos relatos de resultados devastadores têm seduzido magistas ao longo dos tempos. Allan Bennett (1872-1923), um dos primeiros professores de Crowley na Arte Régia disse-lhe certa vez: «irmãozinho, você tem se metido com a goécia». Negando a afirmação de seu professor, Crowley respondeu que não era digno de pronunciar os terríveis nomes bárbaros de evocação. Bennett retrucou: «nesse caso, a goécia tem se metido com você».

Tradicionalmente, a goécia é a primeira – e mais notória – parte de um grimório mágico conhecido como Lemegeton ou As Chaves Menores de Salomão. Contém uma descrição completa dos 72 agentes malignos ou demônios, com a descrição detalhada de cada um no momento de sua conjuração quando evocados, apresentando seu título, hierarquia e a legião de espíritos que eles controlam. O texto contém os sinistros e atraentes sigilos dos demônios, utilizados em operações mágicas para os mais diversos objetivos como: aquisição de conhecimento filosófico, percepção do futuro, atração de bens e riquezas, manipulação astral etc. Existem inúmeros manuscritos do Lemegeton com informações distintas acerca dos demônios e seus nomes. Alguns manuscritos apresentam o grimórioem cinco partes, outros em quatro. Outros destacam, antes das chaves menores, oTheurgia-Goécia, que descreve 31 espíritos correspondentes às direções do espaço. Os espíritos são acompanhados por seus sigilos e são apresentados como malignos e benignos. A terceira parte do Lemegeton é conhecida como Ars Paulina, que descreve os anjos correspondentes às horas do dia e aos signos zodiacais. A quarta parte, bem pequena, é conhecida como Ars Almadel e a quinta parte, considerada a mais antiga, é conhecida como Ars Notoria. Infelizmente, a quinta parte é omitida na maioria das versões.

Existe uma passagem curiosa na vida de Crowley, Bennett e Cecil Jones (1870-1953) envolvendo a goécia. Bennett encontrava-se deveras enfermo por conta de sua asma. Para curá-lo, Crowley e Cecil Jones uniram seus esforços evocando o demônio Buer, cuja atribuição é a cura de doenças. Bennett precisava sair rápida mente da Inglaterra, por conta do clima frio e úmido que faziam a doença se agravar. Crowley e Cecil Jones evocaram Buer até que sua forma fosse visível. Entretanto, a imagem do demônio não condizia com a sua descrição clássica nas Chaves Menores. Por conta disso, eles pensaram ter falhado na operação mágica. Contudo, miraculosamente as coisas começaram a acontecer. Bennett em pouco tempo retomou a saúde, o que lhe proporcionou forças para mudar-se para o Sri Lanka. No fim Crowley concluiu que a operação foi um sucesso.

A Magia Salomônica

No campo do hermetismo prático existe um gênero literário conhecido como magia salomônica. Trata-se de um número de grimórios que proclamam representar a magia ensinada pelo sábio rei Salomão. Os dois mais famosos são atribuídos ao próprio Salomão, sendo eles As Chaves Maiores de Salomão e o LemegetonAs Chaves Menores de Salomão. O rei Salomão é bem conhecido por sua eloquente sabedoria e as lendas sobre ele dizem que sob o seu comando havia uma vasta horda de espíritos e gênios «djinns». Nos termos gerais, a magia salomônica trata da conjuração de espíritos através de yantras mágicos conhecidos como sigilos. Embora os primeiros manuscritos dessas duas obras começassem a aparecer a partir do Séc. XVI, a magia salomônica retrocede muito no tempo, possuindo profunda conexão com a magia babilônica e influenciando profundamente a tradição judaica durante o cerco babilônico. Muitos dos demônios da goécia são deuses e espíritos da tradição babilônica e outras. As correspondências entre a magia salomônica e babilônica vão desde o sistema numérico a influência astrológica.

Embora a magia salomônica seja rica em invocações angélicas, preces e honrarias a Jeová, ainda é largamente demonológica, portanto, tida como goética. Nós encontramos nessa literatura mágica um constante encontro entre demônios e gênios. Ela revela que em suas querelas demoníacas, Salomão permitia que os gênios demonstrassem seu poder e magia diante dele e da Rainha de Sabá. Existe outro manuscrito salomônico do primeiro século de nossa era conhecido como O Testamento de Salomão. Trata-se de uma larga lista de demônios e os famosos trinta e seis Príncipes das Trevas. Uma possível comprovação de sua tradição arcaica encontra-se em um antigo texto gnóstico de Nag Hammadi que descreve a criação de quarenta e nove demônios andrógenos cujo «nome e função podem ser encontrados no livro de Salomão». Podemos inferior a partir deste manuscrito gnóstico que essa é uma referência muito antiga sobre a demonologia salomônica. Alguns autores alegam que a magia salomônica esteve secretamente presente e foi amplamente praticada em muitos círculos gnósticos. Kiesewetter, um acadêmico alemão, defende a teoria de que o nome «lemegeton», que até o presente ainda é desconhecido – embora disputado – muito provavelmente possa ser o nome de um magista gnóstico.

Entre muitos hermetistas, a goécia é identificada como um tipo inferior de magia enquanto que a theurgia é considerada magia de um tipo superior. Também se acredita que a goécia seja uma prática destinada a objetivos mesquinhos.[16] No entanto, qualquer magista bem treinado tem a plena consciência de que ambas as práticas, theurgia e goécia, satisfazem qualquer desejo humano, seja lá qual for sua natureza. Portanto, o conceito de magia inferior não deve ser confundido com qualidade. Os demônios da goécia não apenas satisfazem desejos frívolos, mas são capazes de dotar qualquer magista de sabedoria e conhecimento elevados.

A palavra goécia é de origem grega e denota feitiçaria ou bruxaria. Um goético, do gregogoetes, era um feiticeiro, um magista negro, diferente do mago, o magus grego que ocupava o ofício de sacerdote. Atualmente, um magus muitas vezes é visto como um magista negro ou alquimista. Mas a antiga designação para um conjurador de demônios ou magista negro era goético.

A tradição da goécia quase sempre é atribuída ao Lemegeton, como se ele fosse à fonte mais fidedigna de onde podemos aprender a arte da conjuração demoníaca. Contudo, a goécia não se limita ao Lemegeton. Outros grimórios demonológicos e salomônicos como o Le Dragon Rouge e o Grimorium Verum, os ensinamentos de Fausto em seu MagiaNaturalis, a demonologia qabalística transmitida pelo A Magia Sagrada de Abramelin, o Mago e o famigerado Liber CCXXXI de Aleister Crowley são textos que transmitem a tradição goética.

A Evocação Sexual

O emprego das energias sexuais, atrelado às práticas herméticas, data do mais remoto passado da humanidade. Diacronicamente, isto é, ao longo das eras, observa-se que, deste os primeiros cultos à fertilidade até os dias atuais, tal associação jamais demonstrou o menor sinal de declínio. Conforme nos relata Runyon em O Livro da Magia de Salomão, o berço de um grande número de religiões se encontra na antiga Canaã. As religiões baseadas nos cultos a Bael e a Astarte floresciam ao lado dos recém chegados israelistas. Sabe-se que a dança hora, comum nos casamentos judeus, era chamada decírculo de danças das prostitutas sagradas. Os templos dedicados a Afrodite em Érix, Corinto e Chipre funcionavam com o auxílio de inúmeras sacerdotisas dedicadas ao ato sagrado. Tanto em Roma quanto na Grécia antigas, existiam as virgens vestais dos templos que se dedicavam a conjugar o ofício religioso com práticas sexuais – elas tinham que manter a chama sagrada do santuário sempre acessa.

É com o surgimento do cristianismo que se vai verificar um enfraquecimento das práticas sexuais no interior dos templos. Aliás, não só a magia sexual, mas a magia em geral, neste momento particular da história, foi intensamente rejeitada e desprezada. É devido a este momento de perseguição que vamos compreender o porquê da exigência do segredo, da linguagem cifrada e obscura dos mistérios e da criação de uma aura mística em torno de tudo aquilo que era considerado esotérico. Na verdade, tudo isso foi um mecanismo de auto-defesa e proteção contra perseguições. Ainda hoje, rastros destes procedimentos podem ser verificados em alguns círculos hermetistas; mas notamos que a Era de Aquário já está modificando, significativamente, tal postura.

A despeito das perseguições perpetradas contra o hermetismo em geral e a magia sexual em particular, esta continuou a existir sempre maquiada por metáforas. Exemplos são encontrados na Idade Média européia. Naqueles tempos, temos os sabbaths negros das bruxas montadas em suas «vassouras» e a Magia Enochiana na qual seus «fundadores» – Dee e Kelly – realizaram atos sexuais com suas parceiras durante as operações angélicas. Entre os séculos XVI e XIX, a Igreja Católica ordenou um número muito maior de padres do que o necessário. Uma boa parte destes ampliavam suas rendas através da realização de Missas Negras que, não raro, empregava a Corrente Ofidiana. Nesta mesma época, a goécia já estava praticamente delineada, tal qual a conhecemos hoje. Assim como muita coisa da tradição mágica está alegorizada, o mesmo é válido para a magia sexual. Certamente, bastões e varas, caldeirões e taças são mais que instrumentos: representam os elementos masculinos e femininos empregados em um ritual.

No século XIX, a Ordem do Templo do Oriente, a Ordem Hermética do Áureo Alvorecer, a Irmandade Hermética de Lúxor, dentre outras organizações, deram continuidade ao uso secular da magia sexual. Sabemos que, apesar do esforço destas organizações, o contexto histórico (como, por exemplo, a Era Vitoriana) não permitiu que elas explicitassem os Mistérios em sua completude, levando-as a optar pelo obscurantismo linguístico.

Na aurora do século XXI, notamos que o preconceito quanto ao uso da energia sexual ou ofidiana, nos ritos espirituais, tem se afrouxado, ainda que de maneira tímida e parcial. Se dizemos que é de forma tímida e parcial é porque, por experiência própria, sabemos que ainda há muita incompreensão neste particular. Não faz muito tempo Ordo Tifoniana Occulta foi deveras criticada devido à exposição de algumas fotos com ritos de natureza sexual.

A seguir, falaremos um pouco da goécia combinada com o uso da energia sexual ouCorrente Ofidiana. É muito comum encontrarmos publicações com frases como estas: «a chave dos mistérios manteve-se velada e secreta para que os não-iniciados pudessem fazer mau uso do conhecimento» etc. Bem, por mais abertamente que possamos falar ou revelar o segredo, enquanto o adepto não despertar sua paranormalidade ou como chamamos na Tradição Oculta, ir Contra a Luz, jamais terá acesso real ao mistério por trás do segredo. Isso ocorre assim porque o que nós revelamos são modelos de pensamento, não a gnose. Portanto, aquela acusação de que nós levantamos o Véu de Ísis a uma altura indecorosa é pífia, rasa e sem sentido. A partir daqui não usaremos termos poéticos e floridos para tratar do assunto e sim uma linguagem direta, sem rodeios. Pedimos desculpas aos amantes do obscurantismo, das cifras e dos códigos. Também é importante frisar que esta pratica é dedica a magistas experientes, que já tenham suficiente conhecimento teórico-prático do tema. O que apresentamos é uma forma de potencialização da prática goética, através da energia sexual inteligente e habilmente direcionada.

Evocação Goética: Elementos Essenciais

Há diversas abordagens acerca das evocações goéticas. Acreditamos que todas são válidas. Cada magista é livre para optar por aquela que melhor se alinhe com seu próprio gosto ou mesmo, com a devida experiência, desenvolver sua própria abordagem do assunto.

Para uma evocação goética são requeridos um Círculo cerimonialmente traçado (às vezes, chamado de Círculo de Salomão) e de um Triângulo (o famoso Triângulo da Arte). Obviamente, todos os participantes devem estar dentro do Círculo. Embora não haja a exigência de um número específico de participantes para uma operação desta natureza, deve-se observar um mínimo de 03 e um máximo de 11.

Tanto o Lemegeton quanto as Clavículas de Salomão recomendam que o Círculo tenha 2,70m de diâmetro. No entanto, um Círculo que irá comportar atos de magia sexual, terá que ser maior. Uma boa medida seria um Círculo de 5 metros. Também aqui cada um terá que fazer as adaptações necessárias. O Círculo é a proteção dos participantes e deve ser devidamente traçado e consagrado durante a cerimônia.

A Utilização Ritualística da Corrente Ofidiana

O uso da Corrente Ofidiana é apenas um caminho traçado sobre um plano: ao magista cabe o dever de erigir a vela de seu barco e orientá-lo na direção onde brilha o Sol.

Há métodos de auto-magia sexual «masturbação» para praticantes solitários e que não serão o foco deste ensaio. O que aqui propomos é para uma dupla ou um grupo que pratique magia cerimonial.

Há dois elementos fundamentais na magia sexual e que são usados para elevar os níveis de energia e para focar todas as etapas do processo goético. O primeiro é o orgasmo. O poder do orgasmo contribui para movimentar e elevar a energia do processo mágico. Os participantes devem estar envolvidos com a preparação do ritual, o traçado do Círculo e do Triângulo, com as conjurações, bem como atentos ao propósito do ritual. A concentração intensa durante o orgasmo (ou a pequena morte, como era chamada pelos autores do século XIX) fortalece a vontade e facilita a manipulação energética da cerimônia. Faz-se mister observar que, se os participantes perderem o foco no propósito do ritual e deixarem-se levar apenas pelo sexo em si, sabotarão e arruinarão a operação, como demonstrado no início desse ensaio.

O segundo elemento, são os fluidos provenientes do corpo no momento do orgasmo. Esses fluidos ou kālas, em parte porque foram produzidos durante o ritual, apresentam propriedades mágicas. Eles podem ser usados para uma variedade de propósitos: podem servir como pomadas e óleos, podem ser usados na consagração de amuletos e outros instrumentos mágicos, incluindo o próprio círculo mágico.

Para produzir esses fluidos pelo menos uma mulher se faz necessária para atuar como «sacerdotisa» durante a cerimônia. Uma mulher é o suficiente; naturalmente pode-se ter mais e tudo vai depender de quantas operações cada grupo realiza regularmente. De qualquer forma, em uma cerimônia somente uma sacerdotisa deve ser consagrada como representante da Deusa. A interrupção e distração na troca do papel principal na cerimônia interrompe o fluxo e a focalização da operação. Além disso, a mulher–sacerdotisa deve estar realmente desejosa de participar da cerimônia e de se entregar completamente à mesma. Se isto não for verificado, ter-se-á um «curto-circuito» no ritual. Outra necessidade, é que ela seja uma iniciada competente. Uma mulher despreparada não é capaz de utilizar com proficiência a Boca da Yoginī como fonte de emanação de forças além do nível de consciência ordinária.[17]

Algumas tradições permitem o uso de expansores de consciência suaves para a indução de transes e outras não. Cada grupo deve determinar seus próprios critérios quanto a isto. A ingestão destes expansores ou «plantas de poder», por parte de um grupo experiente e que não utiliza esses artifícios para velar seus vícios, auxiliam os participantes e a sacerdotisa a se manterem focados no processo ritualístico.

Consagrando o Círculo de Proteção

Um lugar deve ser escolhido para a construção do Círculo. Pode ser um lugar fechado, como um templo, ou um lugar ao ar livre. Em ambos os casos, a necessária privacidade deve ser observada para evitar inconveniências e incompreensões quanto à natureza de tais práticas.

Lembramos que esta prática de consagração fará uso da energia sexual e um mínimo de 03 e um máximo de 11 participantes deve ser observado. Como há diversos tipos de círculos de proteção, construa o seu Círculo de acordo com a técnica que você normalmente utiliza para traçar seu Círculo de magia.

Dois altares devem ser erguidos:

Um para a sacerdotisa, que será seu trono, que fica no centro do círculo. Este altar deve ser construído sobre uma superfície macia (tapete, por exemplo) para conforto da sacerdotisa. Deve também conter uma almofada para que a sacerdotisa possa elevar seu ventre, a fim de que sua yoni esteja em relevo, facilitando o congresso sexual. Também podem ser colocados suportes nas laterais para que ela possa se firmar durante a execução do Arcano. Logo abaixo do altar da sacerdotisa, deve estar um container – normalmente um cálice – para receber os fluidos sexuais.

O outro para o Magista Oficiante – nele se colocam as armas necessárias ao trabalho.

Após a construção do Círculo, a sacerdotisa é entronizada em seu lugar. Ela pode estar nua ou não, dependendo do tipo de operação. O magista oficiante entra no Círculo. Ao chegar ao centro dele, remove seu robe e, após a consagração da sacerdotisa, dá início a cópula. Ele, em total estado de concentração; ela, neste ponto, em completo transe ofidiano.

Após o clímax, o oficiante veste seu robe e inicia a consagração do Círculo. Os demais participantes, o tempo todo, vibrando os nomes bárbaros de evocação seguindo o ritmo do ritual, bem concentrados na consagração do Círculo. Existe uma prática conhecida como cakra-pūja onde todos os participantes participam da cópula. Mas este tipo de operação exige uma concentração en masse. Essa prática pode ou não conter outras sacerdotisas oficiantes e todo o ritual deve ser executado em duplas ou pares.

Os fluídos corporais ou kālas coletados no container são levados ao altar do oficiante. Se ainda restar qualquer resíduo de fluídos na sacerdotisa, ele deverá ser recolhido no container.

Os fluidos são misturados em partes iguais com o óleo de Abramelin. Essa mistura é utilizada para se traçar novamente o Círculo e finalizar sua consagração. A união dos fluidos corporais com o óleo de Abramelin torna o Círculo perfeito, uma vez que gerará uma substância que é a soma da essência individual dos participantes-oficiantes. Este gesto irá adicionar um poder extra aos ritos realizados no Círculo, especialmente para aqueles que efetivamente contribuíram para sua formação e consagração. Se sobrar algum fluido, ele pode ser guardado e usado para outra operação mágica, dentro de um espaço curto de tempo. No entanto, o fluido é mais eficiente quando obtido e utilizado em seguida, por ter maior potência energética. O Círculo deve ser «reconsagrado» desta forma pelo menos uma vez ao ano.

Evocações

Uma vez que o Círculo foi devidamente preparado, podemos, agora, realizar as evocações goéticas. Uma vez mais, esbarramos com diversas formas de fazê-la: desde as mais complexas até as mais simplificadas. Use a que estiver mais familiarizado.

Antes de iniciar o ritual, o magista oficiante precisa definir qual será a entidade a ser evocada e informar a todos. Em seguida, desenhar o sigilo «yantra» daquela entidade com um material que resista ao suor e uma tinta que não manche ou desbote durante a prática.

Utilizamos a energia sexual nas evocações goéticas da mesma maneira que a utilizamos na consagração, descrita em epígrafe. A sacerdotisa está nua e é entronizada no altar, no centro do Círculo. Ela deverá estar com a yoni mais elevada, preparada para o viparita-maithuna. Portanto é importante sempre ter uma almofada, ou outro objeto adequado, que permita à sacerdotisa ficar mais elevada.

Depois que todos os participantes forem admitidos ao interior do Círculo e após o mesmo estar devidamente traçado, de acordo com os procedimentos habituais ao magista oficiante, este deve despir-se. Ele deve pintar o sigilo do espírito goético a ser evocado por toda a sacerdotisa. No caso do cakra-pūja, o sigilo assim disposto nas sacerdotisas permitirá que cada participante foque sobre ele enquanto realiza o coito sexual. De qualquer maneira, à medida que o sacerdote e sacerdotisa iniciam o abraço místico, as evocações devem ser por ele emitidas e acompanhadas por todos.

Alguns praticantes se preocupam com a possibilidade de um «convite deliberado» aos espíritos goéticos pelo fato do sigilo estar na sacerdotisa. No entanto, é preciso considerar que o sigilo está dentro do Círculo de Proteção e, portanto, não constitui um «convite» ao espírito a ser evocado para ali se manifestar. Obviamente, que o «convite» faz parte da própria cerimônia e o espírito chamado estará do lado externo ao Círculo e que deve ser confinado ao Triângulo pelo magista oficiante.[18]

Às vezes, alguns grupos optam pela presença de uma pitonisa ou um clarividente na cerimônia. Dependendo do ritual, a pitonisa ou o clarividente devem ser excitados. Isso irá permitir que haja duas pessoas em transe ofidiano realizando as evocações, enquanto os demais continuam a elevar o nível da energia através da entoação dos nomes bárbaros de evocação e, no caso do cakra-pūja, através do intercurso sexual coletivo. É preciso observar que se trata de um rito goético que tem na Corrente Ofidiana seu diferencial operacional; este ato serve para criar um elo entre todos os participantes do ritual através do solícito sacrifício ou uso da energia sexual.

O ritual deve prosseguir com o magista oficiante em coito e o clarividente fazendo os conjuros, acompanhados de cada participante realizando suas conjurações. O ideal é que ocoito ocorra durante todo o tempo das chamadas. A sacerdotisa deve ser mantida, o tempo todo, em seu altar e se possível na Gnose ou transe ofidiano.

Deve-se observar que a unificação da goética com a energia sexual produzirá uma convocação poderosa das entidades goéticas. Os resultados das convocações serão também mais potentes.

Os fluidos coletados durante as operações podem ser usados para uma variedade de propósitos. Algumas entidades goéticas requerem gratificações. Os fluidos, se especialmente misturados com os aromas próprios da entidade convocada, podem ser uma excelente oferenda. E mais, os fluidos que sobrarem podem ser divididos com os participantes ou guardados para usos futuros. Uma substância magicamente carregada é melhor de se usar logo após sua obtenção e ela ainda pode ser aplicada como loção, como agente consagrador de amuletos, talismãs; pode ser empregada para a obtenção de saúde, aumento da força vital no organismo, magnetismo, maior poder de atração sexual, desenvolvimento de dons paranormais, concretizações de projetos ou desejos legítimos, dentre outros.

A Responsabilidade na Utilização da Corrente Ofidiana

É inegavelmente sedutora a ideia de se unir energia sexual aos ritos mágicos em geral e ao goético em particular. No entanto, não podemos deixar também de refletirmos sobre os principais inconvenientes que esta prática pode ocasionar: doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.

Como o objetivo do rito é obter uma mistura de fluidos masculinos e femininos, a camisinha não pode ser empregada. Daí a importância de que todos os participantes sejam saudáveis. A melhor forma de garantir isto é através de exames periódicos e de uma conduta que não seja promíscua por parte dos participantes.

A gravidez é outra questão preocupante. Assim, precauções se fazem necessárias. Uma criança concebida numa operação mágica será portadora de habilidades e capacidades interessantes.[19]

Além das questões físicas (doenças e gravidez), a magia sexual também requer um intenso trabalho sobre nossos próprios limites, conceitos e pré-conceitos. Somos testados em nossa personalidade, em nosso aspecto emocional, espiritual e também confrontados por valores sociais. Muitas são as tocaias e armadilhas que podem surgir: apego, ciúme, possessividade etc. Nesta direção, cada um deve fazer uma análise, uma profunda reflexão, considerando todos os prós e os contras, antes de se lançarem às práticas sexuais com um grupo de magistas. E mais importante é se perguntar: o que realmente está me motivando a praticar magia sexual? Seja sincero e conheça suas reais motivações, nunca a magia será culpada por seus erros. Esta é uma senda de maturidade e de responsabilidade pelas próprias ações.

Além disso, existe a necessária transparência para as pessoas que são casadas ou que tenham relacionamentos estáveis. É importante que o outro saiba o que você faz, para não configurar traição. Sabemos que aqui pisamos num terreno movediço e cabe a cada um ser honesto; primeiramente, consigo mesmo e a máxima: faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você, é tudo o que podemos dizer. A cada um, sua consciência.

Algo fundamental é o respeito pela sacerdotisa do grupo. Ela jamais deverá ser vilipendiada ou abusada. Ela está se doando para o benefício de toda a coletividade e contribuindo superlativamente para o sucesso das operações. Sem dúvida, não é fácil encontrar uma sacerdotisa que se entregue de alma e corpo a esta função. Daí mais um motivo para sua valorização e respeito. Trate-a como uma deusa, a divina Śakti encarnada.

Outra coisa importante: o sadomasoquismo não deve ser praticado, pois foge ao escopo e ao objetivo do ritual. Aliás, se o grupo se desviar do foco do ritual e se aterem exclusivamente ao sexo e à realização de taras pessoais, em pouco tempo surgirão problemas, querelas, desentendimentos e a dissolução do grupo. As razões para isso são simples e se encontram no «choque de retorno».

As técnicas que aqui indicamos podem ser aplicadas de outras formas e cabe ao dinamismo do grupo, de acordo com seus objetivos específicos, fazer os arranjos que forem necessários para que possam somar a energia sexual às suas práticas. Essas técnicas podem ser combinadas a outras como a Magia Enochiana, por exemplo. Use sua criatividade, faça adaptações, mas, sobretudo, não se esqueça que o foco é a operação mágica em si.

O ato sexual quando realizado sob vontade, sem desvios de propósito; quando a união entre os participantes ocorre dentro de todos os níveis (físico, emocional, mental) de seus respectivos seres, suas forças aumentam tanto psíquica, quanto fisicamente. Assim, um apelo vibrante é feito e este apelo será atendido.

Sem dúvidas, a energia sexual é a maior força mágica da natureza. Do amor nascem, segundo as circunstâncias, as paixões, os arrebatamentos, os estímulos para a criação divina ou humana, o surgimento de deuses ou demônios. No entanto, os usos e aplicações dessa magia simples e eficaz só é possível a um verdadeiro iniciado. É uma trilha destinada e reservada a poucos seres humanos que sejam capazes de utilizar com ética, desprendimento, inteligência, maestria pessoal e de forma útil esta sagrada energia que lhes habita o interior. Lembrem-se disto.

© Fernando Liguori
© 2003-20016 Sociedade de Estudos Thelêmicos
Contato: http://srikulacara.wixsite.com/thelema-br

Bibliografia

AGRIPPA, Henrique Cornélio. Três Livros de Filosofia Oculta. São Paulo, Madras, 2012.

CROWLEY, Aleister. The Book of Lies. Boston, Samuel Weiser, 1981.

___________. Magick: Liber ABA. Maine, Samuel Weiser, 1994.

FRIES, Jan. Kālī Kaula: A Manual of Tantric Magick. Londres, Avalonia, 2010.

___________. Nightshades: A Tourist Guide to the Nightside. Londres, Avalonia, 2012.

GRANT, Kenneth. Aleister Crowley and the Hidden God. Londres, Skoob Books, 1992.

___________. Beyond the Mauve Zone. Londres, Starfire, 1999.

___________. Cults of the Shadow. Londres, Frederick Muller, 1975.

___________. O Renascer da Magia. São Paulo, Madras, 1999.

KARLSSON, Thomas. Qabalah, Qliphoth and Goetic Magic. Oregom, Ajna, 2009.

KRAIG, Donald Michael. Modern Sex Magic: Secrets of Erotic Spirituality. Maine, Llewellyn, 2001.

LEVENDA, Peter. The Dark Lord: H.P. Lovecraft, Kenneth Grant and the Typhonian Tradition in Magic. Flórida, Ibis Press, 2013.

LINDEN, Mishlen. Typhonian Teratomas: The Shadows of the Abyss. Ohio, Black Monn, 2008.

PETERS, Gregory. The Magickal Union of Esast and West: The Spiritual Path to the New Aeon Tantra. Maine, Llewellyn, 2014.

SCHRECK, Nikolas. Demons of the Flash: The Complete Guide to the Left-Hand Path Sex Magic. Atlanta, New Zine, 2002.

URBAN, Hugh B. Magia Sexualis: Sex. Magic and Liberation in Modern Western Esoterism. Berkeley, California Press, 2006.

[1] O Arcano é a fórmula mágica ou ofidiana do IXº O.T.O.

[2] O termo Corrente Ofidiana refere-se à utilização da energia sexual em rituais mágicos ou místicos a fim de se causar mudança na natureza (i.e. o mundo externo) e para transformar o universo interno. Corrente Draconiana, Corrente Tifoniana ou Corrente 93 são termos cognatos, embora possuam implicações mais especializadas.

[3] «Os antigos adeptos e iniciados eram infinitamente mais conhecedores das ciências sexuais do que os psicólogos ocidentais hoje em dia.» Kenneth Grant, O Renascer da Magia, Madras, 1999.

[4] «Especificamente em relação ao yoga, tamanho era seu interesse que, ao final do século XIX, Kellner era reconhecidamente um dos únicos europeus com detalhado conhecimento sobre teoria e prática desta disciplina. Tão proeminente era seu conhecimento sobre a matéria, que isto acabou por levá-lo a elaborar um pequeno tratado, acerca das influências psicológicas e fisiológicas que a prática do yoga exercia sobre o ser humano. Este trabalho foi apresentado no Terceiro Congresso Internacional de Psicologia, sediado em Munique, em 1896. Depois, o estudo sobre yoga de Kellner também foi publicado em inglês, com o título de Yoga: A Draft on the Psychophysiological Aspect of the Ancient Yoga Doutrine. Bem posteriormente a sua morte, Crowley o relacionou como uma das «instruções oficiais da O.T.O.», onde o estudo é apresentado como sendo de autoria de um certo Irmão Renatus (Crowley, 1997:485). Renatus havia sido o mote adotado por Kellner quando Aprendiz Maçom e a partir daí, algumas ramificações da O.T.O. passaram a adotar este nome como divisa mágica de Kellner, passando a frequentemente citá-lo como Frater Renatus Xº, O.T.O.» Carlos Raposo, Carl Kellner (1850-1905) em Orobas: http://orobas.blogspot.com.br/

[5] Tecnicamente, Kellner ensinava uma espécie de kuṇḍalinī-yoga a um seleto grupo de iniciados. Muito pequeno. Reuss se referiu a este grupo como o Círculo Secreto na edição de 1904 de seu Oriflamme. Este seria o núcleo da Ordem que mais tarde, sob a liderança de Reuss, se chamaria Ordo Templi Orientis, O.T.O.

[6] Carl Kellner colecionava iniciações. Além de yogī, por intermédio do Dr. Franz Hartman (1838-1912), participou daSociedade Teosófica e conheceu Śrī Mahātma Āgamya Paramahaṃsa, seu guru na tradição vāmācāra. Há indícios de uma relação muito próxima com o famoso sanscritólogo Max Müller (1823-1900), responsável pela primeira tradução ocidental do Ṛg-Veda. Infelizmente, hoje suas traduções são consideradas insatisfatórias. Foi Max Müller um dos principais responsáveis pela disseminação daquilo que ficou conhecido como Mito da Invasão Ariana. Kellner ainda era muito próximo de adeptos conectados a Pascal Beverly Randolph (1825-1875) e a Fraternidade de Eulis.

[7] Agrippa: Três Livros de Filosofia Oculta, Madras, 2012.

[8] Veja Against the Light, Kenneth Grant, Starfire, 1997.

[9] Conhecidos também como śāstras «escrituras» da cultura tântrica que tratam de metafísica, magia e rituais de grande profundidade esotérica.

[10] «O Tantra, na forma do Śrī Vidyā, é o mais fiel repositário que temos hoje em dia sobre os mistérios da Tradição Tifoniana, principalmente na doutrina dos cakras e da kuṇḍalinī.» Kenneth Grant, Beyond the Mauve Zone, capítulo 3. Starfire, 1999.

[11] Nenhuma consideração de natureza moral está implícita melo termo «negra» neste contexto. Queremos indicar uma natureza específica da corrente empregada. Existe somente magia, sendo ela «negra» ou «branca» no sentido moral depende somente da intenção do operador. Nós não falamos sobre ciência «negra» ou «branca», embora considerações similares se apliquem.

[12] Um yantra expressa em forma linear os vetores de força que constituem a anatomia secreta de um «deus» ou «deusa». Um mantra expressa esses vetores na forma de som ou vibração. Cada deidade possui seu yantra e seumantra, sua combinação constitui o tantra, o modo ativo da invocação da deidade.

[13] O arco ou arkh é o símbolo do ventre. A imagem de Nuit é um glifo do Cálice Mágico no qual o Grande Poder Mágico «mahā-śakti» reside.

[14] I.e. a Estela da Revelação.

[15] Veja o artigo O Bindu Branco & o Bindu Vermelho de Fernando Liguori para uma descrição precisa da produção do néctar e do veneno através dos cakras. Disponível no site Yoga Dṛṣṭi.

[16] «A goécia é desafortunada, feita pelo intercâmbio com espíritos impuros, consistindo de ritos de pérfidas curiosidades, encantamentos ilícitos e deprecações. […] Seus praticantes são chamados de necromantes e bruxos.» Agrippa em Três Livros de Filosofia Oculta, Madras, 2012.

[17] Toda mulher é uma incorporação da Deusa, mas nem todas as mulheres estão preparadas para encarnar a Deusa.

[18] Existe outra prática goética em que o Círculo não mais serve como «proteção», mas como um portal de ingresso e egresso de entidades telúricas e ctonianas. Veja o artigo Manganeumatas das Sombras de Fernando Liguori e Helio Monteiro.

[19] O filho de um dos autores foi fecundado e concebido dentro de uma operação mágica. Foi constatado que a criança foge aos padrões convencionais. Veja o artigo A Deusa & o Trovão de Fernando Liguori.

~ por Rosemaat Abiff em 16/10/2014.

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