O Trabalho Mágico da Sacerdotisa #2

O Trabalho Mágico da Sacerdotisa #2

POSTED ON 09:03 BY FERNANDO LIGUORI | NO COMMENTS

Fernando Liguori

P A R T E  . I I .

Parte I

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Este é o segredo do Santo Graal, este é o cálice sagrado de Nossa Senhora a Mulher Escarlate, Babalon, a Mãe das Abominações, a noiva de Caos, que cavalga sobre nosso Senhor a Besta.

Tu verterás o teu sangue que é tua vida dentro do cálice dourado de sua fornicação.

Tu mesclarás a tua vida com a vida universal. Tu não reterás uma só gota.

Então o teu cérebro ficará mudo, e teu coração não mais baterá, e toda a tua vida se esvairá de ti; e tu serás lançado à estrumeira, e os pássaros do ar banquetearão sobre a tua carne, e teus ossos branquearão sob o sol.

Então os ventos se reunirão, e erguerão a ti como se fosse um pequeno amontoado de pó numa folha que tem quatro cantos, e eles o entregarão aos guardiões do abismo.

E porque não há vida ali, os guardiões do abismo o oferecerão aos anjos dos ventos que por ali passam. E os anjos depositarão tua poeira na Cidade das Pirâmides, e o nome daquilo não mais existirá.[1]

Continuando nossa jornada pelas Crônicas da O.T.O., estou estamos levantando a discussão sobre o papel da mulher na O.T.O. Para isso, adentramos aos mistérios da Ordem através dos rituais de iniciação. Se na prática os rituais transmitem os Mistérios do Falo, qual a sua utilidade na fisiologia e psicologia feminina? Antes do primeiro interlúdio eu finalizei dizendo que o III° O.T.O. ocorre na esfera de Hod «o Falo», portanto, qual sua função na iniciação da mulher? O III° O.T.O. não deveria ter uma versão na esfera de Netzach «a Vulva»? Ou seja, duas iniciações distintas? Em Liber Aleph, Crowley diz:

Será lucrativo para ti, ó meu Filho, que Eu erro, que Eu te instrua no Mistério dos Caminhos de Nun e de Ayn, que em nossa Rota estão figurados no Atu chamado Morte, e naquele chamado O Diabo. […] E assim um é a Fórmula do Homem, como o outro era da Mulher. […] E assim é a Fórmula do Homem, como o outro era da Mulher.[2]

O segredo ou a fórmula mágica desses dois Caminhos reside na Palavra de Passe do Minerval, ON. Entendas essas letras, O & N, como Yang «Chokmah» e Yin «Binah». Acima do Abismo estas letras estão em harmonia perpétua na Palavra ON, Pai «Yod» e Mãe «Heh», Rei e Rainha. Abaixo do Abismo a Palavra torna-se duas letras separadas, Filho «Vau» e Filha «Heh», Hod-O e Netzach-N. O segredo reside em unir ambos os Pilares da Árvore da Vida, o Pilar da Misericórdia e da Severidade em um casamento alquímico na esfera de Tiphereth através da União entre Filho e Filha. Esta, além de ser a Fórmula do Tetragrammaton, é o segredo por trás do IX° O.T.O.

Os mistérios concernentes ao homem, na passagem do II° para o III° Grau, ocorrem entre as esferas de Hod e Tiphereth através do Caminho de Ayin, O Diabo, realizando a fórmula mágica da letra O. A lógica diz que os mistérios da mulher na passagem do II° para o III° Grau deveriam ocorrer entre as esferas de Netzach e Tiphereth através do Caminho de Nun, a Morte, realizando a fórmula mágica da letra N. Nessa direção, os mistérios fálicos de Hod complementariam os mistérios da Espiritualidade Feminina ou reino da Deusa em Netzach.

O & N são duas fórmulas distintas. A Fórmula do Filho-O compreende os Mistérios de Cheth (8) + Mem (40) + Ayin (70) + Shin (300) em seus respectivos Caminhos, somando 418, a Grande Obra. Por outro lado, a Fórmula da Filha-N compreende os Mistérios de Vau (6) + Kaph (20) + Nun (50) + Peh (80) em seus respectivos caminhos, somando 156, Babalon. Com essas informações, a discussão é essa: Netzach é o IV° O.T.O. ou simplesmente a esfera onde a mulher deve ser iniciada em uma versão diferente do III° Grau atualmente em uso? Se a resposta for a segunda opção, então onde, na Árvore da Vida, se encontra o IV° Grau? Crowley encontrou dificuldade em solucionar esse problema quando formulou um sistema que começa no alto da Árvore da Vida no sentido descendente ao invés de se ater ao tradicional, começando de baixo, subindo esfera por esfera. O simbolismo fálico desses rituais de iniciação, em destaque o III° Grau, é brilhante. No entanto, ao lidar com o IV° Grau Crowley teve problemas em fazer uma revisão apropriada do ritual em harmonia com suas crenças baseadas no Novo Aeon e a iniciação apropriada para fisiologia e psicologia da mulher.

Outra questão que surge é essa: por que a Iniciação no IV° O.T.O. ocorre em Netzah ao invés de Malkuth/Yesod? Todo o IV° Grau é estruturado sobre o Arco Real e as lendas de Hiram. O simbolismo maçônico tradicional nos ensina a reconstruir o Templo de Salomão, destruído por Nabucodonosor II. Após sua morte, o Rei Cyrus, que respeitava a cultura religiosa dos povos que conquistava mandou que os judeus reconstruíssem o Templo por volta de 520 a.C. Os três principais indivíduos responsáveis pela reconstrução do Templo são os Oficiais da Cerimônia de Iniciação ao IV° Grau. O primeiro oficial é Zorobabel, conhecido como Príncipe do Povo. Ele era a autoridade que carregava o Cetro e o responsável por levar os judeus para fora da Babilônia. O segundo oficial é Joshua, filho de Josedek, escolhido por ser um Alto Sacerdote e apto legislador responsável pela reconstrução do Templo. O terceiro oficial é Ageu, o profeta durante a reconstrução do Templo.

A Iniciação do IV° O.T.O. ensina principalmente que o busca pela reconstrução do velho Templo tem de ser deixada de lado a fim de que um novo Templo possa ser estabelecido dentro de cada um de nós. E não existe deus senão o homem? Mas por que Crowley encontrou problemas em reorientar a estrutura do IV° Grau? Será pela inabilidade em ver que essa iniciação deveria ocorrer em Malkuth/Yesod ao invés de Netzach? Crowley foi brilhante em sua abordagem fálica dos mistérios nos rituais da O.T.O., no entanto, ele se viu confuso ao abordar o papel da mulher em seu sistema de iniciação, deixando essa tarefa para nós que viemos depois dele. Na época em que ele revisou esses rituais não havia nenhum iniciado no IV° Grau e pelo menos ninguém trinta anos a partir de suas revisões. Ou seja, ele não precisava se concentrar nisso.

Para que o Casamento Místico ocorra, do ponto de vista da Fórmula do Filho, O «Ayin» tem de se mover para fora de Hod em direção a Netzach-N, daí ON. O III° O.T.O. primeiro aciona o swādhisṭhāna-cakra no exterior e o maṇipūra-cakra no interior. Do ponto de vista da Fórmula da Filha o processo é diferente. Ela naturalmente é N (Nun) em Netzach e deve se mover em direção a Hod-O, daí, NO. Na mulher, o III° aciona o maṇipūra-cakra no exterior e depois o swādhisṭhāna-cakra no interior. Em outras palavras, o homem (+) busca a deusa (-) em seu interior; a mulher (-) busca o deus (+) no seu interior. Frater Achad em seu The Egyptian Revival diz que ON é a antiga palavra egípcia para o Sol; na medida em que estamos preparados para seguir em frente [go ON] tudo está bem, desde que estejamos alinhados com o impulso natural da Evolução. Mas podemos ir além da ideia ordinária de Evolução para uma cooperação livre consciente com o Propósito Divino […]. Àqueles que tentam reverter o progresso da evolução dizendo não [NO] em seus Corações, irão cair no Pecado da Restrição, acumulando problemas. EmLiber Aleph Crowley diz: Ó Meu Filho, aprende isto sobre a Magia: que o Yang se move e assim se entrega Eternamente, mas o Yin não se move, buscando sempre envolver ou restringir, reproduzindo em sua própria Semelhança toda e qualquer Impressão que lhe é imprimida, porém sem Rendição.[3] Em outras palavras, o Yang é o pênis que enrijece e se projeta em direção a Yin, a vagina que é circular e sempre envolve ou restringe o Yang. Quer dizer, o Sol sempre se move «ON», o que implica em «sim». A mulher, por outro lado é a Filha que restringe pois sua natureza é sempre de negação, não «NO». Esse rico simbolismo está presente no papel de Kundry nos Mitos do Santo Graal.

Para resolver essa questão dos gêneros, fiz algumas mudanças nos Rituais de Iniciação, realizados em conexão com a Tradição Brasileira da O.T.O.[4]Primeiro mudei a linguagem de inclinação machista dos rituais e reescrevi algumas passagens adequadas a iniciação da mulher. A lógica por trás dessas mudanças segue: ambos, homem e mulher, são nativos de Corinto «Kether», mas a cidade na qual eles irão conquistar a liberdade vai depender do gênero. Atenas «Chokmah» é masculina e Metilene «Binah» é feminina. Enquanto o homem viaja a Heliópolis, a Cidade do Sol, a mulher deveria buscar a Cidade da Lua; enquanto o homem busca a Sabedoria, a mulher busca o Entendimento e assim a Filha busca sentar-se no Trono da Mãe. Essa lição é diretamente ensinada no Caminho da Lua e tem um significado profundo nesse processo.

Mas qual a Cidade da Lua a mulher deve buscar. No antigo Egito haviam cidades dedicadas a Lua. No entanto, existia uma conhecida como NO ou No-Amon, Tebas, uma cidade com inúmeros portões em ambos os lados do Nilo. Ao contrário da Cidade do Sol, Heliópolis no Norte do Egito, NO era conhecida como Iunu-Shemaa ou a Heliópolis do Sul. A cidade foi primeiro o centro de adoração ao deus Atum «Amon» e sua esposa Maut «Mut», a Deusa Abutre. Muitos de seus títulos incluem A Mãe do Mundo, A Rainha das Deusas,Senhora dos Céus, Mãe dos Deuses e como a arcaica Anake, ela era conhecida como aquela que provê o nascimento, mas que não nasceu de ninguém. Ela também foi conhecida como o Olho de Ra que opera como a contraparte feminina do deus Ra. O Olho de Ra foi a imagem central de culto da deusa. Seu papel era proteger o Sol daqueles que se rebelavam contra seus domínios. Isso é confirmado pela Serpente Uraeus em sua fronte, presente na coroa do Sacerdote na Missa Gnóstica. O filho de Amon e Mut foi adorado em Tebas na forma do deus Khonsu, associado ao movimento da Lua.

O III° O.T.O. envolve a lenda de um personagem enigmático, Mansur Al-Hallaj, um controverso místico persa não-dualista que por conta de suas ideias ficou preso por onze anos e após esse período foi executado publicamente. No Ritual de Iniciação do III° Grau, que ocorre na esfera de Hod (o Falo), Mansur Al-Hallaj levanta dos mortos através da Palavra Sagrada, a semente transformada em Serpente. O papel da Sacerdotisa é receber a Serpente e Nutri-la com seu Ovo na esfera de Netzach, sua vagina, a Kteis.

[…] quando a alma de Mansur Al-Hallaj partiu de seu corpo após ser decapitado pelo Califa de Bagdá, sua cabeça foi jogada nas águas e flutuou. Como por um milagre, quando a irmã de Mansur foi ao rio encher sua jarra de água, a alma de seu irmão entrou na jarra. Sem saber do ocorrido, a irmã levou a alma do irmão até sua casa. Sentindo-se cansada e com sede, ela bebeu a água da jarra. Nesse momento, a alma de seu irmão entrou em seu corpo, mas não percebeu nada até descobrir que estava grávida. Posteriormente ela deu nascimento a uma criança cujo semblante parecia o próprio Mansur.[5]

Esta me parece ser a lenda mais adequada a iniciação da mulher no III° Grau em Netzach onde ela, como Aletheia, nutre a Verdade. A perspectiva judaica deste mito alude à criação de um homúnculo em uma jarra «útero». Este mistério está contido nos Graus superiores da O.T.O. através de uma instrução secreta conhecida como a Epístola sobre o Homúnculo, Liber CCCLXVII.

O Trabalho Mágico da Sacerdotisa é tornar-se um veículo adequado para Nutrir a Serpente. Na Iniciação do III° O.T.O. concernente as mulheres, esses mistérios devem ser inclusos no terceiro ponto: O Ordálio. Na reformulação desse ritual para Tradição Brasileira da O.T.O., o mito Sufi da transmigração da alma foi adicionado ao ritual na iniciação das mulheres. Isso possibilitou que o ritual estivesse adequado ao trabalho da sacerdotisa que envolve a Kteis-NO e ao trabalho do homem, que envolve o Falo-ON. Dessa maneira, o III° Grau passou a ocorrer separadamente em Hod e Netzach, possibilitando que ambos pudessem assumir o IV° Grau em Yesod/Malkuth a fim de estabelecer o Templo Interior. O Príncipe de Jerusalém «P.I.» acontece no Caminho da Arte, possibilitando a criação de uma ponte entre a Lua-Yesod e o Sol-Tiphereth. Dessa maneira, o Filho e a Filha podem se unir alquimicamente no cruzamento entre essas quatro esferas, onde nos posicionamos para executar o Ritual Menor do Pentagrama e Liber Resh. Uma vez que o Candidato tenha se estabelecido no Caminho da Arte «P.I.», está preparado para assumir o V° Grau em Tiphereth e aí cada homem e cada mulher é uma estrela.[6]

Amor é a lei, amor sob vontade.

Da Cripta Oculta de Nefertari,

Frater ON120

Bibliografia.

[1] Liber CLVI, 1-6.

[2] Aleister Crowley, Liber Aleph, Capítulos 173 e 174.

[3] Aleister Crowley, Liber Aleph, Capítulo 82.

[4] Ordo Templi Orientis – Tradição Brasileira: Motta XI° – Aster IX°. Fundada por Euclydes Lacerda de Almeida e Tarcisio Oliveira Araújo. Durante minha participação nessa Ordem, apenas uma Loja se encontrava em operação na cidade de Juiz de Fora: O Templo do Sol. Ela também servia aos encontros da O.C.T., Ordem dos Cavaleiros de Thelema, fundada por estes dois iniciados. A O.T.O. – Tradição Brasileira operava com um sistema de «Lojas Livres», quer dizer, cada Loja da Ordem tinha total liberdade para definir e escrever seus próprios rituais de iniciação.

[5] Isya Joseph, Devil Worship: The Sacred Books and Traditions of the Yezidiz, 1919. Reimpressão de 2007, Nu Vision Publications.

[6] Liber AL, I:3.

~ por Rosemaat Abiff em 04/03/2016.

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