Sobre Luz, Vida, Amor e Liberdade e também o Hexagrama ou Escudo de Davi

O texto a seguir foi-me solicitado como pré-requisito para ingresso numa ordem maçônica espúria. Compartilho-o com vocês e espero que ele vos agradem tanto quanto me foi agradável escrevê-lo.

“Luz, vida e amor” é uma frase rosa-cruz que contém em si a ordem da manifestação das principais coisas neste “Único-verso”, uma se transmutando/gerando na/a próxima, e também contém a razão da existência segundo essa perspectiva, pois de acordo com esta o amor é o grande objetivo final da Grande Obra. A luz gera a vida, e a vida simultaneamente gera e se sacrifica pelo amor.

Ver como a luz gera a vida é fácil, tanto alimentando toda a cadeia alimentar ao nutrir sua base, as plantas, por meio da fotossíntese, quanto pelo fato de que a transformação da luz na medida certa em calor é essencial para o surgimento e manutenção da vida.

A vida gera o amor como a terra desenvolve a semente, esquentando-a dentro de si, em seu coração.

O aspecto do sacrifício da vida pelo amor já foi retratado diversas vezes nas histórias e mitos. É o sacrifício da ovelha, que se ajoelha antes de ser imolada. O amor torna as pessoas “ovelhas” dispostas a se sacrificar em prol de um bem maior.  É a morte de Osíris, a morte do “redentor”, do “messias”, do “justificador”, do “grande mártir”. Acontece que as pessoas fazem uma ideia muito errada da morte, que não é um fim, mas sim um ponto de profunda transformação, de sublime transmutação, é o supremo nigredo, é quando se extrai a essência mais pura o possível do ser vivo. É uma parte do ciclo, e não o fim dele, é o ponto onde o ciclo se reinicia, onde o ouroboros morde a própria cauda, o momento onde o fogo reintegra totalmente a natureza para que a Fênix renasça das suas próprias cinzas. Como na natureza nada se cria nem se destrói, mas tudo se transforma, a morte aparentar ser uma destruição é apenas uma ilusão, em realidade ela é uma transformação.

A questão do amor é que ele possui diversos graus de densidade, do mais denso ao mais puro. Então algumas pessoas manifestam uma forma doentia de amor pois o amor delas é “pesado”. Em alto grau o amor liberta, ele quer que tudo se expanda e atinja seus objetivos. Em baixo grau ele é aprisionador, controlador, ciumento, doentio, não quer deixar o amado livre para voar, mas sim o prender perto de si e cortar suas asas. De qualquer maneira o amor está em todos os lugares, é a grande voracidade da vida por si mesma nessa auto-fagia, esse desejo irracional de existir, viver e sobreviver. A eterna luta para achar seu espaço abaixo do Sol. Essa fome animal da criação por si mesma.

Uma das consequências do amor de baixa densidade é o fato de que quase todas as pessoas nesse mundo são carentes. Como não conseguem amar a si próprias, elas procuram o amor dos outros. Mas como não amam nem a si mesmas, elas não tem amor para oferecer ao próximo, e por não ter amor a oferecer ao próximo elas não são amadas pelo próximo. E isso dói profundamente nelas, pois elas querem muito ser amadas. Quem sabe esses segredos sobre os humanos pode controlá-los muito facilmente, não é à toa que “por gentileza” e “agradeço” são palavras mágicas (não gosto de “por favor” e “obrigado” devido a ideia de obrigação e dívida que carregam). Como essas pessoas de baixo densidade de amor não conseguem obrigar o próximo a amá-las, elas buscam então, no caso dos homens, serem temidos ou admirados, e no caso das mulheres, serem desejadas ou protegidas ou receber atenção.

O amor é a arma mais eficaz que existe. Através dele um pequenino pode subjugar gigantes. O temor e a admiração que os homens buscam causar não tem nem um décimo da potência do amor, que é capaz de fazer o amante se sacrificar pelo bem do amado de diversas maneiras, sendo a mais extrema o sacrifício literal e direto da própria vida. De formas indiretas o amante sacrificará sua vida doando seu tempo, seu esforço, seu trabalho, sua atenção.

Quanto ao aspecto do “redentor”, que pode ser associado ao conceito do “herói arquetípico”, e por isso é localizado na árvore da vida em Tipheret, o número 6, o centro irradiante da árvore, que ilumina as outras sephiroth e se sacrifica por elas, o ser “crístico”. O ponto de contato com o Sagrado Anjo Guardião.

O budismo passa direto pelo caminho do meio em direção à Kether, sendo Tipheret bem evidentemente neste caminho apenas um ponto de passagem. Quem fica “estacionado” em Tipheret passa sua vida inteira trabalhando para os outros, se doando ao próximo, e não avança em sua própria jornada. Não “trabalha” para si e em si. 

Melhor do que isso é “não trabalhar”, “wuwei”. Devido a um paradoxo da alta espiritualidade, nada importa e tudo importa ao mesmo tempo, e no aspecto positivo importa de uma maneira que os encarnados não conhecem, importa de uma maneira que ninguém espera. Outro desses paradoxos é que o menor é o maior e o maior é o menor, ou numa das interpretações possíveis de uma certa parábola, “os últimos serão os primeiros”.

Deus sendo a mais pura e mais elevada forma de amor, Ele é o maior libertador, o livre arbítrio é seu maior presente para a humanidade. Ele nos deixa livres para absolutamente tudo: para fazer o que é chamado de “mal”, para nem acreditar que Ele sequer existe, ou mesmo acreditando que Ele exista, eu posso xingá-lo e reclamar da criação em voz alta. O Universo não é determinístico, ele é estocástico, de maneira que pela nossa pequenez o que fazemos não importa, e simultaneamente o que fazemos importa pois ecoará na eternidade, como uma borboleta que provoca furacões ao bater suas asas. Mas apesar do valor da liberdade, o ser humano a vende por preço de banana em troca de uma promessa de segurança, criando verdadeiros Leviatãs, outorgando a responsabilidade para algum bode expiatório, nunca arregaçando as mangas e fazendo com as próprias mãos. E assim pouco a pouco esse Leviatã vai consumindo seu próprio criador, comendo direito por direito bem devagar apesar de sua fome violenta, para não alertar a vítima, que é devorada sem perceber da mesma maneira que um sapo se acostuma com a temperatura da água lentamente aquecida e acaba morrendo cozido sem notar. 

Agora farei um parênteses para introduzir o hexagrama, também chamado escudo de Davi, e concluirei demonstrando a relação entre ele e o amor.

O hexagrama representa a perfeita união e equilíbrio dos opostos, é a forma ocidental do tei gi, embora o tei gi ressalte mais o aspecto da mutabilidade e movimento. O triângulo com o vértice apontado para cima representa o masculino, o positivo, a luz, o ativo, a espada, o falo, o quente, o fecundador, o Sol, enquanto que o triângulo com o vértice para baixo representa o feminino, o negativo, as trevas, o passivo, o cálice, a vagina, o frio, o receptor, rigoroso e restritor, a Lua. Na tradição rosa-cruz um representa o material e outro o espiritual também, embora eu tenha dúvidas de qual é qual. O hexagrama é o ponto de equilíbrio dos opostos, a dualidade se inicia em Hochma e encontra sua culminação em Tipheret. O hexagrama é o símbolo mágico da sexta sephira, e possui 6 arestas, sendo que a cada uma pode ser associada um ideal. No triângulo masculino temos “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e no triângulo feminino, cujos ideais das arestas são mais passivos, temos “Paz, Amor e Harmonia”*.

Misticamente os números são gerados pelos seus antecessores. O antecessor do hexagrama é o pentagrama, de cinco arestas/vértices, associada à Geburah e à Marte (não é à toa que o pentagrama é um símbolo de proteção). Como o pentagrama representa a totalidade, uma vez que cada um de seus vértices é associado a um dos 5 elementos constituintes do Universo, ele também representa “a vida”. Outra maneira de chegar a essa mesma conclusão é pelo fato de que “força” representa Geburah melhor do que “rigor”, essa mesma força que entendemos como vida, pois a força gera movimento e a vida é o movimento entre os pólos extremos, indo e voltando de um ao outro pólo. Tudo o que existe vibra ou se move e por isso está vivo, até a areia e as pedras possuem uma forma rudimentar de vida (seus átomos estão vibrando), por isso a vida e a totalidade são associáveis. E assim temos “a vida gerando o amor”: a vida é o pentagrama e o amor é uma das arestas do hexagrama.

O amor por sua vez gera a liberdade na medida em que ele é depurado, como afirmado anteriormente.

O verbo que é Kether, e está com Kether, gera a luz (e também as trevas), marcando o início de Hochma e da dualidade. Tudo o que os humanos são capazes de conceber e entender intelectualmente é dual, possui um oposto ou uma antítese, e diversos graus entre os extremos. Os humanos percebem melhor as diferenças do que as igualdades, de maneira que eles precisam que um objeto de seus pensamentos tenha um oposto para compreendê-lo ou até mesmo sequer concebê-lo. Daí decorre que a luz e as trevas surgem junto com o Hochma, e também entendemos por que é tão difícil compreender Kether. Além de anteceder a dualidade, metaforicamente podemos também dizer que “ao olharmos para cima” não conseguimos enxergar Kether, pois há yesod e tipheret no caminho.

Não expliquei bem o 1, o 3 e o 4, contudo Eliphas Levi já disse quase tudo sobre os grandes arcanos. Minha maior especialidade é o zero, contudo isso é tema para outro texto. Apenas para pincelar esse assunto, afirmo que Deus é o silêncio, o nada, o vazio, o zero. Nós somos as notas musicais e Ele é o silêncio entre as notas. No plano cartesiano o zero está perfeitamente no centro de tudo e antecede o número 1 na ordem das coisas. Na verdade afirmar que Ele é o zero é apenas um pouco mais preciso do que afirmar que Ele é kether, na verdade Ele está além dos véus de aim, “sendo” o que Ele irradia/imagina de maneira indireta, mas nesta perspectiva podemos afirmar que Ele é tudo e todos os números. De maneira preciosista não podemos afirmar que Ele é diretamente tudo, como um pintor não é sua pintura, contudo como o pintor expressa algo de si na sua obra, indiretamente a pintura é parte do pintor.

    O que disse anteriormente implica que o Um, o Tudo, o Universo, é o Demiurgo (“o Um é Tudo e o Tudo é Um”). Deus é o observador por de trás da nossa consciência, além do que entendemos como nossa mente ou nós mesmos, o “olho que tudo vê”, o TODO que gera o Tudo, enquanto que o Demiurgo é o observado, é o sonho ou pensamento de Deus, é o pedreiro que segue o plano do Grande Arquiteto. Vale ressaltar que Ele não é nada do que pensamos que somos, mas Ele é o ser que observa o que percebemos através de nossos sentidos e o que interpretamos disso pela nossa perspectiva.

    Quanto ao aspecto da perspectiva, cada um tem uma única, pela qual vê uma faceta da verdade, contudo absolutamente ninguém, nem os avatares ou grandes mestres, consegue observar completamente toda a verdade absoluta, “nem mesmo os mais sábios conseguem ver todas as pontas”. Como na parábola dos sábios cegos e o elefante: quando cada sábio tentou descobrir que objeto estavam averiguando, cada um tocou um membro diferente do elefante e teve uma conclusão diferente. Um tocou a perna e pensou se tratar de um pilar, um tocou a tromba e pensou se tratar de uma cobra, um tocou o rabo e pensou se tratar de uma corda, e assim por diante. O que cada pessoa vive dentro de sua própria cabeça é apenas “uma ilusão a nível absoluto, embora seja real a nível relativo”. Os humanos constroem verdadeiros castelos de areia dentro de suas mentes. Essas ilusões humanas até chegam a se manifestar na medida que interferem ou influenciam em suas decisões ou atos, contudo o sintoma não é a doença, a doença está num nível mais profundo.

*= poderia-se perguntar o que o amor, tradicionalmente associado à Netzach está fazendo no hexagrama associado à Tipheret. Isso ocorre pois Tipheret irradia a luz de Kether para as outras sephiroth, de maneira que contém em si o potencial ou “semente” do principal atributo que irradia. Imaginando um hexagrama sobre Tipheret, vemos as arestas do triângulo masculino refletindo Liberdade, Igualdade e Fraternidade respectivamente para Chesed, Geburah e Yesod, e o triângulo feminino refletindo Paz, Amor e Harmonia respectivamente para Kether, Netzach e Hod. Note que essa é uma reflexão como a de um espelho, ou seja, Tipheret não apenas irradia a semente para a outra sephira como também o que irradia é uma imagem dessa mesma sephira, como a imagem de um espelho, e “absorve” para si esse atributo no hexagrama como um espelho se apropria da imagem que reflete. O Universo é um jogo de espelhos, simplificando bastante a árvore da vida apenas para ter uma ideia desse “jogo”, podemos imaginar dois espelhos perfeitamente de frente um para o outro, refletindo um feixe de luz entre si, eternamente indo de um espelho ao outro. Esse “jogo de espelhos” dá uma boa ideia da natureza mais essencial do Universo. A árvore da vida pode ser interpretada, entre outras maneiras, como um mapa dos espelhos que compõe todo esse jogo.

~ por jpbimada em 22/11/2021.

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