Manual do Aprendiz, Maçom Livre.

Introdução ao Estudo da Ordem e da Doutrina
Maçônica

“Qualquer que tenha sido o vosso propósito e o anseio de vosso coração ao ingressar na
Augusta Instituição que fraternalmente vos acolheu, como um de seus membros, é certo
que não tereis entendido, a princípio, toda a importância espiritual deste passo e as
possibilidades de progresso que com ele vos foram abertas.
A Maçonaria é pois, uma Instituição Hermética no tríplice e profundo sentido da
palavra. O segredo maçônico é de tal natureza, que não pode nunca ser violado ou
traído, por ser mística e individualmente realizado por aquele maçom que o busca para
usá-lo construtivamente, com sinceridade e fervor, absoluta lealdade, firmeza e
perseverança no estudo e na prática da Arte.
A Maçonaria não se revela efetivamente senão a seus adeptos, aqueles que a ela se
doam por inteiro, sem reservas mentais, para tornar-se verdadeiros maçons, isto é,
Obreiros Iluminados da Inteligência Construtora do Universo, que deve manifestar-se
em sua mente como verdadeira Luz que ilumina, desde um ponto de vista superior,
todos os seus pensamentos, palavras e obras.
Isto é conseguido por intermédio das provas que constituem os meios pelos quais torna-
se manifesto o potencial espiritual que dorme em estado latente na vida rotineira, as
provas simbólicas iniciais e as provas posteriores do desânimo e da decepção. Quem se
deixar vencer por elas, assim como aquele que ingressar na Associação com um espírito
superficial, deixará de conhecer aquilo que a Ordem encerra sob sua forma e seu
ministério exterior, deixará de conhecer seu propósito real e a Força Espiritual oculta
que interiormente anima a Ordem.
Seu tesouro acha-se escondido profundamente na terra. Só escavando, ou seja,
buscando-o por baixo da aparência, podemos encontrá-lo. Quem passa pela Instituição
como se fosse uma sociedade qualquer ou um clube profano, não pode conhecê-la;
somente permanecendo nela longamente, com fé inalterada, esforçando-nos em
tornarmo-nos verdadeiros maçons e reconhecendo o privilégio inerente a esta qualidade,
ela nos revelará o seu tesouro oculto.
Deste ponto de vista, e qualquer que seja o grau exterior que possamos conseguir, ou
que já nos tenha sido conferido para compensar de alguma forma nossos anseios e
desejos de progresso, dificilmente poderemos realmente superar o grau de aprendiz. Na
finalidade iniciática da Ordem, somos e continuaremos sendo aprendizes por um tempo
muito maior que os simbólicos três anos de idade. Oxalá fossemos todos bons
aprendizes e continuássemos sendo-o por toda nossa existência! Se todos os maçons se
esforçassem primeiro em aprender, quantos males que tem sido lamentados e que ainda
serão lamentados, não mais teriam razão de existir!
Este pequeno Manual, quer ser um Guia Sintético para os aprendizes de todas as idades
maçônicas, apresentando em suas páginas, de forma clara e simples, as explicações que
nos parecem necessárias para entender e realizar individualmente o significado deste
grau fundamental, no qual se encontra todo o programa iniciático, moral e operativo da
Maçonaria.

Ser um aprendiz, um Aprendiz ativo e inteligente que envida todos os esforços para
progredir iluminadamente no caminho da Verdade e da Virtude, realizando e pondo em
prática (fazendo-a carne de sua carne, sangue de seu sangue e vida de sua vida) a Doutrina Iniciática que se encontra escondida e é revelada no simbolismo deste grau, é
sem dúvida muito melhor que ostentar o mais elevado grau maçônico, permanecendo na
mais odiosa e destruidora ignorância dos princípios e fins sublimes de nossa Ordem.
Não devemos ter, portanto, demasiada pressa na ascensão a graus superiores. O grau
que nos foi outorgado, e pelo qual exteriormente somos reconhecidos, é sempre superior
ao grau real que alcançamos e realizamos interiormente, e a permanência neste primeiro
grau dificilmente poderá ser taxada de excessiva, por maiores que sejam nossos desejos
de progresso e os esforços que façamos nesse sentido. Compreender efetivamente o
significado dos símbolos e cerimônias que constituem a fórmula iniciática deste grau,
procurando a sua prática todos os dias da vida, é muito melhor que sair prematuramente
dele, ou desprezá-lo sem tê-lo compreendido.
A condição e o estado de aprendiz, referem-se, de forma precisa, à nossa capacidade de
apreender; somos aprendizes enquanto nos tornamos receptivos, abrindo-nos
interiormente e colocando todo o esforço necessário para aproveitarmos
construtivamente todas as experiências da vida e os ensinamentos que de algum modo
recebemos. Nossa mente aberta, e a intensidade do desejo de progredir, determinam esta
capacidade.
Estas qualidades caracterizam o Aprendiz e o distinguem do profano, seja dentro ou
fora da Ordem. No profano, (segundo se entende maçonicamente esta palavra)
prevalecem a inércia e a passividade, e, se existe um desejo de progresso, uma aspiração
superior, encontram-se como que sepultados ou sufocados pela materialidade da vida,
que converte os homens em escravos completos de seus vícios, de suas necessidades e
de suas paixões.
O que torna patente o estado de aprendiz, é exatamente o despertar do potencial latente
que se encontra em cada ser e nele produz um veemente desejo de progredir, caminhar
para a frente, superando todos os obstáculos e limitações, tirando proveito de todas as
experiências e ensinamentos que encontra em seus passos. Este estado de consciência é
a primeira condição para que seja possível tornar-se maçom no sentido verdadeiro da
palavra.
Toda a vida é para o ser ativo, inteligente e zeloso, uma aprendizagem incessante; tudo
o que encontramos em nosso caminho pode e deve ser um proveitoso material de
construção para o edifício simbólico de nosso progresso, o Templo que assim erigimos,
cada hora, cada dia e cada instante à G. D. G. A. D. U. isto é, do Princípio Construtivo e
Evolutivo em nós mesmos. Tudo é bom no fundo, tudo pode e deve ser utilizado
construtivamente para o Bem, apesar de que possa ter-se apresentado sob a forma de
uma experiência desagradável, de uma contrariedade imprevista, de uma dificuldade, de
um obstáculo, de uma desgraça ou de uma inimizade.
Heis aqui o programa que o Aprendiz deve esforçar-se em realizar na vida diária.
Somente mediante este trabalho, inteligente, zeloso e perseverante, pode converter-se
num verdadeiro obreiro da Inteligência Construtora, e companheiro de todos os que
estão animados por este mesmo programa, por esta mesma finalidade interior.
O esforço individual é condição necessária para este progresso. O Aprendiz não deve
contentar-se em receber passivamente as idéias, conceitos e teorias vindas do exterior, e
simplesmente assimilá-las, mas trabalhar com estes materiais, e assim aprender a pensar
por si mesmo, pois o que caracteriza a nossa Instituição é a mais perfeita compreensão erealização harmônica de dois princípios de Liberdade e Autoridade, que se encontram
amiúde em tão franca oposição no mundo profano. Cada um deve aprender a progredir
por meio de sua própria experiência e por seus próprios esforços, ainda que
aproveitando segundo seu discernimento e experiência daqueles que procederam nesse
mesmo caminho.
A Autoridade dos Mestres, é, simplesmente Guia, Luz e Apoio para o Aprendiz,
enquanto não aprender a caminhar por si mesmo, mas seu progresso será sempre
proporcional a seus próprios esforços. Assim é que esta Autoridade – a única que é
reconhecida pela Maçonaria – nunca será o resultado de uma imposição ou coação, mas
o implícito reconhecimento interior de uma superioridade espiritual ou melhor dizendo,
de um maior avanço na mesma senda que todos indistintamente percorremos. Aquela
Autoridade natural que somente conseguimos conhecendo a Verdade e praticando a
Virtude.
O aprendiz que realizar esta sublime Finalidade da Ordem, reconhecerá que em suas
possibilidades há muito mais do que fora previsto quando, inicialmente, pediu sua
filiação e foi recebido como irmão.
O impulso que o moveu desde então, foi sem dúvida, radicalmente mais profundo que
as razões conscientes determinantes. Naquele momento, atuava nele uma Vontade mais
elevada que a da sua personalidade comum, sua própria vontade individual, que é a
Vontade do Divino em nós. Seja ele pois, consciente desta Razão Oculta e profunda que
motivou sua afiliação a uma Ordem Augusta e Sagrada por suas origens, por sua
natureza e por suas finalidades.
A todos nós é dado o privilégio e a oportunidade de cooperar para o renascimento
iniciático da Maçonaria, para o qual estão maduros os tempos e os homens. Façamo-lo
com aquele entusiasmo e fervor que, tendo superado as três provas simbólicas, não se
deixa vencer pelas correntes contrárias do mundo profano, nem arrastar pelo ímpeto das
paixões, nem desanimar pela frieza exterior, e que chegando a tal estado de firmeza,
amadurecerá e dará ótimos frutos.
Mas, antes de tudo, aprendamos. Aprendamos o que é a Ordem em sua essência, quais
foram suas verdadeiras origens; o significado da Iniciação Simbólica pela qual fomos
recebidos; a Filosofia Iniciática da qual provêm os elementos, o estudo dos primeiros
Princípios e dos símbolos que os representam; a tríplice natureza e valor do Templo
alegórico de nossos trabalhos e a sua qualidade; a palavra dada para uso e que constitui
o Ministério Supremo e Central. Receberemos assim o salário merecido como resultado
de nossos esforços e tornar-nos-emos obreiros aptos e perfeitamente capacitados para o
trabalho que de nós será exigido.

AS ORIGENS DA INSTITUIÇÃO
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Das três perguntas; “De onde viemos? Quem somos? e Aonde vamos?”, nas quais pode
subdividir-se e expressar-se o Grande Mistério da experiência, assim como, o princípio
de todo o verdadeiro conhecimento e toda a sabedoria, a primeira delas é a que
especialmente diz respeito ao Aprendiz.Aplicada a nossa Instituição, para dar a conhecer sua essência, esta pergunta suscita-nos
em primeiro lugar o problema em suas origens, ou seja, aquelas instituições, sociedades,
costumes e tradições, nas quais a Maçonaria tem sua raiz, seu princípio espiritual, ainda
que sem nelas diretamente ter origem. Deste ponto-de-vista é certo, conforme nos dizem
os catecismos, que suas origens perderam-se “na noite dos tempos”, ou seja; naquelas
remotas civilizações pré-históricas das quais tem-se perdido os vestígios e a memória, e
que remontam provavelmente a centenas de milhares de anos antes da era atual.
Os primeiros rituais baseados nas tradições bíblicas, uma vez que seus redatores
apoiaram-se pela fé nessas tradições, contam que: “Adão foi iniciado na Ordem do
Éden, pelo G.A. em todos os ritos da Maçonaria, isto significando, evidentemente, que
as origens da Maçonaria devem remontar à primeira sociedade humana, da qual Adão é
um símbolo, correspondendo à Era Saturniana ou Idade de Ouro da tradição greco-
romana, e ao Satra Yoga dos hindus.
É certo, pois, que esse íntimo desejo de progresso, essa profunda aspiração em direção à
Verdade e à Virtude, esse desejo de trabalhar reta e sabiamente, de que a maçonaria
constitui, para seus adeptos a encarnação nasceram, já na aurora da civilização (que
todas as tradições concordam em considerar luminosa).
Mas, se o espírito maçônico existiu desde as primeiras épocas conhecidas e
desconhecidas – da história, e não foi alheio ao primeiro homem esse mesmo espírito (se
realmente tiver existido tiver se expressado naturalmente de uma forma adaptada e
conveniente nas primeiras comunidades – íntimas e por tanto secretas – de homens que
se isolavam dos demais pelo seu desejo de saber e penetrar o Mistério Profundo das
coisas, é igualmente correto que nem sempre ter-se-á manifestado exatamente da forma
em que hoje se conhece, se exerce e se pratica.
Entretanto, os princípios imutáveis sobre os quais foi estabelecido essa manifestação, e
que constituem seu espírito e sua característica fundamental, não podem ter sofrido
variações substanciais, e uma vez que foram estabelecidas em épocas de antigüidade
incalculável, devem também ter permanecido basicamente os mesmos através de todas
suas metamorfoses ou encarnações exteriores.
Também devem remontar os sinais, símbolos e toques, a íntima essência da alegorias e
o significado das palavras que correspondem aos diferentes graus, (por seu caráter e sua
transmissão ininterrupta) até a mais remota antigüidade. Ainda que as alterações das
lendas – em sua forma exterior – possam ter sido notáveis, entretanto, face ao reduzido e
eliminado meio social no qual foram disseminadas, pela própria aparência exterior e
ainda, pelas provas e a fidelidade que eram solicitadas aos iniciados, essas alterações
sempre se reduziram ao mínimo, sendo mais intencionais (isto é, causadas por
necessárias adaptações) que causais.
Além disso, por terem tais alegorias girado ao redor de um mesmo tema ou Idéia Mãe
Fundamental, estas alterações devem ter sido geralmente cíclicas, gravitando ao redor
de um mesmo ponto, passando, em conseqüência, mais de uma vez pela mesma forma
ou por formas análogas.
Apesar do segredo que deve ter caracterizado constantemente a atividade da Ordem, nas
diferentes formas assumidas exteriormente, em diversos locais podemos encontrar
alguns vestígios que confirmam esta asserção: nos Templos sagrados de todos os
tempos e de todas as religiões, entre as estátuas, gravuras, baixos-relevos e pinturas; nosescritos que nos foram transmitidos, em representações simbólicas de origens diversas,
nas próprias letras do alfabeto, podemos encontrar vários traços de uma intenção
indubitavelmente iniciática ou maçônica (sendo os dois termos, até certo ponto,
equivalentes); e eventualmente ocorre não aparecerem nestas representações os mesmos
sinais de reconhecimento.
Da mesma forma na mitologia, e nas lendas e tradições que constituem o folclore
literário e popular, há muitos traços dos mistérios iniciáticos, daquela Palavra Perdida à
qual se refere nossa Instituição, com seu ensinamento esotérico revelado de uma forma
simbólica.
O aspecto esotérico da religião – conhecida exotericamente – deve ter conservado
através dos tempos esta dupla característica, qualquer que tenha sido a forma exterior
particular na qual tenha se manifestado nos diferentes povos e nas mais variadas épocas
da história.

A DOUTRINA INTERIOR

Todos os povos antigos conheceram, além do aspecto exterior ou formal da religião e
das práticas sagradas, um ensinamento paralelo interior ou esotérico que era ministrado
unicamente aos que moral e espiritualmente eram reputados dignos e maduros para
recebê-la.
O aspecto esotérico da religião – conhecida exotericamente pelos profanos – era provido
especialmente pelos chamados Mistérios (palavra derivada de “mysto”, termo que era
aplicado aos neófitos, e que significava etimologicamente mudo ou secreto, referindo-se
evidentemente a obrigação de segredo selado por juramento, que era pedido a todo
iniciado), Mistérios dos quais a Maçonaria pode considerar-se herdeira e continuadora,
por intermédio das corporações de construtores e demais agrupamentos místicos que
nos transmitiram sua Doutrina.
Esta Doutrina Interior – esotérica e oculta – é essencialmente iniciática, pois que
somente será alcançada por intermédio da iniciação, isto é, pelo ingresso num particular
estado de consciência (ou ponto-de-vista interior), pois somente mediante ele pode ser
entendida, reconhecida e realizada.
A Doutrina Interior tem sido e continua sendo a mesma para todos os povos em todos os
tempos. Em outras palavras, enquanto para os profanos (os que se encontram na frente
ou fora do Templo, isto é sujeitos à aparência puramente exterior das coisas) tem havido
e haverá sempre diferentes religiões e ensinamentos, em aparente contraste uns com os
outros, para os iniciados não houve nem haverá mais do que uma só e única religião
Universal da Verdade, que é Ciência e Filosofia, ao mesmo tempo que Religião.
Deste ensinamento iniciático, esotérico e universal comum a todos os povos, raças e
épocas, as diferentes religiões e as diversas escolas tem constituído e constituem ainda
hoje, um aspecto exterior mais ou menos imperfeito e incompleto. As lutas religiosas
sempre caracterizaram aqueles períodos nos quais, pela imensa maioria de seus
dirigentes, foi perdida de vista aquela essência interior que constitui o Espírito da
religião, compreendido unicamente o aspecto profano ou exterior. Pois o fanatismo
sempre tem sido acompanhado da ignorância.
OS MISTÉRIOSEm todos os povos conhecidos da história, na era pré-cristã, houve instituição de
mistérios: no Egito como na Índia, na Pérsia, Caldeia, Síria, Grécia e em todas as nações
mediterrâneas, entre os druidas, os godos, os escitas e os povos escandinavos na China e
entre os povos indígenas da América.
Traços deles podem ser observados nas curiosas cerimônias e costumes das tribos da
África e Austrália, e em todos os chamados povos primitivos, aos quais possivelmente,
de forma mais justa, deveríamos considerar como originários da degeneração de raças e
civilizações mais antigas.
Tiveram fama especialmente os Mistérios de Isis e de Osiris no Egito; os de Orfeu e
Dionísios e os Eleusinos na Grécia; os de Mitra, que da Pérsia se estenderam com as
legiões romanas, por todos os países do império. Menos conhecidos e menos brilhantes,
especialmente em seu período de decadência e degeneração, foram os de Creta e os da
Samotrácia; os de Vênus em Chipre; os de Tammuz na Síria, e muitos outros.
Também a religião cristã teve no princípio seus Mistérios, como deixam transparecer os
indícios de natureza inequívoca que encontramos nos escritos dos primitivos Pais da
Igreja, ensinando aos mais adiantados um aspecto mais profundo e interno da religião, à
semelhança do que fazia Jesus, que instruía o povo por meio de parábolas, alegorias e
preceitos morais, reservando ao pequeno círculo eleito dos discípulos – os que
escutavam e punham em prática a Palavra seus ensinamentos esotéricos. A essência dos
Mistérios Cristãos tem-se conservado nas cerimônias que constituem atualmente os
Sacramentos.
Igualmente a religião muçulmana, assim como o Budismo e a antiga religião
brahmânica, tiveram e têm seus Mistérios, que conservaram e em alguns casos
conservam até hoje muitas práticas sem dúvida anteriores ao estabelecimento de ditas
religiões, reminiscência daqueles que eram celebrados entre os antigos árabes, caldeus,
aramaicos e fenícios, pelo que se refere à primeira, e entre os povos da Ásia Central e
Meridional, pelos segundos.
Ainda que os nomes difiram e sejam parcialmente discordantes, a forma simbólica e as
particularidades dos ensinamentos e suas aplicações tem sido característica fundamental
e originária de toda a transmissão de uma mesma Doutrina Esotérica, em graus diversos
e sucessivos, conforme a maturidade moral e espiritual dos candidatos, os quais eram
submetidos a provas (muitas vezes difíceis e espantosas) para reconhecê-la,
subordinando-se a comunicação do ensino simbólico, e os instrumentos ou chaves para
interpretá-la, à firmeza e fortaleza de ânimo demonstradas na superação destas provas.
A própria Doutrina nunca variou em si mesma, ainda que tenha-se revestido de formas
diferentes (mas quase sempre análogas ou muito semelhantes) e interpretada mais ou
menos perfeita ou imperfeitamente e de uma maneira relativamente profunda ou
superficial, por efeito da degeneração, à qual com o tempo sucumbiram os instrumentos
ou meios humanos aos quais aquela havia sido confiada. Esta unidade fundamental,
assim como a analogia entre os meios, pode considerar-se como prova suficiente da
unidade de origem de todos os Mistérios de um mesmo e único Manancial, do qual tem
emanado, ou pelo qual foram inspiradas, as diferentes instruções e tradições religiosas, e
a própria Maçonaria em suas formas primitivas e recentes.
A UNIDADE DA DOUTRINAEsta Doutrina-Mãe Eclética que tem sido perpetuamente Fonte inesgotável dos
ensinamentos mais elevados de todos os tempos (foco de luz inextinguível, conservado
zelosa e fielmente no Mistério da Compreensão e do Amor, que nunca deixou de brilhar
mesmo nas épocas mais obscuras da História, para os que tiveram “olhos para ver e
ouvidos para ouvir”, é a própria Doutrina Iniciática manifestada nos Mistérios Egípcios,
Orientais, Gregos, Romanos, Gnósticos e Cristãos, e é a mesma Doutrina Maçônica
revelada por meio do estudo e da interpretação dos símbolos e cerimônias que
caracterizam nossa Ordem.
É a Doutrina da Luz interior dos Mistérios Egípcios, que era desperta no candidato e
tornava-se para sempre mais firme e ativa na medida em que chegava a “osirificar-se”,
ou seja conhecer sua unidade e identidade com Osiris, o Primeiro e Único Princípio do
Universo. É a mesma Doutrina da luz simbólica que os candidatos procuram em nossos
Templos, e que se realiza individualmente na medida em que cada um se afasta da
influência profana ou exterior dos sentidos, e busca o secreto entendimento no íntimo de
seu ser.
É a Doutrina da Vida Universal encerrada no simbólico grão de trigo de Elêusis, que
deve morrer e ser sepultado nas entranhas da terra, para poder renascer como planta, à
luz do dia, depois de abrir caminho através da escuridão em que germina. É a mesma
doutrina pela qual o candidato, tendo passado por uma espécie de morte simbólica no
quarto de Reflexões, renasce a uma nova vida como Maçom e progride por meio do
esforço pessoal dirigido pelas aspirações verticais que o prumo simboliza.
É a Doutrina da redenção cristã, obtida por intermédio da fidelidade na palavra, com a
qual o Cristo ou Verbo Divino (nossa percepção interior ou reconhecimento espiritual
da verdade) nasce ou se manifeste em nós e nos conduz, segundo a antiga expressão
brahmânica “da ilusão à Realidade, das trevas à luz, da morte à Imortalidade”. É a
mesma doutrina do Verbo ou Logos sobre a qual colocamos nossos instrumentos
simbólicos ao abrirmos a Loja, isto é, ao iniciar a manifestação do Logos.
É pois, sempre e onde quer que seja, um mesmo ensinamento que se revela por infinitas
formas, adaptando-se à inteligência e à capacidade de compreensão dos ouvintes; uma
Doutrina secreta ou hermética, revelada por meio de símbolos, palavras e alegorias que
só podem entender e aplicar em seu real sentido os ouvidos da compreensão. É uma
doutrina vital que deve fazer-se carne em nós, sangue e vida, para produzir o milagre da
regeneração ou novo nascimento, que constitui o Télos ou “fim da iniciação”.

A HIERARQUIA OCULTA

O reconhecimento da Identidade fundamental desta Doutrina em suas múltiplas
concessões e manifestações exteriores, da idêntica finalidade destas e da identidade dos
meios universalmente empregados para ensiná-la, em suas distintas adaptações às
diferentes circunstâncias de tempo e lugar, como selo de sua origem comum, faz com
que se torne patente a existência de uma Hierarquia Oculta, uma Fraternidade de Sábios
de Mestres, que tem sido através das eras sua íntima, secreta e fiel depositária,
manifestando-a exteriormente em formas análogas ou diferentes, conforme a
maturidade dos tempos e dos homens.
As origens desta Fraternidade Oculta de Mestres da Sabedoria, chamada também
Grande Loja Branca (e, na Bíblia, Ordem de Melchisedeck), podem unir-se às primeiras
civilizações humanas das quais esses Mestres, como Reis-Sacerdotes Iniciados(conforme é indicado pelo nome genérico Melchisedeck), foram Reveladores e
Instrutores, pode-se dizer, desde a aparição do primeiro homem sobre a Terra. Sua
existência tem sido e pode ser reconhecida por todos os discípulos adiantados, dos quais
os Mestres tem-se servido e ainda se servem para sua Obra no Mundo.
Devemos a esta Hierarquia Oculta, formada pelos genuínos Intérpretes, Depositários e
Dispensadores da Doutrina Secreta, o primitivo estabelecimento de todos os Mistérios e
todos os cultos, em suas formas mais antigas, mais puras e originárias, assim como, o
estabelecimento da Instituição Maçônica e todo o movimento progressista e libertador.
Elevar e libertar as consciências, conduzir os homens das trevas da ignorância e da
ilusão, à luz da Verdade; desde o vício até à virtude; e da escravidão da matéria à
liberdade do espírito, tem sido sempre e constantemente, a finalidade destes Seres
superiores, destes verdadeiros Mestres Incógnitos em suas atividades no mundo.
Todo Movimento elevador e libertador deve considerar-se, direta ou indiretamente,
inspirado por esta Hierarquia, formada pelos que se elevaram e se libertaram por si
mesmos, sobrepondo-se a todas as debilidades, limitações e correntes (que atam a
maioria de nós e nos fazem escravos da fatalidade ou da necessidade em aparência, mas
em realidade somos escravos de nossos próprios erros e ilusões); realizando assim o
verdadeiro Magistério.
Pelo contrário, todo movimento (político, social ou oculto) que tende a limitar,
escravizar, entorpecer e adormecer a consciência dos homens tem uma oposta e
diferente inspiração, sendo obra manifesta do Senhor da Ilusão, ou seja, do movimento
de refluxo das ondas espirituais. A liberdade individual e o respeito pleno desta tem sido
sempre e ainda o são, a característica da linha direita e esquerda da Evolução
Ascendente, enquanto a escravidão e coerção assinalam o caminho esquerdo ou
descendente.

AS COMUNIDADES MÍSTICAS

Ao lado das mais antigas instituições oficiais dos Mistérios – protegidas por reis e
governos com leis e privilégios especiais, por sua influência reconhecidamente benéfica
e moralizadora e instintivamente veneradas pelos novos – existiram em todo o Oriente, e
especialmente na Índia, Pérsia, Grécia e Egito, muitas comunidades místicas que, se por
um lado podem ser comparadas aos atuais conventos e ordens monásticas, por outro,
algumas de suas características as relacionam intimamente com a moderna Maçonaria.
Estas comunidades – algumas das quais tiveram, embora outras não caráter
decididamente religioso – nasceram, evidentemente, da necessidade espiritual de
agrupar-se para levar, ao abrigo das condições contrárias do mundo exterior, uma vida
comum mais de acordo com os ideais e íntimas aspirações de seus componentes.
As características destas comunidades, que constituem um laço de união com nossa
Ordem, referem-se igualmente à sua dupla finalidade operativa e especulativa –
enquanto se dedicavam igualmente a trabalhos e atividades materiais, assim como aos
estudos filosóficos e contemplação – à iniciação como condição necessária para nelas
serem admitidos, e aos meios de reconhecimento (sinais, palavras e toques que usavam
entre si e por intermédio dos quais abriam suas portas ao viajante iniciado que se fazia
reconhecer como um deles, tratando-o como irmão, qualquer que fosse sua procedência.Destas místicas comunidades muito nos fala Filostrato em sua Vida de Apolônio de
Tiana, baseando-se nos apontamentos de Damis, discípulo do grande filósofo
reformador do primeiro século de nossa Era (ou melhor dizendo, companheiro de
viagem, pois por não ser um iniciado, quase sempre Damis era obrigado a ficar na porta
dos Templos e Santuários que não possuíam segredos para seu Mestre), Mestre que
viajou constantemente de uma a outra comunidade, assim como de Templo em Templo
nas mais diversas religiões, e onde sempre encontrou hospitalidade e acolhida fraternal,
neles compartilhando o Pão da Sabedoria.
As mais conhecidas foram as comunidades dos Essênios entre os hebreus, dos
Terapeutas do Alto Egito e dos Ginosofistas na Índia. Este último termo – que
literalmente significa sábios despidos – parece muito bem aplicar-se aos iogues, em seu
tríplice sentido moral, material e espiritual, quando se despojavam de toda sua riqueza
ou posse material e reduziam seu traje ao que de mais simples havia, despindo-se
espiritualmente com a prática da meditação que em seus aspectos mais profundos é um
despojo completo da mente (a “Criadora da Ilusão”) e das faculdades intelectuais, das
quais está revestido nosso Ego ou Alma para sua atuação como “ser mental”.

AS ESCOLAS FILOSÓFICAS

Não podemos esquecer igualmente, nesta sintética enumeração das origens da
Maçonaria, as grandes escolas filosóficas da antigüidade: a vedantina, na Índia, a
pitagórica, a platônica e a eclética ou alexandrina no Ocidente, as quais, indistintamente,
tiveram sua origem e inspiração nos Mistérios.
Da primeira, diremos simplesmente que seu propósito foi a interpretação dos livros
sagrados dos Vedas (Vedanta significa etimologicamente fim dos Vedas), antigas
escrituras brahmânicas inspiradas, obras dos Rishis, “videntes” ou “profetas” com
propósito claramente esotérico, como é demonstrado por sua característica
primitivamente adavaita (“antidualista” ou unitária), com o reconhecimento de um único
Princípio ou Realidade, operante nas infinitas manifestações da Divindade, consideradas
estas como diferentes aspectos desta Realidade Única.
A escola estabelecida por Pitágoras, como comunidade filosofico educativa, em
Crotona, na Itália meridional (chamada então Magna Grécia), tem uma íntima relação
com nossa instituição. Os discípulos eram inicialmente submetidas a um longo período
de noviciado que pode comparar-se ao nosso grau de Aprendiz, onde eram admitidos
como ouvintes, observando um silêncio absoluto, e outras práticas de purificação que os
preparavam para o estado sucessivo de iluminação, no qual permitia-se que falassem,
tendo uma evidente analogia como grau de Companheiro, enquanto o estado de
perfeição relaciona-se evidentemente como nosso grau de Mestre.
A escola de Pitágoras teve uma decidida influência, também nos séculos posteriores, e
muitos movimentos e instituições sociais foram inspirados pelos ensinamentos do
Mestre, que não nos deixou nada como obra direta sua, já que considerava seus
ensinamentos como vida e preferia, como ele mesmo o dizia, gravá-las (outro termo
caracteristicamente maçônico) na mente e na vida de seus discípulos, do que confiá-las
como letra morta ao papel.
Em relação a Pitágoras cabe recordar aqui um curioso e antigo documento maçônico, no
qual atribui-se ao Filósofo por excelência (foi quem primitivamente usou este termo,
distinguindo-se como amigo da sabedoria dos sufis ou sufistas, que ostentavam, comorgulho inversamente proporcional ao mérito real, o título de sábios) o mérito de ter
transportado as tradições maçônicas orientais ao mundo ocidental greco-romano.
Desta escola platônica e de sua conexão com os ensinamentos maçônicos, é suficiente
que recordemos a inscrição que existia no átrio da Academia (palavra que significa
etimologicamente “oriente”), onde eram celebradas as reuniões: “Ninguém deve aqui
entrar se não conhecer a Geometria”; alusão evidente à natureza matemática dos
Primeiros Princípios, assim como ao simbolismo geométrico ou construtor que nos
revela a íntima natureza do Universo e do homem, bem como, de sua evolução.
A filiação destas escolas aos Mistérios é evidente pelo fato de que Platão, como
Pitágoras e todos os grandes filósofos daqueles tempos, foram iniciados nos Mistérios
do Egito e da Grécia (ou em ambos), e todos deles nos falam com grande respeito, ainda
que sempre superficialmente, por ser então toda violação do segredo castigada pelas leis
civis até com a própria morte.
Da escola eclética ou neoplatônica de Alexandria, no Egito, podemos estabelecer a
dupla característica de sua origem e de sua finalidade, uma vez que nasceu da
convergência de diferentes escolas e tradições filosóficas, iniciáticas e religiosas, como
síntese e conciliação destas, do ponto de vista interior no qual se revela e torna patente
sua fundamental unidade.
Esta tentativa de unificação de escolas e tradições diferentes, por meio da compreensão
da Unidade da Doutrina que nelas se encerra, foi renovada uns séculos depois por
Ammonio Saccas, constituindo ainda um privilégio constante e universal característico
dos verdadeiros iniciados em todos os tempos.
A ESCOLA GNÓSTICA
Diretamente relacionada com a escola eclética alexandrina, a tradição ou escola gnóstica
do cristianismo, tem sido considerada e foi posteriormente perseguida como heresia
pela Igreja de Roma.
O gnosticismo tentou conciliar e fundir até o limite possível, o cristianismo então
nascente, com as religiões e tradições iniciáticas mais antigas, substituindo o dogma
(doutrina ortodoxa, da qual pede-se uma aceitação incondicional como “ato de fé”) pela
gnosis (conhecimento ou compreensão por meio da qual alcança-se a Doutrina Interior).
De acordo com esta escola, o Evangelho, à semelhança de todas as escrituras e ensinos
religiosos, deve ser interpretado em seu sentido esotérico, isto é, como expressão
simbólica e apresentação dramática de Verdades espirituais.
O Cristo, mais que uma atribuição pessoal de Jesus, seria o conhecimento ou percepção
espiritual da Verdade que deve nascer e realmente nasce em todo iniciado, que assim,
torna-se seu verdadeiro cristoforo ou cristão. O próprio Jesus seria também o nome
simbólico deste princípio salvador do homem, que o conduz “do erro à Verdade e da
Morte à Ressurreição”.
A própria Fé (pistis), considera-se como meio para chegar à Gnosis, preferivelmente à
aceitação passiva e incondicional de qualquer afirmação dogmática, apresentada como
uma Verdade revelada.
Apesar das posteridades interpolações, é certo que o Evangelho, as Epístolas e o
Apocalipse de São João, revelam claramente um fundamento gnóstico (a mesmadoutrina ou tradição gnóstica dizia-se instituída pelos discípulos ou seguidores de São
João), e esta tradição gnóstica ou joanita representa no Cristianismo o ponto de contato
mais direto com a Maçonaria.
A CABALA HEBRAICA
As antigas tradições orientais e herméticas encontram na Cabala e na Alquimia duas
novas encarnações ocidentais que não foram estranhas às origens da moderna
Maçonaria.
A Cabala (do Hebraico kabbalah, “tradição”) representa a Tradição Sagrada conhecida
pelos Hebreus, e por sua vez deriva de antigas tradições caldéias, egípcias e orientais em
geral. Trata especialmente do valor místico e mágico dos números e das letras do
alfabeto relacionadas com princípios numéricos e geométricos, que encerram em si
outros tantos significados metafísicos ou espirituais, dos quais aparece a íntima
concordância e a fundamental das religiões.
A antigüidade do movimento cabalista e sua proximidade aos hebreus tem sido negada
por alguns críticos modernos, mas, geralmente, admite-se sua existência após o
cativeiro da babilônia, tornando-se assim manifesta sua afirmação doutrinária dos
magos caldeus. Especial importância possuem na cabala as palvras sagradas e os Nomes
divinos, atribuindo-se aos mesmos um poder que se faz operativo por meio de sua
correta pronúncia – doutrina comum a todas as antigas tradições, que também tem sido
desenvolvida de forma racional na Filosofia da Índia, onde o som ou o Verbo é
considerado como um espírito da divindade (Shabdabralman).

ALQUIMIA E HERMETISMO

Como do Oriente asiático tem chegado as doutrinas cabalísticas, do Egito e da tradição
hermética (de Hermes Trismegisto ou Thoth, o fundador, tradicional dos mistérios
egípcios) faz-se originar a Alquimia (palavra árabe que parece significar “a
Substância”), daqueles que se auto denominavam verdadeiros filósofos.
O significado comum e familiar do adjetivo hermético pode nos dar uma idéia do sigilo
por meio do qual os alquimistas costumavam ocultar a verdadeira natureza de suas
misteriosas pesquisas. Não devemos portanto estranhar se a maioria das pessoas segue
acreditando, ainda hoje, que os principais objetos dos alquimistas foram os de
enriquecer-se por meio da pedra filosofal, que deveria converter o chumbo em ouro
puro, e alongar notavelmente a duração de sua existência, livrando-se, ao mesmo tempo,
das enfermidades por intermédio de um elixir e de uma milagrosa panacéia.
Nesta mística lápis philosophorum, entretanto, nós os maçons não podemos deixar de
reconhecer uma particular encarnação, um estado de pureza, refinamento e perfeição da
mesma pedra em cujo trabalho principalmente consiste nosso labor. Quando refletimos
sobre o segredo simbólico, no qual, à nossa semelhança, envolviam seus trabalhos para
ocultá-los aos profanos da Arte, não podemos Ter a menor dúvida de que, além dessas
finalidades materiais, que justificavam para os curiosos suas ocupações, os reais
esforços de todos os verdadeiros alquimistas foram dirigidos para objetivos
essencialmente espirituais.
A pedra filosofal não pode ser pois, nada senão o conhecimento da Verdade, que
sempre exerce uma influência transmutadora e enobrecedora sobre a mente que a
contempla e se reforma á sua imagem e semelhança. Unicamente por meio desseconhecimento, que é realização espiritual, podem converter-se as imperfeições, as
paixões e as qualidades mais baixas e vis dos homens naquela perfeição ideal da qual o
ouro é símbolo mais adequado.
Como esta chave é relativamente fácil para nós entendermos a misteriosa linguagem que
os alquimistas utilizam em suas obras, e como a própria personalidade do homem é o
athanor, mantido ao calor constante de um ardor duradouro, onde devem desenvolver-se
todas as operações.
O parentesco entre o simbolismo alquímico e o maçônico aparece com bastante clareza
no desenho que reproduzimos na página 17, extraído de uma ilustração da obra de
Basilio Valentin sobre o modo de fazer o ouro oculto dos filósofos, igualmente adotado
por outros autores.
A Grande Obra dos alquimistas, e aquela que procuramos em nossos simbólicos
trabalhos, apresentam, efetivamente, uma idêntica finalidade comum a todas as escolas
iniciáticas, seja no significado místico da realização individual, como numa iluminada e
bem dirigida ação social, que tem por objetivo o aprimoramento do meio e a elevação, o
bem e o progresso efetivo da humanidade.
TEMPLÁRIOS E ROSA-CRUZES
As tradições herméticas orientais encontram no Ocidente, durante a Idade Média e o
princípio da Idade Moderna, outros tantos canais para sua expressão nas muitas
sociedades e ordens místicas e secretas, que se manifestaram aqui e acolá, ainda que
aparentemente com diversa finalidade exterior, mas todas intimamente relacionadas
com a Tradição Iniciática e ligadas interiormente pela afinidade de seus meios de
manifestação e de uma identidade fundamental de orientação…
Entre estes movimentos, os dois mais conhecidos e que mais influenciaram a
Maçonaria, são a Ordem do Templo, que teve seu apogeu e seu período de esplendor no
século XIII, e a Fraternidade Rosa-Cruz que a influenciou especialmente no século
XVII.
A Ordem dos Cavaleiros do Templo nasceu das Cruzadas e do contato estabelecido por
ocasião destas, entre os cavaleiros vindos do Ocidente e as místicas comunidades
orientais depositárias de tradições esotéricas. Como Ordem, foi fundada em 1118 por
dois cavaleiros franceses, Hugues de Payens e Godefroid de St. Omer, com o fim de
proteger os peregrinos que iam a Jerusalém depois da Primeira Cruzada.
Os cavaleiros faziam os três votos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, como
as demais ordens religiosas, e a Ordem compreendia em si um corpo eclesiástico
próprio, dependente direta e unicamente do Grão Mestre da Ordem e do Papa. Assim, os
místicos segredos dos quais a Ordem se fez depositária, podiam ser guardados com toda
a segurança.
O segredo dentro do qual eram desenvolvidos as cerimônias de recepção e se
comunicavam os mistérios aos que se reputavam dignos e maduros para possuí-los, foi
o pretexto das acusações de imoralidade e heresia que se fizeram à Ordem, sendo em
realidade motivadas pela ignorância, o ciúme e a cobiça de sua imensa riqueza. Esta
última foi principalmente a razão que levou a Felipe o Belo, rei da França no ano de
1307, a prender sem prévio aviso a todos os Templários, que foram torturados e
julgados sumariamente pelo Tribunal da Inquisição, como preciso objetivo de acabarcom a Ordem, cujo fim foi tragicamente selado em 1314 com a bárbara morte infligida
a seu Grão Mestre Jacques de Molay, que foi queimado vivo diante da catedral de Notre
Dame de Paris (quatro meses depois da abolição da Ordem ter sido decretada por obra
do pontífice.
Também o movimento filosófico conhecido com o nome de Fraternitas Rosae-Crucis
teve sua origem no contato do Ocidente com o Oriente, e com as secretas tradições que
aqui puderam conservar-se mais livre e fielmente. Cristhian RosenKreutz, seu místico
fundador, nasceu segundo a tradição da qual se fala na Fama Fraternitatis, em 1378, e
ainda muito jovem viajou para Chipre, Arábia e Egito, aonde lhe foram revelados
muitos importantes segredos que levou consigo para a Alemanha, aonde fundou a
Fraternidade, destinada a reformar a Europa. Depois de sua morte foi sepultado
secretamente numa tumba preparada expressamente para ele, que devia permanecer
desconhecida para os membros da mesma Fraternidade, até que foi casualmente
descoberta, lendo-se mesma a inscrição: Post CXX anos patebo.
Esta estória, assim como os segredos e maravilhas que se encontram na tumba, é
evidentemente um simbolismo da Tradição Iniciática da Sabedoria, personificada pelo
mesmo Cristian Rosenkreutz, que vem do Oriente para o Ocidente, e é conservada
zelosamente em sua tumba hermética, onde a buscam e encontram seus adeptos, os fiéis
buscadores da Verdade.
Quanto à influência destes dois movimentos sobre a Maçonaria, que é a que neste
momento mais nos interessa, é certo que não somente muitas tradições templárias e
rosa-cruzes encontram seu caminho em nossa Ordem, senão que também esta se fez a
intérprete e natural herdeira de seus objetivos ideais e da Grande Obra que constitui o
objeto de todas as diferentes tendências. Hermetistas, templários, rosa-cruzes e
filósofos, sempre se confraternizaram com os maçons, e desta comunhão espiritual
nasceu a Maçonaria conforme hoje a conhecemos.
ESPÍRITO, ALMA E CORPO
Podemos considerar estas fraternidades e movimentos, como a alma multiforme do
Espírito Uno da Tradição Universal, que veio diretamente e sem interrupção até nós
provindo dos antigos Mistérios. Assim, no que diz respeito a seu espírito iniciático
como à tradição que a anima (e da qual é herdeira e continuadora), as origens de nossa
Instituição não podem ser mais gloriosas, sendo nós, como Maçons, os herdeiros dos
antigos Reis-Sacerdotes (simbolizados por Melchisedeck e Salomão) e dos Grandes
Iniciados de todos os Tempos.
E no que se refere ao corpo no qual esta Alma tradicional encarnou – isto é, a forma que
domina exteriormente nossa Instituição, que foi tomada particularmente da Arte de
Construir -, nossas origens não são menos gloriosas, já que se relacionam diretamente
com a fonte de toda civilização, como a causa se relaciona com o seu efeito natural.
Conhecemos, pelo estudo que temos feito nas páginas precedentes, algo de sua alma,
que é tradição e Finalidade, comuns às diferentes ordens, escolas, movimentos,
sociedades e comunidades que acabamos de examinar – uma Alma formada pelas mais
elevadas aspirações humanas e expressada constantemente em termos de compreensão,
tolerância e amor fraternal. Vejamos agora como também o corpo exterior da Instituição
tem suas origens nos tempos da mais remota História e da pré-história humana, tendodeixado seus vestígios em todas as grandes obras e monumentos que até nós chegaram
das épocas passadas.
A “ARS STRUCTORIA”
Entre todas as artes, a Arquitetura tem sido venerada e praticada em todos os tempos
como uma arte especialmente Divina. Não devemos maravilhar-nos da especial
consideração em que sempre foi tida, por estar a construção material intimamente
relacionada com a forma exterior de toda civilização, da qual pode-se considerar ao
mesmo tempo como causa, meio, condição necessária e expressão natural.
A casa representa o princípio da vida civil e não carece de razão sem dúvida, que a
segunda letra do alfabeto hebraico (que constitui a inicial da palavra sagrada do
Aprendiz) signifique exatamente “casa”, derivando sua forma do hieróglifo simbólico
da mesma. A Casa representa assim à primeira letra ou o princípio da civilização,
enquanto sua interpretação esotérica em relação às demais letras da Palavra dá outro
significado mais próprio para o Aprendiz, que estudaremos mais adiante.
Quando os homens tiveram casas ou abrigos protetores, e quando os muros das cidades
constituíram para estas a base de sua segurança, foi quando puderam desenvolver as
artes, as ciências e as instituições sociais.
Então, elevando-se a atenção e as aspirações dos homens, do reino dos efeitos para o
das causas, ou da aparência exterior à realidade interior que nela se esconde e a anima,
foi quando nasceu a idéia e sentiu-se a necessidade de construir um Templo, de levantar
um edifício ou símbolo exterior do reconhecimento interior da Causa Transcendente,
dos efeitos visíveis.
Esta aspiração interior constitui o princípio de toda iniciação, ou ingresso, numa forma
superior de pensar, de ver e de considerar as coisas. Portanto, podemos dizer que a
Maçonaria teve tanto moral como materialmente origem no primeiro Templo que se
levantou em reconhecimento à Divindade, e que o primeiro maçom foi quem o
levantou, apesar do rude e elementar que foi esse Templo primitivo, que bem pode ter
consistido de uma única coluna, ou tronco de pedra ou de madeira, cuja tradição foi
perdida em seguida nos obeliscos.

MAÇONARIA OPERATIVA E MAÇONARIA ESPECULATIVA

É evidente, pois, que o elemento espiritual (especulativo ou devocional) e o material
(operativo ou construtivo) encontram-se intimamente unidos desde o momento em que
o primeiro se concebeu e se realizou a idéia de um Templo, como símbolo exterior de
um reconhecimento interior, e que a Maçonaria, surgiu espontaneamente desta idéia de
levantar ou estabelecer um símbolo à Glória do Princípio ou Realidade interiormente
reconhecidos, pois se os Maçons no sentido material foram “construtores” em geral,
sempre tem sido mais particularmente os que tem elevação Templos para o espírito.
Tendo presentes estas considerações, não há nada de surpreendente na transformação da
maçonaria operativa em especulativa, isto é, de como uma Instituição Moral e
Filosófica tenha podido desenvolver-se sobre uma arte material, tomando o lugar das
corporações medievais e continuando-as.
Ambos os elementos – operativo e especulativo – estiveram juntos desde o princípio, e
isto evidencia-se no desenvolvimento cíclico que faz prevalecer, conforme os momentoshistóricos e as necessidades de uma época, uma ou outra tendência, um ou outro destes
dois aspectos da nossa Instituição, tão inseparáveis como as duas colunas que dão
acesso a nossos Templos.
Além de que constitui o selo de sua origem, a construção em geral e a de um templo em
particular – prestou-se sempre e atualmente ainda se presta admiravelmente como
símbolo interpretativo da atividade da Natureza, podendo-se considerar o Universo
como uma Grande Obra, como um Templo e ao mesmo tempo uma Oficina de
Construção, dirigida, inspirada e atualizada por um Princípio Geométrico, cujas
diferentes manifestações são as leis naturais que o governam e as forças que, segundo
estas leis, produzem diferentes efeitos visíveis.
Esta obra de construção pode o homem observá-la em si mesmo, em seu próprio
organismo físico (muitas vezes comparado a um templo), assim como em sua íntima
organização espiritual, no mundo interior de suas idéias, pensamentos, emoções e
desejos. Todo homem vem a ser assim, um microcosmos ou “pequeno universo” e um
Templo (análogo ao Grande Templo do Universo que constitui o Macrocosmos),
individualmente erguido “a Glória” do Princípio Divino ou Espiritual que o anima.
Com esta Obra Universal que se desenvolve igualmente dentro e fora de nós, na qual
todo ser participa geralmente de forma inconsciente com sua própria vida e atividade, o
Maçom – ou seja o iniciado nos Mistérios da Construção – tem o privilégio e o dever de
cooperar conscientemente, convertendo-se em obreiro inteligente e disciplinado do
Grande Plano que constitui a evolução.
Assim, pois, a Ars Structoria é, para quem sabe interpretá-la e realizá-la, a verdadeira
Ciência e Arte Real da Vida, o Divino privilégio dos iniciados que a praticam
especulativa e operativamente; dois aspectos intimamente unidos e inseparáveis, ainda
que possam manifestar-se de diferentes formas, conforme a evolução particular do
indivíduo. E não há altura ou elevação do pensamento ou do plano da consciência
individual que não possa ser interpretado, ou ao qual não possam utilmente aplicar-se as
alegorias, os emblemas e os instrumentos simbólicos da Construção.

AS CORPORAÇÕES CONSTRUTORAS

Nenhuma atividade, arte ou obra importante pode ser o resultado dos esforços e da
experiência de um indivíduo isolado. Por conseqüência, os primeiros construtores
tiveram, necessariamente, que agrupar-se, fosse para a aprendizagem e o
aperfeiçoamento, aonde a experiência dos demais pudesse ser aproveitada, fosse para o
exercício e a prática regular da Arte, agregando-se cada um a outros membros como
ajudantes ou aprendizes, que deveriam cooperar nas mais rudes tarefas sem entretanto
conhecer os princípios e segredos, que se adquirem com o tempo, com o esforço e com
a aplicação.
A divisão em Aprendizes, Companheiros e Mestres, teve de ser espontânea em qualquer
grupo de obreiros com intenção construtiva, devendo-se distinguir os braçais e noviços,
que não podiam dar mais que sua força, sua boa vontade e suas faculdades ainda
indisciplinadas, dos obreiros, que já conheciam os princípios da arte e cuja atividade
podia ser utilizada mais proveitosamente. Estes obreiros diferenciavam-se, por sua vez,
daqueles outros consumados ou perfeitos que já dominavam esses princípios e estavam
capacitados a executar qualquer obra, assim como, a dirigir a ensinar aos demais.Como a unidade de uma tarefa sempre uma correspondente unidade de conceito e de
direção, é óbvio também, que estas três categorias tiveram de manter-se fielmente
disciplinadas (no duplo sentido intelectual e moral da palavra disciplina, isto é, tanto na
teoria como na prática) sob uma Autoridade reconhecida como tal, por sua experiência e
conhecimento superior, eleita ou proposta sobre eles, o Mago por excelência, ou
Arquiteto, a cuja iniciativa e direta responsabilidade encomendava-se evidentemente a
obra, um Mestre Venerável entre os Mestres da Arte, ao qual todos os demais deviam
respeito e obediência.
Assim, toda a corporação construtora ou agrupamento de obreiros para um fim
determinado deve ter-se constituído espontaneamente à semelhança de nossas Lojas,
sendo ainda necessário além do Mestre Arquiteto, diretor da Obra, um ou dois
Vigilantes que o Ajudaram e puderam substitui-lo em caso de necessidade, e outros
membros que tiveram cargos e atribuições especiais, diferentes dos demais.
A primeira loja foi constituída, consequentemente, pelo primeiro grupo de construtores
que uniram disciplinadamente seus esforços para alguma obra importante, ou para a
realização de um Ideal comum. E como as regras morais são necessárias para a ordem, a
disciplina e a eficiência em toda atividade material, é evidente que estas devem ter sido
inseparáveis das normas e regras próprias da Arte. O conjunto destas normas e regras,
que constituíam uma necessária disciplina para os que eram admitidos a tomar parte na
Obra, ou como membros da corporação, formou a característica da Ordem, pois, sem ela
não poderia ter existido nenhuma ordem verdadeira e a aceitação desta disciplina deve
ter naturalmente sido exigida como condição preliminar para admissão na Ordem.

A “RELIGIÃO” DOS CONSTRUTORES

Nas especulações, cultos e tradições primitivas, tudo tende à unidade: poderes e
atribuições que hoje se distinguem cuidadosamente como por exemplo o eclesiástico e o
civil, o legislativo, e o judiciário, estavam ontem em mãos de uma mesma autoridade.
Assim, o mundo antigo deu-nos o exemplo dos Reis-Sacerdotes que tomavam para si
diferentes representações e poderes que hoje são consideradas inteiramente suprimidos.
Igualmente a Religião formava então parte da vida, e as instituições civis e religiosas
entrelaçavam-se mutuamente, constituindo um conjunto quase inseparável. Por isso, nas
primitivas corporações construtoras, o elemento religioso-moral deve ter sido
considerado como formando uma unidade com o elemento artistico-operativo,
desenvolvendo e transmitindo-se igualmente nestas corporações, os segredos da arte e
certas especiais tradições religiosas.
Note-se, a este respeito, que a própria palavra religião identifica-se, em seu significado
original, com a tradição, indicando simplesmente “o que é legado ou se transmite”.
Também nesse mesmo sentido, a Maçonaria é religião ainda que não uma religião: a
religião operativa e especulativa, simbólica e iniciática, nascida espontaneamente nas
primeiras corporações construtoras, à medida em que seus adeptos se esforçavam em
divinizar sua Arte, convertendo-se em veículos e meios dos quais pode aproveitar-se a
Hierarquia Oculta para seus ensinamentos, encontrando nesse meio em terreno
particularmente fértil para semear a mística semente da Sabedoria.
Também o caráter particular das corporações que se especializaram na construção de
Templos fez com que estas se identificassem, nas diferentes épocas da história, com
distintas tradições religiosas, e em alguns casos com os próprios Mistérios (aos quaisalguns entre eles devem ter sido admitidos como participantes), e não há como
maravilhar-se se assimilaram muitos ensinamentos esotéricos, transmitidos como
patrimônio secreto entre os mestres da Arte.
Fora da dúvida está que, em qualquer período da História, as corporações construtoras
aparecem como possuidoras de segredos e alegorias, alguns dos quais provêm de uma
época remotíssima, e outros representam antiquíssimas tradições revestidas de nomes e
formas simbólicas mais recentes. Enquanto que, por outro lado, bem sabemos que todas
tiveram regras e modalidades particulares para a dupla transmissão do segredo material
da arte e de sua interpretação especulativa, assim como para a admissão de candidatos
como aprendizes, exigindo-se serem “livre e de bons costumes”, dando provas definidas
de moralidade, diligência e capacidade para a obra.
Esta “religião dos construtores” teve de ser uma religião eminentemente moral, isto é,
uma ética individual aplicada à vida, como é demonstrado pela Tradição Maçônica, que
mais diretamente lhe dá continuidade.
O GRANDE ARQUITETO
O conceito de um Grande Arquiteto, ou Princípio Divino Inteligente que constitui o
foco espiritual e a Base Imanente da Grande Obra da Construção particular e universal,
tem representado sem dúvida, em todos os tempos, o fundamento da Religião dos
Construtores.
Este mesmo conceito constitui o Princípio Cardinal da Maçonaria Moderna, pois não
possuem valor maçônico os trabalhos que não forem feitos “a glória” deste Princípio,
isto é, com o fim de que a espiritualidade latente em todo o ser e em toda a coisa,
encontre por meio dos mesmos sua expressão ou manifestação mais perfeita.
Trata-se, sem dúvida, de um conceito iminentemente iniciático, isto é, no qual
ingressamos progressiva e gradualmente à medida em que nossos olhos espirituais se
abrem à luz maçônica. Assim pois, enquanto no princípio é dada a cada maçom a
liberdade de interpretar esta expressão de Grande Arquiteto conforme suas particulares
idéias filosóficas, opiniões e crenças (teístas e ateístas, considerando-se neste último
caso o Grande Arquiteto como expressão abstrata da Lei Suprema do Universo),
posteriormente, será conduzido gradualmente, por meio de seu próprio trabalho interior
ou do esforço pessoal com o qual obtém todo progresso, a um reconhecimento mais
perfeito, a uma realização mais íntima e profunda deste Princípio, ao mesmo tempo
imanente e transcendente, que constitui a base e a essência íntima de tudo o que existe.
Ao redor desta idéia central (cujo caráter iniciático a diferença de todo conceito ou
crença dogmática) tem-se agrupado, como em torno de seu centro natural, as diferentes
tradições, símbolos e mistérios que constituem outras tantas aplicações e expressões do
Princípio Fundamental à interpretação da vida e a seu aperfeiçoamento.
Desta maneira, sem impor opinião ou crença alguma, mas deixando a cada um a
liberdade de interpretar esta expressão simbólica segundo sua particular educação e suas
convicções todos são naturalmente conduzidos para uma mesma Verdade, esforçando-se
em penetrar cada um mais interiormente, chegando ao fundo de sua própria visão e
crença, que (como todas) tem de ser tolerada, respeitada e interpretada como um dos
infinitos caminhos que conduzem à Verdade.

AS PRIMEIRAS CORPORAÇÕES

Esta digressão sobre um dos pontos fundamentais da Maçonaria, tem nos parecido
necessária para mostrar o caráter iniciático, eclético e universal da Ordem em seus
próprios conceitos e símbolos em aparência mais vulgares, mas que encerram em si um
propósito e uma profunda doutrina.
Voltando ao nosso tema, sobre as origens maçônicas, resta-nos traçar sumariamente a
história das corporações construtoras desde as primeiras civilizações até os nossos dias.
As pegadas das antigas corporações construtoras encontram-se em todos os povos que
nos deixaram alguma notícia de sua experiência. Entre os mais antigos e importantes
monumentos que restam de antigas civilizações, devemos ressaltar as pirâmides do
Egito. A princípio, foram consideradas tumbas magníficas dos reis, mas um estudo mais
atento tem revelado que se trata de monumentos simbólicos, nos quais e próximo aos
quais, com toda probabilidade, desenvolveram-se ritos e cerimônias iniciáticas.
Isto parece particularmente certo com respeito à Grande Pirâmide, cujas medidas e
proporções calculadas escrupulosamente tem sido reveladas em seus arquitetônicos
conhecimentos geográficos, astronômicos e matemáticos, não menos exatos que os que
se consideram exclusiva conquista dos nossos tempos. É suficiente dizer que a unidade
de medida desta pirâmide, o côvado sagrado (que pode ser identificado com a régua
maçônica de 24 polegadas) é exatamente a décima milionésima parte do raio polar
terrestre, uma medida mais justa e mais exatamente determinada que o metro, base de
nossos sistema. Seu perímetro revela um conhecimento perfeito da duração do ano; sua
altura, a exata distância da Terra ao Sol, e o paralelo e o meridiano que se cruzam em
sua base constituem o paralelo e o meridiano ideais, uma vez que atravessam a maior
parte das terras. Por outro lado, a precisão com a qual estão cortados e dispostos os
enormes blocos de pedra de que se compõem, daria muito o que pensar a um engenheiro
moderno que quisesse imitar estas obras.
Apesar do Egito ter sempre sido considerado como a terra clássica da escravidão, já que
realmente em épocas posteriores os obreiros dirigidos pelos sacerdotes não tinham
nenhuma liberdade ou iniciativa, muito difícil admitir que uma obra como a Grande
Pirâmide – obra caracteristicamente maçônica – tenha sido outra coisa que a Obra
Mestra da mais sábia e celebrada corporação construtora de todos os tempos. Além
disso, é possível que nossa Era Maçônica (que começa no ano 4000 A. C. e que vem de
antigas tradições) date precisamente da construção da Grande Pirâmide, que alguns,
entretanto, consideram mais recente em quanto outros, por sua vez, julgam mais antiga.
Outra importante construção da antigüidade, além dos templos cujos traços se
encontram esparsos pela Terra, parece ter sido a Torre de Babel, de bíblica memória,
diferenciando-se esta construção da precedente pelo emprego de tijolos em lugar de
pedras cortadas, e de outro material em vez de cal. O mito da confusão das línguas antes
da conclusão da obra, e da conseqüente dispersão das corporações de construtores que
se reuniram para executá-la, dá muito o que pensar ao estudante das tradições antigas.

OS CONSTRUTORES FENÍCIOS

Em épocas mais recentes (cerca de 1000 anos A. C.), encontramos as corporações e a
obra de Construtores Fenícios em todos os países do Mediterrâneo nos quais este povo
estabeleceu suas colônias e a influência de sua civilização.Estas corporações viajavam, evidentemente, de um país a outro conforme delas se
necessitava e solicitado era o seu concurso, erguendo com igual habilidade e facilidade
templos e santuários para os diferentes cultos e mistérios, ainda que sempre erigidos
conforme o mesmo tipo fundamental, que revela, nas obras das idênticas corporações ou
de corporações afins, uma mesma identidade de conceitos.
Podemos considerar como um exemplo típico (e como obra simbolicamente mestra dos
construtores fenícios) o Templo de Jerusalém, erigido na época indicada no livro das
Crônicas (cerca de 1000 anos A. C.) pelos obreiros que Hiram, rei de Tiro, enviou a
Salomão para este efeito, construção sobre a qual é baseada nossa atual tradição
maçônica.

CONSTRUTORES GREGOS E ROMANOS

Na Grécia, as corporações formaram-se, sem dúvida, à influência e semelhança das
fenícias, e dedicaram-se especialmente à construção de templos, tomando o nome de
dionisíacas, relacionando-se evidentemente com os Mistérios homônimos em honra a
Iaco ou Zéus Nisio.
A arquitetura grega, caracterizada pelo uso da arquitrave (em vez do arco empregado
posteriormente pelos romanos), tem, por sua singeleza hierática, muita analogia com a
egípcia, da qual se diferencia pela graça e a esbelteza que substituem à poderosa
majestade daquela. Seus três estilos, dórico, jônico e coríntio, que se distinguem pela
forma dos capitéis e das decorações que os acompanham, são caracteristicamente
emblemáticos dos três graus maçônicos. E a Maçonaria Simbólica pode muito bem
comparar-se, alegoricamente, à Arquitetura Grega, correspondendo perfeitamente suas
três câmaras às três ordens fundamentais desta.
Á semelhança de ditas corporações de obreiros dionisíacos, Numa Pompílio, o rei
iniciado de Roma, instituiu, segundo a tradição, os collegia fabrorum que, como nos
precedentes, tinham seus próprios mistérios e guardavam e transmitiam com os
segredos da Artes, certos segredos e tradições de natureza religiosa. Como as Lojas
Maçônicas, estavam dirigidos por um triângulo (como é testemunhado pela clássica
expressão três faciunt collegium, formados por um Magister e dois Decuriões,
compreendendo três graus análogos aos atuais, usando uma especial interpretação
emblemática de seus instrumentos.
Estes colégios estenderam-se depois por todo o império, percorrendo como forças
construtoras o caminho das legiões e levantando, onde quer que fossem, aqueles
monumentos e edifícios dos quais ainda restam múltiplos vestígios.
Já no século primeiro antes de Cristo, várias destas corporações passaram a estabelecer-
se na Gália, Alemanha e Inglaterra, onde construíram especialmente campos
atrincheirados que depois se converteram em cidades (o termo inglês chester, dos nomes
de muitas localidades revela de forma clara sua origem latina, de castrum,
“acampamento”).

AS CORPORAÇÕES MEDIEVAIS

Com o triunfo do Cristianismo, que se converteu em religião oficial durante o último
período do Império Romano, enquanto os Mistérios tiveram de desaparecer, os collegia
fabrorum resolveram adaptar suas tradições pagãs à nova fé, e isto foi feito muito
habilmente, substituindo-se pela lenda da construção do Templo de Salomão outratransmitida anteriormente, e pelos nomes de santos e personagens cristãos os antigos
deuses pagãos. Nasceu assim um São Dionísio, em lugar do homônimo deus grego (o
Baco dos latinos), e São João foi honrado como protetor da Ordem, em lugar do antigo
deus bifronte Janus.
Assim renovada, a tradição dos antigos colégios romanos seguiu no Oriente a sorte do
Império Bizantino, adaptando-se depois, com igual facilidade, à fé islâmica, enquanto
no ocidente, com a queda do Império e a invasão dos vândalos e dos godos, encontrou
um asilo seguro numa pequena ilha, perto da cidade italiana de Como, na Lombardia
(país assim denominado em conseqüência da invasão longobardos, “os de longa
barbas”, de onde tomaram seu nome os magistri comacini, que deram origem àquele
estilo proveniente do romano, chamado românico, que fez sua primeira aparição por
volta do ano 600 e continuou dominando por vários séculos depois o estilo na Itália e
nos países contínuos, até que o estilo gótico, produzido pelas corporações nórdicas,
obteve depois o predomínio.
Nas obras destes artistas encontramos vários símbolos maçônicos, e a expressão de uma
singular independência do pensamento que é revelada pelas curiosas e mordazes sátiras
contra o Igreja, gravadas com uma audácia surpreendente nas próprias esculturas das
catedrais. Apesar do hermético segredo com que guardavam suas tradições e crenças,
parece que estas corporações (que existiam em várias cidades da Itália, entre outras em
Siena, desde o século XI) não era estranho o conhecimento de um G. A. D. U., nem a
lenda de Hiram.
No fervor religioso que caracterizou este período, algumas ordens monásticas da Igreja
também se dedicaram, especialmente na França e na Alemanha, à Arte de Construir,
levantando templos com a ajuda dos obreiros nômades que encontravam, contribuindo
assim, indiretamente, para a organização destes em corporações que depois tornaram-se
independentes.
Por obra e esforço das corporações independentes que se formavam em diversos países,
nasceu então, e rapidamente se afirmou, o chamado estilo gótico, que converte o
simples arco romano e românico em ogival, magnífico símbolo do fervor religioso e das
mais ardentes aspirações humanas que se levantam, como cântico majestoso, da terra ao
céu. Nos dois estilos orientais, árabe e russo, encontramos um desenvolvimento ulterior
desta idéia que fez evoluir o arco gótico do romano, com a curvatura especial que
caracteriza estes estilos.
Estas corporações dedicadas especialmente à arte gótica, constituíram na Inglaterra os
guilds de obreiros; na França o compagnonnage (dos quais existiam três seções
diferentes que tomavam o nome, respectivamente, de filhos de Salomão, de Mestre
Jacques e de Mestre Soubise) e na Alemanha as oficinas e uniões de canteiros
(Steinmtzen), entre as quais tomou justo renome aquela que levantou a Catedral de
Estrasburgo, erigida no século XV.
Os documentos que delas nos chegam, provam que os obreiros achavam-se divididos
em aprendizes, companheiros e mestres, que se reuniam em pequenas casas e
empregavam de uma maneira emblemática os instrumentos de sua profissão, levando-se
consigo como insígnias. Além disso, reconheciam-se por meio de palavras e sinais que
chamavam saudações. Os neófitos eram recebidos com particulares cerimônias e
juravam o mais profundo segredo sobre o que ia ser-lhes comunicado e ensinado.A palavra maçom (do latim medieval “macio”, equivalente de canteiro, de onde teve
origem igualmente o termo alemão Metzen) parece que foi usada pela primeira vez no
século XIII, sendo exportada da França para a Inglaterra. A expressão franco maçom
(maçom franqueado ou livre de impostos) aparece por primeira vez em 1375.
A origem desta última palavra tem sido relacionada aos privilégios especiais e isenções
concedidas pelos pontífices Nicolas III e Benito XII, em vista da reconhecida
moralidade destas corporações e das obras piedosas a que elas se dedicavam como
construtoras de igrejas. Mas o real significado originário deste atributo de francos ou
livres (em inglês “freemasons”) é um assunto todavia discutido e discutível.

OS MAÇONS “ACEITOS”

Debilitando-se depois, no século XVII, com o renascimento clássico e a corrupção da
Igreja (que ocasionou a reforma e as novas teorias filosóficas), o fervor religioso dos
séculos passados, a arte sagrada teve necessariamente que decair, e com ela as
corporações de maçons operativos que desta atividade extraiam sua razão de ser sua
subsistência.
Mas aqui e ali, e especialmente na Inglaterra, algumas delas subsistiram, se bem que de
forma muito reduzida, passando natural e gradualmente da atividade construtiva que
ocasionou sua formação, até se ocupar exclusivamente dos assuntos que antes eram para
eles de secundária importância, como por exemplo o estudo e a beneficência.
Sem dúvida contribuiu notavelmente para esta nova orientação de atividade das lojas a
admissão que foi feita desde então, sempre mais liberal e numerosa (conforme ia
decrescendo seu valor como associações profissionais) de maçons aceitos (accepted
freemasons), isto é, membros honorários que nunca tinham exercido uma profissão
relacionada com a arte de construir.
Os novos associados, muitas vezes homens de estudo e filósofos eminentes, influíram
largamente nestes agrupamentos de antigos construtores, os quais chegaram facilmente
a dirigir. Foi assim que as lojas maçônicas profissionais transformaram-se naturalmente
em lojas de maçonaria especulativa, nascendo dessa maneira a Maçonaria como
atualmente conhecemos. E assim também, muitas doutrinas e tradições iniciáticas e
místicas, de diferente origem ou descendência, passaram a incorporar-se à nascente, ou
melhor dizendo, renascente instituição. As tradições templárias e rosa-cruzes, em
especial, tiveram parte importante nesta transformação. Enquanto as lojas Maçônicas
encontravam naquelas doutrinas, a alma que lhes infundia uma vida nova, estas
encontraram naquelas o corpo, o veículo ou o meio exterior mais conveniente à sua
expressão, o que de outra forma poderia ocorrer de modo estéril e deficiente.
Com o século XVII termina assim o estudo das origens maçônicas; desde o XVIII
começa a sua história como instituição moderna preparando-se o futuro, temas dos quais
falaremos nos dois “Manuais” que se seguem, desta mesma série.

A “LOJA DE SÃO JOÃO”

O problema das origens maçônicas acha-se delineado e resolvido sinteticamente em
poucas palavras na pergunta ritual do Ven. Mestre a todo irmão visitante: De onde
vens?, e na resposta deste: De uma Loja de S. J. justa e perfeita.Esta pergunta é fundamental para o Aprendiz e, à semelhança de Édipo, deve esforçar-
se em respondê-la satisfatoriamente, buscando em si mesmo a solução do problema das
origens: a origem de seu ser e do universo que o rodeia.
Que representa, pois, para os maçons a expressão “Loja de S. J.”?
Já sabemos que a Tradição Maçônica guarda uma relação profundamente íntima com a
Tradição Joanita ou mística do Cristianismo (como é claramente demonstrado pela
superposição de nossos instrumentos sobre a primeira página do Evangelho de S. J., que
representa a Tradição Cristã mais pura, assim como as Tradições Gnósticas e iniciáticas
anteriores).
Igualmente sabemos que S. J. foi tomado como patrono pelas Corporações Construtoras
da Idade Média, e conhecemos também, o uso – que remonta a uma época remotíssima –
de festejar os dois solstícios, cujas datas coincidem respectivamente com as festas
cristãs de S. J.
Estas mesmas festas celebravam-se também antes do cristianismo, sendo, em época
próxima aos romanos, em honra a Janus, o deus de duas faces que muito bem simboliza
a Tradição, estando uma das faces constantemente voltada ao passado e outra ao futuro.
Este nome relaciona-se etimologicamente com o latim janua, “porta”, de onde vem
igualmente o latim januarius, “janeiro”. É interessante notar a este respeito que “porta” é
também o significado originário da letra grega delta (do semítico daleth), representa por
um triângulo, e que a antiga porta das iniciações, era triangular.
Este deus presidia todos os inícios (em latim initium, de onde também initiare, “iniciar”)
e, em particular, o do ingresso do Sol nos dois hemisférios celestes, e a própria iniciação
cuja chave possuía e guardava. Agora, é evidente que o nome Janus tem também em sua
forma latina, uma semelhança singular com João (Johannes) e não foi por acaso que este
último foi colocado no exato lugar do primeiro.
Por outro lado, o hebraico Jeho-hannam ou João significa “Graça ou favor de Deus”,
isto é, homem iluminado ou iniciado. Assim é que a justo título pode este último ser
chamado irmão ou discípulo de S. J.. A importância iniciática desta escolha tornar-se
mais evidente por esta dupla ou bifronte etimologia: a primeira pagã ou voltada ao
passado (tradição iniciática da qual constitui a porta ou passagem, e a outra, cristã ou
voltada para o futuro (os eleitos ou favorecidos de Deus que continuam e darão
prosseguimento à tradição por todos os séculos).
A expressão Loja de S. J. vem a ser assim, um nome simbólico de toda união ou
agrupamento de iniciados, de homens iluminados e favorecidos espiritualmente,
aplicando-se, em sua acepção mais geral, a todos os que são admitidos nos Mistérios e
mais particularmente aos verdadeiros II S. J., os Mestres da Sabedoria que constituem a
Grande Loja Branca, a mais justa e perfeita “Loja de S. J.”, na qual devemos buscar a
inspiração e a origem profunda e verdadeira de nossa Ordem.

A INICIAÇÃO SIMBÓLICA
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

cerimônia através da qual são recebidos os candidatos em nossa Associação, é uma
pura fórmula arbitrária ou existe nela um significado e uma importância que escapam à
observação superficial, e se revelam a uma consideração mais cuidadosa e a um estudo
mais profundo?
Está pergunta cada maçom tem o privilégio de responder individualmente na proporção
de seu entendimento, e a iniciação, assim como a Maçonaria de modo geral, serão para
ele o que ele mesmo nelas reconhecer e realizar. Será esta uma sociedade mundana, e
aquela uma simples cerimônia exterior, para quem as considerar com espírito profano e
mundano. Será uma Instituição Iniciática e uma cerimônia simbólica (cuja compreensão
despertará seu espírito) para quem a estudar e considerar com o propósito de encontrar a
verdade: Realidade profunda que constantemente se oculta sob a aparência exterior das
coisas.
Para isto é necessário examinar e estudar os diferentes elementos que compõem esta
cerimônia, buscando o íntimo significado de cada um deles e seu valor em termos de
vida, para aplicação operativa no místico Caminho da existência ao qual deve ser
relacionado, para que a cerimônia possa ser individualmente vivida e realizada, e para
que aquele que foi recebido Maçom, de uma forma puramente formal e simbólica, se
torne efetivamente isso, transformando-se, com o esforço individual, de pedra bruta em
pedra lavrada ou filosófica, do estado de homem escravo de seus vícios, erros e paixões,
em Obreiro Iluminado da Inteligência Criativa que mora em seu coração, e no do
mundo exterior.
Por intermédio deste estudo veremos como as duas características fundamentais de
nossa Instituição (a iniciática e simbólica) estão perfeitamente expressadas na cerimônia
de recepção do Aprendiz, e como, neste grau, se resume todo o programa da Maçonaria.
Assim, na mesma cerimônia, encontram-se alegoricamente reunidos todos aqueles
elementos cuja íntima compreensão e prática realização fazem operativa a cerimônia da
iniciação.
SIGNIFICADO DA INICIAÇÃO
Ao alcançarmos este ponto, a primeira coisa que se faz necessária é compreender o
significado da palavra iniciação e como deve ser interpretada.
Iniciação é uma palavra oriunda do latim initiare, que tem a mesma etimologia de
initium, “início ou começo”, provindo as duas de interesse, “ingresso em” e de “começo
ou princípio de” uma nova coisa. Em outras palavras, iniciação é a porta que conduz a
adentrar num novo estado moral ou material, no qual se inicia ou começa uma nova
maneira de ser ou de viver.
Este novo estado, esta maneira de ser e viver, é que caracterizam o “iniciado” e o
distinguem do profano, enquanto o primeiro, tendo nele ingressado, conhece-o por
dentro, enquanto fica fora dele, fora do Templo da Sabedoria ou de um real
conhecimento da Verdade e da Virtude, das quais reconhece unicamente os aspectos
profanos ou exteriores que constituem a moeda corrente do mundo.
Assim pois, esta admissão não é nem pode considerar-se unicamente como material;
não é nem ser e somente a recepção ou aceitação de uma determinada associação, ao
contrário, deve considerar-se, inicial e fundamentalmente, como o ingresso em um novoestado de consciência, e num modo de ser interior, do qual a vida exterior é efeito e
conseqüência.
É necessária, em outros termos, uma palingenesia, um nascimento ou renascimento
interior, uma transformação ou transmutação do íntimo estado de nosso ser, para
efetivamente iniciar-se, ou ingressar numa nova visão da realidade: aquela nova maneira
de pensar, viver, falar e agir que caracteriza o Iniciado e o Maçom verdadeiro.
Por esta razão, o símbolo fundamental da iniciação é o da morte, como preliminar para
uma nova vida; a morte simbólica para o mundo ou para o estado “profano” necessário
para o renascimento iniciático; ou seja a negação dos vícios, erros e ilusões que
constituem os “metais” grosseiros ou qualidades inferiores da personalidade, para a
afirmação da Verdade e da Virtude, ou da íntima Realidade, que constitui o ouro puro
do Ser, a Perfeição do Espírito que em nós habita e se expressa em nossos Ideais e em
nossas Aspirações mais elevadas.

A CÂMARA DAS REFLEXÕES

A Câmara das reflexões não representa unicamente a preparação preliminar do
candidato para sua recepção, mas é principalmente aquele ponto crítico, aquela crise
interior, onde começa a palingenesia que conduz à verdadeira iniciação, à realização
progressiva, ao mesmo tempo especulativa e operativa, de nosso ser e da Realidade
Espiritual que nos anima, simbolizada pelas viagens.
A Câmara das reflexões, com seu isolamento e com suas negras paredes, representa um
período de obscuridade e de maturação silenciosa da alma, por meio de uma meditação
e concentração em si mesma, que prepara o verdadeiro progresso efetivo e consciente
que depois tornar-se-á manifesto à Luz do dia. Por esta razão, encontram-se nela os
emblemas da morte e uma lâmpada sepulcral, e acham-se sobre suas paredes, inscrições
destinadas a pôr à prova a sua firmeza de propósitos e a vontade de progredir que tem
de ser selada num testamento.
Ao ingressar neste quarto (símbolo evidente de um estado de consciência
correspondente), o candidato tem de despojar-se dos metais que porta consigo e que o
Experto recolhe cuidadosamente. Tem de voltar a seu estado de pureza original – a
nudez adâmica – despojando-se voluntariamente de todas aquelas aquisições que lhe
foram úteis para chegar até o seu estado atual, mas que constituem outros tantos
obstáculos para seu progresso ulterior.
Deve cessar de depositar sua confiança e cobiça nos valores puramente exteriores do
mundo, para poder encontrar em si mesmo, realizar e tornar efetivos os verdadeiros
valores, que são os morais e espirituais. Deve cessar de aceitar passivamente as falsas
crenças e as opiniões exteriores, com o objetivo de abrir seu próprio caminho para a
verdade.
Isto não significa absolutamente que tem de despojar-se de tudo o que lhe pertence e
adquiriu como resultado de seus esforços e prêmio de seu trabalho, mas, unicamente,
que deve deixar de dar a estas coisas a importância primária que pode torná-lo escravo
ou servidor delas, e que deve pôr, sempre em primeiro lugar, sobre toda a consideração
material ou utilitária, a fidelidade aos Princípios e às razões espirituais. Este despojo
tem por objetivo conduzir-nos para sermos livres dos laços que de outra forma
impediriam todo nosso progresso futuro. Trata-se, portanto, em essência, do despojo detodo apego às considerações e laços exteriores, com a finalidade de que possamos ligar-
nos à nossa íntima Realidade Interior, e abrir-nos à sua mais livre, plena e perfeita
expressão.

“LIVRE E DE BONS COSTUMES”

Ser “livre e de bons costumes” é a condição preliminar que é pedida ao profano para
poder admiti-lo em nossa Ordem, condição necessária tanto de todo progresso moral
como espiritual, de toda evolução na senda da Verdadeira Luz, ou ainda, da Verdade e
da Virtude.
Livre dos preconceitos e dos erros, dos vícios e das paixões que embrutecem o homem e
fazem dele um escravo da fatalidade. De bons costumes por ter orientado sua vida para
aquilo que é mais justo, mais elevado e perfeito. Estas duas condições tornam latente
em cada homem a qualidade do maçom e a possibilidade de fazer-se ou “ser feito” como
tal, enquanto em sua plenitude, o caracteriza essa mesma qualidade. Na medida de sua
liberdade interior e da orientação ideal de sua vida, o homem é e “se faz” um verdadeiro
maçom, um obreiro da Inteligência Construtora do Universo.
O despojo dos metais é assim, o despojo voluntário da alma, de suas qualidades
inferiores, de seus vícios e paixões, dos apegos materiais que turvam a pura – luz do
Espírito; o abandono das qualidades e aquisições que brilham com luz ilusória na
inteligência e impedem a visão da Luz Maçônica, a Realidade que sustenta o Universo e
o constrói incessantemente.
O intelectual deve igualmente despojar-se de suas crenças e preconceitos, as crenças e
prejulgados científicos e filosóficos tanto quanto as superstições e preconceitos
religiosos e vulgares, para que diante de seus olhos possa abrir-se o Caminho da Luz e
da Verdade, aonde prepara para assentar seus pés.
Como o maçom deve aprender a pensar por si mesmo, atingindo a certeza e o
conhecimento direto da Verdade, de nada lhe servem as crenças e prejulgados que
constituem a moeda corrente do mundo, as aquisições materiais, como as quais nunca a
Verdade pode ser paga ou comprada, e a qual o maçom deve alcançar pelo seu esforço
individual.

SIGNIFICADO DA CÂMARA

A Câmara de reflexões, como o seu nome o indica, representa antes de tudo aquele
estado de isolamento do mundo exterior que é necessário para a concentração ou
reflexão íntima, com a qual nasce o pensamento independente e é encontrada a Verdade.
Aquele mundo interior para o qual devem dirigir-se nossos esforços e nossas análises
para chegar, pela abstração, a conhecer o mundo transcendente da Realidade. É o
“gnothi seautón” ou “conhece-te a ti mesmo” dos iniciados gregos e hindus, como único
meio direto e individual para poder chegar a conhecer o Grande Mistério que nos
circunda e envolve nosso próprio ser.
Isto, e a cor negra do quarto, trazem-nos à mente a antiga fórmula alquímica e hermética
do Vitríolo: “Visita Interiora Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem”, Visita
ao interior da Terra: retificando encontrarás a pedra escondida”. Isto é: desce às
profundezas da terra, sob a superfície da aparência exterior que esconde a realidade
interior das coisas e a revela; retificando teu ponto de vista e tua visão mental com oesquadro da razão e o discernimento espiritual, encontrarás aquela pedra oculta ou
filosofal que constitui o Segredo dos Sábios e a verdadeira Sabedoria.
A representação da Verdade final e fundamental por uma pedra, não demonstra nada de
estranho se imaginarmos que deve constituir a base sobre a qual descansa o edifício de
nossos conhecimentos, que transformar-se-á na Igreja ou Templo de nossas aspirações,
e o critério ou medida sobre a qual, e a cuja imagem, devem enquadrar-se ou retificar-se
todos os nossos pensamentos.
Os ossos e as imagens da morte que se encontram representadas nas paredes da câmara,
além de indicar a morte simbólica que é pedida ao candidato para que complete seu
novo nascimento, mostram os fragmentos esparsos e desunidos da Realidade morta e
dividida na aparência exterior, cuja Vida e Unidade ele deverá buscar e encontrar
interiormente, reconhecendo-a sob a aparência e dentro dela.
O GRÃO DE TRIGO
O quarto de reflexões constitui a prova da terra – a primeira das quatro provas
simbólicas dos elementos – e, através de sua analogia, conduz-nos aos Mistérios de
Elêusis, nos quais o iniciado era simbolizado pelo grão de trigo atirado e sepultado no
solo, para que germinasse abrisse, por seu próprio esforço, um caminho para a luz.
A semente, na qual se encontra em estado latente ou potencial toda a planta, representa
muito bem as possibilidades latentes do indivíduo que devem ser despertadas e
manifestadas à luz do dia, no mundo dos efeitos. Todo ser humano, é, efetivamente, um
potencial espiritual ou divino, idêntico ao potencial latente da semente, que deve ser
desenvolvido ou reduzido à sua mais plena e perfeita expressão, e este desenvolvimento
é comparável, em todos os sentidos, ao desenvolvimento natural e progressivo de uma
planta.
Assim como a semente, para poder germinar e produzir a planta, deve ser abandonada
ao solo, onde morre como semente, enquanto o germe da futura planta começa a
crescer, assim também, o homem, para manifestar as possibilidades espirituais que nele
se encontram em estado latente, deve aprender a concentrar-se no silêncio de sua alma,
isolando-se de todas as influências externas, morrendo para seus defeitos e imperfeições
a fim de que o germe da Nova Vida possa crescer e manifestar-se.
Uma vez que o Germe espiritual, a Divina Semente de nosso ser, é imortal e
incorruptível, esta morte – como toda forma de morte, sob um ponto de vista mais
profundo – é simplesmente o despojo de uma forma imperfeita e a superação de um
estado de imperfeição, que foram no passado um degrau indispensável ao nosso
progresso, mas que a atualidade transformaram-se numa limitação e ao mesmo tempo
numa necessidade; na oportunidade e na base para um novo passo adiante.
Essa imperfeição ou limitação que deve ser superada – os estreitos limites em que se
acha enclausurado nosso pensamento e nosso ser espiritual pelos erros e falsas crenças
assimiladas na educação e na vida profana – é o que simboliza a casca da semente,
produzida por esta como proteção necessária em seu período de crescimento, e
inteiramente análoga à casca mental de nosso próprio caráter e personalidade.
O PÃO E A ÁGUA

Essa semente, que deve morrer na terra para produzir a nova vida da planta, cuja
perfeição encerra em estado potencial, morreu efetivamente no pão que está sobre a
mesa da câmara de reflexões, para simbolizá-la. Esta pão, representa além disso a
substância que constitui o meio pelo qual a vida se manifesta em todas as suas formas, a
matéria prima continuamente o mecanismo incessante da renovação orgânica, passando
de um a outro estado, de uma a outra forma de existência.
Ao lado do pão, encontra-se um copo com água, ou seja aquele elemento úmido – outro
aspecto da própria Substância Mãe – que é fator e condição indispensável de
crescimento, germinação, maturação, reprodução e regeneração. Como a Vênus
Anadiômera, que se transforma em Vênus Genitrix; a Mãe Universal, também a Vida
somente pode nascer do seio das águas, enquanto que a terra mitologicamente
simbolizada por Géa e Deméter (às quais estavam consagradas os Mistérios de Elêusis)
converte-se na nutris.
Estas duas formas complementares da Substância Una, atuam constantemente uma
sobre a outra, como podemos observar em todos os processos biológicos; em seu estado
primitivo, o pão representa o carbono que sob a forma de ácido carbônico, é encontrado
na atmosfera, e que a vida vegetal transforma nos hidrocarbonatos, substâncias básicas
que constituem todas as partes da planta, das quais nascem posteriormente as proteínas.
Todas estas produções necessitam como base o elemento úmido, que pode comparar-se
à Matriz – Templo e Oficina de toda a atividade orgânica.
Finalmente, o pão e a água possuem moralmente fundamentos de sobriedade e
sensibilidades indispensáveis para a vida do iniciado, e juntamente com o despojo dos
metais, este demonstra seu discernimento, que o faz buscar unicamente o essencial – os
verdadeiros Valores da existência, que só podem nos dar paz, felicidade e satisfação,
fazendo-se fatores de nosso progresso interior em Sabedoria e Virtude -, eliminando
todas as superfluidades e complicações da vida profana, em cuja busca o homem
ordinário perde suas melhores energias.
O SAL E O ENXOFRE
Uma vasilha de sal e uma de enxofre encontram-se também sobre a mesa, junto com o
pão e a água. Ainda que o primeiro seja habitualmente conhecido como um condimento,
sua associação simbólica com o segundo não deixa de parecer algo estranho e
misterioso. O que significam pois, estes dois novos elementos, este novo casal
hermético, que se une ao anterior?
Trata-se de um novo tema de meditação que é apresentado ao candidato, sobre os meios
e elementos com os quais deve se preparar para uma nova Vida, iluminada pela Verdade
e concebida, ativa e fecunda com a prática da Virtude, a que se referem o Enxofre e o
Sal em sua mais elevada acepção.
Como tal, indica o primeiro a Energia Ativa, que se torna a Força Universal, o princípio
criador e a eletricidade vital que produzem e animam todo crescimento, expansão,
independência e irradiação. Enquanto que o segundo é o princípio atrativo que constitui
o magnetismo vital, a força conservadora e fecunda que inclina à estabilidade e produz
toda maturação, a capacidade assimilativa que tende para a cristalização, o princípio da
resistência e a reação centrípeta que se opõe à ação ativa da força centrífuga.Assim pois, da mesma maneira que no pão e na água vimos os dois aspectos da
Substância cósmica e vital, nestes dois novos elementos temos os dois aspectos ou
polaridades da Energia Universal, dirigido o primeiro de dentro para fora, aparecendo
exteriormente como direito (ou destro), e o segundo de fora para dentro, manifestando-
se como esquerdo (ou sinistro).
São respectivamente, rajas tamas – os dois primeiros gunas (ou qualidades essenciais) da
filosofia hindu -, e o impulso ativo que produz toda mudança e variação, e engendra no
homem o entusiasmo e o amor à atividade, o desejo e a paixão. A tendência passiva para
a inércia e a estabilidade é inimiga de mudanças e variações, produzindo em nosso
caráter, firmeza e persistência, e com seu domínio da mente, a ignorância, a
inconsciência e o sentido da materialidade, que nos prendem às necessidades e
preocupações exteriores e aos instintos destinados à proteção da vida em suas primeiras
etapas.
O primeiro nos impele constantemente para cima e para a frente, anima-nos e nos dá
firmeza em todos nossos passos, dá-nos o ardor, a iniciativa, o espírito de conquista, a
vontade e a capacidade de satisfazer nossos desejos e conseguir o objetivo de nossas
aspirações; mas, dá-nos também, a inquietude, a inconstância e o amor das mudanças e
novidades, a impulsividade que nos inclina para ações inconsideradas, fazendo-nos
recolher frutos maduros e perder os melhores e mais desejáveis resultados de nossos
esforços.
O segundo é aquele que nos refreia e desalenta; faz com que nos recolhamos em nós
mesmos, dá-nos o temor e a reflexão, faz-nos abraçar e estabelecer igualmente o erro e a
verdade, os hábitos viciosos e virtuosos faz-nos fiéis e perseverantes, firmes em nossa
vontade e tenazes em nossos esforços; dá-nos a capacidade de atrair aquilo com o que
estamos interiormente sintonizados por nossos desejos, pensamentos, convicções e
aspirações. Dá-nos a desilusão e o discernimento, afasta-nos das mudanças e de toda
ação irrefletida, mas também, de todo progresso, esforço e superação.
São as duas colunas ou tendências que se achar constantemente ao nosso lado, em cada
um de nossos passos sobre o caminho da existência, e nossa felicidade, paz e progresso
efetivo baseiam-se em nossa capacidade de manter em cada momento um justo e
perfeito equilíbrio entre estas tendências opostas, conservando-nos a igual distância de
uma e de outra, sem deixar que nenhuma das duas adquira um predomínio indevido
sobre nós, mas que trabalhem em perfeita harmonia, dando-nos, cada uma delas, suas
melhores qualidades: o ardor reflexivo e a paciência iluminada, o entusiasmo
perseverante e a serenidade inalterável, o esforço vigilante e a firmeza incansável, que
também simbolizam sobre a parede da câmara, o galo e a clepsidra.
O MERCÚRIO VITAL
A ação e interação entre estas duas tendências opostas, é pois, destinada a produzir em
nós, ativando o estado latente que se encontra dentro de nosso Germe Espiritual, o
mercúrio vital ou princípio da Inteligência e Sabedoria, que corresponde ao salva da
filosofia hindu: o ritmo da natureza, produzido pela lei de Harmonia e Equilíbrio.
O pensamento em todos seus aspectos, nasce pois, naturalmente no indivíduo, da ação e
relação entre suas tendências ativas e passivas, entre o amor e o ódio, a atração e a
repulsão, a simpatia e a antipatia, o desejo e o temor. Cresce e adquire sempre maior
força, independência e vigor quando lutam entre si o instinto e a razão, a vontade e apaixão, o entusiasmo e a desilusão. Eleva-se e floresce, sempre mais livre, claro e
luminoso, conforme aprende a seguir seus ideais e aspirações mais elevadas, e quando
estas conseguem sobrepor-se à sua ignorância, erros e temores, assim como às demais
tendências passionais e instintivas.
Em outros termos, o pensamento nasce, cresce, se eleva e sublima, conseguindo
alcançar horizontes sempre mais altos, amplos e iluminados, conforme predomine na
mente e em toda a personalidade o elemento ou vibração sátvica, o princípio do
equilíbrio e da harmonia, que produz a Música das Esferas e engendra toda a criação e
concepção caracterizada por sua genialidade e formosura. Pois este mercúrio sublimado
é o único que pode perceber a Verdadeira Luz, que se torna, com seu reflexo mental luz
criadora, simbolizada pela Vênus Celestial, antiga divindade da Luz, e portanto da
beleza que a acompanha.
O fogo rajásico, aceso no homem, inicialmente pelos desejos e paixões, e depois pela
vontade, o entusiasmo e suas mais nobres aspirações (que constituem o enxofre em seus
diferentes aspectos), agindo sobre a substância tamásica dos instintos, temores e
tendências conservadoras (o sal da reflexão), que constitui a matéria-prima de nosso
caráter, faz fermentar, ferver e sublimar esta massa heterogênea no crisol da vida
individual, produzindo finalmente esse mercúrio refinado ou elemento sátvico, ou seja a
Sabedoria, nascida da transmutação – por meio da sublimação e refinamento – da
ignorância, do erro, do temor e da ilusão.
O TESTAMENTO
O novo nascimento ou regeneração ideal que indica, em todos seus aspectos, a câmara
de reflexões, tem finalmente o seu selo e concretiza-se por um testamento, que é
fundamentalmente um atestado ou reconhecimento de seus “deveres”, ou seja de sua
tríplice relação construtiva, com o princípio interior (individual e universal) da vida,
consigo mesmo como expressão individual da Vida Una, e com seus semelhantes, como
expressão exterior da própria Vida Cósmica.
Trata-se de um testamento iniciático bem diferente do testamento ordinário ou profano.
Enquanto este último é uma preparação para a morte, o testamento simbólico pedido ao
recipiendário, antes de sua admissão às provas, é uma preparação para a vida – para a
nova vida do Espírito para a qual deve renascer.
Morte e nascimento são na realidade, dois aspectos intimamente entrelaçados e
inseparáveis de toda mudança que se verifica na forma expressão, interior e exterior, da
Vida Eterna do Ser. Na economia cósmica, e da mesma forma na vida individual, a
morte, cessação ou destruição de um aspecto determinado da existência subjetiva e
objetiva, é constantemente acompanhada de uma forma de nascimento. Assim pois, só
em aparência os consideramos como aspectos opostos da Vida, ou como seu princípio e
fim, enquanto indicar simplesmente, uma alteração ou transformação, e o meio no qual
se efetua um progresso sempre necessário, ainda que a destruição da forma não seja
sempre sua condição indispensável.
Como emblema da morte do homem profano, indispensável para o nascimento do
iniciado, o testamento que faz o candidato é um testamento do qual ele mesmo será
posteriormente chamado a converter-se em executor, um Programa de Vida que deverá
realizar com uma compreensão mais luminosa de suas relações com todas as coisas.A primeira relação ou “dever” do testamento é a do próprio indivíduo com o Princípio
Universal da Vida, uma relação que tem de reconhecer-se e estabelecer-se
interiormente, e não sobre a base das crenças ou prejuízos, sejam positivos ou
negativos. Não se pergunta ao candidato se crê ou não em Deus, nem qual é seu credo
religioso ou filosófico; para a Maçonaria todas as “crenças” são equivalentes, como
outras tantas máscaras da Verdade que se encontram atrás ou sob a superfície delas e
somente à qual aspira a conduzir-nos.
O que é de importância vital é nossa íntima e direta relação com o Princípio da Vida
(qualquer que seja o nome que lhe dê externamente, e o conceito mental que cada um
possa ter formado ou dele venha a formar, uma relação que é estabelecida na
consciência, além do plano da inteligência ou mentalidade ordinária, sendo só
diretamente nela onde pode manifestar-se aquela Luz “que ilumina a todo homem que
vem a este mundo”.
A consciência desta relação, que é Unidade e Individualidade, traduz-se no sentido da
primeira pergunta do testamento: “Quais são os vossos deveres para com Deus?” A
segunda: “Quais são os vossos deveres para vós mesmos?” nada mais é do que a
conseqüência da primeira. Tendo-se reconhecido, no íntimo de seu próprio ser, naquela
solidão da consciência que está simbolizada pela câmara de reflexões como uma
manifestação ou expressão individual do Princípio Universal da Vida, o candidato é
chamado a reconhecer o modo pelo qual sua vida exterior se encontra intimamente
relacionada com o que ele mesmo é interiormente, e como a compreensão desta relação
tem em si o poder de dominá-la e dirigi-la construtivamente.
O homem é, como manifestação concreta, o que ele mesmo se fez e faz constantemente,
com seus pensamentos conscientes e subconscientes, sua maneira de ser e sua atividade.
Seu primeiro dever para consigo mesmo é realizar-se e chegar sempre a ser a mais
perfeita expressão do Princípio de Vida que nele busca. E encontra uma especial
diferente e necessária manifestação, deduzindo ou fazendo aflorar à luz do dia, as
possibilidades latentes do Espírito, aquela Perfeição que existe imanente, mas que só se
manifesta no tempo e no espaço, na medida do íntimo reconhecimento individual.
Quanto aos deveres para com a humanidade, estes representam um sucessivo
reconhecimento íntimo que é complemento necessário dos dois primeiros: tendo-se
reconhecido como a manifestação individual do Princípio Único da Vida, e sabendo que
ele é por fora o que realiza por dentro, deve acostumar-se a ver em todos os seres outras
tantas manifestações do próprio Princípio. Deste reconhecimento, brota como
conseqüência necessária o seu dever ou relação para com a humanidade, que não pode
ser outra coisa que a própria fraternidade.
A compreensão desta tríplice relação é o princípio da iniciação, o início efetivo de uma
nova vida, o testamento ou doação que é feita para si próprio, preparando-se para
executá-lo. É a preparação necessária para as viagens ou etapas sucessivas do progresso
que o aguardam.
A PREPARAÇÃO
Antes de ser admitido no Templo, é necessário que seja feito um preparo físico
correspondente ao preparo moral que o candidato fez na câmara de reflexões: os olhos
devem ser vendados, coloca-se-lhe uma corda no pescoço e descobre-se o lado esquerdo
de seu peito, o joelho direito e o pé esquerdo.Que significa esta preparação?
A venda que lhe cobre os olhos não é simplesmente o símbolo do estado de ignorância
ou cegueira, de sua incapacidade para perceber a verdadeira Luz. Como preparação para
ser admitido no Templo, é evidente a necessidade de uma constituição da obscuridade
da câmara de reflexões, uma cegueira voluntária, um isolamento das influências do
mundo exterior e da luz ilusória dos sentidos como meio para chegar à percepção
espiritual da Verdade.
O cordão que lhe cinge o colo, lembra-nos o dos frades, assim como o cordão umbilical
que une o feto à mãe no período de sua vida intra-uterina. Além de indicar o estado de
escravidão as suas paixões, erros e preconceitos, em que o homem se encontra nas
trevas do mundo profano, o jugo da fatalidade que pesa sobre ele, mostra seu desejo,
vontade e capacidade de libertar-se deste jugo e desta escravidão, aceitando
voluntariamente as provas da vida e cooperando com a sua disciplina. desta forma, os
próprios obstáculos, dificuldades e contrariedades, convertem-se em graus e meios de
progresso.
Finalmente, o triângulo da nudez, que constitui o terceiro elemento desta simbólica
preparação, é um novo despojo voluntário de tudo o que não é estritamente necessário e
constituiria um obstáculo ao progresso posterior – o despojo de todo convencionalismo
que impede a sincera manifestação de seus sentimentos e de suas aspirações mais
profundas (nudez do peito esquerdo); do orgulho intelectual, que impede o
reconhecimento da Verdade (nudez do joelho direito); da insensibilidade moral, que
impede a prática da Virtude (nudez do pé esquerdo).
A perfeita sinceridade das aspirações é, pois a primeira condição de todo progresso; mas
faz-se necessário com ela um bem compreendido espírito de humildade (que não deve
confundir-se com um falso desprezo de si mesmo, nem com a ignorância das divinas
possibilidades que se encontram em nós mesmos), dado que nosso progresso deve
desenvolver-se num plano superior à ilusão da personalidade. Com a primeira destas
duas qualidades abrimos nosso coração, e com a segunda nossa inteligência ao
sentimento e à percepção daquela Realidade que Jesus chamou o Reino dos Céus, meta
de toda iniciação.
Enquanto a nudez do pé esquerdo – o instrumento do caminhar que abre nossa marcha
para a frente – indica a faculdade do discernimento que devemos usar em cada passo de
nosso caminho e que nos permite reconhecer a verdadeira natureza dos obstáculos e
provas do caminho, nos quais podemos tropeçar.
Com este preparo, o candidato encontra-se em condições de bater à porta do Templo, de
pedir, buscar e encontrar a Luz da Verdade.

A PORTA DO TEMPLO
A porta tem sido desde as mais antigas épocas, o símbolo natural de toda passagem ou
entrada, e em particular, de toda iniciação. Além disso, a porta já é por si mesma um
Templo (um Templo rudimentar) e o ternário de suas duas colunas com a arquitrave,
constitui o elemento fundamental de toda construção arquitetônica. Assim pois, o
momento de franquear a Porta do Templo depois de dupla preparação moral e física de
que acabamos de falar, é um dos mais importantes da cerimônia de iniciação.O candidato é introduzido, depois de três fortes golpes, golpes desordenados que
revelam uma mão todavia inexperta ou profana. Por esta razão, seus golpes produzem
alarma no interior do Templo, alarma que se repete por três vezes, como eco dos
mesmos. Isto relaciona-se com as palavras evangélicas: buscai e encontrareis (a
Verdade), pedi e vos será dada (a luz), batei e vos será aberta (a Porta do Templo).
Ao ser recebido no Templo, com os olhos vendados, somente sente sobre o seu peito nu,
a ponta de uma arma cortante. Isto serve unicamente para fazê-lo entender que ainda
que não veja, pode sentir, e o sentimento da Verdade será o Guia que o conduzirá em
seu progresso e em seus esforços para a Luz.
O Guia interior, que conduz individualmente a todo o que se torna receptivo à sua
influência no Caminho da Verdade e da Vida, acha-se materializado exteriormente pelo
Experto (ou seja quem for, que por tê-lo já percorrido, conhece bem o Caminho e pode
assim servir de guia ao inexperiente), sem o qual seria impossível ao candidato
preencher devidamente as condições que lhe são pedidas para a sua admissão.
É o guia quem responde por ele à pergunta: “Quem é o temerário que se atreve a
perturbar nossos pacíficos trabalhos e tenta forçar a Porta do Templo?, dizendo que “É
um profano desejoso de conhecer a Luz Verdadeira da Maçonaria o que solicita
humildemente por ter nascido livre e de bons costumes”.
Do significado iniciático desta dupla condição, já tratamos por ocasião do despojo dos
metais. Este requisito é de fundamental importância uma vez que, em virtude do mesmo
abre-se-lhe a primeira porta do Templo, assim como as três portas simbólicas,
representadas pelas três Luzes, depois de cada uma das viagens.
A ponta da espada, apoiada sobre o coração, é o símbolo da Verdade, através da sua
intuição que ocorre ou se manifesta diretamente no íntimo de nosso ser, ao adentrarmos
ao Templo, isto é, num particular estado de devoção receptiva, tendo-nos isolado das
influências exteriores e fechado nossos olhos à vista profana e à consideração ordinária,
puramente objetiva das coisas.
Ainda que não vejamos, sentimos; ainda que não saibamos explicar a nós mesmos o por
que e a razão dos acontecimentos, percebemos intuitivamente alguma coisa que
reconhecermos diretamente como Verdade e que se manifesta em nossa consciência
pela forma repentina e violenta da qual a espada apoiada sobre nosso peito constitui
símbolo muito expressivo.

INTERROGATÓRIO DO CANDIDATO
O interrogatório a que se submete o candidato em seu primeiro ingresso no Templo, é
de certa maneira a continuação e a expressão de suas meditações na câmara de
reflexões.
As perguntas que lhe são feitas, versam inicialmente sobre suas próprias respostas às
perguntas do testamento, pedindo-se-lhe os necessários esclarecimentos sobre os
conceitos ali expressos a respeito de como entende sua relação e portanto seus deveres,
“para com Deus, para si mesmo e para com a humanidade”.
Uma vez esclarecido este ponto, e como necessária conseqüência da compreensão desta
relação e destes deveres (cujo reconhecimento faz o maçom, enquanto põe o homem emharmonia com o Princípio Construtivo ou Lei Evolutiva do Universo), pode-se-lhe que
expresse suas idéias sobre o vício e a virtude.
Um claro discernimento entre o vício e a virtude é o que torna operativo o
reconhecimento dos deveres e conduz o homem a progredir sobre o caminho da
Liberdade. O vício é, pois, como o diz a própria etimologia da palavra, um “vínculo,
laço ou liame”, uma corrente que escraviza o homem e impede ou dificulta o seu
progresso, reduzindo ou atrofiando seus esforços para a expressão de suas
possibilidades mais elevadas.
O homem escravo do vício nunca poderá ser um verdadeiro maçom, uma vez que lhe
falta o requisito essencial, com o qual pode tornar-se virtuoso: ser livre e de bons
costumes.
Assim como na idéia do vício está implícita a idéia de escravidão, sujeição, passividade
e debilidade, sendo o inferior aquele que domina e limita o superior, assim na idéia de
virtude está implícita a idéia de “força” que faz do humanus (o filho de Humus ou
Bhumi, a terra), um vir ou vira, isto é, um “herói”, um Hércules, no sentido moral e
etimológico do homem que por meio de seus “esforços pessoais” ou fadigas, domina e
supera suas próprias debilidades.
Estabelecer o domínio do superior sobre o inferior, do espiritual sobre o material, do
Ideal sobre as imperfeições manifestas, heis aqui o programa de todo verdadeiro
maçom, de todo iniciado na Verdade e na Virtude. Por esta razão, uma clara definição
deste ponto é preliminarmente necessária para a efetivação de todo o progresso
posterior.

AS VIAGENS
Toda possibilidade de progresso, tanto interior como exterior, baseia-se no
reconhecimento de um caminho como algo que está diante de nós, e no discernimento
de uma determinada direção, rumo a uma meta que percebemos com maior ou menor
clareza.
Nossos pés físicos, assim como nossos pensamentos, que de uma maneira análoga,
passo a passo, parecem dirigir-se em certo sentido, marcham precisamente de forma
espontânea e automática, naquela exata direção na qual se fixa nosso olhar, ou melhor,
nossa visão interior. Se nosso olhar e nossa visão se fixam em algum obstáculo,
dificuldade, contrariedade e condição indesejável, no temor ou pressentimento de algo
desagradável, não devemos pois, estranhar se formos dar direta e precisamente nesse
obstáculo, ou, no objeto de nossos temores.
Além disso, uma percepção ou visão obscura e indefinida e dificulta nossa marcha e faz
nossos passos incertos e vacilantes, pelo que tropeçamos continuamente com os
obstáculos que aparecem no caminho, enquanto que ao divisarmos adiante de nós
perfeitamente nossa senda, com toda clareza e discernimento, nossa marcha é fácil,
rápida, direta e segura, e superarmos facilmente todos os obstáculos que possamos
encontrar.
O mesmo sucede com nossa marcha intelectual em direção à Verdade e com a marcha
moral rumo a um ideal de perfeição, que se revela sempre com maior clareza conforme
avançamos na senda que deve conduzir-nos à sua realização. A essa mesma Lei
obedecem nossos esforços dirigidos para um particular objetivo, para o qual tendem eno qual se concentram nossos desejos e aspirações: a marcha é mais fácil, rápida e direta
conforme aprendemos a concentrar nesse objeto as melhores energias de nosso
pensamento e, sobretudo, a contemplá-lo, vê-lo e discerni-lo com perfeita clareza.
A concentração de nossas energias interiores em direção a uma meta determinada é, em
todo caso, a base indispensável de todo esforço que possamos fazer e de todo passo que
possamos dar nessa direção.
A cerimônia de recepção do candidato no primeiro grau, consiste essencialmente de três
viagens que sintetizam admiravelmente todo seu progresso maçônico nos três graus.
Cada viagem representa assim um novo estado, um período diferente e uma nova etapa
de seu progresso.

A PRIMEIRA VIAGEM
A primeira viagem apresenta-se cheia de dificuldades, de ardis e perigos, e completa-se
em meio aos ruídos mais fortes e variados, que representam o desencadeamento das
tempestades e dos ventos, símbolos das falsas crenças, opiniões e correntes contrárias
do mundo, como as que temos que enfrentar. É a prova do ar das antigas iniciações,
como é demonstrado pela purificação pelo ar que coroa esta viagem.
A direção desta viagem, como das sucessivas, é aquela que é indicada silenciosamente
pelo guia invisível que o conduz, e que ele tem de seguir com docilidade e confiança.
Essa docilidade (palavra derivada de docere, “ensinar”, que por sua vez tem evidente
analogia com ducere, “conduzir”), é a que o faz receptivo e o coloca em condições de
aprender. No que diz respeito ao guia, representa, como já dissemos, o sentido íntimo,
do justo, do bom e do verdadeiro, pois é o guia invisível e silencioso de todo homem, o
único que pode realmente conduzir-nos pelo caminho do progresso.
Essa direção é de Ocidente a Oriente pelo lado do Norte. O que significam estes pontos
cardeais?
Aqui abrangemos uma das fases mais profundas e instrutivas do segredo maçônico: da
mística doutrina que se esconde e se revela em seu simbolismo.

DO OCIDENTE AO ORIENTE
O Ocidente é o lado ou aspecto do mundo aonde o Sol se põe, isto é, onde a luz que o
ilumina declina, se oculta e se torna invisível ainda que faça entrever sua presença, no
último resplandecer do ocaso, antes de deixar o mundo submergido nas escuras trevas
da noite. É portanto, uma imagem muito expressiva do mundo sensível, da realidade
visível que constitui o aspecto material, fenômeno ou objetivo do Universo, no qual a
verdadeira luz que o ilumina, a Essência ou Realidade invisível que o suporta, ocultou-
se na aparência, sob o velame comparativamente ilusório de sua realidade exterior.
O Real não é o que aparece, senão o que se esconde e revela atrás da aparência.
Reconhecer essa Realidade constitui a substância de toda a iniciação, que consiste
essencialmente em ingressar em sua percepção intuitiva, em adquirir consciência da
mesma com um progressivo e sempre mais perfeito discernimento entre o que é e o que
parece. É a Doutrina Iniciática de todos os tempos: a Realidade se oculta na aparência,
na qual se acha, como Isis, velada e revelada, desvelando-se unicamente para o iniciado
que tenha chegado individualmente, por seus próprios esforços, ao estado de
consciência em que se torna manifesta sua natureza essencial.Quanto à Essência ou Realidade íntima, Imanente e Transcendente, é a que se acha
representada simbolicamente pelo lado oposto, o Oriente, o aspecto do mundo de onde
nos vem, nasce e emana a Luz. Onde a realidade aparece e brilha por seu próprio
resplendor, esclarecendo e fazendo fugir as trevas da noite.
Partindo do Ocidente, ou do conhecimento objetivo da realidade exterior, o homem
encaminha-se pela fria escuridão do Setentrião – a razão pura – em busca daquela
Realidade que constitui a essência mais permanente e profunda do Universo, e que não
pode ser encontrada senão caminhando para o Oriente, dos efeitos às Causas, desde os
fenômenos aos números, Leis e Princípios que os regem.
Esta busca numa obscuridade inicial, que irá depois esclarecendo-se conforme avança
no caminho, está representada pela região fria e tenebrosa do Norte, que deve ser
atravessada com passo firme e perseverante, sem deixar que ela assuste ou desvie, pelas
dificuldades e obstáculos que se encontram no caminho que conduz “da Ilusão” à
Realidade”.

DO ORIENTE AO OCIDENTE
No curso desta primeira viagem, não pode o candidato deter-se no Oriente pois deve
retornar imediatamente ao Ocidente, passando, desta vez, pelo caminho mais luminoso
e agradável do Meio-dia. Isto quer dizer que uma vez atingida a primeira percepção,
ocorrido o primeiro vislumbre da Realidade profunda das coisas, não deve o candidato
nela deter-se, mas deve prosseguir seu caminho, voltando outra vez ao Ocidente da
aparência sensível, mas com a consciência iluminada pelo reflexo desta aquisição,
estado que simboliza o Meio-dia.
Ou seja, uma vez atingido o conhecimento rudimentar das causas que regem os efeitos
do mundo visível, e das Leis e Princípios que governam o mundo, deve completar o
esforço indutivo, que o fez chegar a este conhecimento, com um análogo esforço
dedutivo, no qual encontra a oportunidade e lhe é imposta a necessidade de uma
aplicação fecunda e construtiva dos conhecimentos adquiridos.
Como a dedução não é geralmente mais difícil que a indução, o caminho de regresso
não está menos semeado de obstáculos e dificuldades. Entretanto, a certeza já adquirida
em sua passagem pelo Oriente, permite-lhe enfrentar com mais serenidade as crenças,
opiniões e preconceitos do mundo, que já não tem poder para fazê-lo desviar-se do seu
caminho. Esta é a purificação pelo ar que deve sofrer ao chegar ao término desta
primeira viagem, próximo ao altar do 2° Vigilante.
Também simboliza esta viagem as provas da vida que temos de enfrentar
constantemente em seus primeiros esforços desde o material até o Ideal, dominando
seus instintos, paixões e desejos, assim como as circunstâncias contrárias que o
confrontam, por meio do discernimento da realidade profunda da vida e do íntimo
propósito de todas suas experiências, buscando a Verdade e servindo-se da mesma
como remédio para todos seus males, conforme ensina Pitágoras em seus Versos
Áureos:
“Mas existe uma estirpe divina entre os mortais,
Da qual se chegares a ser partícipe,
Conhecerás as coisas que te ensino,E servindo-lhe delas como remédio
Do muitos males, farás livre tua alma!”

A SEGUNDA VIAGEM
A segunda viagem diferencia-se da primeira por sua maior facilidade: desapareceram os
obstáculos, e os ruídos violentos deixaram seu lugar ao tinido argênteo das espadas que
os presentes fazem entrechocar.
Esta maior facilidade é conseqüência direta dos esforços feitos na primeira viagem. À
medida em que aprendemos a superar os obstáculos que se encontram em nosso
caminho, estes progressivamente desaparecem, pois já não tem razão de existir, uma vez
desenvolvida em nós a capacidade de superá-los, com as qualidades que nos faltavam.
O choque das espadas é o emblema das lutas que travam ao redor do candidato, assim
como da luta individual que ele deve empreender com suas próprias paixões,
pensamentos, hábitos e tendências negativas: todo pensamento deve ser retificado, todo
erro resolvido e convertido em Verdade. Indica sobretudo a negação do erro (ainda que
tenha a força da aparente evidência exterior), na luz da Superior Realidade, da qual tem-
se percebido os primeiros vislumbres.
A segunda viagem pretende relacionar-se com esta hora de incessante transmutação,
com esta progressiva catarse da palavra inferior, que requer uma constante atenção e
vigilância, que representa simbolicamente a prova da água, isto é, aquela espécie de
batismo filosófico que consiste em limpar ou libertar a alma de seus erros, vícios e
imperfeições que constituem a raiz ou causa interior de todo mal ou dificuldade
exterior.
A primeira viagem representa os primeiros esforços na busca da luz ou da Verdade, os
primeiros passos desde as sobras da Ilusão em direção à Realidade íntima e profunda
que é a Essência, a Substância e a Base imanente de tudo. Também representa, em seu
regresso, o esforço individual que cada um deve fazer para caminhar e processar sua
vida em harmonia com seus Ideais e com suas aspirações mais elevadas, deixando de
seguir passivamente a rotina de seus hábitos, instintos e tendências negativas.
Como complemento destes primeiros esforços, a segunda viagem indica a perseverança
nesta obra metódica de purificação da alma, que a fará digna de receber ou abrir-se às
suas mais elevadas possibilidades, o batismo da água, ou seja a negação do negativo
(sendo a água o elemento negativo por excelência) que deve preceder ao batismo do
fogo, ou do espírito, ou seja à afirmação do positivo que levará consigo um perfeito
estabelecimento da Verdade.
A purificação pela água, com a qual é concluída esta segunda viagem é essencialmente
uma purificação da imaginação e da mente, de seus erros e de seus defeitos,
constituindo uma fase importante daquela Grande Obra de redenção e regeneração
individual que a iniciação maçônica nos mostra com seu particular simbolismo.

A TERCEIRA VIAGEM
Representando a segunda viagem principalmente a virtude negativa, que consiste em
purificar a alma de suas paixões, erros e defeitos, mais do que um objetivo para cadaum, constitui a necessária preparação para a etapa sucessiva que nos indica a terceira
viagem.
Esta se completa com uma facilidade ainda maior que as precedentes, tendo
desaparecido por completo os obstáculos e ruídos. Somente são ouvidos os acordes de
uma música cadenciada e profunda que parece sair do próprio silêncio.
Tendo o iniciado dominado e purificado a parte negativa de sua natureza, que é a causa
dos ruídos e das dificuldades externas, é natural que estas tenham completamente
desaparecido. Agora deve familiarizar-se com a energia positiva do fogo, isto é, com o
Potencial Infinito do Espírito que se encontra em si mesmo, cuja mais perfeita
manifestação se tornou possível pela precedente purificação.
Esta descida do espírito, que constitui a prova e a purificação pelo fogo, elimina, por
meio de uma plena consciência da Verdade, todo resíduo de impureza, todo traço dos
erros e ilusões que precedentemente dominaram a alma. Quando a Luz da Verdade
aparece em toda sua plenitude, toda treva, todo erro, toda dúvida e imperfeição,
automaticamente desaparecem.
O iniciado prepara-se e aprende, por intermédio desta terceira viagem, a caminhar no
fogo, isto é, no mais profundo e sutil elemento das coisas, do qual todas nascem e no
qual se dissolvem, onde cessa por exemplo o poder da ilusão e a Realidade manifestar-
se como realmente é.
Esse mesmo fogo representa, por um lado, a essência espiritual ou Princípio Universal
do Ser, com a qual estabelece contato através do discernimento da Verdade, e por outro
lado, também representa a energia primordial, que constitui o Poder da Suprema
Essência. Esta Divina Energia acha-se representada, no simbolismo helênico, por
Prosérpina, a Rainha da Hades, filha de Démeter – a qualidade produtora da Essência
Primordial – que se encontra nos “infernos”, ou seja, nas profundezas místicas das
coisas.
Tendo realizado nas profundezas de seu próprio ser, este íntimo contato com a essência
fundamental que é ao mesmo tempo Verdade, Poder e Virtude, o iniciado anda agora
com passo firme e seguro, sem que nada tenha o poder de modificar sua atitude ou fazê-
lo desviar-se. Esta serenidade imperturbável, que tem em si mesma sua razão de ser e
sua raiz, e na qual a alma descansa para sempre ao abrigo de todas as influências,
tempestades e lutas exteriores, permanecendo absolutamente firme em seus esforços e
em seus propósitos, torna patente que a prova simbolizada pela terceira viagem foi
superada. O iniciado leva agora, aceso dentro de si mesmo, algo que é como uma chama
que nunca se apaga: aquele entusiasmo veemente e persistente que brota da própria raiz
do ser e é a base de toda a realização exterior.
Com esse fogo, cuja essência é Amor infinito, livre de todo desejo, impulso ou motivo
pessoal, tem o iniciado o poder de executar em torno dele os milagres e as coisas mais
inesperadas, sendo, como Fé Iluminada e sincera, uma Força Ilimitada por ter
franqueado e possuir o poder de superar os limites da Ilusão.

O CÁLICE MISTERIOSO
O iniciado que afrontou as provas simbolizadas pelas três viagens e sofreu a tríplice
purificação dos elementos, libertou-se de todas as escórias de sua natureza inferior e tem
agora o dever e o privilégio de manifestar o mais alto e divino de seu ser.Este dever e este privilégio, que já fazem dele potencialmente um maçom, devem ser
selados com uma primeira obrigação (o reconhecimento dos deveres) que precede ao
juramento propriamente dito, e consiste em dar-lhe de beber um cálice de água que de
doce se transforma em amarga.
Nesta tríplice obrigação, que pode considerar-se como uma confirmação do testamento,
aprende e reconhece as condições nas quais será recebido maçom: o segredo sobre o que
há de mais sagrado; a solidariedade e devoção para com seus irmãos; e a fidelidade à
Ordem, com observância de suas Regras e Leis tradicionais.
O cálice da amargura descreve-nos de forma eficaz, as desilusões que encontra quem
desce das regiões puramente ideais, do Oriente simbólico, para enfrentar as realidades
materiais. A doçura inefável dos sublimes conhecimentos adquiridos e dos planos ou
programas de atividade que foram formulados na mente, não podem transformar-se na
amargura que nasce quando tudo parece ir contra nossos projetos e nossas aspirações.
Então, não devemos estranhar se num momento de debilidade, a alma cede
momentaneamente sob o peso envolvente dessa aparência e brota do fundo do coração o
grito: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice!”.
Mas o cálice não pode ser afastado, já que deve ser servido até a última gota. O contato
com a realidade externa não pode ser evitado, e neste contato deve demonstrar-se
praticamente o valor de suas aquisições ideais e sua confiança na Verdade na qual se
estabeleceu. A realidade exterior deve ser transmutada pela simples influência
silenciosa de sua consciência íntima, fixada na visão de uma Realidade de ordem
superior ou transcendente.
Em outras palavras, o iniciado que foi purificado pelos três elementos, deve ter sido
convertido e deverá agir como um verdadeiro filósofo. Deve portanto, com sua atitude
interior, ser a pedra filosofal que tudo transmuta pela simples influência de sua própria
presença. Assim, pois, longe de evitar e afastar de si a poção amarga que lhe é oferecida
pela ignorância dos homens, deve levá-la a seus lábios serenamente, como se fora a
mais doce e agradável das bebidas. É, quando, então, cumpre-se o milagre: a amargura
converte-se em doçura, e a visão espiritual triunfa sobre as sombras da ilusão que se
desvanecem.

O SANGUE
Antes de selar definitivamente, por meio de um solene juramento, a admissão do
recipiendário na Ordem, costuma-se submetê-lo a algumas outras provas que possam
demonstrar sua força de ânimo, e sua retidão e firmeza de propósitos.
Uma destas provas é a do derramamento de sangue. É dito ao recipiendário que, como a
Sociedade da qual anseia tomar parte poder-lhe-á pedir que verta seu sangue até a
última gota, para a defesa dessa Causa Sagrada ou da vida de seus irmãos, deve dar
prova de estar disposto a fazê-lo, firmando com seu próprio sangue, o seu juramento.
Este argumento do sangue, lembra-nos muitas antigas tradições que davam um singular
valor à assinatura com o mesmo, de modo que o pacto assim firmado, não pode ser
interrompido nem com a morte. Entre outros, citamos o Fausto, de Goethe, onde
Mefistófeles, pede a Fausto selar com seu sangue o trágico pacto pelo qual se obriga a
servi-lo, em troca de sua alma. E tendo-lhe este pergunto por que razão dito pactodeveria assim ser firmado, responde-lhe Mefistófeles enigmaticamente que o sangue é
um fogo de virtude singular.
Com efeito, o sangue é a expressão orgânica mais direta da vida individual, ou do Ego
pessoal e portanto do que um em nós existe do mais próprio e genuíno. A permanência
da vida no organismo está caracterizada pelo estado de fluidez do sangue, que circula e
anima todas as partes do corpo, cessando a vida quando o sangue deixa de circular, bem
como, quando coagula.
O fato de “estar disposto a firmar com sangue” o juramento maçônico, significa pois,
que ele deve estar disposto a aderir com todo o seu ser, e de forma permanente e
inviolável, aos Princípios e Ideais da Ordem, fazendo dos mesmos, carne de sua carne,
sangue e vida de sua vida.
Assim pois, a qualidade de maçom, que é conferida simbolicamente com a iniciação, e
que individualmente é adquirida realizando ou tornando efetiva dita iniciação, deve
considerar-se como permanente e indelével. Sua transitoriedade não provaria senão o
fato de que nunca teria sido efetiva. Em outras palavras, não pode alguém “ser e deixar
de ser” maçom à vontade, senão que, uma vez que tenha-se tornado verdadeiramente
como tal, sê-lo-á para sempre. Aquele que acredita que pode deixar de considerar-se
maçom é porque nunca o tinha sido, no sentido iniciático da palavra, apesar de que
possa ter tido o desejo de sê-lo e tenha-se-lhe outorgado externamente tal título, dando-
se-lhe assim a oportunidade (nada mais ou nada menos que a oportunidade) de
converter-se em verdadeiro maçom.

A MARCA DO MAÇOM
Outra prova análoga à do sangue, que insiste sobre o caráter permanente da qualidade
do maçom, é o convite que é feito ao candidato para que permita que se deixe imprimir
com fogo, em alguma parte do corpo, “a marca gloriosa de um selo que se encontra em
todas as Lojas do Universo” e por meio da qual os maçons se reconhecem.
Esta marca ou estigma verdadeiramente glorioso (mas que nunca foi aplicado
materialmente pela simples razão de que a Maçonaria quer fazer homens livres e não
coração de todo maçom, e é outro símbolo daquilo que o maçom deve ser e naquilo em
seu coração e expressa por todo o seu ser.
As qualidades ou emblemas que são aplicadas com o fogo, por cujo intermédio os
maçons reconhecem-se entre si, são evidentemente o compasso da razão que caracteriza
o reconhecimento da Realidade Espiritual (que é o Centro simbólico de todo ser e de
todas as coisas) e sua relação com a vida exterior (a circunferência ou aparência das
coisas), e o esquadro do juízo, com o qual o maçom retifica, seus pensamentos,
aspirações e desejos, em harmonia com o Plano do Grande Arquiteto, Plano com o qual
deve esforçar-se em cooperar conscientemente.
Finalmente, e para dar uma prova tangível de suas boas disposições, é convidado a
tomar parte na cadeia de união dos maçons, mediante uma oferta voluntária com a qual
manifesta e reconhece seu dever de solidariedade com aqueles que se encontram
momentaneamente necessitados de recursos e de meios suficientes para viver. Todos
nós devemos e todos podemos ser úteis reciprocamente uns aos outros. O egoísta é um
ser inconsciente que não conhece os laços que nos unem e o dever que temos decooperar com todas as nossas forças para alcançar o Bem comum. E o maçom nunca
pode ser um egoísta, ignorante de sua relação e deveres para com os demais.

O JURAMENTO
O candidato encontra-se agora pronto para cumprir a formalidade do juramento, ou
obrigação solene que se lhe faz prestar diante da área de sua própria consciência,
ajoelhado com o joelho esquerdo, e com o joelho direito em esquadro, em sinal de
humildade, respeito e devoção; com a mão direita sobre a Bíblia, que representa a
palavra Divina ou a Verdade Revelada pela tradição, tendo na esquerda um compasso,
cujas pontas apoia sobre o peito num símbolo da plenitude da consciência e do perfeito
entendimento de seu coração.
O juramento é feito “em presença do G. A do U. e dos irmãos reunidos em Loja”. O
reconhecimento da presença do G. A. é pois, sua primeira condição. O juramento ou
obrigação assume-se individualmente em presença do Ideal e das aspirações mais
elevadas de cada um de nós naquele Princípio impessoal que constitui o primeiro
molde, rege o curso e é o Divino Arquiteto em nossas vidas.
Os irmãos reunidos ao redor do aspirante, com suas espadas juntas, formando uma
abóbada de aço sobre sua cabeça sem que ele possa percebê-lo entretanto, com seus
próprios olhos, são o símbolo daquelas presenças ou inteligências invisíveis que se
acham constantemente ao nosso redor, sem que delas tomemos consciência; mudas
testemunhas de nossos atos, que nos vigiam, nos protegem e nos ajudam a levar a termo
nossos propósitos e nossas aspirações mais elevadas.
A obrigação contrai-se livre e espontaneamente “com pleno e profundo convencimento
de alma”. Heis aqui uma condição fundamental de seu significado e de sua validade:
não se trata, pois, de uma obrigação obtida com lisonjas, promessas ou ameaças, com a
qual se faz a ligação contra a própria vontade ou contra os desejos e aspirações,
podendo o aspirante de tal forma ser constrangido a fazer algo que repugne, como em
qualquer sociedade secreta, cuja orientação seja diferente da genuína Tradição
Iniciática.
Isto é o que caracteriza a Maçonaria e a diferencia nitidamente de outras sociedades de
diversas finalidades que tenham o segredo como meio ou instrumento de sua atividade.
Seus elevados Princípios e a lealdade e fidelidade aos mesmos que é pedida a seus
iniciados, dos quais quer fazer homens livres no sentido mais pleno e profundo da
palavra, colocam-na eternamente acima das críticas interessadas e malévolas que lhe são
feitas, sob o pretexto do segredo no qual se desenvolvem suas atividades.
O maçom contrai a obrigação que o liga à Ordem pelas mais elevadas aspirações de sua
alma, com a mais plena, livre e espontânea vontade, e até o último momento dá-se-lhe a
liberdade de se retirar, se assim o preferir.

AS TRÊS OBRIGAÇÕES


A primeira das obrigações contraídas pelo juramento, refere-se aos segredos da Ordem.
O recipiendário obriga-se a “não revelá-los a ninguém que não seja um bom e legítimo
maçom”. É a obrigação da discrição no que se refere a todo ensinamento esotérico, para
que a mesma seja útil e proveitosa, e que dito ensinamento possa transmitir-se
unicamente a quem estiver devidamente preparado para recebê-lo, isto é, capacitado a
entendê-lo em seu sentido real.Esta obrigação está em perfeito acordo com as palavras de Jesus: “Não deis coisas
sagradas aos cães ou pérolas aos porcos”, e de Buda: “Não turbe o sábio a mente do
homem de inteligência retardada”; como também na máxima hermética: “Os lábios da
sabedoria estão mudos fora dos ouvidos da compreensão”.
O termo cão, nas palavras de Jesus, nada significa de injurioso, sendo uma palavra de
uso no Oriente no sentido de, profano ou “estranho”; e no que diz respeito às pérolas,
estas representam uma imagem muito expressiva dos fragmentos da Sabedoria que o
iniciado deve reunir cuidadosamente, no místico silêncio da alma, em vez de “atirá-las”
ao mundo das paixões, onde ninguém saberia compreendê-las.
A segunda obrigação é a promessa de “não escrever”, gravar ou fazer qualquer sinal
pelo qual possam conhecer-se tanto a Palavra Sagrada, como os meios de comunicação
e reconhecimento entre os maçons. Esta obrigação, em seu sentido exotérico, destina-se
a proteger a unidade e inviolabilidade da Ordem, e, portanto, a continuidade da
Tradição que por meio dela se transmite simbolicamente.
Esotericamente a palavra sagrada refere-se mais particularmente ao místico Verbo ou
Ideal Divino que cada um recebe no íntimo de seu ser para expressá-lo numa atividade
construtiva – atividade que será o meio pelo qual será exteriormente reconhecido como
maçom por todos “os bons e legítimos maçons”. Esta palavra não deve dar-se a
conhecer exteriormente a ninguém, pois, perderia sua eficácia, assim como a semente
perde seu valor vital se for afastada da terra aonde deve germinar.
A terceira obrigação é o reconhecimento dos deveres de solidariedade que o unem aos
demais maçons pelo mesmo fato de ter adquirido a consciência de sua relação para com
eles, que é a fraternidade. Deve, pois, considerá-los a todos como irmãos e a eles sentir-
se ligado por aquela fraternidade espiritual que brota da comunidade de ideais,
tendências e aspirações, que é mais forte e profunda que qualquer outra fraternidade
puramente carnal ou exterior.
Assim compromete-se a ajudá-los e socorrê-los onde suas forças o permitam, tanto
moral como materialmente. Isto não quer dizer que deva fazê-lo com prejuízo de
outrem, amparando injustiças e ações desonestas, mas que deve cumprir para com eles o
primeiro dever de humanidade, fazendo em todas as circunstâncias tudo o que o amor
fraternal e seu próprio senso do bem, lhe sugerirem, evitando tudo quanto possa
prejudicá-los direta ou indiretamente.
Antes de faltar a este juramento, o maçom prefere “ter a garganta cortada e a língua
arrancada pela raiz”, o que significa perder o poder da palavra, cuja eficácia construtiva
e regeneradora depende do segredo e da veneração com os quais se custodia em
religioso silêncio exterior, para que possa livremente manifestar-se em seu interior.
É o castigo simbólico que o indiscreto recebe, naturalmente, como conseqüência
necessária de suas próprias ações, quando faz uso indevido, egoísta ou volúvel do que
lhe tiver sido confiado. Comunicando aquilo que não deveria, perde ou retarda sua
própria capacidade de expressá-lo, assim como a capacidade de alcançar uma justa e
perfeita compreensão das coisas. O indiscreto e o infiel nunca podem estabelecer-se na
Verdade, que se envolve em seus véus mais impenetráveis e se afasta deles para sempre.
Assim, a língua acaba efetivamente arrancada de sua raiz, que não pode ser outra coisa
senão a própria verdade.A LUZ
O juramento ou obrigação que acaba de contrair perante todos, e, fundamentalmente,
consigo mesmo, com o propósito que exprime o testamento em sua vida profana, e com
o qual as resoluções iniciais desse mesmo testamento se acham solenemente
confirmadas e seladas, fazem o recipiendário digno de ver a luz, caindo-se-lhe por
completo dos olhos, a venda de ilusão que lhe impedia de ver a Realidade em si mesmo.
E a luz é lhe dada simbolicamente por duas vezes, depois de tê-lo feito sair
momentaneamente do Templo para que recomponha as irregularidades simbólicas de
seu traje.
Tendo-se declarado disposto a confirmar seu juramento – à falta do qual sempre se lhe
concede a faculdade de retirar-se – cai de seus olhos a venda com a qual até agora tinha
podido ser admitido no Templo. Vê ao redor de si, na semi-escuridão do lugar em que
se encontra, a todos os irmãos de pé com a cabeça envolta num capuz negro, portando
na mão esquerda uma espada que é dirigida ao seu peito.
Estas espadas não são, entretanto, uma ameaça. Partindo da mão esquerda, ou seja, do
lado do coração, são o símbolo dos pensamentos de todos os presentes, ainda
desconhecidos para ele (e por esta razão velados) que convergem com benevolência em
direção ao neófito e simbolizam também a unidade de sentimentos com os quais ele é
recebido.
Estes irmãos fazem-no notar que na qualidade de testemunhas silenciosas de suas
obrigações (e imagem das forças silenciosas que nos rodeiam), estão dispostos a ajudá-
lo e socorrê-lo desde que cumpra com suas obrigações, assim como, a castigá-lo como é
devido em caso de transgressão. Assim, oferece-se lhe pela última vez a oportunidade
de se retirar, e com a certeza de que o juramento pronunciado não lhe provoca nenhuma
inquietação, concede-se lhe a plena luz. Os irmãos presentes descobrem-se, abaixando
suas espadas ficando à ordem, enquanto o Templo é iluminado com toda a claridade.
As espadas são o símbolo de todas as forças desconhecidas que na vida sempre
favorecem e auxiliam a quem permanece constantemente fiel a seus ideais e obrigações
apesar da situação difícil e das condições em aparência contrárias em que se encontre,
enquanto que essas forças se convertem em outros tantos flagelos, remorsos e castigos,
para quem cede e se assusta renunciando e faltando ao cumprimento de suas obrigações
e ideais.
A vida torna-se sempre mais dura, difícil e insatisfatória para os que renunciam a seus
ideais e às suas mais elevadas aspirações; aqueles que cedem à aparente contrariedade
dos homens e das coisas e se deixam desalentar por sua frieza e falta de cooperação.
Nunca e por nenhuma razão deve alguém renunciar à expressão de seu próprio Ser mais
elevado e à do Divino desejo que constitui o anseio de seu coração. São estes para ele,
além de um privilégio, uma obrigação e um dever cujo perfeito cumprimento lhe
assegura a investidura de sua Primogenitura. Se bem que deve saber esperar com
firmeza e confiança, sem que seu coração ao que nele representa o reflexo do próprio
Verbo Divino e sua mais elevada visão da Realidade.
Com esta firme atitude de sua consciência diante das provas contrárias da vida, faz-se a
luz gradualmente, em seu mundo exterior. As adversidades e os próprios inimigos
descobrem-se, e aparecem agora como “amigos”, tendo deposto a máscara, ou aparênciahostil que escondia seus semblantes, e toda sombra pavorosa desvanece-se de sua
existência. É a plena luz que passa livremente do interior e é derramada sobre o mundo
exterior, uma vez que tenhamos sabido resistir com Fé inalterável, fidelidade e
persistência a todas as contrariedades que nos tenham sido apresentadas.
A luz tem sido sempre considerada como o símbolo mais apropriado da Divindade e da
Realidade. O próprio São João, o apóstolo iniciado, diz em sua primeira epístola: “Deus
é Luz e nele não há trevas”. Conhecer a luz é, pois, conhecer a Verdade e comunicar-se
com a própria Divindade, que é Bem Onipresente, e desenvolver outros tantos Centros
ou Canais, por meio dos quais essa Luz se manifesta em nossa vida e ao nosso redor.
A Luz que o iniciado recebe, como prêmio e conseqüência de seus esforços, é um
símbolo de transcendental importância em todas suas acepções. A capacidade de ver a
luz e adentrar à sua percepção constitui, pois, toda a essência e finalidade da iniciação.
Restituição à visão exterior das coisas, uma vez removida a venda que lhe cobria os
olhos, depois de ter sido iniciado na visão interior da consciência, o candidato
experimenta de início uma profunda decepção, uma vez que a realidade exterior aparece
em seu aspecto mais sombrio e negativo. Mas, aprendendo a combinar a visão dos
sentidos com a íntima visão da Realidade, adquire também a capacidade de manifestar e
ver exteriormente a Luz da qual adquiriu a percepção interior, e a ilusão do aparente
perde para ele todo o poder.

A CONSAGRAÇÃO


Conduzido novamente ao altar diante do qual deve, como antes, postar-se em atitude
coerente com a importância do ato que será realizado deve o recipiendário confirmar
novamente suas obrigações, após o que o Ven. Mestre com a espada flamejante apoiada
sobre a cabeça daquele, pronuncia a fórmula da consagração, acompanhada pelos golpes
misteriosos do grau. Isto feito, faz com que se levante e abraça-o, dando-lhe por
primeira vez o título de irmão, dizendo ao cingir-lhe o avental:
“Recebe este avental, distintivo do Maçom, mais honroso que todas as Condecorações
humanas, porque simboliza o trabalho, que é o primeiro dever do homem e a fonte de
todos os bens, ele que dá o direito de sentar-vos entre nós, e sem o qual nunca deveis
estar em Loja”.
A espada flamejante, emblema do Magistério, e o avental de pele, que caracteriza todo
maçom, são dois símbolos que merecem toda a nossa consideração.
Encontramos tanto este como aquele nos versículos 21 e 24 do terceiro capítulo do
Gênesis, aonde foi dito que o Eterno fez túnicas de pele para Adão e sua mulher e os
vestiu. E depois de ter expulsado o homem do Jardim do Éden “para que trabalhasse a
terra” colocou no Oriente do mesmo Jardim do Éden uns querubins, que mostravam
uma espada flamejante, “para custodiar o Caminho da Árvore da Vida”..
É evidente que as túnicas de pele, às quais aqui se faz menção, simbolizam o corpo
físico do homem, do qual se reveste a consciência individualizada (Adão) e seu reflexo
pessoal (sua mulher) ao serem enviados do estado de beatitude edênica (o mundo
mental ou interior) sobre a terra (ou realidade objetiva) para trabalhá-la, ou nela
expressar suas qualidades divinas.Da mesma forma, a espada flamejante que se encontra com os querubins anjos ou
Mensageiros do Divino no homem) no Oriente, ou origem do Mundo Mental ou interior
da consciência, é um símbolo manifesto do Poder Divino, “que é poder criador” latente
em todo ser humano, e que é privilégio do Magistério realizar, ou recuperar,
manifestando assim as mais elevadas possibilidades da vida, cujo Caminho abre a
custodia.
O avental que recebe, e com o qual se reveste todo maçom, é um emblema do próprio
corpo físico com o qual vimos para trabalhar sobre a terra, com o objetivo de adquirir
aquelas experiências que nos transformarão em artistas verdadeiros e acabarão por dar-
nos o magistério ou domínio completo sobre nosso mundo.
A percepção deste avental, ou túnica de pele, como simples traje ou envoltório exterior,
assim como da essência de nosso próprio ser, é conseqüência da visão espiritual que
conseguimos através da busca da Luz, desde o Ocidente dos sentidos ao Oriente da
Realidade. Mas isto não deve conduzir-nos a desprezá-lo, por ser parte integrante e
necessário à perfeita manifestação do homem na vida terrestre, mediante a qual deverá
ir depurando-se, escalando graus em prol de uma existência divina.

AS LUVAS
Com o avental davam-se ao recém iniciado, e em alguns países este costume ainda
persiste, dois pares de luvas, um para ele e outro para que ele dê à mulher que mais ama.
As luvas brancas são um símbolo evidente da pureza de intenções que o maçom sempre
deve observar em suas ações: fazer o Bem pelo próprio Bem, esforçando-se em toda
atividade ou trabalho, para fazer o melhor que puder para a Glória do G. A., ou seja,
para a expressão do Divino, em vez de deixar-se guiar pelas considerações de
conveniência e utilidade material ou visar principalmente o fruto ou benefício direto da
ação. Heis aqui o significado das luvas brancas que se lhe oferecem, e que ele deve ter
cuidado de não deixar sujar e manchar com o egoísmo e com a escravidão das paixões
que embrutecem o homem.
Com o outro par de luvas, “para a mulher que mais ama”, a Maçonaria quer mostrar
como sua influência moralizadora, iniciática e regeneradora, deve estender-se também à
mulher, ainda que esta não seja diretamente admitida nos seus trabalhos. Com estas
luvas, a mulher que cada recém iniciado reputa como a mais digna de possuí-las,
ingressa espiritualmente na Corrente de Solidariedade Ideal e Construtiva que a
Maçonaria forma no mundo todo, como companheira do homem, sem necessidade de
passar pelas provas de iniciação.
Assim pois, apesar de que alguns pretendem franquear-lhes e outro negar-lhe a entrada
em nossos Templos, a debatida questão de admitir a mulher na Maçonaria acha-se já
potencialmente resolvida a seu favor, pois que pelas qualidades que a fazem estimar,
fica admitida nesta forma, e adotada espiritualmente no seio da Instituição.
Em vez das luvas, usa-se entregar, em alguns países, um malho e um cinzel, símbolos
do trabalho que o Aprendiz deve executar sobre si mesmo, despojando-se das asperezas
da pedra bruta que representa sua personalidade, e uma régua “para que nunca se separe
da linha reta do dever”. Estes símbolos são relativamente equivalentes e não é
necessário discutir o valor de uma preferentemente aos outros. O essencial é reconhecê-
los como símbolos e por em prática seus ensinamentos alegóricos.A PALAVRA
Tendo sido consagrado maçom, o neófito está agora em condições de receber os sinais,
marcha e a bateria do grau, bem como, a palavra sagrada e de modo de dá-la,
juntamente com os meios de reconhecimento, que constituem o fundamento de suas
instruções.
Estudaremos em outro local o significado e o valor dos sinais e da marcha, no que diz
respeito especialmente à aplicação da Doutrina Maçônica, contentando-nos por ora em
ver o que representa a Palavra para o iniciado que tenha recebido a Luz.
O primeiro versículo do Evangelho de São João, sobre o qual são colocados os
instrumentos emblemáticos da Maçonaria ao abrirem-se os trabalhos, dá-nos a chave do
amplo significado da Palavra para o maçom. Constituindo este versículo o fundamento
de toda atividade ou trabalho maçônico, devemos perceber seu significado, antes de ver
a exata interpretação, em particular, da palavra sagrada do Aprendiz.
A afirmação No Princípio era o Verbo (ou seja, a Palavra) é eminentemente iniciática,
isto é, não pode ser entendida sem adentrar ao sentido interior das coisas. É a
comprovação da Verdade de que tudo se manifesta desde um Princípio Interior ou
espiritual chamado Verbo ou Palavra, ou seja, afirmação criadora de sua realidade, que
o manifesta e faz existir desde o estado de Realidade Imanente, latente ou potencial.
Dizendo “no Princípio era o Verbo” reconhecemos a origem espiritual de tudo o que
vemos, ou se apresenta de alguma forma diante de nossos sentidos. De tudo sem
distinção podemos dizer que no princípio (ou em sua origem) era ou foi um Verbo,
Palavra, Pensamento não pode ser senão uma manifestação da consciência, tudo o que é
exterior tem uma origem interior no ser onde teve nascimento primeiro como Causa,
cujo efeito agora estamos percebendo.
Isto aplica-se tanto à criação ou formação do Universo desde seu Primeiro Princípio
(que é Ser, e como tal, fundamento de tudo o que existe, espaço e tempo incluídos)
como à particular criação ou formação do ser, do homem e da sua vida manifestada.
Tudo o que nesta aparece teve sua origem num verbo (pensamento, desejo, aspiração,
afirmação ou estado de consciência que é a causa sutil de sua existência, como efeito
visível).
É, pois, de importância transcendente o que o homem diz, pensa ou afirma ainda que
somente dentro de si mesmo. Por este único fato, participa consciente ou
inconscientemente do Poder Criador Universal do Verbo e de sua atividade construtiva.
É privilégio e prerrogativa do maçom fazê-lo consciente e sabiamente, enquanto o
profano o faz inconsciente e alienadamente.
Aprender o reto uso da Palavra e disciplinar-se nele mesmo: heis aqui a tarefa
fundamental de que se incumbe o maçom. Com esta disciplina faz sua atividade
construtiva e em harmonia com os planos do G. A., isto é, com os Princípios Universais
da Verdade.
Existe pois, uma palavra sagrada, diferente de todas as palavras profanas que são nossos
erros, pensamentos negativos e juízos formados sobre a aparência exterior das coisas. A
palavra sagrada é o Verbo, isto é, o que de mais elevado e de acordo com a Realidade
podemos pensar ou imaginar, uma manifestação da Luz que do interior nos ilumina e
cuja natureza é idêntica a essa Luz. É nosso ideal e nosso conceito do que há de maisJusto, Bom, Formoso, Grande, Nobre e Verdadeiro. Adaptando nossas palavras a este
Verbo, pronunciamos a “Palavra sagrada” e decretamos seu estabelecimento. Pois,
como foi dito: “Assim mesmo decretarás alguma coisa, e esta será estabelecida em ti”, e
sobre teus caminhos resplandecerá a Luz” (Job, 22-28).

SIGNIFICADO DA PALAVRA


A Palavra Sagrada, dada pelo Ven. Mestre que toma assento no Oriente, simboliza a
Palavra Sagrada dada individualmente a cada um de nós pelo Espírito da Verdade que
igualmente se posta ou mora no Oriente ou origem de nosso ser. Também representa a
instrução que é dada ou deveria ser dada em Loja (ou lugar aonde se manifesta o Logos
ou Palavra) e que sempre deve partir do Oriente para ser efetiva, isto é, do que cada um
pode imaginar individualmente de mais nobre e elevado. Deve ser Luz inspiradora e
vida, como é a luz do sol que surge do Oriente material, iluminando e vivificando nosso
planeta.
À semelhança da Palavra Sagrada do Aprendiz, que se pronuncia ao ouvido, letra por
letra, assim deve ser dada a instrução maçônica. Dá-se a cada um o primeiro rudimento,
a primeira letra da Verdade para que meditando e estudando sobre seu significado,
chegue por seu próprio esforço a conhecer e formular a segunda, que lhe fará digno de
receber útil e proveitosamente a terceira. Desta maneira tem sido e sempre foi
comunicada a Doutrina Iniciática em todos os tempos, sendo o próprio simbolismo
maçônico a primeira letra da mística Palavra Sagrada da Verdade.
O significado particular da Palavra Sagrada do Aprendiz é: “Nele há Força”. Isto quer
dizer que o Aprendiz reconhece por meio da palavra sagrada, ou seja, do Verbo Divino
nele próprio, que a força verdadeira não se encontra no exterior, no mundo dos efeitos,
mas interiormente, na Realidade que constitui o Princípio Imanente e Transcendente de
tudo o que existe.
Esta transformação completa do ponto de vista da consciência – que distingue o iniciado
do profano – não pode ser senão, o coroamento e a conseqüência de sua iniciação. É
preciso, pois, adentrar interiormente na percepção da Realidade, para reconhecer que a
força está nela, e não nas coisas aparentes que vemos, estabelecendo-nos firmemente
neste reconhecimento fundamental, como coluna do simbólico Templo que erigimos, e
baseando sobre este reconhecimento íntimo e secreto, todas nossas ações.
A análise da Palavra, nas três letras hebraicas de que se compõe, dá-nos um guia para
compreender o sentido profundo que tomam as três letras em sua combinação.
A primeira letra refere-se, como é evidente, ao corpo físico e ao mundo objetivo que
constitui a morada ou habitação do homem. Estudando a primeira letra, o homem
aprende a conhecer a realidade exterior e o mundo dos efeitos, e meditando sobre a
íntima essência deste, chegará a perceber a realidade interior que se esconde atrás desta
aparência, representada pela segunda letra que deve ser individualmente encontrada ou
descoberta.
Esta representa a consciência ou mundo interior que cada um de nós acha em si mesmo,
o Mundo Mental, no qual se expressa individualmente o Ser, produzindo assim a causa
de todo o feito visível. O descobrimento ou percepção individual desta segunda letra
põe o iniciado em atitude para comunicação ou recebimento da terceira.O significado desta última deve ser relacionado com aquilo que já temos visto quando
falamos do simbólico instrumento, do qual a própria letra representa admiravelmente a
sua forma. Refere-se às possibilidades do Mundo Divino ou Transcendente que se
encontram no homem em estado latente, e que podem manifestar-se como um raio, ou
como o brilho de uma espada, ante o olho de nossa consciência, que constitui o ponto
central ou eixo de nosso próprio mundo interior “a luz que ilumina a morada do
homem”.

RESTITUIÇÃO DOS METAIS


A cerimônia iniciática dá-se por concluída no mesmo ponto em que teve ser início:
tendo-se feito assentar o recém iniciado no lugar que lhe corresponde, isto é, no
primeiro posto ao Oriente da Coluna do Norte, para que possa continuar dali no
simbólico caminho que, em sentido inverso à direção de suas viagens, lhe fará realizar
na Loja, o seu progresso maçônico. Após a proclamação e o reconhecimento de todos os
seus irmãos, restituem-se-lhe os metais, cuidadosamente guardados, dos quais havia
sido despojado ao entrar na câmara de reflexões.
É claro que esta restituição tem também um significado simbólico: depois de ter
aprendido a pensar por si mesmo, com o esforço alegórico das três viagens, depois de
ter visto a luz e recebido a Palavra da Verdade, pode reconhecer novamente as
possessões intelectuais e materiais de que antes teve de despojar-se para poder
empreender o Caminho da Verdade.
Agora tem o dever de fazer das mesmas aquele sábio uso para qual sê-lhe restitui sua
posse, pois, tudo indistintamente tem-nos sido dado e sempre será dado para seu uso.
Não existe posse de nenhum tipo que possamos reter para sempre. Nem nossas próprias
criações intelectuais, nem tão pouco os átomos de que se compõe o nosso corpo, que
estão sujeitos a uma incessante mudança. Devemos pois, converter-nos em canais sábios
e úteis de tudo o que passa por nossas mãos, transmitindo-o como o temos recebido, em
benefício dos demais. Isto ensinar-nos-á o primeiro uso que deverá fazer o recém
iniciado, dos metais que lhe foram devolvidos, dando sua primeira contribuição à
Solidariedade Maçônica.

A FILOSOFIA INICIÁTICA DO GRAU DE APRENDIZ
A INSTRUÇÃO SIMBÓLICA


A Palavra Sagrada que é dada ao novo iniciado depois de sua consagração e admissão
definitiva na Ordem é, como temos visto, um símbolo de instrução verbal sobre os
Princípios da Verdade que cada Aprendiz tem o direito de esperar dos que se encontram
mais adiantados que ele na Senda da Iniciação.
Sendo a Maçonaria, em sua verdadeira essência tradicional e universal, uma Escola
Iniciática, ou seja uma Academia destinada ao Aprendizado, ao Exercício e ao
Magistério da Verdade e da Virtude, é natural que esta instrução deva ser esperada por
parte dos menos adiantados e deva ser dada por aqueles que se encontram a isto
capacitados. Esta comunhão espiritual de estudos e aspirações é a razão pela qual
existem as Lojas e outros agrupamentos maçônicos.A instrução deve ser dada como se faz com a palavra: “ao ouvido”, ou em secreto
entendimento e “letra por letra”, isto é, partindo dos primeiros elementos e com a ativa
cooperação do discípulo, cujo progresso não depende do que recebe, mas do que
encontra por si mesmo, por seus próprios esforços, pelo uso que faz da primeira
instrução recebida com meio e instrumento para descobrir a Verdade.
Esse método caracteriza e distingue a instrução iniciática da instrução profana.
Enquanto o objetivo desta última é simplesmente o de comunicar determinados
conceitos ou conhecimentos, preocupando-se menos com a opinião que o discípulo
possa formar sobre os mesmos, que de sua capacidade para repeti-los tal como lhe
foram comunicados. Para a instrução iniciática isto representa unicamente o ponto de
partida, e o essencial é a opinião que cada um forma de seus próprios esforços e
raciocínio sobre aquilo que recebeu.
A uma primeira e elementar compreensão dos Princípios ou rudimentos da Verdade,
que representa a opinião e o resultado do esforço pessoal do instrutor – a primeira letra
da palavra da Sabedoria – deve-se seguir um período silencioso de estudo e reflexão
individual, no qual o discípulo aprende a pensar por si próprio, avançando por seus
próprios esforços pelo Caminho que lhe foi indicado. Este estudo e esta reflexão,
encontram o seu amadurecimento na descoberta da segunda letra, que é aquela que o
discípulo deve dar ao Instrutor, em resposta à primeira, com o objetivo de que possa ser
julgado digno e capacitado a receber a terceira, que é de um tipo inteiramente diferente
das duas primeiras.

O TRÍPLICE SENTIDO


As três letras da Palavra simbolizam efetivamente o tríplice sentido – exotérico,
esotérico e transcendente – de toda expressão simbólica ou verbal da Verdade.
O primeiro sentido é aquele que corresponde à apresentação exterior de determinado
ensinamento ou Doutrina. Na Maçonaria esta apresentação consiste nos símbolos,
cerimônias e alegorias que caracterizam a Ordem. Na religião constitui os dogmas,
cerimônias e obrigações exteriores. Na Ciência está representada pela observação
analítica que nos familiariza com as propriedades exteriores das coisas. Na Arte, indica
aquele conjunto de regras e cânones que formam a veste exterior e a técnica do artista.
Esta é a letra que comumente se escreve.
Unicamente por intermédio do esforço pessoal, com o estudo, a reflexão e a aplicação
individual, pode-se chegar ao sentido esotérico da Verdade, a Doutrina Interior é o
verdadeiro segredo maçônico, o místico ou o secreto entendimento da Verdade
apresentada exteriormente nas alegorias da construção e de seus instrumentos. Esta
segunda letra não pode, portanto, ser escrita e também não o pode a seguinte que
somente se recebe pelo fato de possuir a segunda.
Assim como o maçom deve chegar por seus próprios esforços ao conhecimento da
Doutrina Iniciática que fará dele um verdadeiro filósofo, o mesmo caminho acha-se
aberto no campo da religião para o metafísico que busca o sentido profundo dos dogmas
e símbolos religiosos e o valor operativo de suas cerimônias quando for entendido em
seu significado espiritual. Assim , igualmente, o sincero e ardente buscador da Verdade
não se circunscreverá à observação exterior dos fenômenos e das leis que governam sua
causalidade imediata, senão que esforçar-se-à em reconhecer e encontrar os Princípios
que os regem e aos quais obedecem. O Artista não será digno de tal nome até que a artedaquele que tenha aprendido o domínio puramente técnico ou formal, não seja capaz de
expressar sua própria vida e seus sentimentos interiores.
Por conseguinte, em qualquer campo da vida temos de progredir constantemente desde
um conhecimento inicial do concreto para o reconhecimento do mais profundo que nos
inicia subjetivamente na realidade da coisa conhecida. Este passo, simbolizado na
Maçonaria pela passagem da primeira à segunda letra da Verdade, ou do primeiro ao
segundo grau da iniciação, é uma preparação necessária para chegar à terceira letra ou
terceiro sentido da Verdade, que corresponde ao terceiro grau da Iniciação, ao
Magistério que dá a capacidade de falar ou realizar o que individualmente tenha sido
assimilado.

OS TRÊS ANOS


Os três anos do Aprendiz e os três passos de sua marcha, ainda lembrando as três
viagens da iniciação, são evidentemente o símbolo do tríplice período que marcará as
etapas de seu estudo e de seu progresso.
Estes três períodos referem-se particularmente às três artes fundamentais (a Gramática,
a Lógica e a Retórica) a cujo estudo deve aplicar-se, ainda que deva contentar-se com
dominar unicamente a primeira, por ser a perfeição da segunda e da terceira,
respectivamente, o objeto do domínio dos Companheiros e Mestres.
A primeira entre as sete “artes liberais” – a Gramática – refere-se ao conhecimento das
letras (em grego gramática: “sinais, caracteres ou letras”), isto é, ao conhecimento dos
Princípios ou elementos simbólicos com os quais é representada a Verdade. Neste
estudo é onde principalmente deve ser demonstrada a capacidade do Aprendiz, que
ainda não sabe ler nem escrever” a linguagem da Verdade, senão que se exercita tanto
num como no outro, soletrando ou estudando uma por uma as letras ou Princípios
Elementares nos quais pode resumir-se e nos quais pode ser traçada a origem de todas
as coisas.
Há também, evidente referência dos três anos do Aprendiz ao conhecimento dos três
primeiros “números” ou Princípios Matemáticos do Universo: o número um, ou seja, a
Unidade do Todo; o número dois, ou seja, a Dualidade da Manifestação, e o número
três, ou seja, o Ternário da Perfeição.
Este conhecimento filosófico dos três números, sobre o qual falaremos logo após, é de
verdadeira e fundamental importância, enquanto compendia e sintetiza em si todo o
conhecimento relativo ao Mistério Supremo das coisas. Pitágoras o expressou
admiravelmente nas palavras: A Unidade é a Lei de Deus (ou seja, do Primeiro
Princípio, da Causa Imanente e Pre-Antinômica), o número (nascido da multiplicação
da Unidade e por meio da Dualidade) é a Lei do Universo, a Evolução (expressão da Lei
do Ternário) é a Lei da Natureza.
Ou, segundo as palavras de Ramaseum de Tebas: Tudo está contido e se conserve no
Um, tudo se modifica e se transforma por três: a Mônada criou a Díade, a Díade
produziu a Tríade, e a Tríade brilha no Universo inteiro.

A UNIDADE DO TODO


A Primeira Lei ou Princípio, cujo reconhecimento caracteriza e distingue
constantemente ao Verdadeiro filósofo iniciado, é a da Unidade do Todo ou, comodiziam os antigos: “En to Pan” – “Uno o Todo”. O Todo é Uno em sua Realidade, em
sua Essência e Substância íntima e fundamental; tudo vem da Unidade; tudo está
contido e sustentado pela Unidade; tudo se conserva, vive, é e existe na Unidade; tudo
se dissolve e desaparece na Unidade.
A Unidade está simbolizada naturalmente pelo ponto, origem da linha reta, do círculo e
de toda figura geométrica (o ponto superior que refletindo-se em seu aspecto dual,
representado pelos dois pontos inferiores, forma os três pontos ( que caracterizam os
maçons).
O Ponto, enquanto simboliza a Unidade, é um centro, o Centro do Todo, o Centro
Onipresente, no qual estão contidos, em sua totalidade e unidade, o espaço, o tempo e
todas as coisas existentes. Não tem lugar onde não se encontre e que não seja uma
manifestação ou aspecto parcial desta Sublime Unidade que constitui a Eternidade e o
Reino do Absoluto.
Este Todo, é evidentemente, o ser, isto é, o que é Ego sum qui sum; heis aqui a
definição da Realidade que constitui o Grande Todo, a Essência e Substância de todas
as coisas, potencialmente contido em todo “ser” e parcialmente manifestado em toda
existência, e no qual vivemos, nos movemos e temos nosso ser.
O conhecimento do Uno (um conhecimento que para ser tal deve superar a ilusão da
dualidade, entre “sujeito conhecedor” e “objeto conhecido”, que é a base de todo
conhecimento ordinário) é o objeto supremo de toda filosofia e de toda religião: todo
conhecimento relativo que se funde neste reconhecimento da Unidade do Primeiro
Princípio que tem sua base na Realidade; toda ciência ou conhecimento que dele se
descuidar, não será a verdadeira ciência nem o verdadeiro conhecimento, uma vez que
descansa fundamentalmente na ilusão.
Conhecer a Unidade do Todo, é pois, conhecer a Realidade, “o que é” verdadeiramente;
e não reconhecê-la, ou admitir implicitamente que pode haver dois princípios
fundamentais e antinômicos, ou que não há unidade e identidade fundamental entre duas
coisas ou objetos em aparência diferentes, significa viver ainda no Reino da Ilusão ou
na aparência das coisas e não saber discernir entre o real e o ilusório.
A Luz Maçônica consiste neste discernimento fundamental, que nos faz progredir
constantemente em inteligência desde o Ocidente, que é o Reino da Ilusão, da
Multiplicidade e da Aparência, em direção ao Oriente, que é o Reino do Real, da
Unidade e do Ser. No Ocidente vemos o Uno manifestado na diversidade de seres e
coisas diversas, sem aparentes laços ou relações entre si, enquanto que no Oriente
reconhecemos a Unidade na multiplicidade (Unidade essencial, substancial e imanente,
numa multiplicidade aparente, contingente e transitória) e o laço ou relação interior que
unifica a multiplicidade exterior.
Cada ponto do espaço é um centro e um aspecto do Ser, um Centro ou aspecto desta
Unidade, da que tende a reproduzir em si mesmo as infinitas potencialidades. Assim
pois, no infinitamente pequeno está contido o Mistério do Todo e do Infinito, e em cada
aspecto do Ser, existem indistintamente todas as possibilidades do Ser e da Unidade.

A LINHA RETA


A linha reta, produzida pelo movimento do ponto de um a outro extremo (representados
pelos dois infinitos), é o emblema da vida individualizada, nascida da Unidade do Ser,assim como de todo movimento ou passo do ponto numa infinita sucessão de pontos,
que caracterizam o Espaço, ou a Eternidade na infinita sucessão de momentos que
formam o Tempo, tal como vulgarmente o conhecemos.
Assim como na mecânica a linha reta representa uma força, e a direção em que ela se
aplica na Maçonaria representa o progresso retilíneo, que é a resultante da força
individual potencialmente encerrada no ponto ou Centro de nosso ser, aplicada naquela
exata direção que dá como produto natural a evolução ou “desenvolvimento progressivo
e progressista” das potencialidades latentes nas virtudes ou poderes ativos.
Este progresso individual, simbolizado pela linha reta, está muito bem representado pelo
prumo, que mostra o esforço vertical de cada ser e de toda a Vida em seu conjunto, de
baixo para cima, desde a atração dos instintos e das tendências materiais escravizadoras,
à atração de um Poder, de uma Lei ou Ideal superior, que é a luz do Sol para a
vegetação e os seres orgânicos, e a Luz interior da consciência para o homem e os seres
conscientes. Este esforço vertical é condição necessária para toda finalidade ou efeito
construtivo.
Assim como sem o prumo não seria possível dispor verticalmente as pedras na posição
mais adequada à estabilidade e progresso de uma construção, seria também impossível o
progresso individual do homem se todos os seus pensamentos, aspirações e ações não se
modelassem sobre uma mesma linha reta, no sentido oposto à atração das tendências
interiores, elevando-se gradualmente até a percepção de suas possibilidades superiores.
Finalmente, a linha reta representa uma relação ininterrupta entre os dois infinitos que
marcam seus limites extremos, isto é, entre os dois aspectos antinômicos e
complementares da Unidade Mãe, fazendo-nos ver uma vez mais, a unidade
fundamental da Dualidade Aparente no mundo manifestado.
A DUALIDADE DA MANIFESTAÇÃO
Ainda que tudo seja essência e realidade, tudo se manifesta e aparece como dois.
Unidade e Dualidade, estão assim, intimamente entrelaçadas, indicando a primeira o
Reino Absoluto, e a segunda sua expressão aparente e relativa, sem que haja nenhuma
separação verdadeiramente entre estes dois aspectos diferentes da mesma Realidade.
Assim como a Unidade caracteriza o Ser (no qual não pode existir nenhuma diferença
ou antinomia), assim igualmente, a Dualidade expressa a existência em suas múltiplas
formas, entrelaçadas, por assim dizer, nos pares de opostos, que constituem o selo que
marca o mundo dos efeitos e a Lei que governa toda a manifestação.
A dualidade começa no próprio domínio da consciência, com a distinção entre “eu” e
“aquilo”, entre, o sujeito e o objeto (sujeito conhecedor e objeto conhecido),
constituindo assim o fundamento de todo nosso conhecimento e experiência, tanto
interior como exterior. Não deve, pois, surpreender-nos que estando o sentimento de
dualidade tão fortemente enraizado na ilusão de nossa personalidade, seja difícil
subtraírmo-nos à mesma e chegar assim à perfeita consciência da Unidade
transcendente do Todo, na qual a ilusão da dualidade – que forma a base de nosso
pensamento ordinário – esteja superada por completo.
Temos dois olhos para ver, aos quais correspondem dois ouvidos e dois diferentes
hemisférios cerebrais, como instrumentos orgânicos de nossa inteligência, e duas mãos
e dois pés, instrumentos de nossa vontade. Como o nosso pensamento ordinário baseia-se naquilo que vemos e ouvimos, é evidente que nossa visão exterior das coisas seja
invariavelmente “marcada” por esta dualidade, misticamente simbolizada pela Árvore
da Ciência, do Bem e do Mal, comendo de cujo fruto perde-se momentaneamente a
consciência da Unidade, que, entretanto, constitui nossa Sabedoria instintiva e
primordial (anterior à queda do domínio dual da consciência material).
Somente quando aprendemos, por meio do discernimento e da abstração filosófica, a
unificar os dois aspectos de nossa visão exterior por meio do olho simples de nossa
consciência interna, chegamos ao conhecimento da Realidade )que é o conhecimento da
Unidade), e a ilusão da Dualidade e da Multiplicidade perde inteiramente o poder que
exerceu sobre nós.
Então, o “eu” identifica-se com “aquilo”, o sujeito com o objeto, o conhecedor com o
conhecido, e rasga-se para sempre o véu atrás do qual Isis (o Mistério Supremo da
Natureza) se esconde dos olhares profanos. Mas, enquanto isso, o Véu da Ilusão
permanece estendido entre as duas colunas, e a ciência ordinária – a ciência que se
baseia na observação e na experiência que provêm da ilusão dos sentidos e é impotente
para levantá-lo.
AS DUAS COLUNAS
As duas colunas que se encontram no ocidente e à entrada do Templo da Sabedoria são
o símbolo do aspecto dual de toda nossa experiência no mundo objetivo ou Reino das
Sensações.
Representam os dois princípios complementares humanizados em nossos dois olhos, na
dualidade manifestada em quase todos nossos órgãos, nos dois lados, direito e esquerdo,
de nosso organismo, e nos dois sexos que se integram à espécie humana e se refletem
em todos os reinos da vida e da natureza.
Cosmicamente correspondem aos dois Princípios da Atividade e da Inércia, da Energia
e da Matéria, da Essência e da Substância, representados pelo enxofre e o Sal na câmara
de reflexões e, metafisicamente, pelos dois aspectos masculino e feminino da
Divindade, que como Pai e Mãe Celestes, como deuses e deusas, em seus aspectos
particulares, encontram-se praticamente em todas as religiões.
O reconhecimento individual da Divindade, sob o aspecto de Pai ou de Mãe, parece ter
sido instintivo onde queira que a religião tenha sido efetivamente vivida. Foi sempre
mais fácil estabelecer aquela relação individual com a Divindade, revelada pela primeira
pergunta do testamento maçônico, considerando-a como um Princípio Abstrato,
afastado de nossa percepção e experiência direta, que faz exclamar às almas mais
simples, como a Madalena: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”.
O Princípio de Vida, é pois, em nós, nosso Pai e nossa Mãe, e o Pai-Mãe do Universo e
de todos os seres. Algumas religiões dão mais importância a um do que a outro destes
aspectos, na realidade complementares e inseparáveis da Realidade Única. Não é este o
local mais apropriado para se fazer um estudo mais detalhado sobre este
interessantíssimo tema, e contentar-nos-emos com transcrever, sobre o valor da
preferência de um ou de outro conceito, as palavras de um culto e sábio orientalista
contemporâneo: “O Pai e a Mãe não brigam entre si (pela adoração ou reconhecimento
interior de um ou do outro), ainda que seus filhos possam fazê-lo.
ESPAÇO E TEMPONo que diz respeito ao domínio do manifestado, o Macrocosmo, as mesmas duas
colunas podem considerar-se como símbolos do espaço e do tempo, ou seja, das duas
realidades fundamentais nas quais parece ter sido fundamentado e baseado o Universo
que conhecemos.
Espaço e Tempo, da mesma que Energia e Matéria, são as realidades finais que a
ciência positiva admite como condições indispensáveis de toda existência física,
fazendo abstração das quais nada do que existe e é objetivamente percebido, poderá ser
concebido. Ainda que na teoria einsteiniana se unifiquem (fazendo do tempo uma quarta
dimensão do espaço) e se trate de pôr em evidência sua relatividade, seguem
constituindo os alicerces inalteráveis, o marco primordial e o pressuposto relativamente
invariável de nosso Templo Cósmico.
Como a dualidade não é, em verdade, nada mais do que a soma dos dois aspectos
complementares de um Princípio Único, ao qual revelam objetivamente, e do qual
expressam respectivamente a Imanência e a Transição, o Espaço é, pois, no fundo, um
só aspecto relativo do Ser, que tudo contém e compreende, pelo fato de que tudo é , e o
Tempo é outro aspecto dessa Suprema Realidade considerada como o dinâmico
manancial do Grande Fluxo Cósmico.
Se quisermos considerar o Tempo e o Espaço como um só elemento conservador, por
assim dizer, de toda manifestação objetiva, teremos no Tempo-Espaço uma das duas
colunas da Dualidade básica do Templo da Natureza, sendo a integral Energia-Matéria a
outra coluna ou elemento que constitui a soma de todas as forças ou aparências que
agem, se assentam ou se estabelecem dentro do primeiro elemento.
De qualquer forma, considerando o universo e seus elementos formadores, não nos será
possível evitar um conceito fundamentalmente dual desses primeiros elementos.
Podemos reduzir o Tempo ao Espaço, considerando-o como um aspecto deste, e a
Matéria à Energia (ou reciprocamente), mas, se quisermos chegar à unidade, temos de
transcendê-los a ambos, e nenhum outro elemento poderá constituir a síntese suprema
fora do próprio Ser que tudo é, e constitui a Unidade de Tudo.
Uma vez que o aspecto dual do Universo e do Primeiro Princípio que o origina
encontra-se com as duas colunas no Ocidente e à entrada do Místico Templo da
verdadeira Ciência, é natural que este aspecto deva ser superado. Realmente, no Oriente,
as duas colunas (representadas pelo Sol e a Lua) unificam-se no Delta, do qual
falaremos mais adiante, assim como o enxofre e o sal sintetizam-se no mercúrio, que
reintegra na consciência do homem a Unidade da Vida, dividida na manifestação.

O ÂNGULO


O ângulo, no qual duas linhas diferentes partem de um único ponto originário,
divergindo ao prolongar-se à medida em que se afastam de sua origem, representa outra
imagem característica da dualidade, proveniente de uma unidade preantinômica e
imanente, na qual está sua origem e sua raiz.
O ponto central no qual se unem e do qual partem as duas linhas divergentes,
corresponde ao Oriente, o Mundo da Realidade, no qual tudo permanece no estado da
Unidade Indiferenciada e Indivisível. A parte oposta corresponde ao Ocidente, o
domínio da realidade sensível, na qual a própria Realidade Transcendente aparece
dividida ou separada nos dois princípios simbolizados pelas duas colunas.Enquanto a manifestação emana constantemente do Oriente ao Ocidente, ou seja, do
domínio da Realidade ao da aparência, da Essência à Substância, do Ser à forma e do
Espírito à matéria, o conhecimento ou progresso iniciático, representado pela Luz
Maçônica, caminha em sentido contrário, do Ocidente ao Oriente ou seja, desde os
extremos do ângulo em direção à sua origem. (Perceba-se aqui, o estreito parentesco
existente entre as palavras oriente e origem, ambas derivadas do verbo latino orior,
“surgir, emanar, levantar-se”)
O ESQUADRO E O COMPASSO
O esquadro e o compasso, separados ou unidos na forma conhecida e usada como
símbolo maçônico, formam dois diferentes ângulos, um móvel e com o vértice voltado
para cima ou para o Ocidente.
O ângulo reto, formado pelo esquadro, é o emblema da fixidez, estabilidade e aparente
inexorabilidade das Leis Físicas que governam o Reino do Ocidente ou da Matéria. Os
dois princípios ou lados que concorrem a defini-lo encontram-se sempre à mesma
distância angular de 90 graus, que corresponde à quarta parte da circunferência (que, de
por si, representa a Unidade dentro do ciclo da continuidade) e ao ângulo do quadrado.
O esquadro é, pois, outro símbolo da crucificação da qual deve libertar-se retificando e
dirigindo para o centro todos seus esforços.
O ângulo reto é também, o símbolo da luta, dos contrastes e das oposições que reinam
no mundo sensível, de todas as desarmonias exteriores, que devem ser enfrentadas e
resolvidas na Harmonia que provém do reconhecimento da unidade interior. O
compasso é o símbolo deste reconhecimento e desta harmonia, que deve unir-se ao
esquadro e dominar o mundo objetivo por meio da compreensão de uma Lei e de uma
Realidade Superior. Por intermédio de seu ângulo de 60 graus, no qual está
ordinariamente disposto (o ângulo do triângulo equilátero), mostra o ternário superior
que deve dominar sobre o quaternário inferior, ou seja, o perfeito domínio do Céu sobre
a Terra.
O CÉU E A TERRA
O céu e a terra, indicados emblematicamente pelo esquadro e o compasso, e
entrelaçados da mesma forma um com o outro, por serem aspectos respectivamente
superior e inferior de uma mesma coisa, não representam nada mais que o Oriente e o
Ocidente, com os quais já nos familiarizamos interpretando o valor esotérico da
Cerimônia de Iniciação.
O Céu, ou seja o Mundo da Realidade Transcendente, apresenta-se à nossa consciência
através do uso do compasso ou da faculdade compreensiva e comparativa da mente que
conduz ao estudo das analogias, à indução e generalização das idéias, com as quais
chega-se progressivamente do relativo ao absoluto.
A Terra, ou seja o Mundo da Aparência ou Realidade Objetiva, apresenta-se igualmente
por meio do esquadro da razão, ou inteligência concreta e racional, que marca os limites
fixados por suas leis, por meio da lógica e do juízo, com um determinismo do qual
aparentemente não podemos escapar.
Entretanto, o Caminho da Liberdade encontra-se aqui mesmo, por meio do uso destas
leis em seu aspecto progressista e construtivo conforme nossas aspirações verticais,
indicadas pelo prumo.Cabe aqui citar outra vez o axioma hermético ao qual fizermos referência quando
falamos da “câmara de reflexões”: visita interiora terrae: retificando invenies occultum
lapidem. Devemos adentrar à realidade do próprio mundo objetivo, e não contentar-nos
com seu estudo ou exame puramente exterior. Então, retificando constantemente nossa
visão e os esforços de nossa inteligência (como demonstra a cuidadosa retidão dos três
passos da marcha do aprendiz) atingiremos o uso do compasso em união com o
esquadro, ou seja, o conhecimento da Verdade que nos liberta da ilusão.
AS LINHAS PARALELAS
Assim como o ponto com seu movimento direto engendra uma linha reta, assim também
os dois pontos, movendo-se numa mesma direção retilínea, produzem as duas paralelas,
símbolo característico da dualidade, ou seja, dos dois princípios cuja atividade ocorre
paralela e complementarmente, à imagem dos pares de rodas que suportam um veículo e
dos trilhos sobre os quais se apóiam.
Voltaremos a ver novamente este símbolo das paralelas, e outros aos quais aqui temos
feito referência sumária, no grau de Mestre, limitando-nos por ora a dizer mais alguma
coisa sobre o que eles podem significar para o aprendiz.
Duas paralelas são efetivamente os dois Caminhos do Norte e do Sul, que são
percorridos nas viagens de ida e volta entre o Ocidente e o Oriente, e correspondem às
duas colunas nas quais se assentam respectivamente os Aprendizes e os Companheiros.
O quadrilongo que constitui o Templo Maçônico, está compreendido entre essas duas
paralelas, delimitadas respectivamente por seus extremos oriental e ocidental.
Cada viagem de ida, ou progresso, do Ocidente, ao Oriente, corresponde pois a uma
idêntica viagem de volta ou regresso, desde o Oriente ao Ocidente, paralelo este ao
primeiro, mas dirigido em sentido inverso.
Os dois caminhos paralelos dos quais acabamos de falar não existem tão só
simbolicamente dentro do quadrilongo da Loja, senão que também podem-se observar
de muitas maneiras sobre o nosso próprio planeta. Por exemplo, como correntes
magnéticas que vão respectivamente do Oriente para o Ocidente e reciprocamente,
produzidas pelo movimento da terra dentro do campo magnético determinado pela
radiação solar, às quais se devem os desvios da bússola.
Assim agem todas as; forças do Universo, segundo a Lei da Dualidade, paralelamente,
mas em sentido inverso uma em relação à outra, prevalecendo por um lado o
movimento centrífugo ou de extensão do interior ao exterior, e pelo outro, o movimento
centrípeto de construção, do exterior ao interior. Este origina a gravidade, aquele a
gravitação, duas formas diferentes da Força ou Princípio de Atração.
Aquilo que é ativo interiormente é passivo exteriormente, e vice-versa. Assim deve-se
entender o valor das duas colunas, geralmente confundido e mal interpretado pela falta
de compreensão desta Lei de Compensação, em conseqüência da qual ambos princípios
(ativo e passivo) se acham presentes em cada um dos dois aspectos, mas agindo em
sentido inverso, um em relação ao outro.
O BINÁRIO
A atividade em duas correntes ou sentidos inversos dos dois Princípios, comparável ao
fluxo e refluxo das marés, origina os pares de opostos que se observam onde quer queseja no mundo fenomênico ou exterior, como ocorre na experiência psicológica ou
interior.
Assim, a Luz, emanação ativa e positiva, efeito do movimento centrífugo ou expansivo,
opõe-se às trevas, que podem considerar-se como falta de luz ou luz negativa, efeito de
um movimento centrípeto ou de absorção, do exterior ao interior. A primeira tem, pois,
uma correspondência moral com a Sabedoria, o Amor e o Altruísmo, que é o desejo de
dar; a segunda relaciona-se com a Ignorância, a Paixão e o Egoísmo, que é o desejo e a
vontade de receber.
O mesmo pode ser dito do calor e do frio. O primeiro faz dilatar os corpos e os conduz a
superar suas limitações moleculares, do estado, sólido ao líquido, e deste ao gasoso, e
do gasoso ao estado radiante, libertando os átomos progressivamente de sua escravidão
dentro das moléculas, assim como da lei da Gravidade. Enquanto o segundo, fazendo
voltar ao estado líquido os gases e solidificando os líquidos, sujeita-os sempre mais
estreitamente a uma forma definida, limitando suas possibilidades de movimento.
No campo moral, o calor tem uma evidente analogia com o entusiasmo, ou chama
interior que nos inflama para qualquer tentativa que seja expressão de nosso ser e de
nossos íntimos desejos. Por seu lado, o frio está constituído pelas considerações
materiais e o poder da ilusão que limitam, paralisam, escravizam e entorpecem nossos
esforços.
O mesmo pode ser dito no plano físico, da eletricidade positiva e negativa, das ações e
reações moleculares, das duas propriedades opostas da atividade e da inércia, da
afinidade química que age em ambos os sentidos, e dos diferentes tropismos visíveis
tanto no mundo orgânico como no inorgânico, e no mundo moral, dos diferentes
impulsos que nos animam, de nossos pensamentos e inclinações positivas e negativas, e
que nos fazem, respectivamente, ativos e passivos.
O Bem e o Mal, a Beleza e a Feiúra, a Vida e a Morte, a Fortuna e a Desgraça, a
Verdade e o Erro, o Vício e a Virtude; heis aqui outros tantos pares de opostos que
dominam no mundo relativo, sendo relativos do ponto de vista da consciência em que se
consideram, existindo cada um deles unicamente em relação ao outro, e dissolvendo-se
todos na diáfana perfeição do Absoluto.
Estes pares de opostos estão simbolizados pelos quadrados brancos e negros do
pavimento de mosaico que parte das duas colunas. O eterno conflito, que parece
constituir a mesma essência da vida, tem sido simbolizado pelas diferentes religiões na
luta entre os dois Princípios do Bem e do Mal; o Deus Branco e o Deus Negro,
Princípio da Vida e o da Atividade, Brahma o Criador e Shiva o destruidor, Ormuz o
Princípio da Luz e Arimán o Princípio das Trevas, Zéus e Cronos ou Júpiter e Saturno,
Jehova e Satã, Osiris e Tifón entre os egípcios, Baal e Moloc entre os fenícios.
Deuses brancos e deuses negros, ou anjos e demônios, existem praticamente em todas as
religiões, símbolos evidentes do impulso evolutivo e progressista das aspirações
superiores do homem e da inércia ou gravidade dos instintos e tendências inferiores.
Assim pois, o Armagedon ou batalha celeste entre os espíritos da Luz e os espíritos das
trevas, ou seja entre as Forças Evolutivas e Libertadoras e as Forças Involutivas e
Escravizadoras, é uma realidade psicológica universal de todos os tempos.Mas não é menos certo que as duas forças opostas, os dois princípios que aparecem
constantemente travando uma luta encarniçada, são dois diferentes aspectos ou
manifestações de uma única e mesma Realidade, cujo reconhecimento faz-nos superar o
ponto de vista da luta e do conflito, e situa-nos no ponto central da Harmonia que de
tudo faz uma Coisa Única.
Diabolus est inversus Dei: não é uma realidade em si mesma, mas um aspecto ou
contraparte negativa da manifestação positiva da única Realidade. O conflito entre o
Bem e o Mal e o poder deste sobre nós cessam quando reconhecemos aquilo como
sendo a única Realidade e o único Poder, e nisto vemos tão somente uma aparência
ilusória desprovida de realidade e poder verdadeiros.
O TERNÁRIO
Todo par de elementos ou princípios opostos e complementares encontra um terceiro
elemento, o intermediário equilibrante ou Princípio de Harmonia, reflexo no mundo do
relativo da Unidade Preantinômica originária.
Assim cessa o conflito dos dois opostos e a dualidade faz-se fecunda e se resolve em
impulso evolutivo, construtivo e progressista.
O Pai e a Mãe engendram o Filho, Osiris e Isis engendram a Horus, e o Enxofre e o Sal
produzem o Mercúrio; Vishnú, o Conservador, posiciona-se entre Brahma o Criador e
Shiva o Destruidor; a Arquitrave levanta-se sobre as duas colunas e origina a Porta; o
Homem, ou seja, a Criatura Perfeita, nasce da união do Céu e da Terra, realizando a
mística união e a expressão do Superior com o Inferior.
2 + 1 = 3
Todo Ternário resulta de uma Dualidade, à qual se lhe agrega uma nova Unidade do
mesmo gênero, que pode considerar-se como a resultante da união dos elementos
constitutivos do Binário ou Dualidade. Assim, por exemplo, toda vez que nos
esforçamos em unir os dois lados ou linhas divergentes do ângulo por meio de uma
linha horizontal, obtemos como resultado um triângulo, isto é, a primeira e mais simples
das figuras geométricas.
No caso das idéias, a Verdade encontra-se uma vez examinada a tese e a antítese, os
prós e os contras sobre determinado assunto, que nos conduz à solução do problema que
nos ocupa, com a síntese dos argumentos favoráveis e dos contrários.
O esquadro, que é um dos símbolos fundamentais de nossa Instituição, nasce da união
da perpendicular com o nível. O mesmo pode-se dizer do malhete, que não é outra coisa
senão o Tau dos antigos iniciados, e o mesmo igualmente da cruz formada pela união de
uma linha vertical com uma horizontal.
Nos três casos, a vertical é o símbolo do Princípio Ativo ou masculino, que corresponde
ao enxofre dos alquimistas e pode considerar-se como o Pai do Universo; a horizontal
representa analogamente o Princípio Passivo ou feminino, o sal dos alquimistas, ou seja
a Mãe do Universo. E a união dos dois, forma um novo elemento ou Princípio que torna
fecundas e construtivas as possibilidades dos dois primeiros, realizando a Harmonia e
originando o Ritmo e o Movimento.Isto resulta evidentemente pela suástica, ou cruz em movimento, símbolo muito antigo e
universal, que representa a Vida que anima os quatro elementos, nascidos da união dos
dois elementos primordiais na cruz.
A vida representada pela suástica é o mesmo mercúrio dos filósofos, ou seja o Filho do
Pai e da Mãe celestiais.
Outros significados do Tau e da Cruz dizem respeito a graus diferentes do de Aprendiz,
e deles falaremos oportunamente.

OS TRÊS PONTOS .’.


Os três pontos maçônicos constituem o mais simples e característico emblema do
Ternário. Escolhendo estes símbolo juntamente com o esquadro e o compasso, como
insígnia da Ordem, os seus fundadores deram prova de uma perspicácia e sabedoria que
aqueles que conhecem, o valor oculto das coisas nunca poderão negar-lhes.
Estes três pontos sintetizam admiravelmente o Mistério da Unidade, da Dualidade e da
Trindade, ou seja do Mistério da Origem de todas as coisas e de todos os seres.
Encontramos estes três pontos, harmonicamente juntos e diferenciados numa Unidade
Oriental e numa Dualidade Ocidental, nas três Luzes do Altar, em torno do Livro da
Tradição que através dos séculos é portador da Eterna Verdade, e dos instrumentos que
são necessários para compreendê-la e aplicá-la.
O ponto superior representa, como é evidente, a Unidade Fundamental ou Primeiro
Princípio Preantinômico, Originário e Imanente, do qual tudo teve origem. É o
Absoluto, o Ain-Soph, cabalístico, que existe “em princípio”, e no qual existem em
princípio todas as coisas. Brahma, Vishnu e Shiva o Criador, o Conservador e o
Destruidor do Universo; Osiris, Isis e Horus, ou seja o Pai, A Mãe e o Filho, formam
Nele uma única pessoa e um só ser, uma única e indivisível Realidade. É SAT “o que é”
o fundamental Princípio imanente e transcendente de toda existência, o Fulcro Central
Imóvel que é Origem e Princípio da Criação.
Os dois pontos inferiores, são igualmente, uma imagem da Dualidade; os dois
Princípios que representam as duas colunas, de cuja união e de cujas múltiplas ações e
reações é produzida a multiplicidade fenomênica do Universo. Cada um deles é um
diferente aspecto da Unidade Primordial Originária, que permanece indivisa e
indivisível em sua dúplice aparente manifestação: um existe enquanto existe o outro, e
os dois resolvem-se no Princípio Fundamental do qual tiveram origem. Efetivamente, se
aproximarmos os dois pontos inferiores, com movimento igual, ao ponto superior,
aproximam-se também, um do outro, e quando se unem a este, unem-se também
mutuamente.
Se traçarmos duas linhas entre o ponto superior e os dois pontos inferiores, obteremos o
ângulo que expressa, com seus dois lados emanados de um único vértice, esta mesma
dualidade dos dois Princípios, emanações ou aspectos de um só Princípio Originário.
E se traçarmos outra linha que una os dois pontos inferiores, obteremos o triângulo, cuja
base, unindo os dois elementos, representa o terceiro, que reproduz em si, no mundo do
relativo um novo aspecto contingente da Unidade Preantinômica Absoluta.Assim os três pontos mostram isoladamente os três Princípios que constituem a Unidade
Originária e a Dualidade da manifestação. A união dos três Elementos primordiais – o
enxofre, o sal e o mercúrio, o Pai, a Mãe e o Filho – que tornam fecunda e construtiva a
atividade dos três Princípios.
Enquanto o ponto superior corresponde ao Oriente e ao Mundo Absoluto da Realidade
(e, na Loja, ao Delta, emblema da Unidade tri-unitária), os dois pontos inferiores
correspondem ao Ocidente, ou seja ao Mundo Relativo, que é o domínio da aparência, e
na Loja às duas colunas emblemáticas da Dualidade:
O progresso maçônico acha-se também, aqui indicado sinteticamente, com o progresso
da inteligência, que se ergue sobre o domínio da mente concreta (Reino da Dualidade e
dos pares de opostos), estabelecendo-se no sentimento e na consciência da Unidade
fundamental de tudo e da identidade essencial de todos os seres, por meio das
faculdades superiores da Inteligência, que se baseiam na Unidade, da mesma maneira
que a mente concreta baseia sua lógica e seus juízos no sentido da Dualidade.

O TRIÂNGULO


O triângulo, figura geométrica resultante da união de três pontos por meio de três linhas
retas, e mais particularmente o triângulo eqüilátero ou regular, cujos três lados e ângulos
são iguais, tem sido sempre considerado como um símbolo de Perfeição, Harmonia e
Sabedoria, e, portanto, do que é Celestial e Divino.
Um triângulo eqüilátero é, em essência, o Delta Luminoso que é encontrado no Oriente
em todas as lojas Maçônicas. O olho que se acha em seu centro é o símbolo da
consciência do ser que é o primeiro e fundamental atributo da Realidade. Nada melhor
que este símbolo para expressar a Realidade e sua manifestação ternária nos três lados
que o constituem e nada mais apropriado para colocar-se naquele simbólico Oriente, no
qual unicamente a Realidade pode ser encontrada.
Do triângulo, que forma o Delta propriamente dito, irradiam em seus três lados outros
tantos grupos de raios que terminam numa coroa de nuvens.
Os raios simbolizam a força expansiva do Ser, que de um ponto central infinitesimal
estende e preenche o espaço infinito. As nuvens indicam a força centrípeta, produzida
como refluxo natural da primeira como movimento de contração que engendra a
condensação das forças irradiadas.
Do Princípio ou Unidade do Ser (representado pelo Delta) manifesta-se, pois, uma
dupla corrente positiva e negativa, formada pelos dois Princípios, cuja atividade está
relacionada e regulada pelo ritmo que os une, como intermediário equilibrante.

O TEOREMA DE PITÁGORAS


Outro triângulo que possui uma especial importância no simbolismo maçônico é o
triângulo retângulo, representado pelo esquadro, instrumentos de medida e retificação
do mundo concreto ou da realidade visível. Enquanto o triângulo equilátero mostra
principalmente, o esforço de nossa inteligência para relacionar-se com os Princípios e o
Mundo das causas, o esquadro indica a inteligência racional que se limita ao estudo dos
fenômenos e do Mundo dos Efeitos, representando a norma ou regra que deve guiar-nos
para proceder retamente no estudo e na ação.A importância do triângulo retângulo evidencia-se no famoso teorema de Pitágoras,
cujo valor não se limita à geometria ordinária, sendo assim encontrado entre os
símbolos maçônicos.
O estudo da trigonometria faz-nos ver a importância excepcional do triângulo em geral,
em relação às demais figuras geométricas (todas podem reduzir-se ou decompor-se em
triângulos), e a aplicação universal de suas propriedades. O próprio quadrilongo que
constitui a Loja resolve-se diagonalmente em dois triângulos retângulos, e outro
triângulo retângulo deveria resultar na união dos três lugares que correspondem às três
luzes em sua justa e exata posição.
Não deve igualmente ser esquecida a propriedade característica dos triângulos, cujos
três ângulos formam sempre dois ângulos retos, isto é, o ângulo cujos dois lados se
expandem em linha reta, sendo assim, aquela figura geométrica a expressão ternária
circunstanciada das infinitas possibilidades representadas no infinito.

TETRADA E TETRAEDRO



Quatro triângulos unidos por seus três lados, de maneira que cada um deles esteja, por
cada um de seus lados, em união com os três restantes, formam as quatro faces do
tetraedro ou pirâmide triangular, o primeiro e fundamental entre os cinco sólidos
regulares.
Quatro faces e quatro vértices – respectivamente triangulares e triedros – concorrem a
formá-lo e mostram como o ternário se resolve e concretiza, dentro das três dimensões
especiais num quaternário, originando aquela Tétrada “Manancial Perene da Natureza”,
da qual fala Pitágoras.
No tetraedro, os três princípios ou elementos (Enxofre, Sal e Mercúrio, ou Pai, Mãe e
Filho), provenientes da Unidade Primordial (o vértice superior do tetraedro) e
representados pelas três faces, unem-se intimamente entre si, formando um ângulo
triedro, cuja delimitação no mundo da matéria dos três princípios.
Se nos posicionarmos ao lado deste último triângulo, e buscarmos nele o reflexo do
Vértice Originário, a Unidade Mãe, que se encontra do outro lado, obteremos outra vez
a imagem do Delta, sendo o ponto refletido pelo vértice o olho sagrado deste.
E se nos fixarmos nas quatro linhas que unem os quatro vértices no centro da figura,
obteremos uma estrela de quatro pontas, uma dirigida para cima, para a origem, e as
restantes para baixo, para a Manifestação, outra imagem da relação do Princípio Único
Original como ternário que o expressa no mundo sensível.

TRINDADES E TRILOGIAS


O estudo do número três não estaria completo sem um exame das diferentes trindades e
trilogias, de ordem filosófica, religiosa e moral, que se lhe relacionam.
Encontramos trindades e trilogias em todas as religiões e em todas as filosofias, em
todos os povos: sob diferentes nomes encontra-se uma mesma realidade, um igual
reconhecimento diferentemente expressado. A trindade mais simples e fundamental do
Pai-Mãe-Filho, encontra-se na religião egípcia com os nomes de Osiris-Isis-Horus, na
bramânica como Nara-Nâri-Virâj, ou Shiva-Shakti-Bindu, na Caldaica como Anu-
Nuah-Bel e outras trindades equivalentes. No cristianismo, a Mãe desapareceteoricamente para dar lugar ao Espírito Santo, mas, praticamente se conserva no culto à
“Mãe de Deus” (seja qual for a definição teológica particular deste culto), comparável
com toda a adoração tributada a Isis no Egito e à que hoje se tributa à deusa Kali ou
Shakti (o aspecto feminino ou poder de Shiva) na Índia.
Filosoficamente, o Enxofre, o Sal, e o Mercúrio, como Princípios constitutivos do
Universo ou Forças Criadoras primordiais (análogas ao Pai-Mãe-Filho), encontram uma
perfeita correspondência nos três gunas Rajas-Tamas-Sattva, ou seja Atividade-Inércia-
Ritmos, correspondente o primeiro à força centrífuga ou Princípio de Expansão, o
segundo à força centrípeta ou Princípio de Contração, e o terceiro à força equilibrante
ou Princípio do Ritmo ondulatório.
Brahma, Vishnu e Shiva, da trindade brahmânica, devem entender-se como
correspondentes aos três gunas, sendo Vishnu, como conservador, o princípio
equilibrante entre os dois opostos; Brahma como Criador, a força expansiva; e Shiva
como Destruidor, a força de contração que retorna a si mesma.
Também na filosofia da Índia, encontramos a definição do Ser Supremo como Sat-Chit-
Ananda, que no Ser Absoluto é “satisfação em si mesmo”, converte-se na faculdade
humana da Vontade, que impulsiona o desejo em direção à sua satisfação. Estes três
princípios correspondem também, aos três atributos divinos da Omnipresença,
Omnisciência e Omnipotência.
Outro gênero de trindade resulta da polaridade entre o céu e a Terra, ou seja entre o
Superior e o Inferior, o Oriente e o Ocidente. Entre eles nasce a consciência
individualizada, tipificada pelo Homem, que serve de intermediário entre os dois e
mutuamente os relaciona. Origina-se assim a distinção entre os três mundos: o objetivo
ou exterior, o subjetivo ou interior, o divino ou transcendente, e as três partes do homem
Espírito-Alma-Corpo, sendo este último o ponto de contato entre o mundo exterior e o
interior, e o primeiro entre o mundo manifestado e o transcendente.
No sistema maçônico a trindade está formada pelos três instrumentos de medida que
correspondem às três Luzes: o Prumo ou perpendicular, o Nível ou horizontal e o
Esquadro, que como vimos tem um valor análogo ao tau e à cruz. O primeiro é o
princípio ativo que nos impulsiona a progredir, segundo nossas aspirações verticais; o
segundo é o princípio passivo de resistência e persistência que nos instala
equilibradamente em nossas aspirações e as faz madurar e frutificar; e o terceiro é a
norma ou regra que faz nossas ações coerentes com a Verdade e a Virtude.
Os três pilares simbólicos que sustentam a Loja, representados igualmente pelas três
Luzes: Sabedoria, Força e Beleza, constituem outra interessante trilogia. A Sabedoria,
que corresponde ao Ven. Mestre, é a faculdade inventiva, ou seja a Inteligência
Criadora, que concebe e manifesta interiormente o Plano do Grande Arquiteto; a Força
que Corresponde ao 1 Vig. é a faculdade volitiva, que se esforça em realizar o que a
primeira concebe; e a beleza, representada pelo 2 Vig., é a faculdade imaginativa, que
adorna e aperfeiçoa a obra realizada pelas duas primeiras.
Também correspondem, respectivamente, a Sabedoria à mente superconsciente, a Força
à mente consciente e a Beleza à mente subconsciente.
TRINDADES MITOLÓGICASNa mitologia helênica, como na oriental e na egípcia, as trindades possuem também, um
papel de primeira importância.
Fundamental entre elas é a trindade cosmogônica, formada por Urano, símbolo do Ser
que se manifesta como espaço, ou seja a “extensão” que torna objetiva sua
Omnipresença; Urano Engendra a Cronos ou Saturno, que representa o próprio Ser
como mudança e movimento, dentro da eternidade, que em nós produz a idéia de tempo
ou “sucessão”, na qual todas as coisas são produzidas e desaparecem; Saturno engendra
a Júpiter ou Zeus, que representa o Ser como vontade e energia, que parece dominar
sobre os princípios que lhe deram produção.
Esta trindade é acompanhada pela outra, a feminina, constituída pelas qualidades destes
três aspectos do Ser e da Realidade fundamental: Gea, a capacidade produtiva ou
geométrica inerente ao espaço; Rea, o fluxo ou corrente do tempo; e Hera ou Juno, o
poder que expressa a vontade criadora.
Outra trindade acha-se formada pelos três aspectos de Júpiter, dois dos quais estão
representados por seus dois irmãos, que com ele compartilham a soberania universal;
Netuno ou Zeus, marinho que domina sobre as águas; Plutão, o Júpiter subterrâneo que
assenta seus reinos nas profundezas das coisas – os dois companheiros do Senhor do
Céu e da Terra -, que estabeleceu seu império sobre o domínio das forças titânicas.
Paralela a esta segunda trindade masculina é a que formam suas três qualidades: Juno, a
Rainha das profundidades marinhas, onde se encerram as possibilidades latentes da
vida, e Prosérpina, a deusa do mundo desconhecido que se encontra nas próprias
entranhas do mundo visível.
Também, Hécate, como divindade da Luz que nos vem de longe, da Realidade
Transcendente, é tríplice, sendo representada por três deusas: a primeira leva, em sua
cabeça, uma meia lua, e uma tocha na mão, o símbolo da luz sensível do mundo físico;
a segunda com gorro frígio e frente radiante, símbolo da luz intelectual, leva em suas
mãos o cutelo da análise e da penetração, e a serpente da lógica que se insinua nas
relações entre as coisas; e a terceira, cujos atributos são a corda e a chave, é o símbolo
da luz transcendente que se descobre com a iniciação, e nos dá a chave do significado
profundo ou razão mais verdadeira das coisas, assim como o “laço” que interiormente as
une.
Uma trindade feminina, muito conhecida e familiar é a que formam as três Graças, ou
seja os três aspectos da mesma Luz que se revela no ser e na vida do homem: Aglaya, a
luzente, a luz espiritual que ilumina a inteligência, e nos dá essa felicidade e
contentamento profundos, que tem o poder de irradiar-se fora de nós como uma benção,
em nossos pensamentos, palavras e obras. A ela se deve a inspiração de toda obra de
arte ou criação intelectual, que tem o poder de elevar o homem a um plano superior.
Eufrosina, o gozo da alma, ou seja, a luz que penetra em nosso coração e produz em nós
toda forma de íntimo contentamento e satisfação, a felicidade que reside dentro de
nosso ser, independentemente das condições externas.
Tália, a florida, ou seja a felicidade exterior que se manifesta em todas as coisas
formosas, e na mesma formosura da vida com seus bens, prazeres e coisas desejáveis.
Menos conhecida é a trindade da Horas, ou “tempos” que presidem a toda atividade,
assim como às divisões do ano e do dia: o começo ou germinação, que preside àprimavera; a continuação ou maturação de todo esforço, que preside ao verão; o término
da obra, na qual se recolhem seus frutos, que preside o outono. Também representam a
Causa, o Meio e o Efeito, os três períodos iniciáticos de preparação, iluminação e
perfeição, as três divisões da vida diária no tempo dedicado ao descanso, ao trabalho e a
recreação.

OUTRAS TRINDADES


A Trindade das Horas leva-nos naturalmente à das Parcas ou Moiras, filhas da Noite, ou
da contingência material: Clôto, a fiandeira, da qual se origina o fio da existência,
representando tudo aquilo que se acha potencialmente na mesma, relacionando-nos com
o lugar ou condição “de onde viemos”; Lachesis, por cujas mãos passa toda a trama do
fio da vida, presidindo o desenvolvimento atual e causal dos acontecimentos, nos quais
deve ser demonstrado “quem somos” e Atropos, em cujas mãos entrega-se tudo aquilo
que já nos aconteceu e o resultado de nossas ações, como sementes do que nos espera,
determinando “onde vamos”. Esta última é a que deve cortar, com suas fatídicas
tesouras, o fio da vida quando tiver chegado a sua maturação e as violações da Lei não
permitem sua ulterior continuação.
As três Fúrias ou Eumênides são, pode-se dizer, a antítese das Graças, ou suas
contrapartes negativas: Alecto, a que nunca descansa, produzindo o furor rahásico, a
inquietude e a paixão vingativa; Tisífone, o ódio cego ou tamásico, os erros e o remorso
da alma que acompanhava o homicida; e Magara, o demônio da inveja sátvica, que ao
governar o homem afasta-se constantemente da possessão e gozo de seus bens.
As três Graças ou Górgonas, Medusa, Steno e Eríagle, são emblemas das forças
misteriosas que dormem em nosso ser subconsciente: nossas próprias tendências
negativas, temores e ansiedades e ilusões, as que como Perseu temos de vencer não as
escutando nem para elas olhando, cortando-lhes a terrífica cabeça com a espada da
Sabedoria, para que de seu sangue surja Pegasso, o gênio alado do pensamento
intuitivo, que nos conduza às regiões celestiais da pura Verdade.
Passando do domínio da mitologia ao da natureza, encontramos outra trindade nos três
reinos, mineral, vegetal e animal, que representam três graus de evolução da forma, da
vida e da consciência. Nos minerais, a forma geométrica acompanha-se da vida
inorgânica e da consciência obscurecida numa comparativa inconsciência. Nos vegetais,
a forma afasta-se dessa rigidez geométrica e faz-se plástica e responsiva, obedecendo à
vida orgânica, que manifesta uma consciência ainda rudimentar. Nos animais
finalmente, prevalece e surge em posição de domínio, o princípio da consciência, que se
expressa como sensação, ação e reação, e a forma e a vida se adaptam a essa expressão.
Também podemos dizer, em relação às três gunas, ou qualidades universais da matéria,
que nos minerais prevalece o princípio da inércia (Tamos ou Sal), que nos animais o
princípio oposto da atividade (Rahas ou Enxofre), e nos vegetais o princípio rítmico do
equilíbrio (Sattva ou Mercúrio). O primeiro tende à cristalização, o segundo ao
movimento, e o terceiro a harmonia.
As três dimensões do espaço e os três aspectos do tempo constituem outros dois
ternários por meio dos quais a Omnipresença Eterna do Ser Absoluto se faz manifestar
na relatividade do mundo como ritmo evolutivo e perpétuo devir.

A longitude, que é medida por meio da Régua, representa o caminho da vida e o
progresso na direção que escolhemos; a largura, que se relaciona com a anterior por
meio do Esquadro, corresponde à amplitude de nossa visão e à extensão de nossos
esforços e atividades; a altura, a qual se alcança por meio do Compasso e do Prumo,
determina-se individualmente conforme a profundidade das convicções e
conhecimentos, e a elevação dos ideais.
O passado, que corresponde às bases do edifício da existência e às raízes do ser, possui
importância para nós uma vez que enfrentamos o problema das origens, constituindo
nossa herança espiritual e material; o presente é aquele que nos relaciona com nossos
deveres e responsabilidades, assim como com a obra ou atividade que constitui nossa
constante oportunidade atual; o futuro, meta de nossos esforços e aspirações, é aquele
que nos relaciona com nosso Destino, dando-nos o poder de superar a fatalidade (que é
a herança de nosso passado), conduzindo-nos a um fim sempre mais elevado que
sempre retrocede e se aproxima.

LIBERDADE – IGUALDADE – FRATERNIDADE


O conhecido trinômio maçônico Liberdade – Igualdade – Fraternidade, tem do ponto de
vista iniciático um significado bem diferente do que podem ser suas interpretações
político-profanas.
A Liberdade do iniciado não e, pois, precisamente, aquela que podem conceder ou
limitar as leis da sociedade, e não deve particularmente confundir-se com a licença de
entregar-se ao vício e à paixão, que sempre levam a desordem à vida, e nos fazem
realmente escravos de nossas debilidades, hábitos e tendências negativas, e sobretudo de
nossos erros.
A Liberdade, no sentido iniciático, é uma aquisição individual, interior,
fundamentalmente independente da liberdade externa que pode ser outorgada pelas leis
e as circunstâncias da vida. É a liberdade que se adquire buscando a Verdade e é
forçando-se do erro e da ilusão, e dominando as tendências viciosas, hábitos negativos e
paixões destrutivas.
É a liberdade que encontramos, e que sempre nos é dado conservar quando agimos de
acordo com nossos princípios, ideais e convicções íntimas, buscando o que seja melhor
em si e por si, melhor que buscando nosso guia inspirador nas aparências externas,
modificando e regrando segundo estas, nossa linha de conduta e nossas ações. É, em
outras palavras, o que obtemos por intermédio do uso da Régua e do Prumo, seguindo o
caminho direto do Progresso e do dever.
A igualdade iniciática, do mesmo modo baseia-se na consciência da identidade
fundamental de todos os seres, de todas as manifestações do Espírito ou Suprema
Realidade, por cima e por trás de todas as diferenças exteriores de direção e grau de
desenvolvimento. Esta igualdade, que se realiza por meio do Esquadro e do Nível, é a
que nos proporciona uma justa e reta norma de conduta com todos nossos semelhantes,
e nos atribui e nos faz ocupar o lugar que nos pertence no edifício da sociedade, e em
qualquer outro edifício particular ao qual tivermos sido chamados a trabalhar.
Interiormente a Igualdade é a capacidade de nos sentirmos iguais em todas as
circunstâncias e condições exteriores, e em todo posto ou lugar que possamos
temporariamente ocupar: é a igualdade que devemos tratar de cultivar em nossossentimentos para com os demais, independentemente de suas palavras e ações para
conosco, e com uma igual serenidade nas condições favoráveis como nas adversas, na
fortuna e na desgraça, no êxito e no fracasso, na perda e no ganho, ou seja, diante de
todos os pares de opostos, os ladrilhos brancos e negros da existência sobre os que
igualmente devemos progredir, apoiando nossos pés.
Quanto à fraternidade, deve considerar-se como a soma e o complemento da liberdade
individual e da igualdade espiritual, das que constitui a adaptação prática, sendo como a
base do triângulo formado por essas duas linhas divergentes. A Fraternidade é pois,
tolerância com relação à liberdade, e compreensão com relação à igualdade,
manifestada na desigualdade. E é, ademais, a relação que a Maçonaria estabelece entre
seus membros, como núcleo e exemplo daquilo que deveria existir entre todos os
homens.
Praticamente a Fraternidade pode, entretanto, estabelecer seus laços unicamente entre os
que se sentem Irmãos, ou seja, efetivamente filhos de um mesmo Pai, o Princípio
Universal da Vida ou Ser Supremo, e de uma mesma Mãe, a Natureza, que a todos
igualmente deu origem, sustentando-nos e nos alimentando. Com esse reconhecimento a
Fraternidade faz-se efetiva, e segundo se generalize, chegará a espalhar-se sobre toda a
terra e todos serão, como deveria e como deve ser, a relação normal entre todos os
homens e povos.
Todos os homens podem ser irmãos segundo conhecem e realizam no íntimo de seus
corações a Verdade da Fraternidade; isto é, de sua relação comum com o Princípio da
Vida, por um lado, e pelo outro com o meio que os hospeda. Cairão então, as barreiras
ilusórias que atualmente dividem os homens, conforme cai a venda que cobre seus
olhos, e a Maçonaria terá espargido efetivamente sua Luz sobre toda a terra.

AS LETRAS DO ALFABETO
O estudo e o conhecimento dos três primeiros números deve ser integrado e completado
pelas cinco primeiras letras, que são as que especialmente se referem ao grau de
Aprendiz. Este estudo é aquele relativo à gramática simbólica com a qual deve
familiarizar-se o adepto do primeiro grau.
Uma vez conhecidas as letras, será possível combiná-las relacioná-las mutuamente, por
meio da lógica, e assim ler as palavras que resultem de sua combinação. E com a
experiência adquirida no estudo da Lógica, adestrando-se na Retórica, isto é, no uso
construtivo do Verbo Criador.
A primeira letra do alfabeto mostra em sua forma greco-latina os dois princípios ou
Forças Primordiais que partem do ponto originário e formam o ângulo; a dualidade que
expressa a Unidade e produz a manifestação ternária; o triângulo que nasce do ângulo,
por intermédio de uma linha horizontal – o terceiro Princípio ou elemento – que une seus
dois lados.
Como primeira letra, assim como pelo simbolismo evidenciado em sua forma, mostra-
nos a origem de tudo e sua progressiva manifestação; a involução ou revelação do
Espírito no reino da forma e da matéria.
A forma hebraica desta mesma letra (cujo nome é alef, que significa “boi” e que tem o
valor numérico um, apresenta-nos na linha oblíqua central o Primeiro Princípio Unitário
do qual se manifestam as duas Forças ou Princípios, respectivamente ascendente edescendente, ou seja centrífuga e centrípeta, masculina e feminina, representadas pelas
duas colunas. É em si mesmo um signo de equilíbrio, enquanto demonstra o domínio
dos opostos e a Harmonia produzida por sua atividade coordenada. Em seu conjunto
indica a tri-unidade, isto é, a Trindade manifestada pela Unidade.
A letra B é uma clara expressão da dualidade dos dois Princípios que evidenciam a Lei
de Polaridade; mostra a relação entre o Superior e o Inferior – o Céu e a Terra, uma
dupla relação curvada e bem diferente em seus dois aspectos no lado direito (que
corresponde à involução ou revelação do Espírito na matéria), e direita do outro lado (ao
lado ascendente que corresponde à evolução do Espírito expressado na Matéria). O lado
direito mostra o domínio do homem, e a dupla linha curva, o da natureza.
Já falamos do significado desta letra, em relação às demais, que formam a Palavra
Sagrada.
A forma da letra C é originariamente a de um esquadro, e com tal se apresenta nos
alfabetos fenícios, etrusco e grego (onde tem o nome de gamma e o som da letra G).
Como tal, seu significado primitivo é o do instrumento maçônico da retidão. Enquanto a
sua forma latina, mostra um arco que podemos considerar emblemático da tensão das
energias individuais para alcançar um fito ou objeto determinado. Também, representa o
ciclo descendente da involução, que deve completar-se com a obra individual de
ascensão evolutiva.
No alfabeto hebraico esta letra toma o nome de guimel (camelo) e tem o valor numérico
três. Refere-se ao progresso vertical individual do homem de baixo para cima, como o
mostra a pequena linha ascendente que forma o pé da figura.
O camelo, conhecido por sua torpeza como por sua docilidade e resistência, mostra o
corpo do homem, que de obstáculo deve transformar-se em instrumento dócil e
resistente para a expressão das possibilidades superiores da vida. Este simbolismo
encontra de uma certa maneira uma correspondência na forma egípcia da dita letra, que
representa um avental, símbolo da pele ou corpo físico do homem.
A letra D está representada por um triângulo nos alfabetos dos quais derivou sua forma
latina. Este triângulo, é o mesmo delta, e com esse nome é conhecida no alfabeto grego.
Si bem que também a forma difira do mesmo modo que a precedente letra do alfabeto
grego), seu nome no alfabeto hebraico é daleth, significando “porta”, com valor
numérico quatro. Mostra efetivamente um dos lados ou colunas que suportam a
arquitrave e formam com o mesmo a porta. Representa a introdução parcial ou
imperfeita do Aprendiz na Verdade, tendo reconhecido unicamente um de seus dois
lados ou aspectos.
Quanto à forma latina, cujo valor numérico é 500, não nos é difícil ver nela igualmente
uma porta com o arco; mas posta horizontalmente.
A letra E necessita, para sua interpretação, que a confrontemos com a forma fenícia
primitiva da qual descende, e que damos juntamente com a greco-latina. Aparenta esta
letra a forma de três esquadros que se sucedem numa mesma linha, clara alusão aos três
passos da Marcha do Aprendiz. Também indica, em sua forma greco-latina, os três
mundos ou planos de existência, através dos quais se manifesta um idêntico Princípio de
Vida (a linha vertical).A letra hebraica he, à qual corresponde o valor numérico cinco – e cujo nome significa
“buraco” ou “janela” – mostra o progresso realizado pelas aspirações do Aprendiz em
relação à letra precedente, e indica claramente a senda que se abre para reconhecer e
manifestar suas potencialidades latentes.

A LÓGICA E A RETÓRICA
O estudo da Gramática conduz naturalmente ao da Lógica, isto é, à compreensão do
Verbo ou Logos que constitui a Realidade interior representada por cada símbolo ou
letra da Verdade, assim como ao reconhecimento de suas relações.
A lógica é pois, primitivamente, a faculdade de relacionar as letras simples para formar
e interpretar palavras ou orações, isto é, conjuntos harmônicos que tem um sentido
definido; e este sentido possui o mesmo Verbo ou logos que se encontra no princípio de
tudo: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”.
A Gramática, ou seja o estudo dos símbolos, é pois, uma introdução ao conhecimento
ou percepção espiritual da Realidade que é o Verbo. Este conhecimento faz-nos entrever
a relação lógica entre todas as coisas, e particularmente entre as causas e princípios
invisíveis e seus efeitos visíveis.
Com a Retórica aprendemos o uso deste conhecimento, levando à expressão, o Verbo
ou princípio latente do que desejamos. A eficácia e efetividade desta faculdade depende
inteiramente do progresso realizado na precedente: devemos aprender a relacionar-nos
intimamente com o Verbo Criador, para poder expressá-lo e depois vê-lo manifestado.
Quando entendemos o significado esotérico destas duas Artes, facilmente
compreenderemos porque o aprendiz pode tão somente familiarizar-se com seus
primeiros rudimentos, na medida em que estes o ajudam a melhor dominar a Gramática.
Somente ao Companheiro será possível medir com sua inteligência os significados da
Lógica, e só o Mestre poderá avançar com real eficiência no domínio da Retórica.
O TEMPLO


O Templo é o lugar onde se desenvolvem os trabalhos maçônicos e é reunida a Loja,
manifestação do Logos ou Palavra que vive em cada um de seus membros e encontra
em seu conjunto uma expressão harmônica e completa.
É, ao mesmo tempo, um lugar de trabalho e de adoração, uma vez que nunca cessa de
construir-se enquanto for de real proveito a todos; e como esta construção simbólica
necessita ser a expressão do Plano do Grande Arquiteto, no qual a atividade construtiva
busca sua inspiração, este esforço constante em direção à Verdade e à Virtude é a mais
efetiva e verdadeira adoração.
Etimologicamente, a palavra templo relaciona-se com o sânscrito tamas, “escuridão”, de
onde vem também o latim tenebrae (por temebrae), “Trevas”. Significa, portanto, lugar
escuro, e por conseguinte “oculto”, aludindo ao antigo costume de construir os templos
em grutas ou criptas subterrâneas, fora da luz exterior e ao amparo da indiscrição
profana.
Isto informa-nos que todos os templos no princípio, foram antes de tudo, lugares de
recolhimento e silêncio; e da mesma forma também o são os templos sucessivamente
erigidos sob uma forma arquitetônica específica mas sempre caracterizadosinteriormente por essa penumbra mais ou menos completa que favorece à concentração
do pensamento e à sua elevação para o transcendente, em direção ao que há de menos
conhecido e misterioso. Também este isolamento do mundo exterior é favorecido por
uma atenção mais profunda sobre os ritos e cerimônias que nesses templos – sejam
religiosos ou iniciáticos – tem se sempre desenvolvido.
O Templo maçônico é um quadrilongo estendido do Oriente ao Ocidente, isto é, “em
direção à Luz”. Sua largura é do Norte ao Sul (desde a potencialidade latente à plenitude
do manifestado), e sua altura do Zênite ao Nadir. Isto quer dizer que praticamente não
tem limites e compreende todo o Universo, no qual se esparge a atividade do Princípio
Construtivo, que sempre atua na direção da Luz, como pode ser observado em toda a
natureza.
Todos os templos antigos, qualquer que fosse o uso ao qual estivessem destinados,
apresentavam esta característica comum de orientação, muitas vezes com maravilhosa
exatidão. Ainda que a orientação mais freqüente seja aquela que exatamente é indicada
pela própria palavra (em direção ao Oriente), alguns templos apresentam a direção
oposta, estando a porta situada do lado do Oriente, para que os primeiros raios do Sol
incidam em determinado ponto, que resplandece repentinamente na semi-escuridão do
lugar. Em alguns casos, familiares aos arqueólogos, esta orientação na direção ao Sol é
feita por intermédio de um corredor estreito, de forma que os raios luminosos por ele
possam passar unicamente em certo dia ou época do ano (geralmente solstício e
equinócio). Outros templos estão orientados em direção a alguma estrela particular de
primeira magnitude (como Sirius, Canopus, ou a Estrela Polar, em certos templos
egípcios).
Quanto às três dimensões do Templo, podemos considerá-las até certo ponto
equivalentes; tanto o Norte e o Zênite, como o Oriente, indicam o Mundo Divino dos
Princípios ou domínio do Transcendente; enquanto o Sul, o Nadir e o Ocidente
representam, de diferentes modos, o mundo manifestado ou fenomênico.
A diferença baseia-se principalmente em que a direção do Oriente ao Ocidente refere-se
à Senda da vida ou Caminho do Progresso; a do Norte ao Sul, à Lei dos ciclos, que nos
aproxima alternativamente do domínio das Causas e dos Efeitos; e a vertical, ao Pai e a
Mãe, de quem somos igualmente filhos, ou seja, às duas gravitações, celestial e terrena,
que respectivamente atraem nossa natureza espiritual e material.
Também podemos ver nestas três direções dimensionais uma alusão aos três
movimentos da Terra: de rotação (Oriente-Ocidente), de revolução (Norte-Sul) e de
precessão (Zenite-Nadir): ou seja, as três dimensões dinâmicas do mundo em que
vivemos.

AS TRÊS LUZES
Três grandes colunas sustentam o Templo Maçônico (distintas das duas que se
encontram no Ocidente): a Sabedoria, a Força e a Beleza, ou seja a Omnisciência, a
Omnipotência e a Omnipresença do G. A., reafirmadas como Princípios de Verdade, de
Atividade e de Amor ou Harmonia. Estas três colunas representam ao Ven. Mestre e ao
1oe 2o Vig. que tem assento respectivamente no Oriente, no Ocidente, e no Meio dia,
onde são manifestados respectivamente aquelas três qualidades.O Delta luminoso, com o Olho Divino no centro, brilha no Oriente por cima do assento
do Ven. Mestre, símbolo do Primeiro Princípio, que é a Suprema Realidade, em seus
dois lados, ou qualidades primordiais que a definem, expressas em síntese inimitável a
no trinômio vedântico Sat-Chit-Ananda.
Nos dois lados do Delta, que representa a verdadeira luz (a luz da Realidade
transcendente), aparecem o sol e a lua, os dois luminares visíveis, manifestação direta e
refletida dessa luz invisível, que ilumina nossa terra e que simbolicamente representam
a Luz Intelectual e a Material.

O PAVIMENTO DE MOSAICO
A três passos da porta, que se encontra no Ocidente, estão situadas as duas colunas, J. e
B., emblema dos dois princípios e dos pares de opostos que dominam o mundo visível.
A atividade combinada destes dois princípios aparece manifestadamente no pavimento
de mosaico em ladrilhos brancos e negros, que se estendem desde a base das colunas em
direção ao Oriente, igualmente em forma de quadrilongo, ocupando o centro do
Templo.
O pavimento de mosaico é um belo emblema da multiplicidade engendrada pela
dualidade, constituída pelos pares de opostos que se encontram constantemente um
perto do outro; o dia e a noite, a obscuridade e a luz, o sonho e a vigília, a dor e o
prazer, as honras e as calúnias, o êxito e a desilusão, a sorte e o azar, etc. Sobre estes
opostos, que se encontram em todos os caminhos e em todas as etapas de nossa
existência, o iniciado que tenha provado da Taça da Amargura deve marchar com ânimo
sereno e igual, sem deixar-se exaltar pelas condições favoráveis nem reprimir-se pelas
aparências desfavoráveis.
Por cima desta visão dualística da vida formada por pares de opostos, levanta-se a ara
ou Altar (etimologicamente “altura” ou elevação), símbolo da elevação de nossos
pensamentos, por meio do qual percebemos a realidade transcendente que se esconde
sob a aparência contraditória, e atingimos o conhecimento da palavra, ou seja da
Verdade, que é o propósito intimamente benéfico de toda experiência, sempre
compreendida como útil ao nosso progresso e benefício mais verdadeiro.
As três luzes que se encontram sobre o altar, formando um triângulo equilátero,
representam a necessária relação, que deve existir em nossa inteligência, entre a
dualidade ocidental (ou fenomênica) das colunas e a Unidade Oriental da Verdadeira
Luz, por meio da qual se realiza o ternário da harmonia e do perfeito equilíbrio, sobre
todos os extremos e as tendências dualistas.
Entre estas luzes tem seu lugar mais conveniente o livro sagrado, símbolo da Verdade
que se encerra na tradição, uma vez que saibamos convenientemente interpretá-la por
meio de nossas faculdades inteligentes, representadas pelo esquadro e o compasso que
são colocados sobre esse livro para que possamos realmente compreendê-lo e medi-lo
em toda a sua extensão.
O CÉU
O teto da Loja representa um céu estrelado, imagem do Infinito e de sua manifestação
ativa nos infinitos pontos ou centros luminosos, que expressam de dentro para fora a
Luz Latente do Princípio Supremo.Esse Céu representa o espaço do qual cada ponto é igualmente centro geométrico,
origem e fim. Sua cor azul, em contraste com o vermelho do pavimento, é
representativa das mais elevadas vibrações, tanto individuais como cósmicas, que estão
por cima da manifestação sensível, e a completam e coroam.
Podemos ver nele também, uma imagem de nossa mente, ou mundo causativo interior,
que preside às condições da vida, aproveitando-as construtivamente e transmutando-as.
As estrelas representam as Idéias Divinas, que manifestam o mundo da Realidade e da
Verdade, as idéias salvadoras que revelam o Plano do G. A. e guiam em harmonia com
ele, nossos pensamentos e ações, os ideais que nos inspiram e orientam em todas as
etapas de nossa existência.
Sob o teto, desde a porta ocidental, onde terminam seus dois extremos, está a mística
cadeia de união, entrelaçada em doze nós laterais e descansando sobre os capitéis de
doze colunas assim distribuídas: seis no lado Norte e seis no Sul, simbolizando os seis
signos ascendentes e os seis signos descendentes do zodíaco.
A cadeia é o laço interior que une todos os maçons por cima de suas diferenças
pessoais, fazendo deles uma só Família Universal. Este laço interior deve ser buscado
individualmente, esforçando-se cada um em manifestar o mais elevado em pensamentos
e ideais (os capiteis em que descansa). É também a corrente da causalidade que se
manifesta ininterruptamente no mundo dos efeitos, no qual todo pensamento ou ato é
efeito de uma causa antecedente, e causa por suas vez, de um efeito conseqüente.
ASSENTOS E POSIÇÕES
Em ambos os lados, Norte e Sul, estão os assentos, respectivamente, dos Aprendizes,
dos Companheiros e dos Mestres: os primeiros devem sentar-se na região menos
iluminada pelo Sol por serem ainda incapazes de suportar a plena luz do Meio-dia, onde
os Companheiros e os Mestres, do lado do Ocidente e do Oriente, respectivamente,
trabalham proveitosamente, os primeiros ajudando aos últimos.
A parte oriental do Templo encontra-se erguida sobre três degraus, em relação ao piso
da Loja, significando com isso que não é possível chegar ao mundo das Causas a não
ser, elevando-se por meio da abstração e da meditação às regiões superiores do
pensamento, onde aparecem com clareza os Princípios originários que constituem a
Essência Eterna das coisas sensíveis.
Sobre esta elevação tomam assento, respectivamente ao Norte e ao Sul, e à direita e à
esquerda do Ven. Mestre, o Secretário e o Orador, e mais abaixo, o Hospitaleiro e o
Tesoureiro, o Porta Estandarte e o Mestre de Cerimônias. Estes com os dois Diáconos,
os dois Expertos e o Guarda do Templo, constituem os oficiais da Loja, que cooperam
com os três Dignatários nas diferentes cerimônias que se desenvolvem para a ordem e
harmonia dos trabalhos.
De acordo com a etimologia que temos dado a essa palavra, o templo maçônico não tem
janelas: isto significa que não recebe luz de fora, mas unicamente de dentro. Por esta
razão deve ser fechado hermeticamente ao mundo profano e sua porta está
constantemente vigiada pelo Guarda do Templo, armado de espada, símbolo da
vigilância que constantemente devemos exercer sobre nossos pensamentos, palavras e
ações, para fazer delas um uso construtivo, e progredir constantemente na senda da
Verdade.

APLICAÇÃO MORAL E OPERATIVA DA DOUTRINA SIMBÓLICA
DO GRAU DE APRENDIZ
TRABALHO DO APRENDIZ


Desbastar a pedra bruta, aproximando-a numa forma em relação ao seu destino: heis
aqui, a tarefa ou trabalho simbólico ao qual deve dedicar-se todo o Aprendiz para
chegar a ser o Obreiro que domina inteiramente sua Arte.
Neste trabalho simbólico, o Aprendiz é ao mesmo, tempo obreiro, matéria-prima e
instrumento. Ele mesmo é a pedra bruta, representativa de seu atual e ainda muito
imperfeito desenvolvimento, à qual e ainda mui imperfeito desenvolvimento, à qual tem
de converter numa forma ou perfeição interior, que se encontra em estado latente dentro
dessa imperfeição evidente, de modo que possa tomar e ocupar o lugar que lhe
corresponde, de acordo com o Plano, no edifício ao qual está destinada.
Uma vez que a Perfeição, é infinita, e em seu estado absoluto inacessível, somente
podemos esperar conseguirmos aproximarmo-nos da perfeição ideal que nos é dado
conceber no estado ou etapa de progresso em que atualmente nos encontramos. Nosso
progresso desenvolve-se, pois, através de graus sucessivos de perfeição relativa, e o
próprio reconhecimento de nossa imperfeição por um lado (a pedra bruta), e o de um
ideal que desejamos, pelo outro, são as primeiras condições indispensáveis para que
possa existir um tal esforço ou trabalho.
O próprio trabalho consiste em despojar a pedra de suas asperezas, pondo primeiro em
evidência as faces ocultas no estado de rudeza natural da pedra; depois retificar essas
faces, alisando-as e tirando todas aquelas protuberâncias que a afastam de uma forma
harmoniosa com aquela que é preciso obter.
É importante notar que não se trata de aproximar a pedra da forma de determinado
modelo exterior, se bem que isto possa servir de motivação e inspiração, o importante é
que o modelo ou perfeição ideal tem de ser procurado dentro da própria pedra, de cujo
foro íntimo há de ser manifestada ou extraída a própria forma a qual cada pedra
idealmente pertence. Ou seja, abandonando a metáfora, trata-se reconhecer e manifestar
a perfeição inata do Ser Íntimo, da Idéia Divina que habita em cada um de nós, cuja
expressão relativa e progressiva é o objeto constante da existência.

OS INSTRUMENTOS E A OBRA
Esse trabalho na pedra, que também historicamente é o primeiro trabalho humano
requer para a sua perfeição três instrumentos característicos, que são o malho, o cinzel e
o esquadro. Este último serve de medida afim de assegurar-nos que a obra mais
especificamente ativa dos dois primeiros esteja de acordo com as normas ou critérios
ideais universalmente reconhecidos e aceitos; aqueles são os meios complementares
com os quais a perfeição concebida ou reconhecida fazer-se-á efetiva.
O esquadro representa fundamentalmente a faculdade do juízo que nos permite
comprovar a retidão ou a sua falta, ou seja a forma octogonal das seis faces que
tratamos de lapidar, assim como a de suas arestas e dos oito ângulos triedros nos quaiselas se unem, como o objetivo de fazer com que a pedra se torne retangular, como deve
ser toda pedra destinada a formar parte de um edifício.
É por intermédio do esquadro que nossos esforços para realizar o ideal ao qual nos
propusemos podem ser constantemente comprovados e retificados. Isto é feito de
maneira que estejam realmente encaminhados na direção do ideal, conforme é
demonstrado pela simbólica marcha do Aprendiz, que ensina a cuidadosa aplicação
desse valioso instrumento sobre cada passo e em cada etapa de nossa existência diária.
Desta forma, o malho e o cinzel, como instrumentos propriamente ativos, representam
exatamente os esforços que, por meio da Vontade e da Inteligência, temos de fazer para
nos aproximarmos da realização efetiva desses Ideais, que representam e expressam a
perfeição latente de nosso Ser Espiritual. O malho, que utiliza a força da gravidade de
nossa natureza subconsciente, de nossos instintos, hábitos e tendências, é pois,
representativo da Vontade, que constitui a primeira condição de todo progresso e é ao
mesmo tempo o meio indispensável para realizá-lo.
Temos de querer antes de poder realizar, assim como para realizar e poder realizar,
sendo a Vontade a força primeira da qual podem se considerar originárias todas as
demais forças, e portanto aquela que a todas pode dominar, atrair e dirigir.
Devemos entretanto, precaver-nos dos excessos aos quais poderão nos conduzir o culto
exagerado da faculdade volitiva, uma vez que os resultados desta Força soberana entre
todas as forças cósmicas podem também ser destrutivos, quando essa força não for
aplicada e dirigida construtivamente por meio do discernimento necessário à sua
manifestação mais harmônica, de acordo com a Unidade de tudo o que existe. Pois
assim, como o malho utilizado sem o auxílio do cinzel, instrumento que concentra e
dirige a força daquele em harmonia com os propósitos da obra, poderá facilmente
destruir a pedra em vez de aproximá-la da forma ideal de sua finalidade assim
igualmente a Vontade que não é acompanhada do claro discernimento da Verdade não
pode nunca manifestar seus efeitos mais sutis, benéficos e duradouros.
O propósito inteligente que deve dirigir a ação da vontade é aquilo que é representado
exatamente pelo cinzel, como instrumento que complementa o malho na Obra
maçônica. Essa faculdade que determina a linha de ação de nosso potencial volitivo não
é menos importante uma vez que de sua justa aplicação, iluminada pela Sabedoria que é
manifestada como discernimento e visão geral, dependem inteiramente a qualidade e a
bondade intrínsecas do resultado: ou uma formosa obra de arte sobre a qual se concentra
a admiração dos séculos, ou então a obra tosca e mal formada que revela uma
imaginação enferma e um discernimento ainda rudimentar.
Para que a ação combinada de ambos os instrumentos seja realmente maçônica, isto é,
útil e benéfica para o propósito da evolução individual e cósmica, ela deve ser
constantemente comprovada e dirigida pelo Esquadro da Lei ou norma de retidão, cujo
ângulo reto representa a retidão de nossa visão, que nos coloca em harmonia com todos
os nossos semelhantes fazendo-nos progredir retamente na Senda do Bem.
Esta atividade eminentemente diretora do Esquadro, que representa e expressa a
Sabedoria, faz dele o símbolo mais apropriado do Ven. Mestre, assim como o malho,
emblema da Força, pode ser atribuído ao 1° Vigilante, e o cinzel, produtor da Beleza, ao
Segundo. Assim como a atividade combinada dos três instrumentos é indispensável àobra maçônica, da mesma forma a cooperação mais completa das três luzes da Loja e
indispensável para que esta possa desenvolver um trabalho realmente fecundo.

IDEAL
Os dois Vigilantes representam também, respectivamente, o nível e o prumo. Este
último principalmente diz respeito ao Aprendiz, ao demonstrar a direção vertical de seus
esforços e de suas aspirações, para realizar o que há de mais elevado em seu ser e em
suas potencialidades latentes.
Este esforço, em sentido oposto à gravidade dos instintos, é o que caracteriza o maçom
no seu desejo de aperfeiçoamento. Sua mira deve, pois, dirigir-se constantemente ao
Ideal mais elevado de sua alma, para realizá-lo em cada pensamento, palavra e ação.
Assim, como a planta cresce e progride por meio de seus esforços verticais, também,
nós ao fixarmos nosso olhar no Ideal que nos revela a verdadeira luz, cresceremos em
sua direção e chegaremos a encarná-lo, avançando na senda de nosso progresso
individual.
Este é o uso que devemos fazer do prumo para erigir o simbólico Templo à Glória do
Grande Arquiteto, do qual procedem nossas mais elevadas aspirações: o Templo que
construímos ou erguemos em nosso interior com nossa própria vida, a atividade
construtora que age em nós de acordo com os planos da Inteligência Criadora ou
Princípio Evolutivo do Universo, com a qual temos o privilégio de cooperar
conscientemente com nosso entendimento e boa vontade.
O Templo e a pedra cúbica são uma mesma coisa: o Ideal que devemos realizar
individualmente em nossa vida esforçando-nos para superar nossos defeitos e
debilidades, vencer e dominar nossos vícios, instintos e paixões, que são as asperezas da
pedra bruta que representa nosso estado de imperfeição.
O aperfeiçoamento de si mesmo: heis aqui a parte essencial e fundamental da Obra do
Aprendiz. Um aperfeiçoamento que consiste em educar, ou seja eduzir: exteriorizar e
manifestar à Luz, as gloriosas possibilidades de nossa Individualidade, despojando-nos
dos defeitos, erros, vícios e ilusões da personalidade, a máscara que esconde nossa
verdadeira natureza.
Caminhar e esforçar-se para a Luz, buscar a Verdade e estabelecer em seu domínio o
Reinado da Virtude, libertar-se progressivamente de todas as sombras que escurecem e
impedem a manifestação desta Luz Interior que deve brilhar sempre, mais clara e
firmemente esclarecendo e destruindo toda treva, é, em síntese, a nobre tarefa de todo
verdadeiro maçom.
Uma vez que tenhamos aberto os olhos a este superior estado de consciência e que a
tenhamos diretamente reconhecido, esta Luz que esta em nós, manifestar-se-á
naturalmente ao nosso redor a vida toda, assim como em nossos pensamentos, palavras
e ações.

PENSAMENTO, PALAVRA E AÇÃO
Pensar, falar e agir, conforme melhor for possível, de acordo, com nossos mais íntimos
ideais e profundas convicções, é um trinômio que diretamente nos diz respeito em cada
momento de nossa existência diária.Pensar bem é pensar retamente, de acordo com o esquadro do Juízo, orientando toda
nossa atividade mental para aquilo que em si for bom, belo e verdadeiro. O pensamento
reto é pensamento positivo e construtivo, assentado sobre as funções invioláveis da
Verdade e do Bem: os pensamentos inarmônicos que descansam sobre a ilusão devem
ser afastados da mente, assim como foi feito simbolicamente por Jesus com os
profanadores do Templo.
Esse esquadro deve apoiar-se, conforme é indicado pelo sinal do Aprendiz, sobre a
garganta, para medir todas nossas palavras, em conformidade com nossos ideais e
sentimentos mais elevados, rechaçando todas aquelas que não estiverem de acordo com
essa medida, de forma que elas nunca se façam porta vozes de nossas tendências mais
baixas e negativas, de nossos erros e juízos superficiais, de nossos ressentimentos e
paixões mesquinhas, ou do domínio que a ilusão pode ainda ter sobre nós. Devemos
assim mesmo, evitar toda crítica que não seja realmente construtiva, e sobre tudo não
seja realmente construtiva, e sobre tudo não nos permitir nenhuma expressão que não
seja inspirada por uma verdadeira benevolência.
O domínio das palavras é mais fácil que dos pensamentos, e na medida da sinceridade
individual, tende a produzi-lo. Mas, este último é, naturalmente, o mais importante, uma
vez que nossas palavras não podem expressar a não ser aquilo que “está em nosso
coração”. Desta forma à seleção das palavras deverá seguir a dos pensamentos,
conforme é indicado, como veremos, pelo sinal de Companheiro.
Da mesma maneira, conforme dominemos nossas palavras e pensamentos, será possível
dominarmos também nossas ações. Assim chegaremos ao terceiro ponto: agir bem, ou
seja, acertadamente, e em nível com as leis morais de equidade e justiça que governam
as relações harmônicas entre os homens, e em aprumo com nossos próprios princípios,
ideais e aspirações. Este é pois, o sinal com o qual se dá universalmente a conhecer e
reconhecer o Maçom.
Assim é como deve se usar o esquadro, horizontalmente, para medir nossas palavras, e
verticalmente, para corrigir os pensamentos, e como nossas ações devem, por meio do
nível e do prumo, estar igualmente em harmonia com estes e com aquelas.

O TOQUE
Também, o toque tem um sentido profundo, do fato que passa desapercebido à maioria
dos maçons, uma vez que significa, de uma maneira geral, a capacidade de reconhecer a
qualidade real que se esconde sob a aparência exterior de uma pessoa, e portanto,
implica num grau de discernimento proporcional ao grau de compreensão que
individualmente alcançamos.
Enquanto o homem profano ao conhecimento da Verdade (conhecimento que é
conseguido por meio da iniciação) baseia seus juízos e suas apreciações em
considerações puramente exteriores, o iniciado esforça-se em ver tudo à Luz do Real e
julgar de uma forma bem diferente por ter adquirido, a faculdade de ver as qualidades
reais, íntimas e profundas das coisas num grau proporcional à sua iniciação.
Em vez de ficar na superfície, na máscara, que constitui a personalidade, ou seja a parte
mais superficial e ilusória do homem, esforça-se em ver sua individualidade, ou a
expressão individualizada do Princípio Divino em si mesmo, que constitui seu Espírito,
o Homem-Real, Eterno e Imortal.As batidas são os toques simbólicos com os quais a qualidade do maçom vibrará em
resposta natural e de forma expontânea manifestando-se como tal. Este reconhecimento
prepara para o abraço fraternal através do qual é comunicada a Palavra, ou seja o Verbo
e o Ideal mais elevado que está presente em seus corações que escondem zelosamente
para o mundo profano da crítica e da malevolência, as “más ervas” que sufocariam e
impediriam o crescimento desses preciosos germes espirituais.
Cada golpe é um esforço para penetrar sob a pele, ou seja debaixo da ilusão da
aparência, até encontrar o Ser Real; é a busca individual, para descobrir o Mistério Final
dentro de si mesmo e de todas as coisas nas três etapas que representam as palavras
evangélicas: Buscai e achareis, pedi e vos será dado, batei e vos será aberto, referindo-
se à Verdade, à Luz e à Porta do Templo.
Assim, pois, o toque manifesta e reconhece a qualidade do iniciado nos Mistérios da
Construção, que se desenvolvem no indivíduo e em todo o Universo. E expressa
também, como conseqüência natural, a solicitude fraternal que o iniciado manifestará
em todas suas relações com seus semelhantes, e particularmente com seus irmãos.

A PALAVRA
Assim como o toque mostra que o maçom deve esforçar-se por penetrar na essência
profunda das coisas em vez de ficar na superfície, a palavra mostra seu ato de fé e a
atitude interior de sua consciência.
A palavra Sagrada que o Aprendiz obtém como prêmio final de seus esforços, depois de
ter-se submetido às provas de iniciação, longe de ser uma palavra sem sentido, possui
um significado profundo cuja compreensão e aplicação vale o esforço que foi
empreendido para consegui-la. É uma palavra que é dada secretamente para que
permaneça no segredo da consciência, e o aprendiz dela faça o uso fecundo que
demonstra sua compensação.
A Palavra Sagrada significa: Na Força, e é, portanto o implícito reconhecimento
(conseqüência da iluminação recebida, como resultado de seus esforços nas viagens do
Ocidente ao Oriente) de que a Força Verdadeira e Real não reside no mundo da
aparência nem nas coisas materiais, mas no Mundo Transcendente no qual reside o
Princípio Imanente de tudo.
Este reconhecimento, quando for efetivo e profundo convencimento da alma, deve
produzir uma mudança completa na atitude do ser: o iniciado diferenciar-se-á assim do
profano, e em vez de pôr, como este, sua confiança nas coisas e meios exteriores, pô-la-
á unicamente no princípio da Vida, que é o Princípio do Bem, cuja presença e
onipotência terá reconhecido dentro de seu próprio ser.
O conhecimento e o uso da Palavra Sagrada é, pois, a base da verdadeira liberdade e
independência: cessando de depender por completo das coisas externas e do capricho
dos homens, o iniciado liberta-se das considerações materiais, que prendem a todos os
que ainda não sabem onde se encontram a Força e o Verdadeiro Poder e que assim são
geralmente escravos destas coisas.
Deste modo aprende o iniciado a não dobrar nunca o joelho ante os homens, elevados
que sejam seus postos e os cargos que possam ocupar na sociedade, tornando-se igual
aos reis ao tratar a todos os homens sem orgulho nem arrogância, e igualmente sem
medo e sem temor, ou seja, simplesmente como irmãos.Mas, sabe dobrá-lo ante o Eterno, reconhecendo-o como a única Realidade e o único
poder, tirando como Moisés, ante a sarça ardente, os sapatos da ignorância e presunção,
e humilhando diante Dele as asperezas de sua personalidade, para poder receber Sua
Luz e tornar-se receptivo à Sua Influência, em íntima comunhão, no místico segredo da
alma.

O PRIMEIRO MANDAMENTO
A Palavra Sagrada do Aprendiz possui um significado análogo ao Primeiro
Mandamento: Eu sou o Senhor teu Deus: não terás outro Deus diante de mim. Aqui
também vemos o implícito reconhecimento de uma só Realidade, a Realidade Espiritual
de tudo; de um só Princípio, Poder e Força: o Princípio da vida, que é o Princípio do
Bem e o Poder e a Força que Nele unicamente residem.
A segunda parte do mandamento mostra como neste reconhecimento devemos encontrar
o poder soberano que nos assiste e nos faz triunfar sobre toda ilusão ou crença no poder
ou na força das coisas exteriores. A confiança deve ser depositada única e
exclusivamente no Real, naquela Realidade da qual adquirimos (como resultado da
iniciação) a consciência e o contato interior, que é portanto, nosso “Pai ou Senhor”, e
não nos falsos deuses das considerações triviais aos quais tributam sua adoração a
maioria dos homens.
Este Princípio que vive em nós é nosso Deus, ou seja, a Luz que nos conduziu para fora
do Egito, a ilusão dos sentidos, o país das trevas e da escravidão. O Êxodo de Israel é
pois, uma pitoresca imagem da iniciação, do êxodo individual do povo eleito dos
iniciados, fora dos falsos deuses, ou seja, as ilusões dos sentidos, para chegar à Terra
Prometida da liberdade e da independência.

A PRIMEIRA COLUNA
A Palavra Sagrada do Aprendiz é também o nome da primeira das duas colunas que se
encontram à entrada do simbólico Templo erigido pela iniciação: o Templo da Verdade
e da Virtude.
Isto quer dizer que seu reconhecimento é o Princípio Básico (ou coluna) que pode nos
conduzir a atravessar a Porta daquele Templo: sem este reconhecimento nunca
poderemos esperar nele adentrar; sua porta permanecerá fechada até que reconheçamos
essas duas colunas, das quais unicamente a primeira diz respeito ao grau de Aprendiz.
Esta coluna próxima à qual o Aprendiz recebe seu salário é pois a Coluna da Fé, coluna
que ele mesmo deve erigir em si dela fazendo um ponto de apoio. E um princípio do
qual nunca deve se separar, em seus pensamentos, palavras e ações, sob cuja condição
poderá atuar de uma maneira sempre segura e construtiva em todas as circunstâncias de
sua vida.
De tudo quanto já temos dito percebe-se com toda a clareza e importância da Palavra e
da interpretação de seu significado, por ser a inteligência e o uso desta Palavra o que
verdadeiramente faz o iniciado e o maçom. Esta Palavra pode e deve ser aplicada
indistintamente em todas as condições da existência, estando nela o Poder de libertar-
nos do mal e estabelecer-nos no Bem.
Se, portanto, aprendemos a permanecer fiéis, a esta Palavra ou de temor cessará de nos
dominar e de Ter poder sobre nós: se a Força está Nele (que é a Realidade e o Princípiodo Bem), toda aparência do mal é só uma ilusão que tem poder sobre nós enquanto
nossa mente reconhece esta ilusão como “realidade”, mas que desaparece tão logo
paramos de lhe dar em nosso foro íntimo realidade e poder.
O temor é pois, a única corrente que nos prende ao mal e pode lhe dar domínio sobre
nós: se cessamos de temer o mal e, com plena e profunda convicção de nossa
consciência, lhe negamos uma verdadeira existência e realidade, fugirá de nós como
fogem as trevas ao aparecer a luz. Isto explica como Daniel, verdadeiro iniciado e fiel à
Palavra, pode estar perfeitamente tranqüilo em meio aos leões famintos, e como estes
não lhe causaram dano algum.
Esta coluna de Fé absoluta no Princípio ou Realidade cuja existência e onipotência
reconhecem em si mesmo, é aquela que o Iniciado deve levantar em seu interior para
que lhe sirva de base para apoiar todos seus esforços, tanto de baluarte como de defesa
em qualquer circunstância ou perigo.

O PRINCÍPIO DO BEM
A palavra reconhece implicitamente o Bem como único Princípio, Realidade e Poder, e
consequentemente o Mal como pura ilusão e aparência que não tem Realidade nem
poder verdadeiros.
Este é o ensinamento de todos os iniciados: daqueles que chegaram a penetrar e
estabelecer-se com sua consciência por cima do domínio do aparente, onde o Bem e o
Mal figura como poderes iguais, como pares de opostos irreconciliáveis que lutam
constantemente um contra o outro, e que se alternam como o dia e a noite, a luz e as
trevas, a vida e a morte.
O iniciado sabe que, detrás do mundo da aparência, existe uma só e única Realidade, e
que esta Realidade é o Bem: Bem Infinito, Onipresente e Onipotente; que além desta
única e pura Realidade, nada existe e nada pode existir. Que aquilo que consideramos
mal é uma sombra inconsistente, uma verdadeira irrealidade, uma pura e simples ilusão
de nossos sentidos e de nossa imaginação, que deve ser superada no mais íntimo de
nossa consciência para que possa desaparecer como concretização exterior.
A primeira letra da Palavra Sagrada, com a qual costuma-se nomear a Coluna do Norte,
lembra-nos esse Princípio do Bem, no qual devemos por toda nossa confiança, e que
assim nos fará partícipes de seus benefícios, pois um Princípio faz-se operativo
unicamente quando é reconhecido, vive e reina em nossa alma.
O homem escravo da ilusão do mal, reconhecendo-o como poder e realidade, dá-lhe
preponderância em sua vida, e seus esforços para combatê-lo reforçam as correntes da
escravidão. Só quando o reconhece como ilusão, e cessa consequentemente de Ter
poder em sua consciência, é quando na realidade dele se liberta.

USO DA PALAVRA
A Palavra torna-se efetiva por meio de sua aplicação nas oportunas afirmações e
negações entendidas para conduzir nosso ser interno ao reconhecimento ou percepção
da Verdade que essa mesma Palavra quer reverlar-nos. Muito explícitas e oportunas são,
sob esse aspecto, as palavras do maior Iniciado que conhecemos: Se perseverardes na
minha Palavra (ou na Palavra) conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.A Palavra deve pois, afirmar-se e repetir-se com fidelidade e perseverança para que
possa conduzir-nos à consciência da Verdade que encerra. Então, esta Verdade tornar-
se-á efetiva em nossa vida, convertendo-se em verdadeiro poder que nos libertará do
erro, do mal e da ilusão.
Além disso todas nossas palavras, indistintamente, possuem um poder construtivo ou
destrutivo; as primeiras unem e atraem , as segundas desunem e afastam. É pois, de
importância essencial que selecionemos com extremo cuidado aquilo em que pensamos
e aquilo que dizemos, pois por trás de cada palavra ou pensamento, esta aquele mesmo
Poder do Verbo que se encontra no princípio de toda coisa: Todas as coisas por ele
foram feitas; e sem ele nada se fez.
A firmar o Bem, negar o Mal; afirmar a Verdade, negar o Erro; afirmar a Realidade,
negar a Ilusão: heis aqui em síntese como deve ser usada construtivamente a Palavra.
Como exemplo damos uma afirmação característica que deve ser lida e repetida
individualmente, em íntimo segredo, e a semelhança da qual muitas outras podem ser
formuladas:
Existe uma única Realidade e um único Poder no Universo: Deus, o Princípio, a
Realidade e o Poder do Bem, Omnipresente e Omnipotente.
Consequentemente, não existe nenhum Princípio do Mal, este não tem realidade e poder
verdadeiros, e é só uma imagem ilusória que deve ser reconhecida como tal para que
desapareça.
Existe uma única Realidade e um só Poder em minha consciência: Deus, o Princípio, a
Realidade e o Poder do Bem, a Omnipresença, Omnisciência e Omnipotência do Bem.
Por conseguinte, o mal não póde ter sobre mim e sobre minha vida poder algum, se eu
mesmo (dando-lhe) vida ou combatendo-o) não o reconheço e confiro temporalmente
realidade e poder: é um deus falso que se antepõe ao Verdadeiro Deus, que é Bem
Infinito, uma sombra ilusória que impede que resplandeça a luz do Real.
O Espírito Divino é em mim, Vida Eterna, Perfeição Imortal, Infinita Paz, Infinita
Sabedoria, Infinito Poder, Satisfação de todo o justo desejo, Providência e Manancial de
tudo o que necessito e é manifestado em minha vida: meus olhos abertos à Luz da
Realidade vêem em toda parte Harmonia e Boa Vontade: o Princípio Divino que se
expressa em todo ser e em toda coisa.

O PLANO DO GRANDE ARQUITETO
O maçom coopera para a expressão ou realidade do plano do Grande Arquiteto, ou
Inteligência Criadora, cujas obras aparecem em todo o Universo. Este plano é a
Evolução Universal de todos os seres, o progresso incessante e a elevação da
consciência, em constante esforço numa superação igualmente constante das imitações,
constituídas por suas realizações anteriores.
O Plano do Grande Arquiteto age automaticamente na vida dos seres inconscientes, que
sentem serem empurrados para a frente até o momento em que eles próprios atinjam o
plano ou nível da autoconsciência, que caracteriza o estado humano e diferencia o
homem do animal, que não tem necessidade de perceber a razão dos impulsos que o
dominam, nem das Forças que o conduzem.Mas para os seres dotados de autoconsciência e de faculdades de juízo e livre arbítrio
(os que comeram do simbólico fruto da Árvore do Bem e do Mal), o progresso deixa de
ser possível num estado de mera passividade, e percebe a necessidade de compreensão e
inteligente cooperação, na proporção do desenvolvimento destas faculdades.
Em outras palavras, enquanto a Natureza, por seus próprios esforços, evolui como
resultado de uma atividade de milhões de anos, através dos reinos mineral, vegetal e
animal, até produzir sua Obra Mestra, o homem, cujas possibilidades espirituais o
diferenciem por completo dos seres inferiores; e para que possa transformar-se num ser
ainda mais elevado e perfeito, um Mestre, é necessário que o homem coopere
voluntariamente com a Obra da Natureza, ou Plano do Grande Arquiteto.
Assim, o maçom distingue-se do profano, ao entender e realizar esta cooperação
voluntária e consciente, convertendo-se num Obreiro dócil e disciplinando na
Inteligência Criadora, esforçando-se em seguir a Senda que conduz ao Magistério, ou
seja, à perfeição da Magna Obra do Domínio completo de si mesmo e da redenção e
regeneração individual.
Mas para o aprendiz este Magistério é um Ideal necessariamente distante: ele ainda se
encontra nos primeiros passos do caminho, nos primeiros esforços dessa cooperação
Voluntária, com um Plano, uma Lei e um Princípio Superior que o conduzirão à
realização das mais elevadas possibilidades de seu ser, e para isto, as qualidades que
antes de mais nada deve adquirir são exatamente docilidade e disciplina.
É digno de nota que estas duas palavras sejam originárias respectivamente dos verbos
latinos “docere” e “discere”, que significam “ensinar” e “aprender”. Dócil é o adjetivo
que denota a disposição para aprender, a atitude ou capacidade necessária para receber o
ensinamento.
Disciplina, em seus dois sentidos de “ensinamento” e “método ou regras às quais
alguém se sujeita, vem de discípulo, termo equivalente ao de aprendiz. Portanto, ser
disciplinado deve considerar-se como o requisito fundamental da Aprendizagem, que é
a disciplina à qual o aprendiz ou discípulo naturalmente se submete para poder ser
considerado como tal.
A disciplina é a parte que ao aprendiz compete no Plano do Grande Arquiteto: a
harmonização de todo seu ser e de todas suas faculdades, que o fará progredir de acordo
com as Leis Universais, transformando-o de pedra bruta na pedra polida capaz de
ocupar dignamente seu lugar e preencher o papel e as obrigações que lhe competem.
Essa disciplina é voluntária, e de nenhuma forma poderá ser imposta de fora, ou por
parte dos outros: é a disciplina da liberdade que tem na liberdade individual sua base
indispensável, e é ao mesmo tempo a que outorga ao homem sua mais verdadeira
liberdade e a custódia. E é uma disciplina libertadora, uma vez que libera as Forças
Espirituais latentes, do “Deus acorrentado” que vive e espera no coração de todo
homem, e é a fonte de seus mais íntimos anseios, de seus mais nobres ideais, de suas
mais altas aspirações.

A GRANDE OBRA
O Plano do Grande Arquiteto está previsto para a realização de uma Grande Obra. Esta
tem dois aspectos: individual e universal, com os quais o maçom é igualmente chamado
a cooperar através de seus esforços e atividades.Já vimos que a autodisciplina é o meio pelo qual o aprendiz se prepara para conseguir
compreender e realizar as fases mais elevadas da Grande obra de Redenção e
Regeneração Individual, através da qual o homem transformar-se-á num ser que estará
num nível superior ao da humanidade, num verdadeiro sábio ou Mestre, num super-
homem.
Seus esforços não devem ser dirigidos exclusivamente para o interior, mas será nas
profundezas de sua alma que o maçom buscará a Luz que guia e ilumina a consciência,
e que é ao mesmo tempo inspiração para sua atividade exterior, com a qual tem o
privilégio de cooperar no Plano do Grande Arquiteto, na Grande Obra para o bem e o
progresso do mundo e de seus semelhantes.
Por modesta que seja a atividade, tarefa ou trabalho que a cada maçom compete na vida
profana, esta deixa de ser uma carga e converter-se assim numa atividade nobre e digna
enquanto ele a considerar como realmente é, isto é como sua parte no grande Plano para
a evolução de todos os seres, como sua cooperação individual e consciente na Grande
Obra Universal.
Não há dessa forma, trabalho humilde que não esteja enobrecido e dignificado. Por
outro lado, não há dificuldade ou problema superior às nossas forças que não nos seja
dado resolver, quando percebemos que o Plano do Grande Arquiteto é e tem realmente
de ser perfeito em todos os seus detalhes, nenhum dos quais pode ter esquecido a
Inteligência Suprema, que além do mais se acha constantemente conosco e ao alcance
de nossa inspiração para guiar-nos e iluminar-nos.
A dignificação do trabalho como a de toda atividade feita com a devida disposição de
espírito, isto é, com a melhor inteligência e boa vontade de que dispomos, como
cooperação para uma Grande Obra Universal, dirigida pela Inteligência Suprema ou
Grande Arquiteto do Universo, é sem dúvida um dos maiores méritos da Maçonaria.
Nenhum ser humano, qualquer que sejam suas condições e sua posição social, tem o
direito de viver ocioso, senão que cada um deve esforçar-se por trabalhar
construtivamente a serviço, utilidade ou benefício de seus semelhantes. Deve dedicar-se
àquilo que sabe e pode fazer melhor, considerando que seja útil e proveitoso ao
máximo.
A atividade de cada homem tem de ser pura e simplesmente expressão daquela parte do
Plano do Grande Arquiteto que particularmente lhe diga respeito. Isto é, a expressão de
seu Ideal mais elevado de atividade, em relação às suas capacidades atuais, e a que lhe
melhor expresse as qualidades, faculdades e potencialidades latentes do seu ser, que
eleve seu espírito e o faça progredir constantemente.
Por esta razão as profissões desonrosas e as que especulam sobre a desgraça alheia,
como as de verdugo, açougueiro, agiota, espião, mantenedor de prostíbulos, etc., são
indignas da qualidade de maçom, enquanto as nobres profissões materiais, por humildes
que sejam (não esquecendo que de uma delas a Maçonaria tem sua origem e
simbolismo), sempre dignificam sua categoria maçônica.
Finalmente, qualquer que seja sua atividade ou ofício, o maçom deve agir
constantemente em perfeito acordo com seus Princípios e seu Ideal mais elevado,
antepondo as razões e considerações espirituais às materiais, abstendo-se de tudo aquilo
que sua consciência não aprovar e do que não lhe parecer perfeitamente justo, reto e
digno de sua qualidade de maçom. Mas ao mesmo tempo deve cuidar para que um juízosuperficial não lhe faça depreciar e considerar como indigno aquele que, na realidade,
significa um real benefício e constitui uma atividade útil ou necessária.

A SUA GLÓRIA
A maçonaria dedica constantemente seus trabalhos à Glória do G. A.. Assim, também,
deve fazê-lo cada maçom, em sua atividade individual, sem preocupar-se com a
compreensão, aprovação ou reconhecimento dos homens ou com a compensação de
seus esforços, buscando inicialmente realizar em si a Glória ou expressão do Princípio
Divino.
Deve ter presente que sua obra ou trabalho, ainda que dirigidos a uma finalidade
particular, não servem a não ser para glorificar ao Deus silencioso que nele mora, o
inspira e o guia a cada momento, desejoso de encontrar sempre uma mais plena e
perfeita expressão de si mesmo.
Igualmente deve Ter presente que este Princípio interior e transcendente, que é a
Perfeição Inteligência e Onipotência, é a quem deve servir primeiramente, qualquer que
seja sua direta ou indireta dependência exterior, e não antepor a aprovação e satisfação
desta à Daquele.
Como a palavra “servir” nos conduz naturalmente a falar do serviço, é necessário que
alguma coisa seja dito sobre como isto deve entender-se maçonicamente. Todas estas
palavras provêem do latim servus, que significa originalmente “escravo”, por ser “salvo”
ou conservado com vida em lugar de ser morto, como se fazia naquele tempo com os
prisioneiros.
É claro que o maçom, sendo um homem livre, nunca deve trabalhar com espírito servil,
isto é como um escravo. Ainda que é certo que qualquer atividade, desde a mais
humilde à mais elevada, pode e deve ser considerada como um serviço feito em
benefício dos demais (o rei ou presidente de uma república que compreenda
perfeitamente seu dever serve a seus cidadãos, do mesmo modo que o faz o simples
varredor), o maçom, fiel a seus Princípios, tem o privilégio de servir com liberdade, isto
é, fazendo-se guiar constantemente pelos motivos mais elevados e por considerações
morais e ideais, mais que por conveniências materiais, como o faz o escravo destas, que
não deixa de sê-lo, ainda que em sua mundana dignidade de rei.

A BUSCA DA VERDADE
Sem dúvida o primeiro é fundamental entre os deveres do maçom é realizar essa
qualidade esforçando-se em compreender aquilo que ela verdadeiramente significa. Se
bem é certo, que a iniciação confere o título de maçom, a qualidade deve ser adquirida
individualmente, esforçando-se este para por em prática, como fórmula operativa, a
iniciação simbólica que recebeu.
Estudar o simbolismo maçônico é esforçar-se para tornar efetiva a Verdade encontrada
ou descoberta, de forma que a cada passo do pé esquerdo (inteligência ou compreensão
da Verdade) corresponda um igual passo do pé direito (aplicação prática daquela
Verdade), em perfeito esquadro com o primeiro. Nisto deve o maçom de qualquer grau,
aplicar-se com todas suas energias, pois nunca perde mesmo com seu progresso na
carreira maçônica, seu caráter inicial de aprendiz.A busca da Verdade deve ser feita individualmente (como individual é a iniciação, e o
caminho que a realiza), e a ajuda dos outros pode servir unicamente de guia, com a
condição de que seja um experto, isto é, de que já conheça o caminho. Todas as demais
teorias, opiniões e crenças que são vociferadas ao vosso redor são outros tantos
murmúrios aos quais não devemos dar importância, se verdadeiramente queremos
chegar ao termo de nossas aspirações.
Mas, para buscar eficazmente a Verdade e alcançá-la é necessário o veemente desejo de
possuí-la, isto é, um desejo cuja força seja suficiente para impulsionar-nos, com a
necessária energia, para fora do caminho usual das frivolidades, dentro e por cima da
própria ilusão dos sentidos, conduzindo gradualmente nossos passos do Ocidente para o
Oriente. Se este desejo não existe, é necessário esperar até que desperte, pois seria vão
empreender a viagem sem este impulso íntimo pois só ele pode nos dar a força de
superar e vencer todos os obstáculos que encontramos em nosso simbólico Caminho.
A busca deve realizar-se igualmente com perfeita liberdade de espírito, tendo-nos
despojado de todos os erros, prejuízos e crenças que são os metais ou moeda corrente do
mundo profano, exercitando-nos em pensar por nós mesmos, sem Ter outro objetivo
que a Verdade, á qual chegaremos quando conseguirmos superar os próprios limites de
nosso pensamento.

OS TRÊS DEVERES
A procura da Verdade conduzir-nos-á naturalmente ao reconhecimento dos três deveres,
objeto de nossa consideração no Testamento, isto é, de nossa tríplice relação: 1o com o
Princípio de Vida; 2o com nós mesmos, como expressão individualizada e pessoal de
dito Princípio; e 3o com a humanidade, na qual devemos reconhecer outros tantos
irmãos, quer dizer, outras tantas expressões paralelas do mesmo Princípio da Vida.
Desta trina relação, o maçom, como executor testamenteiro de si mesmo, é chamado a
ser e dar testemunho vivo.
Seu dever com o Princípio da Vida está implícito na busca da Verdade que acabamos de
considerar e que conduz naturalmente o Indivíduo a reconhecer sua exata relação com
este Princípio e a reconhecê-lo como Realidade e Essência Verdadeira de tudo. Mas, o
maçom não pode simplesmente limitar-se a reconhecer a Grande Realidade do Universo
como um Princípio Abstrato, senão que é chamado a fazer deste reconhecimento um
uso construtivo e prático.
Isto faz-se por intermédio do uso da palavra à qual já nos referimos anteriormente, a
Palavra da Verdade que estabelece nossa íntima e direta relação com o Princípio da
Verdade, que é também o Princípio da Verdade, que é também o Princípio da Vida do
Ser.
Nosso dever ou relação com nós mesmos consiste em estabelecer a mais perfeita
conexão ou alinhamento entre as duas partes ou polaridades de nosso ser, isto é, entre a
personalidade e a individualidade, entre nosso Ser Mortal e nosso Ser Imortal, de forma
que a primeira, em vez de ser a máscara que esconde, seja sempre uma melhor
expressão da Segunda, atingindo-se a perfeição quando as duas estiverem intimamente
unificadas e cesse toda a distinção.
Este é o simbólico trabalho da pedra bruta que deve ser conduzida, por meio do esforço
constante da Vontade e do Pensamento, em harmonia com os Princípios Ideais, a fim derealizar sua perfeição interior até que a forma exterior tenha se identificado com a
própria Perfeição Ideal e Latente.
Nosso dever ou relação com a humanidade não é menos importante que todos os
deveres já anteriormente citados, dos quais é a conseqüência natural: o iniciado
reconhece em cada homem um irmão, e em cada ser vivente uma expressão do mesmo
Princípio de Vida que sente em si mesmo. Este reconhecimento manifestar-se-á
primeiramente com a abstenção de tudo o que possa prejudicar, danificar ou fazer sofrer
a outro ser vivo; e depois amando nossos irmãos ou semelhantes como a nós mesmos.
Em outras palavras, trata-se de por em prática os dois aspectos do mandamento ou
Regra Áurea da vida: Não faças aos outros o que não queres que te façam, e Faz aos
outros aquilo que desejarias que a ti fosse feito.

SEGREDO E Descrição
A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria. Quem fala
muito pensa pouco, rápida e superficialmente, e a Maçonaria quer que seus adeptos se
tornem mais pensadores do que faladores.
Não se atinge a Verdade com muitas palavras e discussões, mas sim com o estudo, a
reflexão e a meditação silenciosa. Portanto apreender a calar é aprender a pensar e
meditar. Por esta razão a disciplina do silêncio tem uma importância tão grande na
escola pitagórica, onde a nenhum discípulo era permitido falar, sob nenhum pretexto,
antes de que houvessem transcorrido os três anos de sua aprendizagem, período que
corresponde exatamente ao do aprendizado maçônico.
Saber calar não é menos importante que saber falar, e esta última arte não é
perfeitamente aprendida antes de que tenhamos nos adestrado na primeira, retificando
por meio do esquadro da reflexão todas nossas expressões verbais instintivas.
No silêncio as idéias amadurecem e clareiam, e a Verdade aparece como a Verdadeira
Palavra que é comunicada no segredo da alma a cada ser. A Arte do Silêncio é pois,
uma arte complexa, que não consiste unicamente em calar a palavra exterior, mas que
requer para que seja realmente completa, que também ocorra o silêncio interior do
pensamento: quando soubermos calar nossos pensamentos então é quando a Verdade
poderá intimamente revelar-se e manifestar-se em nossa consciência.
Para poder realizar esta disciplina do silêncio, temos igualmente de compreender o
significado e o alcance do segredo maçônico. O maçom deve calar-se ante as
mentalidades superficiais ou profanas sobre tudo aquilo que somente os que forem
iniciados em sua compreensão podem entender e apreciar.
Por outro lado, os sinais e meios de reconhecimento, e tudo quanto se refere aos
trabalhos maçônicos, devem conservar-se no mais absoluto segredo, posto que deste
segredo depende a perfeita aplicação, utilidade e eficácia dos mesmos. São estes os
meios exteriores ou materiais com os quais está formada e é soldada fazendo-se efetiva,
a mística cadeia de solidariedade, que através da Maçonaria abraça toda a superfície da
Terra.
Nenhuma razão justificaria que o maçom violasse o segredo ao qual se obrigou com
solene juramento, sobre a forma de reconhecimento entre os maçons e o caráter de seussimbólicos trabalhos, nem sequer quando lhe parecer útil para sua própria defesa ou
para a defesa da Ordem.
Como os iniciados sempre fizeram, os maçons devem suportar estoicamente e deixar
sem resposta as acusações e calúnias das quais forem objeto, esperando com tranqüila
segurança que a verdade triunfe e se revela por si mesma, pela própria força inerente a
ela, como inevitavelmente sempre ocorre.
O iniciado deve, pois, renunciar sempre à sua própria defesa, quaisquer que possam ser
as acusações e ofensas que lhe sejam dirigidas. Deve, além disso, estar disposto a sofrer,
se necessário, uma condenação imerecida: Sócrates e Jesus, entre outros, são dois
exemplos luminosos, cujo martírio foi transmutado em apoteose. A Verdade que
silenciosamente atesta sua conduta, fará de per si, sem dúvida, sua defesa segura e
infalível.
No que diz respeito ao ritual maçônico, é certo que boa parte das formalidades em uso
na Sociedade não permaneceram inteiramente secretas. Mas, é igualmente certo que não
podem ser de utilidade verdadeira senão para os maçons, da mesma maneira que os
instrumentos de determinada arte só servem para os obreiros conhecedores e
capacitados nessa arte. A grande maioria das obras que tratam de Maçonaria sempre
caem, direta ou indiretamente, nas mãos de maçons, que, por outro lado, são os únicos
capacitados para realmente entendê-las.
Assim pois, é dever do maçom cuidar de que seja observado o segredo também,
naquelas partes do ritual maçônico que possam ter chegado a conhecimento público,
abstendo-se de igualmente negar como de confirmar a autenticidade das pretensas
revelações encontradas nas obras que tratam de nossa Instituição e que muitas vezes
revelam extrema ignorância além de superficialidade.
Quanto ao verdadeiro “segredo maçônico”, a sua natureza esotérica coloca-o para
sempre ao abrigo dos espíritos superficiais, tanto fora como dentro de nossa Sociedade.
Ainda que se possa falar deste segredo com toda clareza em obras similares à presente,
quem as escreve bem sabe que sua compreensão e entendimento não podem ir mais
além daquilo que lhe tenha sido destinado pela Hierarquia Oculta que governa a Ordem:
os que lêem e entendem ou bem são maçons desejosos de conhecer o significado oculto
do simbolismo de nossa; Arte, ou bem o são em espíritos superficiais estas obras não
exerceram atração alguma.
A discrição do maçom que entende os segredos da Arte também deve ser exercida, com
os irmãos que não possuem ainda a suficiente maturidade espiritual que é condição
necessária para que possam fazer uso proveitoso de suas palavras.
A verdade não serve e não pode ser recebida por aquele que não se encontre ainda em
condições de entendê-la, ou prefira viver no erro: todo esforço que for feito para
convencê-lo transmutar-se-á em vosso prejuízo pessoal. Deixai, pois, em paz a todos
aqueles irmãos sinceros, e muitas vezes entusiastas, que entendam a Maçonaria à sua
maneira, com espírito semi-profano, e que se esforçam em praticá-la com boa Vontade,
na medida de seu entendimento.
O maçom que conhece a verdadeira palavra deve estar sempre disposto a dar a letra que
lhe corresponde quantas vezes esta lhe for pedida. Mas deve esperar sempre que esta
letra lhe tenha sido direta ou indiretamente pedida fazendo com que ela esteja emperfeita correspondência e harmonia com a letra encontrada que lhe é dirigida como
pergunta. A cada um se responde quando se julga necessário, de acordo com as idéias
que ele expressar: não se fazer compreender bem causa dano igualmente a quem fala e a
quem escuta.

NECESSIDADE DA TOLERÂNCIA
A mais ampla Tolerância é portanto necessária em matéria de idéias e opiniões,
impondo-se como primeira condição da vida e da atividade maçônica, e como postulado
necessário para que as diferenças entre as idéias não impeçam a realização da
solidariedade e do espírito de fraternidade que sempre deve reinar entre os maçons.
Que cada um se esforce individualmente e de acordo com as possibilidades de sua
inteligência e faça o melhor e mais sábio uso de seus conhecimentos; mas que cuide de
não censurar os demais, seja porque ele não os entende ou porque eles não o entendem
já que sempre ocorre um dos casos, e freqüentemente ambos de uma só vez.
Toda opinião sincera merece por tal razão ser respeitada ainda que possa haver
discordância em seus méritos. A verdadeira liberdade de pensamento mede-se pela
liberdade que cada indivíduo sabe conceder aos demais.
A diferença de idéias nunca deve produzir como resultado uma falta de simpatia e
menos ainda de antipatia entre dois irmãos: aqueles que o fazem faltam a seus deveres
de maçons. Devem isto sim, tratar de compreender e de identificar-se mutuamente o
melhor possível com o ponto de vista contrário. Toda antipatia é fundamentalmente uma
falta de compreensão, enquanto que compreensão e simpatia são sinônimos.
Por outro lado, sendo infinitos os pontos de vista desde os quais pode considerar-se a
Verdade, é sempre presunçoso, denotando fanatismo e estreiteza de visão tornar-se juiz
das opiniões alheias. Na realidade, ninguém pode ser os que podem afirmar estar
absolutamente imbuídos da Verdade: a maioria das opiniões que se expressam
participam, em diferente medida, do erro e da verdade, sendo as duas polaridades.
Além disso, é acima de tudo importante que cada homem busque, encontre e abra seu
próprio caminho individual em direção à Luz: nunca podemos, portanto, pretender
encontrar uma absoluta uniformidade de opiniões e de idéias, se bem que é correto dizer
que estas se aproximam entre si próprias tanto quanto mais convergem as mentes
individualmente para a Verdade. Mas cada um tem de pensar por si mesmo e ninguém
pode tomar para si este trabalho alheio, se bem que pode se ajudar aos outros
estimulando seus pensamentos.

DEVERES DA LOJA
Os maçons agrupam-se em lojas conforme as suas afinidades naturais, de ordem
intelectual social e profissional. Cada Loja tem assim, sua particular fisionomia e
orientação, expressão coletiva dos ideais e tendências individuais dos que a integram.
Como fundamental unidade maçônica, toda Loja representa uma diferente encarnação
da Ordem da qual é o expoente, uma particular interpretação e realização das
finalidades, propósitos e ideais da Maçonaria Universal. Esta vive, se manifesta e age
em cada uma de suas Lojas indistintamente, como o Espírito Único que anima a todos
os seres do universo, sendo cada ser uma diferente expressão individualizada do mesmo
Princípio.Cada Loja encontra-se diretamente relacionada com as que a precederam, nas quais
foram iniciados seus fundadores e membros filiados; e da mesma forma está relacionada
com as Lojas que podem ser formadas por seus membros, e que nesta receberam a
investidura e qualidade de maçom. Assim, todas as lojas do Universo, as que existiram
nos anos e séculos passados, as que existem na atualidade, e as que serão criadas no
futuro, formam, com sua filiação e descendência, uma cadeia ininterrupta que se estende
desde épocas imemoriais, testemunhando a Vida única que anima o múltiplo corpo da
Instituição e faz com que todas as Lojas estejam enlaçadas umas às outras.
Assim, foram transmitidos universalmente, de Loja em Loja, modificando-se e
adaptando-se parcialmente as antigas tradições e os usos e fórmulas rituais. Assim, toda
Loja formada por maçons regularmente iniciados, sem distinção de filiação ou
obediência, pode se dizer que é, efetivamente, em sua jurisdição, a representante da
Ordem.
Todo maçom tem o dever de filiar-se ou contribuir para a formação de uma Loja; e,
dentro de sua Loja, todo maçom deve cooperar como melhor puder com a atividade
impessoal do conjunto do qual forma parte integrante, anexando à Obra Comum o
tributo de seu pensamento e boa vontade.
Cada um dos membros da Loja tem seu dever particular de acordo com o posto que
ocupa e a atividade que lhe corresponde, devendo ser o seu intérprete fiel. Todo cargo
indistintamente é uma oportunidade para manifestar e exercer as qualidades que para
aquele cargo especialmente se exigem.
Assim, o Venerável é especialmente quem deve iluminar a Loja com a Sabedoria e o
Reto Juízo que simbolicamente representa, dirigindo construtivamente sua atividade. O
1° Vigilante deve manifestar discernimento, clareza e força nas decisões, cooperando
com o Venerável na ordem dos trabalhos, na sua exatidão e perfeito desenvolvimento. O
2° Vigilante deve tornar-se o expoente da Harmonia, cuidando para que todos se
mantenham em um nível de perfeita equidade e compreensão, resolvendo assim suas
dificuldades.
O Secretário tem a incumbência de anotar e registrar fielmente todas as atividades da
Loja, assim como a de traçar suas pranchas. Enquanto o Orador, que toma assento em
frente dele, tem a seu cargo tornar-se o porta voz das palavras e dos pensamentos de
seus irmãos, assim como de toda a Ordem em seu conjunto, fazendo o uso fecundo e
construtivo da palavra.
O Tesoureiro é o depositário tanto dos valores espirituais como materiais, e seu mais
especial cuidado tem de ser que estes sejam sempre empregados para fomentar e
enaltecer àqueles. O Hospitaleiro faz-se o expoente da solidariedade da Loja, cuidando
para que nunca se enfraqueça o laço de união que sempre deve existir entre todos os
membros da Ordem.
O Mestre de Cerimônias deve cuidar da ordem e da harmonia, assim como do prestígio
dos trabalhos. O porta-estandarte deve custodiar o ideal ou Logos particular que a Loja
representa e encarna.
Os dois diáconos, à semelhança de Mercúrio e Isis, são mensageiros da Sabedoria e da
Vontade que se expressam na Oficina. E os dois Expertos tem de demonstrar sua períciacomo guias dos candidatos e demais membros ainda inexpertos sobre o Caminho
simbólico da Luz.
O Guarda do templo deve cuidar com toda atenção da cobertura da Loja, e da qualidade
realmente construtiva dos elementos e materiais que adentram nela de forma que seus
trabalhos sejam eficientes e completos.
Finalmente, cada membro da Loja esforçar-se-á em ser realmente uma das colunas do
simbólico Templo que a própria Loja representa, fixando seu olhar nos Princípios Ideais
que constituem seu telhado, e apoiando firmemente os pés sobre o solo da contingência
e da realização objetiva. Desta forma, o cumprimento individual dos deveres designado
a cada irmão fará com que a Loja prospere e seja uma contribuição efetiva à
prosperidade e ao progresso da Ordem.

OS TRABALHOS MAÇÔNICOS
Os trabalhos representam a atividade coletiva dos irmãos na Loja. O que caracteriza
estes trabalhos e os distingue das reuniões e assembléias profanas é o cerimonial
especial segundo o qual se desenvolvem, e particularmente, são abertos e encerrados;
cerimonial este cuja peculiar nota distintiva é a ordem, manifestando-se nesse ritmo
constante que favorece a continuidade dos já realizados.
Tanto a abertura como o fechamento dos trabalhos verifica-se em horas convencionais e
simbólicas, sobre as quais o Ven. Mestre sede informações ao 1 Vig. Na maioria dos
rituais atualmente em uso, estas horas são do meio dia à meia-noite para os três graus
simbólicos, significando o meio-dia (a hora em que o sol está no zênite, na plenitude de
seu poder luminoso e calorífico) a maturidade espiritual necessária para ser maçom, e a
meia noite (hora na qual a luz do dia desapareceu por completo por estar o sol no nadir),
o momento em que já não é possível atuar nesses trabalhos de modo eficaz.
Entretanto, em nossa opinião é mais razoável e mais coerente com as antigas tradições
maçônicas que os trabalhos sejam abertos e encerrados em horas diferentes para os
distintos graus (que representam diferentes épocas ou etapas de evolução) e que,
particularmente para o grau de evolução) e que, particularmente para o grau de
aprendiz, os trabalhos sejam iniciados a saída do sol (isto é, naquele período da vida no
qual a luz espiritual se manifesta primeiro na consciência) e sejam concluídos ao meio-
dia (ou seja na hora em que a plenitude da luz permite a passagem para uma câmara ou
grau superior).
Também do ponto de vista do simbolismo material, estas horas são as mais apropriadas
para o trabalho especial do aprendiz (desbastar a pedra bruta, aproximando-a de uma
forma em relação ao seu destino), enquanto as horas sucessivas podem ser utilmente
aproveitadas por outros obreiros que completem o trabalho dos primeiros, levando as
pedras e dispondo-as, oportunamente, no edifício em construção, para cuja finalidade
foram lavradas.
O reconhecimento da hora deve ser acompanhado da idade, que possui um valor
equivalente, representando aquela época ou estado na evolução individual em que é
possível tomar parte nos trabalhos maçônicos, isto é, agir em harmonia com a lei e o
Princípio Construtivo do Universo. Os três anos do aprendiz significam, na evolução
individual, a passagem pelas três grandes etapas evolutivas representadas pelos três
reinos da natureza; mineral, vegetal e animal, nos quais se desenvolve progressivamenteaquela individualidade que no estado humano aparece em sua perfeição, como
autoconsciência, com as qualidades que a acompanham: o pensamento consciência, o
juízo e a vontade livre.
Não devemos nos descuidar da particularidade de que o Ven. Mestre toma informação
exatamente do 1 Vig. tanto a respeito da hora quanto da idade. Por intermédio destas
perguntas, o primeiro não só se assegura da qualidade maçônica da pessoa com a qual
fala, o que constitui a primeira condição para que os trabalhos ocorram, mas que torna
evidente a necessidade (ou Segunda condição) de que o tempo, que representa o
momento evolutivo e as circunstâncias externas, seja além do mais oportuno e
favorável.
A atividade maçônica requer tempo e condições especialmente adaptadas; necessita que
a responsabilidade do ambiente faça fecundo e próspero o labor que queremos
empreender. Quando este não o for, a pergunta ficará sem resposta, e será necessário
esperar até que chegue a hora.
Em outras palavras, permanecendo dentro de nosso coração tenazmente fiéis a nossos
ideais, projetos e aspirações, assim como aos esforços que tenhamos empreendido,
haveremos de saber esperar a hora com Fé imutável: o tempo não pode deixar de nos
fazer justiça e recompensará infalivelmente nossa perseverança.
ABERTURA DOS TRABALHOS
A primeira condição para que possa proceder-se à abertura dos trabalhos é que a Loja
esteja coberta, tanto exterior como interiormente: exteriormente coberta das indiscrições
profanas, e interiormente pela qualidade de maçons que todos os presentes devem
demonstrar.
Ao Guarda do Templo, é a quem se incumbe de assegurar que o templo esteja
perfeitamente isolado do exterior e além disso cuidá-lo, constantemente, durante o
desenvolvimento dos trabalhos, vigiando a Porta do Templo, armado de espada, e
abrindo-a, com a permissão do Ven., unicamente aos que forem reconhecidos como
genuínos e legítimos maçons. Simboliza o Guarda-Templo a faculdade que se encontra
no umbral de nossa consciência, faculdade esta que deve vigiar para que naquela
consciência não penetrem os erros profanos e todos aqueles pensamentos que não
venham a receber a aprovação de seu Ser mais elevado (o Ven. Mestre).
O fechamento hermético interior é assegurado por intermédio do sinal que fazem os
presentes, a convite do Ven. Mestre, e de cuja exatidão este se assegura com a ajuda dos
dois Vigilantes. O sinal indica a qualidade do maçom ou Obreiro consciente e
disciplinado do Princípio Construtivo do Universo, e assegura ao mesmo tempo a
fidelidade e discrição que devem sempre acompanhar dita qualidade, representando a
vigilância que o maçom se dispõe a observar em suas palavras, e a perfeita retidão com
as qual as medirá, do mesmo modo que os seus pensamentos e ações.
Segue a esta dupla segurança um diálogo entre o Ven. e os principais oficiais da Loja,
pelo qual certifica-se de que cada um esteja em seu lugar e seja consciente dos deveres e
obrigações que lhe correspondem. O Guarda-templo, o 2° e 1° Diácono, o 2° e 1°
Vigilante, são interrogados sucessivamente, e cada um declara sua respectiva função,
como razão explicativa do lugar em que se assentam.O diálogo prossegue entre o Ven. e o 1 Vig., declarando este último as atribuições e
deveres do primeiro, pelo fato de sentar-se no Oriente, e os princípios e finalidades da
Ordem em geral e das reuniões maçônicas em particular.
Tendo cumprido estas diferentes formalidades iluminativas e explicativas, e com a
segurança de que a hora e a idade são convenientes, adequadas e oportunas, o Ven.
Mestre e depois ambos os Vigilantes, fazem a todos os presentes o convite para que lhe
ajudem a abrir os trabalhos. Este convite demonstra em primeiro lugar a necessidade de
que todos percebam a importância e solenidade do momento, preliminar para a
invocação do G. A. em sua tríplice expressão, fixando toda a atenção nas palavras que
vão ser pronunciadas, e que necessitam o uníssono espiritual dos corações de todos os
membros da Loja, despertando em cada um deles um eco profundo. Em segundo lugar
frisar bem a necessidade de cooperação, como condição indispensável para a eficiência
de qualquer atividade maçônica.

O ACENDER DAS LUZES
Tendo o Ven. a certeza de que todos os presentes receberam o convite que lhes foi
transmitido, põe-se todos de pé e à ordem, e o Ven. acende o círio simbólico da
Sabedoria do Grande Arquiteto, invocando-o para que ilumine os trabalhos.
O 1 Vigilante imita-o, acendendo sua luz, que simboliza a Força Onipotente do Eterno,
invocando-a para que acrescente e faça prosperar esses mesmos trabalhos. O 2°
Vigilante faz o mesmo com seu círio, que simboliza a Beleza Imortal do Princípio da
Vida Universal, invocando-a para que os adorne.
Esta iluminação preventiva da Loja precede e predispõe à solene invocação feita à
Glória do Grande Arquiteto e em Nome da Maçonaria Universal, com a qual são
declarados abertos os trabalhos, sendo esta declaração acompanhada pelos toques da
três luzes e confirmada com o sinal e a bateria de todos os presentes. Estes elementos,
que sublinham a invocação, conferem à cerimônia uma austera e profunda beleza.
Havendo declarado abertos os trabalhos, à Glória do Ser Supremo, o primeiro cuidado
será agora que a Palavra Divina, ou seja o Logos, brilhe na Loja e dirija a atividade
construtora dos obreiros no Templo simbólico. Com este fim, estando todos os
representantes de pé e à ordem, o 1° Vigilante, acompanhado pelo Mestre de
Cerimônias, encaminha-se solenemente ao Altar, para abrir o Livro Sagrado e o
Compasso, dispondo oportunamente este e o esquadro sobre as misteriosas palavras
com as quais se inicia o Evangelho de S. J..
Ao pronunciar-se estas palavras, brilha a luz do Delta e toda a Loja se ilumina
completamente para que os trabalhos possam desenvolver-se em ordem e harmonia,
manifestando-se efetivamente a presença do Grande Arquiteto no interior de todos os
presentes, como Ideal Inspirador da atividade.

FECHAMENTO DOS TRABALHOS
Antes de proceder ao fechamento dos trabalhos, concede-se a palavra “a bem da Ordem,
da Oficina em particular, e da humanidade”, depois do que circula o tronco da
solidariedade.
Com o primeiro destes dois atos dá-se a todo irmão que o desejar a oportunidade de
falar sobre algum assunto particular de seu interesse, dirigindo a atenção da Loja para ele. Também, nesta ocasião, aproveita-se para apresentar as escusas dos irmãos que não
tenham podido assistir à presente, e para saudar os irmãos visitantes que representam
suas respectivas Lojas. Estes, igualmente, podem tomar a palavra, trazendo à Loja a
expressão de seus sentimentos fraternos, assim como as mensagens especiais das quais
tenham sido encarregados, estreitando-se assim, intimamente, as relações de amizade
entre as diferentes Lojas.
Pelo segundo ato, cada maçom expressará sua solidariedade com toda a Família
Maçônica e Humana, por meio de uma contribuição proporcional às suas possibilidades
e depositada secretamente no tronco, que será destinada a aliviar as desgraças alheias,
ou servirá de cooperação para alguma obra benéfica.
O fechamento dos trabalhos verifica-se de forma inversamente análoga à cerimônia de
abertura: tendo sido concedida a palavra, circulado o tronco, e feita a leitura da ata do
Secretário (é mais conveniente que isto seja feito ao término da própria reunião, em vez
de deixá-la para a seguinte, para que todos possam melhor julgar sua exatidão), o Ven.
informa-se se os irmãos das duas colunas estão contentes e satisfeitos.
Este será, pois, a atitude de todos os irmãos na Loja, quando os trabalhos tiverem sido
convenientemente conduzidos. Obtida a confirmação de que assim é, o Ven. pede
informação ao 1 Vig. sobre a idade e a hora, e como estas são justas, anuncia por meio
dos Vigilantes a toda Loja que vai proceder ao fechamento dos trabalhos, requerendo-se
para este ato, a cooperação unânime de todos os presentes, da mesma forma que para a
abertura.
Feito o anúncio, com o fim de que todos os irmãos se disponham em atitude
conveniente para participar da cerimônia, a palavra sagrada passa do oriente ao
Ocidente, e do Ocidente ao Sul por meio dos Diáconos, e, sendo devidamente recebida
pelo 2 Vig., este o anuncia, comunicando que todo está justo e perfeito.
Pode agora proceder-se ao fechamento propriamente dito, que é feito por intermédio dos
golpes simbólicos repetidos pelas três luzes, e mediante a fórmula pronunciada pelo
Ven. Mestre com o qual se declaram fechados, seguindo-se também a esta declaração, o
sinal e a bateria.
Então o 1 Vig., acompanhado pelo Mestre de Cerimônias, procede ao fechamento do
Livro e do Compasso, e se apaga a Luz do Delta, depois do que apagam-se as três velas
simbólicas, que correspondem às três luzes da Loja, com palavras análogas às que
foram pronunciadas ao serem acesas.
Antes de separar-se, é costume jurar segredo sobre os trabalhos dos quais os presentes
acabam de participar. Este segredo construtivo representa o silêncio que deve preceder a
toda nova atividade, podendo-se compará-lo à escuridão protetora, que dentro do seio a
terra, favorece à germinação da semente em seus primeiros estados até que tenha aberto
seu caminho para a Luz.
Depois disto procede-se à formação da cadeia, manifestando esta de forma tangível o
laço de fraternidade que deve existir entre todos os maçons, símbolo da união íntima de
todas as boas vontades, necessária ao triunfo das boas causas e ao progresso da
humanidade.É conveniente que se dedique este momento que precede à separação dos irmãos ao
recolhimento por alguns instantes, concentrando-se a mente sobre alguma afirmação
que o Ven. Mestre possa ter sugerido.

COMO DEVE SER ENTENDIDA A SOLIDARIEDADE
A solidariedade é o sentimento de união que nasce de um Ideal comum, de uma
comunhão de aspirações, uma união consolidada no mundo espiritual, manifestada
exteriormente em pensamentos, palavras e obras por meio dos quais evidencia-se e se
realiza em termos efetivos de vida.
Os que lutam por uma idéia particular são solidários em tudo o que se relaciona com
aquela idéia. Os que principalmente por uma idéia particular, esforçam-se para obter o
triunfo impessoal do Bem, da Verdade e da Virtude (como são, ou deveriam ser, os
maçons), conviria que estivessem ainda mais irmanados entre si, uma vez que o triunfo
das mais nobres aspirações humanas não pode ser conseguido senão com a cooperação e
os esforços unidos de todos os que as compreendam.
A solidariedade dos maçons deve ser, pois solidariedade no Bem, na Verdade e na
Virtude, solidariedade em tudo o que for Justo, Nobre, Digno e Elevado. Uma
solidariedade pronta para expressar-se em qualquer momento com palavras e ações
perfeitamente de acordo com estas aspirações que devem dirigir-nos e com as quais
verdadeiramente se realiza o místico Reino dos Céus sobre a terra e se faz a Vontade de
Deus, que é o Bem e seu triunfo, assim na terra como no céu.
Quando assim o fazem os verdadeiros maçons demonstram serem verdadeiros cristãos,
entendendo e pondo em prática as palavras do sublime Mestre de Nazaré, palavras que
interpretam e aplicam por meio do Compasso e do Esquadro, que são os instrumentos
da inteligência com os quais conhecemos a Verdade e estamos capacitados a aplicá-la
construtivamente às necessidades da existência.

COMO DEVE SER REALIZADA A FRATERNIDADE
Fala-se muito de fraternidade entre os maçons, como entre os membros de outras
sociedades que a sustentam entre seus objetivos; mas, se do campo da palavra e da pura
teoria, dirigimos nosso olhar à prática da vida diária, vemos como a efetiva realização
da fraternidade deixa muito a desejar, e esta é a causa da desilusão e perda total da
confiança de muitos na veracidade deste ideal.
E, entretanto, nunca podemos esperar uma realização de fraternidade diferente do
entendimento particular de cada um. Em outras palavras, não é suficiente ser chamado
maçom ou ser membro de outra fraternidade para que os demais sintam-se no direito de
exigir uma manifestação de fraternidade em todos os campos da vida, conforme os seus
ideais particulares.
O amor é dado, mas nunca pode ser exigido: o mesmo deve ser dito da fraternidade, que
não pode ser senão uma manifestação do amor. Nenhuma verdadeira e sincera
manifestação de fraternidade pode obter-se a não ser quando verdadeiramente a
sentimos e realizamos interiormente: um maçom tornar-se-á verdadeiro maçom e irmão
conforme sinta em si mesmo o Ideal Maçônico e possa se reconhecer como irmão dos
demais.Quando se progride no Caminho da Vida (do qual a Maçonaria nos oferece em suas
cerimônias uma maravilhosa interpretação) e se aproxima do reconhecimento (que não é
unicamente o frio conceito ou percepção intelectual, mas a direita consciência e
sentimento) da realidade do Princípio Único de tudo, sente-se então, interiormente e de
uma forma sempre mais clara, sua íntima união e solidariedade com toda a manifestação
da Vida, e desta íntima consciência e sentimento, uma verdadeira compreensão e
realização da fraternidade será a conseqüência espontânea e natural.
Que cada um, pois se eleve, à sua maneira, e conforme lhe for possível, sobre seu
egoísmo e sua ignorância, e que reconheça sua verdadeira natureza, manifestação do
Princípio da Vida que vive em todos os seres (e que tem recebido na Maçonaria o nome
de Grande Arquiteto), reconhecendo assim seus deveres, ou seja sua relação com o
próprio Princípio da Vida, consigo mesmo e com seus semelhantes. Este é o caminho
por meio do qual a Maçonaria ensina a fraternidade e busca sua mais prática e efetiva
realização.
Esta fraternidade será primeiramente entre irmãos, pois só os que a entendem e se
reconhecem como irmãos podem realizá-la; mas, como o Amor não pode Ter nenhum
limite verdadeiro, e não existe condição ou estado em que não possa manifestar-se, não
há ser ou manifestação de Vida Universal quem não possa ou deva estender-se. Esta é a
Fraternidade dos Iniciados e dos verdadeiros Mestres.
Busquemos, pois, o Princípio Supremo e básico de tudo, reconheçamos a Verdade da
Unidade da Vida e da íntima indivisibilidade de todos os seres: na proporção em que
efetivamente cheguemos a este conhecimento, chegaremos, também, a reconhecer e
realizar a verdadeira Fraternidade Maçônica, e esta cessará de ser uma vã utopia e um
ideal abstrato fora das possibilidades humanas. Assim se realiza o Grande Mandamento
do qual nos falava Jesus, cuja segunda parte, “ama a teu próximo como a ti mesmo”, é o
corolário natural da primeira: “ama a Deus (o Princípio ou Realidade da Vida) com
todas as tuas forças, com toda tua alma e com todos teus pensamentos.
COMO DEVE PRATICAR-SE A CARIDADE
Fala-se também muito, na Maçonaria e em outras instituições filantrópicas, da caridade
e beneficência, como deveres que os mais afortunados tem para com os “desafortunados
e deserdados da sorte”. Mas, dificilmente a caridade e beneficência chegam a ser
verdadeiramente caritativas e benéficas, porquanto procedem do erro, bem mais que da
verdade, e assim contribuem muitas vezes a reforçar e tornar estático ou crônico o mal
que querem eliminar, reforçando sua raiz.
Como ensinado por todos os sábios em todos os tempos (e esta pode ser, de certa
maneira, a pedra de medição da verdadeira Sabedoria), a raiz e a causa primeira de
todos os males, deve ser procurada no erro ou na ignorância. E até que não se remedie
este erro e esta ignorância, toda a forma de caridade não será mais que um paliativo,
pois não elimina a raiz do mal, senão que muitas vezes a torna ainda mais forte e vital
com a própria consciência do mal que estimula.
Por exemplo, não há dúvida que o Tronco de Solidariedade oportunamente circulando
em favor de um irmão necessitado, ou de outro caso piedoso, possa constituir uma ajuda
útil e providencial a ajuda direta a esta ou aquele irmão. Mas, se a ajuda peculiária (cujo
valor e efetividade não podem ser senão temporais e transitórios) é acompanhada pelos
presentes, como quase sempre acontece, por seus sentimentos e pensamentos decompaixão, e pior ainda, de comiseração, ou, se a pessoa necessitada for considerada
impotente e em estado de inferioridade, a influência destes pensamentos de compaixão,
e pior ainda, de comiseração, ou, se a pessoa necessitada for considerada impotente e
em estado de inferioridade, a influência destes pensamentos torna muito pouco
desejável e efetiva a ajuda, pois que contribui para abater bem mais que a realçar seu
estado moral e a confiança em si mesmo.
O mesmo deve ser dito, e com maior razão, de toda forma de beneficência que mais que
uma simples e espontânea manifestação do espírito de fraternidade entre irmãos livres e
iguais, torne manifesta a distância entre benfeitor e beneficiado, ou de alguma forma em
humilhação, se transforme para este a dádiva, com a qual paga muito cara a ajuda
recebida. Não vamos dizer nada da beneficência que serve de pretexto à ostentação e à
vaidade, pois neste caso dificilmente poderá considerar-se digna de tal nome.
A verdadeira beneficência deve ser secreta e espontânea e não deve envolver em si
nenhuma forma de humilhação. Prever as necessidades de um irmão que se ache
manifestamente em dificuldades é muito mais fraternal que esperar que este peça uma
ajuda, pois com o pedido esta já está quase paga e nada se paga tão caro como quando
se pede.
A mão que dá com verdadeiro espírito de fraternidade deve ser escondida, e “a esquerda
não deve saber o que faz a direita”. Deveria assim condenar-se absolutamente a prática
em uso em algumas Lojas, de pedir a outras uma contribuição para ajuda a algum irmão,
especialmente dando o nome deste irmão. Nem na própria Oficina deveria ser divulgado
o nome da pessoa socorrida, pois não há necessidade de que se torne conhecida, com
exceção daquelas que diretamente intervêm para ajudá-la.
A MAIS VERDADEIRA AJUDA
Ainda que a ajuda direta possa ser, em alguns casos, útil e necessária (sempre que for
uma verdadeira manifestação espontânea de solidariedade e fraternidade) é muito
melhor dirigir-se à raiz do mal, em vez de contentar-se com remediar temporariamente
seus sintomas exteriores.
A pessoa que se acha em circunstâncias materiais difíceis tem antes de tudo,
necessidade de ser ajudada espiritual e moralmente, com pensamentos positivos que
reergam seu estado de ânimo abatido, e tenham para ela o efeito das palavras
taumatúrgicas: Levanta-se e anda! Ajudar um irmão a caminhar sobre seus próprios pés
é muito melhor que provê-lo de muletas. Facilitar um meio de ganhar por si mesmo
aquilo de que necessita é muito mais fraternal, desejável e digno que facilitar-lhe uma
ajuda que o ponha, como beneficiado, em condições de inferioridade.
Mas quando isto não for possível momentaneamente, compartilhar o que temos, com
verdadeiro espírito de solidariedade fraternal, segundo o próprio ditado da consciência,
deve ser considerado como um dever elementar, um privilégio e uma oportunidade para
todo iniciado que verdadeiramente sinta em seu coração o laço de fraternidade, a mística
cadeia de união que o une a todos os seres, e em particular aqueles com os quais tem
uma mais profunda afinidade moral e espiritual.
As precedentes considerações não devem ser entendidas com meios para afastar alguém
de seus deveres de solidariedade para com seus semelhantes em geral, e seus irmãos em
particular, mas ao contrário, para que eles sejam melhor atendidos e praticados,despojados de toda ostentação por parte de quem dá e de toda humilhação por parte de
quem recebe, como convêm para uma verdadeira expressão do espírito maçônico, que
não pode ser nunca isolamento negativo nem deprimente solicitude.
Elevar-se sobre os sentimentos e os conceitos profanos de caridade, para realizar a
verdadeira fraternidade dos iniciados, na qual aquilo que é feito por um irmão possui o
mesmo espírito como se fosse feito para si mesmo, sem que disso nasça nenhuma
obrigação ou dever de mostrar-se reconhecido, este tem de ser o ideal de todos os
verdadeiros maçons.
O RESPEITO À LEI
O respeito a Lei e à Autoridade Constituída (e, por conseqüência, a qualquer forma de
governo sem distinção) tem sido sempre um dos primordiais requisitos da Maçonaria e
das regras de conduta dos iniciados de todos os tempos.
Ainda que estes reconheçam por cima de toda Lei e Autoridade humana a Lei Suprema
da Verdade e a Suprema Autoridade do Espírito, e num tão íntimo reconhecimento
encontrem uma perfeita liberdade e nela descansem (uma liberdade interior que
nenhuma condição externa poderia tirar-lhes e nem limitar), não podem desconhecer nas
Leis e Autoridades Humanas outras tantas manifestações e emanações da Lei e
Autoridade Divina, na qual unicamente podem aquelas exercer e possuir o poder.
Por esta razão o iniciado, se bem perfeitamente livre de todo espírito de sujeição ou
humilhação, se impõem o dever de respeitar as Leis e Autoridades do país em que se
encontre, sem discutir sua legitimidade; e se fosse vítima de um preterimento ou de uma
injustiça, não se oporia ao adversário, mas, ao contrário esperaria da Lei e do Poder
Supremo aquela perfeita justiça que nunca será esperada em vão quando nela se
depositar absoluta confiança.
Em outras palavras, o iniciado vê os homens e as coisas como expressões muitas vezes
inconscientes de poderes, forças, leis ou necessidades que aqueles desconhecem: por
esta razão, nunca culpa aos homens e às circunstâncias, senão que aceita serenamente a
aparência do mal, sem deixar-se cegar por ele, e sem considerá-lo como definitivo (pois
nesse caso ele mesmo tornar-se-ia seu escravo e sua vítima), preparando-se para ver em
tudo o triunfo inevitável da Justiça e do Bem.
Por conseguinte, o verdadeiro iniciado nunca será um revolucionário ou um rebelde, um
conspirador contra a Lei e a Autoridade constituída: conhecendo a ilusão dos meios e
remédios exteriores, procurará remediar interiormente as coisas e males externos; e isto
é feito por meio da compreensão do amor e da cooperação mais útil, eficaz e
construtivamente que com meios exteriores de violência e rebeldia.
Para os maçons, as Leis e Autoridades Maçônicas (assim como as Leis e Autoridades
Religiosas para os membros de determinada religião) devem ser consideradas com
respeito da mesma forma que as Leis e Autoridades exteriores. Mas, por cima destas
Leis escritas, o verdadeiro maçom deve lembrar que a Suprema e mais verdadeira Lei
Maçônica é a que o Grande Arquiteto grava no coração de todo Adepto fiel, isto é, a que
é interiormente reconhecida como expressão da própria verdade; e que nenhuma
autoridade Maçônica é superior à Suprema Autoridade do Grande Arquiteto, que é o
Princípio e a Realidade sobre a qual se apoia todo o Universo.
O SALÁRIO DO APRENDIZO salário que o Aprendiz recebe, como resultado de seus esforços, à semelhança do
salário percebido pelo obreiro como prêmio e compensação de seu trabalho, deve ser
objeto de uma especial consideração.
Os antigos obreiros recebiam, além dos víveres em espécie, um soldo ou compensação
em dinheiro para comprar o sal e outras coisas de que necessitavam; daqui vem o nome
de salário. Mas talvez não seja completamente estranho o fato de que, em termos de
salário do Aprendiz estes o recebam na Coluna B. a qual corresponde ao princípio
hermético feminino do sal, do qual já falamos anteriormente.
O Aprendiz recebe o salário depois de realizado o seu trabalho, aproximando-se da
Coluna B. Isto significa que o iniciado somente consegue obter o resultado de seus
esforços quando se aproxima do reconhecimento do Princípio da Onipotência, expresso
pelo sentido da Palavra que é o próprio nome desta coluna e que, como dissemos,
significa: “Na Força”.
Em outras palavras, o Aprendiz progride, e neste progresso recebe a compensação de
seus esforços, conforme se aproxima, como fim de seus estudos e deduções, a este
reconhecimento vital que realiza o primeiro dever de seu testamento; isto é, na medida
da Fé que desenvolve no Princípio da Vida e em seu poder, como coluna ou
sustentáculo de sua vida individual.
O progresso do Aprendiz está caracterizado pelo desenvolvimento desta Fé e confiança
no Princípio Espiritual da Vida, no qual temos nossa origem, que nos criou ou
manifestou (como diferentes expressões individualizadas de seu Ser ou Realidade,
divididas e separadas na aparência, mas intimamente unidas e inseparáveis em essência
e realidade), que continuamente nos sustentam, guiam e dirigem para o
desenvolvimento e a expressão das mais elevadas possibilidades que ainda se encontram
em estado latente em nosso ser.
Esta fé, própria de quem se iniciou no conhecimento do Real que se esconde atrás da
aparência exterior ou visível das coisas – e que não é fé cega, uma vez que se baseia na
própria consciência da realidade -, é algo desconhecido para o profano, escravo da
ilusão dos sentidos, que confunde a aparência com a realidade, e não o tendo
reconhecido (por não Ter podido adentrar à sua consciência), nega a existência de um
Princípio Espiritual como Causa Imanente e Transcendente da realidade visível.
Não pode obter-se este conhecimento, esta convicção que é um estado interior, sem o
estudo, o trabalho e a perseverança: A Fé iluminada de que falamos, é pois, um
verdadeiro salário, fruto ou resultado de longos e persistentes esforços sobre o Caminho
da Verdade, depois de temo-nos despojado de todas as superficialidades, crenças
positivas e negativas, erros e prejuízos do mundo profano.
Assim, estabelece o iniciado uma relação iluminada com o Princípio da Vida, cuja
realidade reconheceu em sua consciência, relação que tem sua base no reconhecimento
expresso pela própria Palavra Sagrada, que será daqui para frente, uma verdadeira
coluna na qual pode apoiar-se com toda confiança e que o suporta em suas dúvidas e
vacilações.
CONCLUSÃO
Chegamos ao final desta resenha interpretativa dos símbolos do primeiro grau
maçônico, na qual nos propusemos, como objeto fundamental, a dar a quem avidamentebusca a Verdade, a quem deseja penetrar e reconhecer o sentido iniciático destes
símbolos, uma chave que lhe sirva para abrir, por seus próprios esforços, a Porta
Hermética do Mistério, atrás da qual eles se encerram impenetravelmente ao
entendimento profano.
Não demos nem pretendemos ter dado a verdade, pela simples razão de que esta nunca
pode ser dada exteriormente, senão que deve ser buscada e reconhecida nas profundezas
da alma; só indicamos, ou melhor dizendo, temo-nos esforçado em esclarecer o
Caminho que a maçonaria ensina nesta busca individual por intermédio de seus
símbolos, cerimônias e alegorias. O segredo maçônico deve ser procurado e encontrado
individualmente, pois de outra forma deixaria de ser um segredo.
Os lábios da Sabedoria estão fechados a não ser para os ouvidos da compreensão. Só
quem se encontra num particular estado de consciência e maturidade espiritual pode
reconhecer interiormente determinada Verdade, compreendendo e tirando proveito das
palavras que querem indicá-la ou revelá-la.
A Esfinge, aquele maravilhoso monumento que restou da mais antiga civilização
egípcia, é uma representação escultural deste fato: é muito difícil dizer se os seus lábios
estão abertos ou fechados; pode-se talvez dizer que estão abertos e fechados ao mesmo
tempo, atrás do misterioso sorriso que os anima. Verdadeiro símbolo do ensinamento
esotérico, a Esfinge fala ainda para quem tem ouvidos para ouvir, mas permanece em
hermético silêncio para quem não tenha adentrado naquele estado de consciência no
qual a Verdade espiritual pode ser reconhecida e assimilada.
O mesmo deve ser dito dos símbolos maçônicos; como a Esfinge, eles falam para quem
os escuta com os ouvidos da compreensão, mas guardam seu segredo para quem não
sabe descobri-lo.
A Maçonaria é uma Ciência e uma Arte que se revela progressivamente a quem se
esforça e persevera no estudo e na prática, por meio da compreensão e do uso de seus
instrumentos simbólicos. Assim pois, a distinção entre maçom e profano não pode ser
determinada unicamente pela cerimônia através da qual um profano é admitido e
reconhecido como membro da Ordem, senão que depende da efetiva realização desta
qualidade.
A maioria dos maçons permanece irremediavelmente profana no que se refere ao
entendimento e à realização da finalidade iniciática da Ordem e ao verdadeiro sentido
dos símbolos e cerimônias. Mas, isto não lhes impede de ser bons maçons, se eles se
esforçarem sinceramente, na medida de sua compreensão e, sobre tudo, se são fiéis aos
seus ideais pondo em prática o que entenderam dos Princípios Morais da Ordem. Não
há necessidade de conhecer a Doutrina Esotérica revelada pelos símbolos maçônicos
para praticar os princípios da fraternidade, mas, é necessário saber discernir entre a
ilusão exterior do egoísmo e da separatividade, e a realidade da Unidade Interior de
tudo, para compreendê-la e realizá-la efetivamente.
Todo homem sincero encontra, pois, na Maçonaria um Caminho de Progresso que se
torna sempre mais efetivo na medida da sua boa vontade e perseverança, um progresso
ao mesmo tempo intelectual e moral, adaptando-se perfeitamente seu ensinamento
simbólico à compreensão de todas as inteligências, ainda que não lhes seja dado a todos
penetrar no verdadeiro significado íntimo deste ensinamento.Mas sempre o progresso será o resultado do esforço individual e do ardor e da
perseverança através dos quais cada um se esforça em realizar as finalidades da Ordem,
encaminhando-se para uma mais profunda compreensão da Verdade, pondo os pés de
uma maneira mais firme, equilibrada e segura sobre a senda da Virtude.

~ por Rosemaat Abiff em 19/07/2015.

3 Respostas to “Manual do Aprendiz, Maçom Livre.”

  1. bravisimos assin seja como foi escrito

    Curtido por 1 pessoa

  2. Meus singelos parabéns ao Ir.´. redator ficou completíssimo.
    TFA.

    Arlindo.´.

    Curtido por 1 pessoa

  3. […] manual do aprendiz maçom(https://ocultismopel.wordpress.com/2015/07/19/manual-do-aprendiz-macom-livre/) […]

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