Trabalhadores, Maçonaria e Espiritismo em Pelotas: 1877-1937.

Por Marcelo Freitas Gil

O presente trabalho trata da relação existente entre Maçonaria, Espiritismo e trabalhadores urbanos em Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, no período que vai de 1877, quando a doutrina espírita chegou à cidade através de dois profissionais liberais espanhóis, a 1937, quando, em função da instalação do Estado Novo no país, regime ditatorial implantado pelo presidente Getúlio Vargas, tanto o Espiritismo quanto a Maçonaria passaram a sofrer restrições em Pelotas por parte do regime então vigente, por se constituírem em núcleos suspeitos de abrigar reuniões de comunistas e opositores ao sistema implantado por Vargas. Com base em uma revisão bibliográfica, analisou-se essa relação, buscando-se compreender o papel desempenhado tanto pela Maçonaria, quanto pelo Espiritismo junto aos trabalhadores urbanos desse período histórico.

INTRODUÇÃO

Em princípio pode parecer estranho que se associe a Maçonaria e o Espiritismo ao
contexto vivido pelos trabalhadores urbanos na cidade Pelotas 1 no período que vai de 1877, ano em que o Espiritismo chegou à cidade, a 1937, data em que teve início a ditadura civil de Getúlio Vargas no Brasil. No entanto, essas duas instituições, que em Pelotas tiveram e têm grande importância e presença social profundamente marcante no desenvolvimento histórico da cidade, influenciaram, senão o movimento operário pelotense, ao menos alguns de seus mais importantes líderes, estando presentes no seu cotidiano e na formação do seu pensamento social e político, bem como de muitos artesãos e profissionais liberais da cidade no período em estudo.
É importante que se diga que nesta categoria de trabalhadores urbanos não incluo apenas operários, mas também profissionais liberais e pequenos artesãos que viviam de seu trabalho no contexto social urbano entre os anos de 1877 e 1937.

A Maçonaria, através de várias lojas espalhadas pela cidade, marcou a sua presença em
movimentos importantes no contexto nacional, como a abolição da escravidão (1888) e a
proclamação da República (1889) e em outros tantos fatos relacionados ao contexto local, como a fundação da Faculdade de Direito hoje pertencente à Universidade Federal de Pelotas e a organização do Colégio Pelotense, atualmente gerenciado pelo poder público municipal.
Quanto a Doutrina Espírita, hoje presente em Pelotas através de um movimento forte,
organizado em torno da Liga Espírita Pelotense, sua penetração na sociedade local se fez a partir do trabalho de divulgação de dois profissionais liberais espanhóis, que para a cidade imigram em 1877, trazendo com eles os princípios doutrinários espíritas que estavam se transformando em verdadeira febre entre os europeus, nas diversas camadas sociais. A divulgação desses ideais fez da cidade a segunda no Rio Grande do Sul com maior número de pessoas que se dizem espíritas ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No presente estudo considero como Espiritismo a doutrina que surgiu na França através
da codificação de mensagens atribuídas a diversos espíritos que teriam se utilizado de inúmeros médiuns espalhados por vários países. O codificador da doutrina foi o pedagogo, discípulo de Pestalozzi 2 , Hyppolite Léon Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo de Allan Kardec, pelo qual ficou mundialmente conhecido.

Allan Kardec teve a sua atenção voltada para o fenômeno das mesas girantes 3 verdadeira coqueluche em Paris entre os anos de 1853 e 1856, graças aos seus estudos sobre o magnetismo.
Em 1857, após vários meses de estudos sobre esse fenômeno, ele publicou a versão definitiva de “O Livro dos Espíritos”, onde afirma que a força inteligente que produzia o movimento das mesas era a ação dos espíritos dos mortos e apresenta os princípios básicos do Espiritismo, que são a crença em Deus, na sobrevivência da alma após a morte, na reencarnação, na pluralidade dos mundos habitados e na possibilidade de haver comunicação entre os vivos e os mortos através de indivíduos chamados de médiuns.
A influência dessa obra parece ter sido bastante significativa, a julgar pelo número de
reedições, quinze desde o seu lançamento até 1869, e influência na literatura da época 4 .
Posteriormente várias outras obras foram publicadas por Allan Kardec, completando a
codificação da Doutrina Espírita 5 .
A razão que me leva a adotar essa objetivação do que seria o Espiritismo é o rigor
metodológico, já que foi o próprio Kardec quem criou o termo “Espiritismo”, justamente para distinguir a nova doutrina do espiritualismo, termo mais genérico e que abarca a concepção espiritualista como um todo, dentro da qual o próprio Espiritismo estaria contido.
No entanto, vários outros grupos espiritualistas se utilizam das obras kardequianas em
seus estudos, principalmente no que se refere às pesquisas em torno da mediunidade, o que levou ao uso indiscriminado do termo “Espiritismo”.

Sem dúvidas, foi Allan Kardec quem melhor definiu as questões relativas à mediunidade,
o que causou certa identificação entre mediunismo e Doutrina Espírita. Hoje, em função disso, embora o Espiritismo não seja a única religião mediúnica, a lidar com o que seriam espíritos, existe uma tendência de se identificar práticas mediúnicas com Doutrina Espírita, o que explica, a meu ver, a generalização do termo “Espiritismo” e a sua utilização por outras correntes espiritualistas, como a Umbanda.
Essa generalização possibilitou a criação de termos como “Espiritismo de mesa”,
“Espiritismo de terreiro”, “Espiritismo de umbanda”, “alto e baixo Espiritismo”, que
encontramos frequentemente na literatura.
Tais expressões são, no meu ponto de vista, preconceituosas, na medida em que
pretendem estabelecer uma relação hierárquica entre essas diversas correntes religiosas. Quando falamos em ‘alto e baixo Espiritismo’, ‘Espiritismo de mesa e Espiritismo de terreiro’, estamos emitindo um juízo de valor e classificando de modo preconceituoso tais sistemas de crença.
Portanto, não vejo razão para que se continue utilizando esses termos, sendo melhor que se chame de ‘Espiritismo’ a doutrina organizada por Allan Kardec e de ‘Umbanda’ a religião desenvolvida no Brasil a partir de elementos próprios do Catolicismo, do Candomblé e do próprio Espiritismo, num processo de sincretismo, o que, aliás, em nada diminui o seu valor e importância.
Muito embora as definições ortodoxas sejam sempre muito tensas, por vezes gerando
conflitos de difícil solução, optei pelo rigor etimológico, considerando o Espiritismo como sendo a doutrina codificada na França por Allan Kardec e cujo corpo doutrinário encontra-se expresso nas chamadas obras básicas editadas pelo codificador.
Considerando que o termo “Espiritismo” é um neologismo, criado pelo próprio Allan
Kardec para designar a doutrina por ele sistematizada e que se encontra consubstanciada no que os espíritas chamam de obras básicas, vejo como equivocados os termos referidos acima. No entanto, a apropriação que tem sido feita do vocábulo demonstra que essa doutrina ganhou legitimidade no campo religioso brasileiro, na medida em que o uso da expressão é disputado por diversos grupos.

No Brasil, ao longo do século XX, a doutrina organizada por Kardec conquistou inúmeros
adeptos e o seu conteúdo doutrinário difundiu-se amplamente graças, entre outros fatores, ao trabalho de divulgação realizado pelo médium Francisco Cândido Xavier (1910-2002), que deixou mais de 400 livros editados, com mais de trinta milhões de exemplares vendidos.
Estas duas instituições, a Maçonaria e o Espiritismo, embora tenham penetrado em
Pelotas como sendo movimentos próprios das classes mais altas, acabaram por desempenhar um papel importante junto aos trabalhadores urbanos, seja pela influência direta de seus líderes e por sua presença educacional e social marcante, como aconteceu em relação à Maçonaria, seja pelos seus preceitos doutrinários voltados, ao menos em parte, para a explicação da dinâmica social, como é o caso do Espiritismo. Além disso, conforme veremos mais adiante, em diversos momentos históricos maçons e espíritas buscaram atingir os seus objetivos de forma conjunta e articulada, principalmente no que se refere ao combate da influência católica na cidade.

Maçonaria, Espiritismo e trabalhadores urbanos em Pelotas
Pelotas tem a sua origem associada à indústria do charque, que começou as atividades na região em 1780, quando José Pinto Martins, vindo da região nordeste do Brasil, instalou a primeira charqueada junto ao Arroio Pelotas.
O êxito do empreendimento acabou por incentivar a instalação de outras charqueadas na região e gradativamente a indústria saladeril se firmou no território do sul do país. Durante o século XIX o povoado formado ao redor das charqueadas acabou por se desenvolver e em 1812 recebeu a denominação de freguesia, com o nome de São Francisco de Paula. Logo a seguir, em 1832, a freguesia emancipou-se de Rio Grande, a cuja Câmara estava subordinada, adquirindo o status de vila.
A posição estratégica da vila, junto ao canal São Gonçalo, que dá acesso a duas lagoas,
numa região protegida, por ser um pouco afastada do litoral, conjugada ao pioneirismo na produção de charque, permitiu o desenvolvimento de uma indústria poderosa, geradora de grandes somas de capitais e de apreciável concentração de renda na região, com a consequente formação de uma camada social privilegiada.
Apesar da crise na produção saladeril, que acabou por provocar a Revolução Farroupilha
(1835-1845), onde a Província do Rio Grande do Sul de opôs ao restante do Brasil, em Pelotas de 1835:

Localizavam-se mais de 300 negociantes, graças ao grande número de charqueadas
situadas nos arredores. A vila se destacava pelo ativo comércio, luxo de suas casas, ruas
bem construídas e intensa vida cultural. 6

Contudo, segundo o historiador Mário Osório Magalhães 7 , com a Revolução Farroupilha e as disputas políticas nas quais a província foi mergulhada, Pelotas sofreu uma interrupção em seu crescimento a partir de 1835. Esse hiato econômico, que também acabou por afetar o desenvolvimento cultural da localidade, durou aproximadamente até o final da Revolução, quando o crescimento foi retomado aos poucos.

A partir de 1843, com a chegada dos primeiros imigrantes franceses, vindos da região do
Rio da Prata, a vida cultural da cidade tomou novo impulso. Esses imigrantes fundaram, por exemplo, a primeira loja maçônica de Pelotas, conforme veremos mais adiante.
Assim, a década de 1840 foi marcada pelo início da construção do Mercado Público e pela
fundação da Santa Casa de Misericórdia, num claro aceno no sentido de que o progresso havia sido realmente retomado na cidade. Por sua vez, o desenvolvimento dos negócios do charque passou a permitir que os estancieiros, enriquecidos com a pecuária, pudessem residir na zona urbana, onde tinham a oportunidade de exercer atividades políticas com maior êxito e vivenciar outras experiências próprias da zona urbana, como as ligadas à cultura, por exemplo. A acumulação de capital se intensificou e com ela as operações de crédito e as transações bancárias.
Como consequência, a vida cultural também pôde se desenvolver com maior pujança.
Ainda de acordo com Magalhães 8 , esses fatores, combinados ao êxito econômico dos
negócios do charque e a uma certa diversificação na economia local, fizeram com que Pelotas tivesse a sua Belle Époque entre os anos de 1860 e 1890, período em que se verificou um grande apogeu econômico, social e cultural.
O Conde d’Eu 9 , marido da princesa Isabel, em visita a Pelotas em 1865, assim descreve a
cidade:

Depois de ter percorrido por duas vezes em toda a sua largura a Província do Rio Grande
do Sul, depois de ter estado em suas pretensas vilas e cidades, Pelotas aparece aos olhos
cansados do viajante como uma bela e próspera cidade. As suas ruas largas e bem
alinhadas, as carruagens que as percorrem (fenômeno único na Província), sobretudo os
seus edifícios, quase todos de mais de um andar, com as suas elegantes fachadas, dão ideia de uma população opulenta. De fato, é Pelotas a cidade predileta do que eu chamarei a aristocracia rio-grandense, se é que se pode empregar o termo aristocracia falando-se de um país do novo continente. Aqui é que o estancieiro, o gaúcho cansado de criar bois e matar cavalos no interior da campanha, vem gozar as onças e os patacões que ajuntou em tal mister.

Magalhães 10 refere que a Pelotas da década de 1870 era uma cidade com pouco mais de
12 mil habitantes, marcada por inovações não apenas físicas, mas também intelectuais. Seu principal farmacêutico era formado em Londres, o engenheiro responsável pela construção de um novo aqueduto era alemão e um dos artistas que mais chamava a atenção da comunidade na época era um jovem inglês.
Em relação à infraestrutura, a década de 1870 também foi marcada por inovações. Três
chafarizes vieram da França, juntamente com a caixa-d’água que foi instalada na Praça Piratinino de Almeida, o que possibilitou a implantação do serviço de água, que começou a funcionar logo a seguir. As obras para o funcionamento do gás encanado foram concluídas em 1875, como também o calçamento das ruas do centro. Entre os anos de 1868 e 1875 foi feita a desobstrução do canal São Gonçalo, permitindo o acesso ao porto e a consequente exportação de charque por meio de navios de grande porte diretamente para outros países, como os EUA.

No início da década de 1880:

Não era só para os pelotenses que Pelotas se afigurava a “Princesa dos campos do Sul”
daqueles versos originais. Nesse período já chamava a atenção da Província e para a
Província, identificada que estava, de um modo especial, com as artes e com as letras,
numa espécie de desdobramento do seu apogeu econômico-urbano. Mas não menos
famosa pelos seus barões, as suas damas, os seus doces, as suas festas, os seus sobrados,
os seus monumentos públicos, as suas lojas. 11

Dessa forma, pode-se afirmar que relativamente cedo Pelotas configurou-se como uma
localidade em que os valores sociais tinham características eminentemente urbanas, relacionadas com as artes, as letras, as ciências e os negócios comerciais e financeiros.
As transações comerciais feitas a partir do porto colocaram a cidade em contato com os
grandes centros comerciais e culturais da América e da Europa:

O que ocorria é que os navios que levavam o charque para a Bahia e para o Rio de
Janeiro, para a Europa e para os Estados Unidos, não haveriam de voltar vazios. Pelo
contrário: os charqueadores mantinham agentes comerciais nos diferentes portos, de
torna-viagem esses navios vinham carregados de mantimentos, móveis, louças, quadros,
modas, livros, figurinos e magazines dos grandes centros. Proporcionavam um contato
permanente com as civilizações do século XIX, além daquele que era feito por iniciativa
dessa própria civilização, quando as companhias líricas da Corte e de outras capitais do
mundo chegavam a essa cidade quase que em primeira mão, para depois excursionar pela Província. (Rio Grande era a porta de entrada; Porto Alegre o terceiro centro a ser
visitado; na volta as companhias costumavam reapresentar-se em Pelotas). Isso sem falar, é claro, nas viagens empreendidas pelos próprios industrialistas, ou nas notícias e
encomendas que mandavam os seus filhos, aqueles que estudavam fora, sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro, Lisboa e Coimbra – mas também, como seu viu, na França, na
Inglaterra e nos Estados Unidos. 12

Contudo, outros autores chamam a atenção para o contraste que existia entre essa
opulência e a situação dos escravos, trabalhadores urbanos, imigrantes pobres e moradores dos bairros mais afastados do centro da cidade no mesmo período histórico.
Lorena Gill 13 descreve a situação de insalubridade desses bairros e a precariedade dos
serviços urbanos nesses locais, afetados por constantes epidemias. Segundo ela, a situação das habitações populares, concentradas em vilas e cortiços e a falta de tratamento para os dejetos urbanos e para a água consumida por essa população, eram causas frequentes da proliferação de diversas doenças, como a tuberculose.
Marcos Hallal dos Anjos 14 analisa a presença estrangeira na cidade no último quartel do
século XIX e a situação social, principalmente dos trabalhadores imigrantes, frente ao processo de modernização urbana pelo qual Pelotas passou naquele período, destacando a influência desses imigrantes na economia e na cultura pelotense, bem como as suas condições de vida, muitas vezes penosas diante da opulência vivenciada pela elite local.
Beatriz Loner 15 ressalta que o espaço reservado na aristocrática sociedade pelotense para àqueles que trabalhavam como escravos, operários ou pequenos artesãos era muito reduzido.
Segundo ela, esses grupos tendiam a manter-se numa atitude de “respeito e deferência frente à elite”, sendo “influenciados por sua cultura e seus valores, o que, em alguns momentos, podia inibir uma atitude ou um comportamento mais classista”.
Portanto, esse cenário social marcado pelo contraste entre ricos e pobres e por uma
abastada vida econômica e cultural era favorável para a penetração do Espiritismo, uma novidade surgida na França em 1857 e que já atraía a atenção de intelectuais, tanto em Salvador quanto no Rio de Janeiro. 16
O mesmo ocorreu em relação à Maçonaria. Pode-se dizer que a colonização tardia do Rio
Grande do Sul com relação ao restante do Brasil implicou num estabelecimento igualmente tardio da Igreja Católica em terras gaúchas, o que explica a difusão de um pensamento anticlerical nesta região, especialmente na primeira metade do século XIX, quando a elite local passa a sofrer forte influencia do pensamento liberal, presente e divulgado através da Maçonaria, que em função da sua organização e disciplina, conquistou um número relativamente grande de membros no seio desta mesma elite regional. 17
Em Pelotas a presença oficial da Maçonaria se faz notar desde 1841, com a criação da
Loja Maçônica Protetora da Orfandade. Por outro lado, o bispado da cidade só foi instalado em 1911. Até então a presença da Igreja Católica em Pelotas era precária quando comparada a outras cidades importantes do interior do Brasil, particularmente no que diz respeito à região central do país. A sua presença mais significativa antes da fundação do bispado era através do Colégio São Luiz Gonzaga, criado pelos jesuítas em 1894 e dedicado à educação de meninos.
Já em 1847 foi fundada a “Loja Maçônica Comércio e Indústria”, a segunda da cidade. As
duas lojas então existentes em Pelotas tiveram os seus templos construídos ainda antes do final da primeira metade do século XIX, o que demonstra a articulação dos maçons pelotenses.
Contudo, em 1853 as duas lojas se fundiram, dando origem à “Loja Maçônica União e
Concórdia”, que passou a funcionar no antigo prédio da “Loja Comércio e Indústria”, enquanto o prédio da “Loja Protetora da Orfandade” foi vendido para o pagamento de dívidas Com a fusão das duas lojas os maçons pelotenses puderam planejar a criação de uma obra assistencial permanente na cidade, o que foi conseguido em 7 de setembro de 1855, com a fundação do “Asilo de Órfãos Desvalidas Nossa Senhora da Conceição”. A concretização desse ideal marca de forma inequívoca a presença e a importância da Maçonaria no cenário social pelotense no início da segunda metade do século XIX.
Em 25 de agosto de 1855 foi fundada a “Loja Honra e Humanidade”, que teve entre os
seus diretores homens proeminentes na política do Rio Grande do Sul, como Domingos José de Almeida. Quase todos os membros dessa nova loja faziam parte da “Loja União e Concórdia”, que desde então deixou de existir. O prédio edificado para abrigar o templo da “Loja Honra e Humanidade” ainda existe no centro de Pelotas, à Rua Andrades Neves, e atualmente abriga a “Loja Maçônica Fraternidade”.
Com a vinda de muitos imigrantes para a cidade a partir do final do século XIX, muitos
deles ligados a profissões liberais e ao artesanato, novas lojas maçônicas surgiram, a fim de abrigar os adeptos da irmandade que se encontravam entre esses imigrantes, o que se traduziu em uma maior abertura da entidade a esses segmentos da sociedade. Exemplos disso são a criação da “Loja de Artistas de Pelotas” em 1871, posteriormente transformada em “Loja Rio Branco” e a criação de uma loja de italianos em 1901, sendo vários deles artesãos e alguns até mesmo socialistas.
O pensamento maçom, fortemente marcado por valores como o anticlericalismo, o
liberalismo e o cientificismo, levou a instituição a uma disputa com a Igreja Católica no mesmo período histórico, principalmente em relação à questão educacional, quando então os católicos dominavam o sistema de ensino. Essa disputa estendeu-se por todo o período do Segundo Reinado (1840-1889) e nos primeiros anos da República, levando os maçons a organizarem diversas instituições educacionais, nas quais era estabelecido um ensino laico, em oposição às escolas religiosas mantidas pela Igreja Católica.
Em Pelotas essa tensão encontrou seus pontos de culminância com a criação do Ginásio
Pelotense em 1903 e das Faculdades de Direito, Farmácia e Odontologia e Agrimensura na década seguinte.
No Ginásio Pelotense os maçons passaram a oferecer um ensino laico, baseado no
racionalismo, no cientificismo e no método experimental, voltado para a vida prática do aluno, em oposição aos métodos católicos de ensino, baseados no desenvolvimento da moral de natureza religiosa, presentes em Pelotas no Colégio Gonzaga, então já tradicional instituição de ensino na cidade. Para tanto, implantaram um sistema de ensino que em 1915 já admitia a matrícula de meninos e meninas, contrariando o modelo de educação masculina, na época adotado pelo catolicismo.

Imediatamente os filhos de famílias ligadas à Maçonaria em toda a região de Pelotas
passaram a buscar matrícula na escola. Eram principalmente famílias pertencentes à classe média, ao meio industrial emergente, e a uma parcela da intelectualidade da cidade, então ligada ao Espiritismo, religião que, importada da França, já havia penetrado em Pelotas durante o último quartel do século XIX, fazendo inúmeros adeptos na cidade. Através da escola os maçons também pretendiam atuar junto aos filhos de muitos trabalhadores urbanos, minimizando a influência católica nas famílias pelotenses.
Certos elementos doutrinários presentes no Espiritismo, como o ideal cientificista e
racionalista e a sua estrutura desprovida de clero, aproximaram-no da Maçonaria e contribuíram decisivamente para que essa doutrina tivesse ampla aceitação entre os maçons pelotenses.
Um número considerável de espíritas do passado foi maçom em Pelotas, alguns de grande prestígio na cidade. Através da leitura do jornal maçônico pelotense “O Templário” é possível perceber que durante a década de 1920 a Maçonaria demonstrou uma forte simpatia pelo Espiritismo na cidade, com o assunto sendo reiteradamente tratado pelo jornal.
Durante os anos de 1920 “O Templário” chegou mesmo a ter uma seção dedicada ao
Espiritismo, em que os princípios filosóficos defendidos pela Doutrina Espírita eram realçados como sendo fruto de um sistema racional de ideias.
Vários dirigentes espíritas de Pelotas em décadas passadas eram maçons, alguns com
atuação significativa também dentro na Maçonaria. É o caso de Honorino Francisco Lopes, presidente da Liga Espírita Pelotense (LEP) de 1949 a 1950 e que voltou à presidência da entidade de 1956 a 1957. Cognominado de “pai da tolerância”, Honorino Lopes foi também várias vezes presidente da hoje centenária Sociedade União e Instrução Espírita e venerável mestre da “Loja Maçônica Fraternidade” em três gestões.
Outro nome de destaque nesse sentido é o do advogado maçom Djalma Paulino de
Mattos, segundo presidente da LEP, um dos fundadores do Sanatório Espírita de Pelotas e várias vezes presidente do Centro Espírita Jesus, um dos centros espíritas mais antigos da cidade, fundado na década de 1920. Djalma também foi importante conferencista local e articulista de vários jornais espíritas do Brasil.
De acordo com os apontamentos de Alberto Coelho da Cunha 18 , cronista pelotense do
início do século XX, foi Djalma de Mattos quem proferiu a palestra comemorativa à inauguração da sede própria do Centro Espírita Jesus, solenidade que contou com a presença de uma pequena multidão. Sua atuação na Maçonaria foi igualmente destacada, tendo ele ainda participado da fundação do Centro Espírita Nazareno, do qual foi presidente. Essa sociedade espírita existiu durante a década de 1920 e era formada, quase que exclusivamente, por maçons, funcionando em um prédio alugado, ao lado da sede da “Loja Maçônica Fraternidade”.

Ainda no campo educacional, graças à reforma implantada em 1911 pelo ministro
Rivadávia Correa, foi possível aos maçons pelotenses criarem três cursos superiores ligados ao Ginásio Pelotense naquela década. Ocorre que a referida reforma educacional, inspirada em ideais positivistas, concedia ampla autonomia aos estabelecimentos de ensino para, inclusive, criarem cursos superiores. Aproveitando-se disso, os dirigentes do Ginásio Pelotense criaram a Faculdade de Farmácia e Odontologia em 1911, a Escola de Agrimensura e a Faculdade de Direito em 1912.
Em 1915 a Reforma Carlos Maximiliano reestruturou o sistema brasileiro de ensino e
restabeleceu a influência do governo federal sobre a educação, determinando que a partir daquela data o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, passaria novamente a ser considerado estabelecimento modelo. As escolas secundárias em todo o país deveriam buscar a equiparação ao Colégio Pedro II, o que implicava, necessariamente, na estatização desses estabelecimentos de ensino, já que a lei vetava a equiparação de escolas particulares. Em decorrência disso o Ginásio Pelotense foi municipalizado em 1916. Na esteira dessas reformas as faculdades de Odontologia e Direito, juntamente com outros cursos, acabaram por ser absorvidas pela Universidade Federal de Pelotas.
Por outro lado, muito embora a Maçonaria não tivesse um conteúdo doutrinário e mesmo uma política voltada para a classe operária, o fato é que muitos dos líderes do movimento operário em Pelotas no período histórico que está sendo abordado eram maçons, o que se refletiu em uma certa influência nesse meio e numa consequente penetração da instituição entre o proletariado.

Procurando estender a sua influência junto aos operários, na busca de minimizar a ação
católica junto a este segmento social, já no período final do Império a Maçonaria pelotense teve destacada influencia e participação na organização de entidades com esse fim, como a criação do Centro Agrícola Industrial e do Congresso Operário em Pelotas, ocasiões em que os maçons buscaram articular-se com os espíritas na tentativa de fortalecerem a sua ação anticatólica.
A presença da Maçonaria em movimentos dessa natureza, bem como no campo
educacional, se explica em razão do esforço depreendido no sentido de influenciar a formação dos cidadãos, na perspectiva de libertá-los em relação aos valores católicos, considerados como sendo dogmáticos e simbolizadores de um atraso intelectual.
Em relação ao movimento operário, nota-se uma preocupação disciplinadora nas ações da Maçonaria voltadas para este segmento social, como, por exemplo, se vê claramente no texto a seguir, presente no Boletim no. 1 do Grande Oriente do Rio Grande do Sul, de março de 1904, em que estão sendo analisadas as prioridades de ação da entidade apontadas pelo desembargador Antunes Ribas, um dos principais líderes maçônicos no Estado do Rio Grande do Sul naquele momento:

O operariado também mereceu-lhe amorosa atenção. Viu como, na falta de mestres do
socialismo racional, o operariado, acenado pelos falsos propugnadores do bem-estar dos
proletários, estava sujeito a ser vítima do anarquismo, viu também o trabalho sorrateiro
dos jesuítas, junto da família do operário, a roubar-lhe a consciência dos filhos 19 .

Antunes Ribas procurou imprimir na Maçonaria uma maior abertura para elementos do
operariado, através do incentivo a criação de lojas de artistas com vistas a eliminar a influencia não apenas do catolicismo junto a esse segmento, como também dos anarquistas, por ele considerados nocivos aos interesses dos trabalhadores. Para tanto, exigia-se que tais elementos se dispusessem a permanecer livres da influência da Igreja Romana.
Em Pelotas esse esforço traduziu-se também pela atuação articulada da Maçonaria com a
Liga Operária. Em 1912 surgiu a proposta de criação conjunta de uma escola para os operários, sob a orientação dos princípios laicizantes da Ordem Maçônica e na década de 1930 as duas entidades, Maçonaria e Espiritismo estiveram novamente juntas na criação e manutenção do Comitê Pró-liberdade de Consciência. Tal comitê dispunha-se a lutar pelo ensino laico e por uma sociedade livre do dogmatismo imposto pela intransigência do catolicismo, que pretendia se fazer religião oficial do Estado brasileiro, aos moldes do Império.
Além disso, vários intelectuais maçons atuaram em meio ao operariado pelotense e
mesmo vários dos líderes desse movimento eram maçons, alguns dos quais tinham ligação com o socialismo, com o anarquismo e mesmo com o comunismo. A presença da entidade em meio aos operários e a posição que por vezes assumiu diante das questões que lhes diziam respeito pode ser percebida na seguinte notícia vinculada no jornal pelotense Diário Popular de 1927:

Maçonaria protesta contra extradição de espanhóis: O Grande Oriente realizou sessão de
protesto contra a possível extradição de três espanhóis libertários, pedida pela República
da Argentina. A assistência era composta, em sua maioria, por operários e protestou contra a extradição, resolvendo pedir ao ministro da justiça a revisão do processo e a libertação dos presos. 20

Na notícia transcrita acima fica claro não apenas o posicionamento da Maçonaria em
relação aos espanhóis libertários, como também o fato de que a assistência da assembléia era constituída por muitos operários, sem dúvida maçons, que protestavam com relação a decisão da Argentina, não deixando dúvidas sobre a presença de um bom número de trabalhadores urbanos no seio da Ordem, como também a respeito da influência da mesma em meio aos operários do período em Pelotas.

Em relação ao Espiritismo, para que se possa entender a afinidade dessa doutrina com a
Maçonaria e a sua influência sobre os operários pelotenses, é preciso compreender o contexto histórico de seu surgimento na Europa na segunda metade do século XIX e sua chegada ao Brasil.
Logo a seguir é preciso ressaltar o caráter geral do Espiritismo, enquanto doutrina que se
apresenta como ciência, filosofia e religião.
A Europa da segunda metade do século XIX era um continente modificado pela
Revolução Industrial na sua segunda fase. O aumento do número de fábricas proporcionou um grande desenvolvimento da vida urbana, fazendo aumentar o êxodo rural e o consequente crescimento das cidades. O desenvolvimento industrial, por sua vez, acarretou numa expansão do número de operários e acirrou o conflito de classes, permitindo o desenvolvimento de doutrinas sociais nascidas alguns anos antes, como o socialismo e o anarquismo.
Ao mesmo tempo, os avanços científicos e tecnológicos proporcionaram o surgimento de
novas doutrinas científicas, como o darwinismo, como uma nova maneira de compreender o desenvolvimento da espécie humana.
No campo intelectual desenvolveu-se o positivismo, preconizando o método experimental e a objetividade para a análise dos diversos fenômenos, desde os meramente físicos até os sociais.
Na esfera social, enquanto a classe operária ansiava por algo que acenasse com a
possibilidade de mudança em relação ao quadro de exploração sofrida, a burguesia buscava a manutenção do status quo.

Em matéria religiosa, o surto de cientificismo provocou um desinteresse pelas doutrinas
tradicionais, profundamente marcadas pelo misticismo, numa época em que a racionalidade e a objetividade passaram a ser endeusadas.

A Europa vivia um clima de urbanização, modernidade e de grandes transformações e
efervescência social. É neste contexto histórico que surge o Espiritismo, profundamente marcado pelas características centrais que assinalavam a segunda metade do século XIX, ou seja, as idéias de evolução, de progresso, de objetividade, de cientificidade e de transformação social.
De acordo com os preceitos formulados e apresentados por Allan Kardec em sua obra, não haveria incompatibilidade entre religião, filosofia e ciência, desde que estes três ramos do saber fossem apresentados através de uma forma articulada. Sendo assim, de acordo com ele o Espiritismo seria ao mesmo tempo ciência, filosofia e religião.
No seu aspecto científico o Espiritismo trataria da relação entre o mundo físico e o
“mundo espiritual”, tendo como objeto de estudo os fenômenos mediúnicos. Allan Kardec se esforça por determinar uma metodologia própria para a realização de tais estudos, publicando em 1862 O Livro dos Médiuns como resultado desse esforço.
Nos aspectos filosófico e religioso a Doutrina Espírita procura apresentar um conjunto de
ideias e princípios através dos quais busca formular toda uma concepção acerca do universo, do homem e da sua relação com a sociedade e com a divindade.
É justamente no seu aspecto filosófico, principalmente no que diz respeito aos princípios
que norteiam a relação do homem com a sociedade, que o Espiritismo se aproxima, de certa forma, do socialismo utópico.

o lado de uma preocupação em limitar o trabalho, condenando a exploração do fraco
pelo forte, a doutrina espírita apresenta não apenas uma preocupação de cunho social, compatível com a época de crescimento das camadas proletárias na qual a sua formação está inserida, como também advoga a noção de evolução social e histórica, preconizada pela ideia de reencarnação, segundo a qual os costumes se aprimoram no decorrer do tempo, levando a um conseqüente melhoramento social.
Esse posicionamento é interessante, especialmente se o analisarmos em consonância com o quadro de efervescência social que a Europa estava atravessando em meados do século XIX, com o crescimento das camadas proletárias. Por um lado a doutrina reencarnacionista, ao propor o renascimento das almas sob o jugo da lei do carma 21 , interpretada sob uma ótica conformista, servia aos interesses da burguesia, na medida em que estabelece a conformidade com as condições sociais adquiridas pelo nascimento, que seriam fruto de uma lei justa e soberana, devendo ser assim mantido o status quo social.
Por outro lado, certos intelectuais do mesmo período histórico, alguns de grande prestígio, como os europeus Victor Hugo 22 e Léon Denis 23 , viam na doutrina reencarnacionista ensinada pelo Espiritismo uma característica revolucionária e passaram a apostar na idéia de progressão dos espíritos e melhoria moral do ser humano como forma de revolucionar a sociedade e pôr um fim a problemas sociais como a exploração e luta de classes. Denis 24 , que também era maçom, chegou a propor que a Doutrina Espírita complementava a ideia socialista de evolução histórica, oferecendo a chave para a compreensão do processo na sua intimidade, através da noção de
progresso através da reencarnação.
Portanto, a Doutrina Espírita, que se inseriu no cenário europeu numa época tão marcada por grandes conflitos sociais, não deixa de se posicionar diante deles, abordando temas como relações de trabalho, divisão social, conflitos de classe e evolução histórica, tudo segundo a ótica reencarnacionista.
Desse modo, o Espiritismo, ao mesmo tempo em que se equilibrava em meio aos conflitos
sociais tão presentes na sociedade européia da época de sua codificação, atendendo, conforme a interpretação dada aos seus postulados, a interesses tanto da burguesia, quanto do proletariado, encontrou na efervescência social daquela época o campo fértil para se desenvolver, conquistando adeptos tanto entre burgueses como entre proletários.
Se for certo que a burguesia via nos postulados da Doutrina Espírita uma forma de
controlar o crescente descontentamento do operariado, freando os seus anseios libertários através do conformismo implícito na interpretação que faziam da idéia reencarnacionista, o proletariado, por sua vez, via nos mesmos postulados uma esperança de suavização da exploração sofrida

Segundo Lauro Enderle 25 o Espiritismo chegou a Pelotas em 1877, através da atuação de
dois profissionais liberais espanhóis que vieram residir na cidade naquele ano, um dentista de nome José Aquilera e um arquiteto, chamado Antônio Baxeras. Analisando os escritos do cronista pelotense Alberto Coelho da Cunha, o autor citado nos informa sobre a atuação da Doutrina Espírita, através de grupos organizados, ainda antes do final do século XIX em Pelotas. Tais grupos, segundo ele, acabaram por se fundir e dar origem à Sociedade União e Instrução Espírita em 1901, numa primeira tentativa de organizar um movimento espírita coeso na cidade de Pelotas, devidamente representado. Essa liderança, numa etapa posterior, passou às mãos da Liga Espírita Pelotense, fundada na década de 1940.
É digno de registro que entre os freqüentadores e fundadores de diversas sociedades
espíritas nesse período, segundo os escritos de Alberto Coelho da Cunha, apontados por
Enderle 26 , um bom número de pessoas pertencia às classes populares, além, é claro, de ilustres pelotenses da época, muitos deles maçons.
Veja-se que já em 1927 o crescimento do Espiritismo na cidade de Pelotas, principalmente entre populares, chamava a atenção, como o demonstra este trecho de um dos escritos de Alberto Coelho da Cunha que, utilizando-se dos resultados do censo de 1911, afirma que, […] dessa data para cá, pelo que se pode observar da concorrência aos centros em que se reza o ‘Pai Nosso’ e se aceita as incorporações nos médiuns dos espíritos desencarnados, se conclui que entre as massas populares, essa doutrina de amor, paz e piedade, talvez brecha abrindo no ateísmo, vai fazendo carreira vitoriosa. 27
Osório 28 cita um bom número de sociedades espíritas já na virada do século XIX para o
século XX em Pelotas e Gill 29 chama a atenção para a importância do Espiritismo no contexto dos tratamentos alternativos de saúde no mesmo período na cidade, principalmente em relação a doenças crônicas, para as quais a medicina convencional, na época, não tinha tratamentos satisfatórios.
Beatriz Loner 30 aponta a estrutura hierárquica menos rígida da religião espírita,
juntamente com a falta de uma estrutura clerical, como elementos responsáveis pela difusão dessa doutrina entre as camadas populares em Pelotas. Além disso, segundo ela, a concepção de evolução das almas, presente no Espiritismo através da doutrina da reencarnação, seria realmente um elemento de ligação em relação ao darwinismo e o socialismo da época. Em face disso, ainda segundo a autora citada, muitos militantes operários do período que está sendo aqui estudado inclinaram-se em direção a essa religião e mesmo alguns dos líderes sindicais e do movimento operário pelotense da época em apreço filiaram-se ao Espiritismo, como o sindicalista Guedes Coutinho.

Da mesma forma que a Maçonaria, o Espiritismo em Pelotas também preocupava-se com
a influência do catolicismo na formação educacional e social dos cidadãos pelotenses. Este foi, provavelmente, o motivo que levou a Doutrina Espírita a participar, juntamente com lojas maçônicas, da fundação do já citado Comitê de Liberdade de Consciência, órgão que procurava minimizar a influência católica junto à sociedade e em especial junto aos trabalhadores urbanos.
Muito embora a influência do Espiritismo não tenha ocorrido num nível mais profundo
junto ao operariado pelotense propriamente dito, a sua presença junto aos trabalhadores urbanos de um modo geral fica claramente demonstrada nos exemplo acima apontados, donde se depreende que a Doutrina Espírita atuou nesse contexto, seja através da fomentação de uma visão conformista de mundo, atendendo aos anseios burgueses, seja através de sua feição transformista em relação à sociedade, em razão de sua visão evolutiva, decorrente das concepções reencarnacionistas que já foram antes apontadas e discutidas.

Considerações finais
Com a instalação do Estado Novo pelo presidente Getúlio Vargas em 1937, tanto a
atuação da Maçonaria quanto a do Espiritismo se retraíram em relação aos trabalhadores urbanos.
O caráter secreto dos trabalhos maçônicos e a sua atuação anterior de combate à influência católica junto aos operários, despertam a desconfiança das autoridades estatais. Da mesma forma, os grupos espíritas passaram a ser vistos como locais passíveis de abrigar comunistas, fomentadores de ações contra o governo ditatorial de Vargas, o que resultou numa retração das atividades dessas entidades, chegando mesmo a haver casos de lojas maçônicas que fecharam em Pelotas após o golpe de 1937.
Essa preocupação do governo, ao mesmo tempo em que determinou uma diminuição da
atuação social da Maçonaria e do Espiritismo, prova a influência, mesmo que indireta, dessas entidades sobre os trabalhadores urbanos. De outra forma não haveria motivos para a vinculação por parte da ditadura de maçons e espíritas com agentes socialistas e comunistas, possíveis criadores de desordens e fomentadores de campanhas contra a ditadura recém-implantada no país.

Portanto, muito embora essa influência das lojas maçônicas e dos centros espíritas em
Pelotas não tenha sido determinante na formação da classe operária pelotense e na formação de uma ideologia entre os trabalhadores urbanos da cidade, não há como negar que os ideários maçom e espírita estiveram presentes na vivência social desses trabalhadores no período aqui em estudo, senão participando diretamente da elaboração de seu modo de vida, ao menos colaborando, através de ações educativas e de cunho religioso, na formação de seu modo de ver o mundo e compreender a sociedade.


Notas de Rodapé:

1 Pelotas é atualmente a terceira cidade em população no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, com mais de 320 mil
habitantes e o mais importante centro urbano da região onde está situada.
2 Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827): Pedagogo suíço que se notabilizou como um dos pais da educação
popular.

3 Fenômeno magnético descrito por vários estudiosos e que consiste em magnetizar-se uma mesa e em fazê-la girar.
O fenômeno chegou a chamar a atenção de diversos cientistas importantes ao longo da segunda metade do século XIX.
4 Sandra Jacqueline Stoll, Espiritismo à brasileira (São Paulo: Ediora Orion, 2003).
5 Na sequência, Kardec publicou: O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno Segundo o Espiritismo e A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo.

6 Moacir Flores, Revolução Farroupilha (Porto Alegre: Martins Livreiro, 1984), 9.
Mário Osório Magalhães, Opulência e Cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a História de Pelotas (1860-1890) (Pelotas: Ed. UFPel: Co-edição Livraria Mundial, 1993).
8 Ibíd.
9 Conde D’Eu, Viagem Militar ao Rio Grande do Sul (São Paulo: Itatiaia, 1981), 134-135.

10Osório Magalhães.
11Ibíd., 106.

12 Ibíd., 137-138. Lorena Almeida Gil, Um Mal de Século: tuberculose, tuberculosos e políticas de saúde em Pelotas (RS), 1890 – 1930 (Porto Alegre: PUCRS, 2004).
14 Marcos Hallal dos Anjos, Estrangeiros e Modernização: a cidade de Pelotas no último quartel do século XIX (Pelotas: UFPel, 2000).
15 Beatriz Ana Loner, Classe Operária: Mobilização e Organização em Pelotas: 1888-1937 (Porto Alegre: UFRGS, 1999), 56.

16 Sylvia F. Damazio, Da elite ao povo: advento e expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Bertrand, 1994).
17 Eliane Lucia Colussi, A Maçonaria gaúcha no século XIX (Passo Fundo: EDIUPF, 1998).

18 Alberto Coelho da Cunha, Seita Espírita (Pelotas: Biblioteca Pública Pelotense, 1927).

19 Apud Beatriz Ana Loner, Classe Operária: Mobilização e Organização em Pelotas: 1888-1937 (Porto Alegre: UFRGS, 1999), 157.

20 Ibíd., 158.

21 Segundo a Doutrina Espírita, o carma seria uma espécie de consequência daquilo vivido em existências passadas. Assim, para os espíritas, os atos de vidas passadas podem ter consequências na vida presente.
22 Victor Hugo (1802-1885): Romancista francês de grande destaque no século XIX. Durante o seu exílio na ilha de Jersey estudou ardentemente o Espiritismo, escrevendo sobre o assunto uma monografia.
23 Léon Denis (1846-1927): Filósofo espírita e um dos principais continuadores da obra de Allan Kardec na França. Teve pronunciada participação na Maçonaria Francesa.

24 Léon Denis, Socialismo e Espiritismo (Rio de Janeiro: FEB, 1987).
Lauro Enderle, História do Espiritismo em Pelotas (1877 – 1984) (Porto Alegre: AGE, 1984), 15.
26 Ibíd.

27 Apud Lorena Almeida Gil, Um Mal de Século: tuberculose, tuberculosos e políticas de saúde em Pelotas (RS), 1890 – 1930 (Porto Alegre: PUCRS, 2004), 236.
28 Fernando Osório, A Cidade de Pelotas (Pelotas: Ed. Armazém Literário, 1998), 405.
29 Almeida Gil, 236-238.
30 Loner, 154-155.

 


Bibliografia
Almeida Gil, Lorena, Um Mal de Século: tuberculose, tuberculosos e políticas de saúde em Pelotas (RS), 1890 – 1930 (Porto Alegre: PUCRS, 2004).
Coelho da Cunha, Alberto, Seita Espírita (Pelotas: Biblioteca Pública Pelotense, 1927).
Colussi, Eliane Lucia, A Maçonaria gaúcha no século XIX (Passo Fundo: EDIUPF, 1998).
D’Eu, Viagem Militar ao Rio Grande do Sul (São Paulo: Itatiaia, 1981).
Damazio, Sylvia F., Da elite ao povo: advento e expansão do Espiritismo no Rio de Janeiro. (Rio de Janeiro: Bertrand, 1994).
Denis, León, Socialismo e Espiritismo (Rio de Janeiro: FEB, 1987).
Enderle, Lauro, História do Espiritismo em Pelotas (1877 – 1984) (Porto Alegre: AGE, 1984).
Flores, Moacir, Revolução Farroupilha (Porto Alegre: Martins Livreiro, 1984).
Hallal dos Anjos, Marcos, Estrangeiros e Modernização: a cidade de Pelotas no último quartel do século XIX. (Pelotas: UFPel, 2000).
Loner, Beatriz Ana, Classe Operária: Mobilização e Organização em Pelotas: 1888-1937. (Porto Alegre: UFRGS, 1999) Osório Magalhães, Mário, Opulência e Cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a História de Pelotas (1860-1890) (Pelotas: Ed. UFPel: Co-edição Livraria Mundial, 1993).
Osório, Fernando, A Cidade de Pelotas (Pelotas: Ed. Armazém Literário, 1998).
Stoll, Sandra Jacqueline, Espiritismo à brasileira (São Paulo: Ediora Orion, 2003).

 

 

~ por Rosemaat Abiff em 14/07/2020.

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