Um ensaio sobre o ensaio sobre a cegueira

Que Saramago me entenda, mas ao ser convidado a escrever no Pelotas Occulta, um dos primeiros pensamentos que tive foi escrever algumas divagações sobre nossa atualidade e as associações que pude fazer sobre sua magnífica obra, “O Ensaio Sobre a Cegueira”, de 1995

Li esse livro há uns 15 anos, sendo que foi brilhantemente adaptado para o cinema por Fernando Meireles em 2008. Resumindo muito a estória, uma epidemia de cegueira inexplicável assola uma cidade, cujos habitantes passam a enxergar somente um branco total e, somente após alguns eventos e adoção de comportamentos, as pessoas voltam a enxergar.

Diante de muitas interpretações possíveis, entendi da seguinte forma: viver se tornou algo tão ‘automático’ que nossos sentimentos e atitudes se tornaram banais. Nossas dores e prazeres, nossos afetos e desafetos se tornaram tão sem importância que deixamos de ‘olhar’ para nós mesmos e para os outros, ou, por outro lado, só percebemos nossas dores e mazelas de tal forma que a miséria alheia é simplesmente ignorada. Perdemos a solidariedade.

Não é de se estranhar que recentemente foi eleito no Brasil um presidente que odeia a diversidade cultural, social, racial, de gênero e orientação sexual. Parece-me que uma parcela considerável dos eleitores brasileiros “enxergou mas não viu” tamanha ignobilidade nesse ‘falso messias’ cujas ideias são claramente de extrema direita, sendo que uma parcela mínima da população de nosso país conseguiria ‘sobreviver’ sem problemas com políticas que em nada contribuem para o desenvolvimento social e somente beneficiariam a burguesia encastelada. Os brasileiros perderam, definitivamente, perante a comunidade internacional, a fama de um país cordial e acolhedor, pois o ódio a um partido no qual não há santos, visto que em nenhum há, se sobrepôs à percepção da miséria alheia.

O velho adágio nos diz que o pior cego é aquele que não quer ver e, segundo os evangelhos, Yehoschuah Bar Yossef, conhecido como Jesus, teria dito que notamos o cisco no olho do próximo, mas ignoramos a trave em nossos olhos. O óbvio ulula, berra em nossos ouvidos – que deveriam substituir nossos olhos em sua falta, mas o importante foi retirar do comando um grupo rival. Antes que o(a) prezado(a) leitor assuma que o post tem como foco a política, parafraseio Umberto Eco em “O pêndulo de Foulcaut”: Tudo tem a ver com tudo. Entendo que muitas vezes seja complicado relacionar política e espiritualidade ou misticismo, mas podemos fazer um esforço.

Quando perdemos a solidariedade, a capacidade de nos entendermos como uma individualidade que compõe uma totalidade, somos tanto vítimas quanto algozes. Solidariedade não é doar bens de consumo nas catástrofes, isso é apenas filantropia, apenas um dos traços da solidariedade. Quando perdemos a capacidade de respeitar ao próximo, quando não nos importamos com a violência impingida ao próximo, em sua individualidade, pelo motivo que for, estamos cegos para o fato de que, independente das diferenças, ele ou ela é tão humano(a) quanto nós. Deixamos de ver no outro a humanidade que percebemos em nós mesmos.

Não me estranhará quando a barbárie, assim como na obra de Saramago, tomar conta da sociedade e somente voltarmos a enxergar quando olharmos para dentro de nós e percebemos que o outro é tão humano quanto nós, como os mesmos direitos e deveres. Talvez somente quando o caos, com todas as cores fundidas, formando uma cegueira branca, puder ser ordenada, passando pelo prisma da razão e da caridade, poderemos ver todas as cores e nos maravilharmos com a beleza da diversidade humana.

~ por Nabithew Rosencreutz em 28/04/2019.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
Bruxo de Lua

"Ambularet per pænumbra."

Bnei Baruch Monterrey

Auténtica Sabiduría de la Kabbalah

symbolreader

Sharing My Love of Symbols

Sinagoga Ohel Jacob e Comunidade Hehaver

Site oficial sinagoga Ohel Jacob. Judaísmo Liberal em Lisboa. Única sinagoga askenazi em Portugal, 1934. Visitas guiadas, shabat e celebração de festividades.

Cabala sem Fronteiras

by Vinícius Oliveira

Selo 144

A VERDADE UNILATERAL

%d blogueiros gostam disto: