Professor de Filosofia

Sempre grato ao editor do Blog pela gentileza de nos convidar a publicar por aqui nossas ideias e mesmos nosso “jabá”.

O que é o Sustento?

Prof. Me. Cídio Lopes de Almeida

Mestre em Filosofia

Dentro da tríade sustento, saúde e sabedoria o ponto que aparece em primeiro plano na vida das pessoas é o sustento. E como proceder nesse campo? Em resumo, podemos dizer que esse campo se organiza em torno de três instituições, que são: família, igreja e a escola e faz uso de um método que é o “ver, julgar e o agir”. O sucesso ou o fracasso na vida do sustento será decorrente de como aplicamos o método de prospecção, avaliação e ação justamente nas três instituições fundantes da vida do sustento.  

Por sustento podemos compreender tudo o que propicia a vida humana. Sejam as questões mais diretas, como alimentação, moradia ou os meios necessários para serem aplicados nessa empreitada. Desse modo, os conhecimentos técnicos, ou seja, o conhecimento de como construo um artefato, também estão na esfera do sustento. Os assim chamados conhecimentos técnicos são a capacidade humana em construir artefatos e saberes a eles ligados.

Adentrando no tema do sustento, podemos dizer que ao chegar nesse mundo a vida social já está em curso. Por esse fato temos que considerar que somos “postos” num lugar e só depois pensamos esse fato. Nesse sentido, já herdamos “jeitos” de fazer as coisas e só depois de muito tempo é que nos damos conta disso. Assim, herdamos gosto por essa comida e não por aquela, por ser negociante e não produtor disso ou daquilo.

Após surgirmos nesse mundo em uma dada família, será muito comum participamos de alguma instituição religiosa, outro lugar importantíssimo, como veremos adiante. Todas essas instâncias, família e igreja, já nos legam uma forma específica de como nos ocupar do sustento. É muito comum dessa forma que façamos algo já é praticado na família. Como também herdamos “gostos” alimentares, estéticos, éticos, entre outros, oriundos da minha experiência religiosa.

Aquele desejo juvenil de fazer algo totalmente diferente do pais, o que é muito positivo, no geral encontra muitos obstáculos, pois a vida não começa do zero; sempre partimos de várias coisas legadas pelas gerações anteriores. E se mesmo assim o desejo persistir, se inserir num novo ciclo de sustento só será possível com o apoio de outras instituições, para além da família, sendo a Igreja a que mais comumente se recorre.

O mais sábio nesse sentido é nos ocuparmos de tornar consciente de como meus antepassados cuidaram do sustento. Conseguir dimensionar essa realidade em mim, consiste na melhor estratégia para se pensar o meio adequado de se lançar no mundo do sustento. Não se quer dizer com isso que não se possa criar algo novo, mas convenhamos que até para saber se é algo novo, preciso antes conhecer o que era feito e o que ainda é feito nesse ambiente próximo.

Dar sequência em algo que já é familiar consiste numa vantagem, pois a provável transmissão de “pai para filho” será mais eficiente do que qualquer instituição escolar. A inovação mais frutífera será aquela que consegue tomar esse legado e inventar sobre ele. Assim, uma família de artesão de roupas poderá ver esse negócio expandir quando os mais jovens aplicarem máquinas de produção no processo artesanal. Outro exemplo de inovação sobre algo tradicional pode ser notado no campo da movelaria, atividade muito tradicional entre certas famílias de libaneses, no qual, do fabrico artesanal do móvel, pode-se passar à produção industrial. Por último, podemos ainda tomar a atividade agropastoril, na qual, por mais avanços tecnológicos que tenhamos no mundo, nós humanos não nos vemos sem ela. Área do sustento da vida humana que pode ganhar várias inovações tecnológicas, portanto inovações sobre algo tradicional, sem que as novas gerações tenham que simplesmente abandoná-la, cumprindo, desse modo, a ideia de que é possível inovar sem deixar radicalmente o legado familiar.

Para quem ainda tem dúvida dessa possibilidade de inovar em coisas “tradicionais”, em nossos dias a mais avançada tecnologia de “drones”, “programas de computadores”, “sensores óticos e a laser”, “biotecnologia”, seleção genética, entre várias outras, são largamente utilizadas nas grades ou pequenas propriedades rurais.

Contudo, como no mundo sempre há novidades, começar uma nova forma de sustento, apesar da importância do manter-se a tradição familiar, não é o fim. Pode ser vista como a oportunidade de dar saltos, o que é muito comum nas economias que saem de estágios menos complexos para complexos industriais, isto é, a realidade de todo e qualquer país dito “emergente”. Ainda que mesmo assim, certos aspectos do ambiente familiar serão muito importantes, entre eles o estimulo à criação e estabilidade afetiva. Propiciar ambiente favorável à inventividade no núcleo familiar exige adultos crentes na capacidade dos jovens; de que os mesmos irão se empenhar com toda responsabilidade em cultivar os melhores meios de sustento. Postura necessária para todas as possibilidades das novas gerações no que toca ao sustento.

Esse tema do ambiente familiar é de extrema importância. É preciso criar condições e situações que promova a reflexão nos núcleos familiares sobre o papel dos jovens; de que através de processos formativos os jovens conseguiram desempenhar seus papéis na dinâmica do sustento de forma responsáveis. Se em sociedades tradicionais os adultos desenvolviam papéis que sempre garantiram a estabilidade do sustento nas famílias, na atualidade, com as revoluções industriais e tecnológicas, notamos que certos expedientes que foram vitais no passado não são mais e precisam aprender a conviver com o novo. A fórmula é sempre a transição, sem querer eliminar tudo do Tradicional e impor o novo. Contudo, esse embate entre o modelo antigo e o novo se não for bem trabalhado; se não se montar estratégias inteligentes para essa transição, o puro chocar-se de gerações acaba por impedir ambientes favoráveis à inovação, e ao acesso a novas formas de sustento, que é necessária nas novas conformações sociais, sobretudo da vida nas grandes cidades.

Posto que a família é um importante tema na definição do que fazer como sustento, mesmo quando mudamos de ramo, outro ponto importantíssimo são as instituições religiosas. O motivo é simples, elas cuidam de certos aspectos da vida das pessoas, sobretudo em como avaliamos tudo na vida, e estão presente em momentos importantes da vida, celebrando momentos como nascimento, passagens da vida infantil para a adulta, casamento e falecimentos. Também, são instituições que existem na história. Assim, quando uma nova “alma” chega nesse mundo ela é acolhida e posta dentro dessa Tradição, que implica em saberes já existentes. Ora, nunca começamos do zero, e por isso mesmo essa transmissão é a chave para se “começar” algo novo. É muito importante sabermos que uma “roda” pode ser utilizada nessa ou naquela atividade, portanto, sem a tradição é como se tudo tivesse que ser testado a cada nova pessoa.

Família e Igreja são instituições muito fortes, pois elas ocupam todo nosso espectro afetivo. Os afetos são partes de nós e é por eles que fazemos algo com “paixão”, dando o melhor de nós mesmos. Essas duas instituições marcaram profundamente todo nosso ser e precisam ser consideradas quando pensamos em fazer uma atividade econômica. Sem conciliar essas duas instâncias a próxima instituição de nossas vidas econômica, a escola, pode ser totalmente inócua.

A escola é apenas uma parte de nossa busca pelo sustento. Temos que ser honestos, as escolas como as conhecemos em nossos dias são um fenômeno social recente. É claro, sempre houve transmissão de conhecimento, mas necessariamente não eram em escolas como as atuais. O conhecimento e sua transmissão teve muito mais tempo e lugar no seio familiar e religioso. Ou em associações de ofícios. Em nossos dias o segredo de uma boa escola é exatamente quando essa instituição consegue somar forças à família. Mesmo cumprindo apenas uma parte desse processo, sua força está em trabalhar em conjunto. Não é raro notarmos as três instituições se associarem nas conhecidas escolas religiosas. Fenômenos que podemos verificar no surgimento das Universidades Europeias, que foram desdobramentos dos Mosteiros, só para ficar no exemplo ocidental que nos toca mais direto. 

No mundo adulto a escola deve ser aquela que recria um ambiente amigável. Quando a escola se torna um lugar de “bagunça”, de brincadeiras de mau gosto, tais situações são um péssimo sinal. A mesma só pode ser um lugar de bons amigos, de boas lembranças, de confiança, etc. Tem que ser aquele lugar que vamos na certeza de encontrar amigos. E tal ambiente amigável vale para todo tipo de “escola”, não só a formal, mas escolas de idiomas, de cursos livres, etc.

Quando o aspecto amoroso é objeto da proposta de uma escola podemos dizer, com certeza, que nela se aprende algo “para a vida” toda. E a eficiência de um saber escolar só será boa se quem a procura puder sentir acolhido. Saber de “cor”, de coração, é indelével e todos procuramos esse tipo de saber. O pior saber é aquele que somos aterrorizados por ele; o pior professor é o terrorista; o pior discurso pedagógico é o que diz “apesar de amargo” vai lhe fazer bem. A escola tem que ser o lugar da amorosidade. E não só para a juventude, mas escolas destinadas a formação de adultos também precisam propiciar ambientes de acolhida.

Nesse ambiente de acolhimento a escola, como lugar onde se procura saber algo técnico, pode contribuir muito com a busca do sustento. Com tranquilidade para “testar” novas coisas, as pessoas encontrarão aí outras pessoas na mesma jornada e com isso formando um novo “núcleo” afetivo; pessoas que irão ser o contraponto objetivo de projetos em fase de ideias gerais. E será nesse ambiente intimista que a escola cumprirá dois propósitos: transmitir certos saberes científicos técnicos e criar ambiente propício para inovação ou invenção o a simples criação de formas de se obter o sustento.  

Qualquer texto que fale sobre sustento logo verá que não há uma fórmula que já lhe encaminhe para essa ou aquela atividade. Aqui o melhor é “ver”, “julgar” e “agir” segundo a realidade pessoal de cada pessoa.  A melhor forma de sustento irá variar de pessoa a pessoa; de país a país, etc. Para um jovem da periferia de São Paulo entrar no mundo do sustento pode ser promovendo festas culturais; tal atividade bem pensada e planejada pode ser a forma pela qual ele entre no mundo econômico. Contudo, para outras pessoas de uma pequena cidade do Leste do Estado de Minas Gerais, produzir queijos finos seja o grande negócio.

Esse “ver”, “julgar” e “agir” como o propósito de buscar o sustento será desenvolvido em ambiente favorável e vocacionado a se inserir na dinâmica de produção do sustento. Como exercício chave ele será exercitado em ambiente colegiado destinado a trocar informação e formação; destacando que todos já temos um jeito de ver, julgar e agir oriundos da família e da Igreja.  A novidade aqui é aplicar tal método focado na busca do sustento e em conjunto com outros colegas “escoalares”.

O importante para se planejar como entrar no mundo do sustento é criar núcleos de pessoas dispostas a tal; o encontro de pessoas empenhadas nesse propósito de compreender e agir na esfera do sustento é fundamental para que haja o cultivo apropriado das ferramentas para esse fazer humano.  Os núcleos é o incentivo diários em olhar a realidade, a procurar identificar as demandas, as ofertas, as oportunidades. É fundamental esse constante trocar e atualizar; sem tal cuidado pode-se perder o ritmo da vida.

Se é fundamental o grupo de cultivo, outro aspecto necessário para a força do próprio associativismo é a presença de temas que vão para além das cosias. Pela experiência quando os grupos se reduzem a só falarem de seus temas úteis, técnicos, tende-se a perder força. O que falta é um sentido maior, na forma de solidariedade, fraternidade, etc. Ideias muito bem presentes nas religiões. Em momentos exitosos o desejo de celebrar é natural.  Aspectos que evoca a necessidade do lado espiritual da vida humana.

Não cabe dizer qual religião é a mais propícia, pois cada pessoa irá escolher a de sua preferência ou até mesmo não escolher. Essa liberdade é fundamental, pois do contrário podemos assistir os aspectos negativos da religiosidade, amplamente documentos durante os mais de 300 anos de política colonial da Europa sobre os demais povos do planeta. Instrumentalizar a religião, convertendo ela aos negócios, não é o caminho. A ideia é que o elemento religioso possa estar ao lado da vida do sustento, fomentando o ambiente de trocas culturais; ampliando o significado das tarefas diárias, etc. Entre vários outros desdobramentos.

Uma contribuição fundamental das religiões, por exemplo, é a ideia de fraternidade universal. Outro aspecto é a fomentação da família, como primeiro lugar da fraternidade, do cuidado do outro e do lugar onde se vive; como também da motivadora de se buscar o sustento.

Em ambientes “competitivos” do mundo corporativo tem se notado que a promoção e “adoração” do espírito de competição, tem seu limite. O que tem levado a se procurar outras formas de engajar as pessoas nos projetos; estabelecendo propósito um pouco além do mero “bater” metas, conquistar novos pontos de venda, etc. Ideias como negócio sustentável tem sinalizado o desejo de se buscar outras práticas nos ambientes de “sustento”.

No contexto da Escola da Vida, ou mesmo no contexto corporativo de se basear as ações de modo ético e sustentável,o desafio da religiosidade como um sentido maior que arremata as tarefas ordinárias do sustento, encontra ampla referências nas Antigas Escolas de Filosofia, que eram saberes exatamente voltados para o sentido maior do existir humano. Fenômeno que é idêntico não só às religiões monoteístas (Judaísmo, catolicismo, islamismo) mas a todas as religiões orientais e que são mais “parecidas” com filosofia de vida. Sobre essa “teologia” laica trataremos na parte “sabedoria”, que compõe o tripé da nossa proposta: sustento, saúde e sabedoria, atenção e desenvolvimento.

Por fim, em matéria de sustento no contexto da Escola da Vida o processo por completo se revela justamente na dinâmica formativa. O roteiro completo parte da compreensão e na formação do grupo interessado nessa perspectiva trinitária de encarar a vida. Ao lado de saberes administrativos, de gestão, financeiros, surgem os temas acima sinalizados da família, da religião/igreja e do modelo Escola da Vida. E será na administração desses saberes, no incentivo à reflexão própria, no experimento, que se vai realizando uma nova perspectiva de sabedoria engajada na dinâmica da vida.   

~ por Prof. Me. Cídio Lopes em 25/01/2021.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
Bruxo de Lua

"Ambularet per pænumbra."

Bnei Baruch Monterrey

Auténtica Sabiduría de la Kabbalah

symbolreader

Sharing My Love of Symbols

Sinagoga Ohel Jacob e Comunidade Hehaver

Site oficial sinagoga Ohel Jacob. Judaísmo Liberal em Lisboa. Única sinagoga askenazi em Portugal, 1934. Visitas guiadas, shabat e celebração de festividades.

Cabala sem Fronteiras

by Vinícius Oliveira

Selo 144

A VERDADE UNILATERAL

%d blogueiros gostam disto: