O nazi-fascismo nas páginas do Diário Popular: Pelotas, 1923-1939.

Sem a ajuda e colaboração de muitas pessoas e instituições, essa dissertação não teria sido possível. Neste momento, torno público meu sinceros agradecimentos ao prof. Aristeu Lopes, que me acolheu como seu orientando no programa e soube, pacientemente, conviver com minhas ausências e particularidades; aos colegas de mestrado, pela camaradagem e amizade que tornaram as disciplinas e os encontros ambientes de intenso aprendizado; aos colegas Marília Silveira, Felipe Krüger, Geza Guedes e Rodrigo Pinnow, especialmente, que por afinidades e distanciamento ajudaram a construir e a renovar motivações; às professoras Márcia Espig e Lorena Gill, por qualificarem o texto na primeira avaliação e por se colocarem a disposição para a avaliação final – suas críticas e sugestões contribuíram significativamente para a definição de um campo teórico mais adequado e para a consistência do recorte cronológico; às professoras Denise Bussoletti, Clarice Speranza e Rejane Jardim, pelas sugestões em diferentes momentos, que facilitaram algumas dúvidas pontuais, e em especial à professora Imgard Grützmann, que como orientadora inicial sugeriu parte da bibliografia que utilizei e a quem devo a motivação de escrever uma pequena parte da história do Partido Nazista em Pelotas; à Biblioteca Pública Pelotense e seus funcionários, cordiais e prestativos; ao Programa de Pós-Graduação em História e a seu corpo técnico e docente, especialmente a Ândria Pereira; à professora Renata Dietrich, pela eficácia do treinamento em alemão; aos amigos Vívian Zamboni, Daniel Sias, Ná- dia Coelho, Larissa Dogenski, Alexandro Martins, Márcio Gill, João Pinto, Endaira Santos, Daiane Castro, Wagner Rodrigues, Patrícia Mendonça, Simone Rodrigues, Gustavo Andrade, Luciana Vasconcelos e André Barbachan, pelas contribuições “aleatórias”, pela convivência nos ambientes de trabalho e o suporte sempre necessário; aos meus pais e irmãos, que sempre “seguraram as pontas” nos momentos de fadiga e me auxiliaram a superar as pequenas frustrações do caminho, e à Rosimeri Zamboni, sem a qual nada disto teria sido possível, pelo seu amor, compreensão e amizade, que iluminaram os dias de escrita deste tema pesado e sombrio, que é o nazismo. Dedico à ela o meu maior agradecimento.

RESUMO:

A presente dissertação se propõe analisar como o Diário Popular, de Pelotas, entre 1923 e 1939, comportou-se em relação às ideologias fascistas, especialmente em relação ao nazismo alemão. Apoiada em pesquisa documental e na historiografia sobre o tema, buscou-se traçar a trajetória do periódico durante o recorte cronológico estabelecido em relação a seus posicionamentos ideológicos. O Diário Popular foi fundado no último quartel do século XIX, ligado ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), e constituiu-se representante das classes conservadoras da cidade, sendo órgão oficial da municipalidade até os anos 1930. Após a Revolução de 1930, passou por um longo período de reformulação, desvinculando-se do PRR e opondo-se ao governo varguista. Por fim, após a implantação do Estado Novo, buscou conciliar-se com o regime e aliou-se a concepção estado-novista. O jornal tomou contato com o ideário fascista nos anos 1920, noticiando-o através de sua seção internacional. Posteriormente, a medida que o noticiário deu ênfase a vitória eleitoral de Adolf Hitler e a Coordenação da Alemanha, o nazismo tornou-se tema de capa. Inicialmente o jornal manteve relações cordiais com os representantes fascistas na cidade, especialmente com o Partido Nacional Fascista italiano e, posteriormente, também com a Seção do Partido Nazista. Contudo, após a implantação do Estado Novo, firmou o distanciamento iniciado já em meados de 1936.

(…)

Com relação a bibliografias brasileiras sobre o nazismo e o Partido Nazista no Brasil, existem algumas produções, tanto das décadas de 1980 como 1990, que seriam dignas de uso, como as obras de René Gertz (1987), Sérgio Sant’anna (1991), Luiz Edmundo Moraes (1996) e Marionilde Brepohl (1998). Contudo, já nesta primeira década do século vinte, Ana Maria Dietrich, resolvida a dar as linhas gerais de uma história do nazismo no Brasil, trouxe-nos dois novos trabalhos que dariam novos rumos para a pesquisa sobre o tema. Através da dissertação de mestrado, publicada como livro em 200745 e de sua tese de doutoramento, apresentadas a Universidade de São Paulo, constituiu-se a vanguarda da pesquisa sobre a atuação do Partido Nazista no Brasil. A importância de suas descobertas para o campo é expressiva porque permitiu dirimir dúvidas que atravessaram vários anos sem uma resposta que se mostrasse suficiente para tanto. A principal delas era a da existência ou não de uma seção genuína do Partido Nazista no Brasil. Mesmo que um esboço desta resposta já estivesse desde a década de 1980 desenhada, o acesso privilegiado que Dietrich teve a arquivos do Departamento de Ordem Pública e Social do Estado de São Paulo (DOPS-SP), assim como a consulta a diferentes arquivos na Alemanha, acrescentou que o Partido Nazista brasileiro foi a maior seção estrangeira do Partido Nazista alemão, com aproximadamente 2900 membros46. O número não parece ser expressivo, à primeira vista, se considerarmos as proporções do Brasil, mas justamente por isso, revela a complexidade das relações estabelecidas na conjuntura polí- tica e social dos anos 1930 e especialmente após o Estado Novo, de 1937, marcados pela repressão aos movimentos políticos “estrangeiros”. Em um cenário em que as populações imigrantes e seus descendentes, após mais de 80 anos de colonização alemã especialmente no sul do país, foram tidas como “um perigo”, “o perigo alemão”, o pequeno número de adeptos formais do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães parece ser capaz de dizer que a ação deste em território brasileiro não teve apenas a antipatia do governo, mas também dos “alemães” aqui residentes. Dietrich, por sua vez, consegue mapear as atividades do Partido na maioria dos estados em que esteve efetivamente organizado, fornecendo dados preciosos para o futuro das pesquisas que tomem a ação partidária nazista no Brasil e na América Latina como tema. A autora afirma que o nazismo no Brasil não era o mesmo nazismo na Alemanha, que seus elementos fundamentais ligados a ideologia de lá sofreram adequações (necessárias) para que tivesse êxito em existir e atrair adeptos aqui. Por mais que o mesmo tema tenha sido trabalhado nas décadas anteriores, destacadamente por René Gertz em seus dois livros dedicados ao fascismo no sul do país, Dietrich teve o mérito de estabelecer uma base explicativa teórica passível de adesão, qual seja o “nazismo tropical”. Não busco limitar as referências na área a sua produção, contudo nos propósitos que assumo, Ana Maria Dietrich teve fundamental importância. Já René Gertz tornou-se leitura necessária quando pensamos o desenvolvimento do nazismo no sul do país, em suas relações com as “colônias”, com os “alemães” e com a sociedade “não alemã”

Em “O fascismo no sul do Brasil”47, de 1987, o historiador aborda o tema em diversas perspectivas, desde a imigração alemã para o sul à partir da metade do século XIX, as relações comerciais dos colonos com os centros urbanos, a cultura alemã nas regiões coloniais, o desenvolvimento do Deutschtum (germanismo), as complexas relações de trocas culturais, o desenvolvimento do fascismo nas áreas urbanas e do interior, à atuação dos membros do partido (Parteigenossen) e suas relações conflitantes com os Deutschbrasilianer (alemães nascidos no Brasil). Apoiado em documentação diversa, desde fontes jornalísticas a documentais brasileiras e alemãs, seu esforço permanece até nossos dias como o mais significativo na área. Em “O perigo alemão”48, Gertz deixa claro as linhas interpretativas deste “problema” semelhante ao “problema alemão” da década de 1920 para a Europa: nos estudos sociais, havia nos anos 1920 o mito construído em torno dos alemães imigrados, herdado da Primeira Guerra, intensificado com o regime de Vargas e conduzido à ruptura com o Estado Novo. Os paralelos entre ambos estão no desconforto constante que as populações passam a apresentar em relação à Alemanha e, no caso do Rio Grande do Sul, com as colônias alemãs. O “perigo alemão”, como conclui, foi construído de maneira fantasiosa em torno de grupos que jamais demonstraram homogeneidade, que possuíam divergências ideológicas, de classe e de credo e que nunca constituíram um perigo verdadeiro. Analisando sob enfoques étnico, político, cultural e econômico, interpreta o “perigo alemão” também sob as perspectivas da ideologia estado novista, em suas prerrogativas de criação do inimigo comum (o inimigo único) para o estabelecimento e consolidação do regime. Apoiado em Lorena Gill49 e José Fachel50, busquei compreender, além da historiografia regional sobre o tema, as bases em que a pesquisa estava estabelecida em relação a Pelotas e até onde os avanços haviam sido feitos, no que, ambos, são capazes de orientar os pesquisadores atuais. Lorena Gill dedica sua atenção aos “judeus da prestação” em Pelotas, desde suas concepções identitárias até o estabelecimento da “questão judaica” no cenário político das décadas de 1920, 1930 e 1940. Sua contribuição fundamental à minha proposta foi elucidar como os judeus em Pelotas sentiram-se durante o cenário mais notá- vel de atividade do nazismo na cidade e durante as perseguições contra alemães e seus descendentes após a declaração de guerra brasileira aos países do Eixo. Por outro lado, Fachel, ao dedicar-se a este cenário verificado em 1942, consegue tecer as premissas políticas da conjuntura local e regional que levaram à queima de igrejas e destruição de casas comerciais alemãs em agosto daquele ano. O livro está repleto de dados orientadores sobre os comportamentos condicionados tanto pela ação coercitiva do Estado Novo quanto pela comoção criada com o estado de guerra, culminando com a ruptura….

Para ler o texto completo baixe o PDF:

2014-rosendo-caetano

Meus parabéns a Rosendo da Rosa Caetano pelo excelente estudo histórico.

~ por Rosemaat Abiff em 12/07/2017.

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