Entrevista com Adeptos

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Estimado Frater Goya, primeiramente seja bem vindo, é um prazer ter sua entrevista entre as entrevista do Blog Pelotas Occulta, primeiramente, para nossos leitores que não o conhecem, quem é Frater Goya? Qual a Trajetória iniciática? por quais ordens ele passou, o que significa o nome iniciático Frater Goya? Há Quantos anos nessa jornada?

<Frater Goya> Na minha vida profana me chamo Anderson Rosa, sou Funcionário Público do Poder Executivo Estadual, e estudo Magia e Ocultismo desde os meus 9 anos de idade (o ano era 1979 e portanto, atualmente eu vivo e estudo Magia e Ocultimo há 41 anos), quando li a biografia de Papus que li numa antiga revista planeta que meu pai comprou para mim e um sebo. Ao terminar as últimas palavras daquela entrevista, eu entendi que era o caminho que queria para minha vida e desde então, foi o caminho que eu trilhei. Uma vez em conversa com o Frater Thor (Euclydes Lacerda de Almeida), ele me disse que ali foi o momento em que descobri a minha Verdadeira Vontade. Cabe dizer aqui que eu nunca havia pensado nessa perspectiva, mas analisando em retrospecto, isso faz muito sentido. A minha jornada iniciática passou por várias escolas desde então: Escola dos Magos, a gnose do 4ºCaminho, espiritismo, maçonaria mista no rito francês moderno, AMORC.
De 1979 a 1986 em especial eu li tudo que havia na bibliografia esotérica nacional, principalmente da editora “O Pensamento” que era a editora responsável pela maior parte do material existente em língua portuguesa. Depois fui lendo livros em espanhol e inglês, e sempre fui sonhando em fazer parte dos grupos que esses livros descreviam, e por isso fui buscando essas escolas que citei acima, tentando encontrar uma versão atual daqueles grupos. No entanto foi com muito pesar que reconheci que essas descrições eram versões romantizadas ou que não existiam mais, pelo menos nos grupos que participei.
Nesse meio tempo, li em vários lugares material falando de uma ordem chamada “Golden Dawn”, e que seu material havia sido perdido. Uma delas era uma reportagem do Paulo Coelho sobre o Ritual de Abramelin numa revista Planeta (de novo essa revista!) eu reproduzi anos depois o artigo na página do CIH http://cih.org.br/cih_new/?p=937 e além dessa referência, um livro sobre “Invisibilidade” da Editora Hemus também citava o grupo e dizia que havia um livro que publicava o material da Ordem. Vale comentar que estamos falando numa época pré-internet, então você dependia de livros e em especial de livros importados por catálogo ou por algum amigo que se dispusesse a procurar por eles numa viagem ao exterior. Então começou uma busca sobre a Golden Dawn, Crowley e seus correlatos e em especial, pelo “Ritual da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago”, que consegui em espanhol, traduzido da versão de Mathers, em 1990. Em 1993, uma amiga que foi ao México conseguiu me trazer os 4 volumes do “Golden Dawn” do Regardie e ali eu encontrei o grupo que imaginava ao ler os livros da minha juventude. Na introdução o Regardie dizia que tinha a esperança de que aquele livro auxiliasse os buscadores a tentar reviver o que foi a Golden Dawn e a refazer o material. Num artigo sobre a fundação do CIH eu comento a respeito http://cih.org.br/cih_new/?p=298 . O que veio depois é a realização do Ritual da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, em 1996, sob a orientação de meu tutor especificamente para este assunto, Frater Alkadir, que também havia realizado o ritual anos antes e a criação do CIH em 1997, conforme conto no artigo.
O nome Frater Goya não é oriundo do pintor (embora eu goste muito do F. Goya e de suas obras e meu blog pessoal leva o nome de uma obra dele http://cih.org.br/grimorio/ ). Mas veio das minhas poesias. Eu sempre escrevi muita poesia e elas lembravam muito o material do Ian Curtis do Joy Division, e um amigo me apelidou na época de Joy Anderson. Quando publiquei minhas poesias naquele período, eu queria assinar como Joy Anderson, mas o termo alegre poderia levar a interpretações erradas, e busquei uma variação. Na ocasião eu estudava esperanto e levei o termo pra essa língua, que ficava como “ĝojo” ou “ĝoja”. Mas na tipografia em português, não temos o acento sobre a consoante, então ficaria “Goja”, que também ficaria esquisito. Daí eu me lembrei que em hebraico, o J tem o mesmo valor fonético que o I e o Y, então tirei o acento da consoante e substitui o J pelo Y, e ficou Goya, nome que uso desde essa época. Tenho ainda outros motos, mas estes são utilizados apenas em alguns grupos e operações, e não são expostos ao público.

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Achei muito bonita a apologia que fizeste de Crowley e do sacrifício dele em relação ao nascimento do Tarot de Thoth, existe uma perseguição exagerada em relação a figura de Therion?

< Frater Goya>  As pessoas tem uma visão muito errada do Crowley no contexto geral. Ele era um grande mago, mas também era um grande fanfarrão e esses aspectos coexistiam mesmo na sua carreira mágica. Mas ao mesmo tempo era um homem muito culto, gentil e excelente debatedor. As cartas que ele troca com a Frieda Harris (as quais publico algumas no primeiro volume do meu livro de Tarot “Tarot, o Templo Vivente”, nos deixam ver muito mais sobre a personalidade dele do que as biografias dele, como o “Confessions”, por exemplo. Aliás, para mim, quem quer conhecer mais Crowley deveria começar lendo o livro “Magia sem lágrimas”, antes de qualquer material dele, pois ele está muito mais exposto naquelas cartas que serviram de base ao livro do que em outras obras dele. Claro que isso cria um problema para quem não conhece muito de Thelema e de Crowley e seu trabalho, mas por outro lado, nos deixa mais simpáticos a ele.
Esse episódio dele, de deixar as lâminas originais com a Frieda para que ela dispusesse como bem desejasse delas e o fato de ele nunca ter ido a uma exposição dessas pinturas na época, pois poderia atrapalhar a carreira da Frieda, demonstram que ele não era o Ogro Thelemita que as pessoas costumam ver por aí. Só para contextualizar um pouco, o nome dele nunca foi associado às pinturas nos catálogos das exposições da Frieda, pois era uma exigência dos patrocinadores e galerias que ele não tivesse qualquer vínculo com ela (ele já era muito controverso nesse período) ou as exposições seriam canceladas. Frieda escreve a ele, e então Crowley opta por não ter seu nome nos catálogos e se compromete ainda a não visitar nenhuma exposição. Este ato de abnegação é de extrema gentileza e demonstra que ele se preocupava e respeitava muito a artista. Diferente do seu arqui-rival Arthur Edward Waite, que utilizou os talentos excepcionais de Pamela Colman Smith para produzir o Tarot mais tarde conhecido por Tarot Rider-Waite (Rider era o nome do primeiro editor desse Tarot) e jamais pagou ou reconheceu o trabalho da artista.
Voltando à pergunta, Crowley possui uma persona criada pelo público e pela mídia que deixa as pessoas com o dilema: ame-o ou deixe-o.
Minha opinião? Não houve no século XX nenhum autor dessa área de conhecimento que tenha ido tão a fundo ou que tenha produzido tanto quanto Crowley. Para aqueles que afirmam não gostar dele, eu sugiro que leiam antes de criticá-lo. No mínimo, no final você terá mais argumentos para não gostar dele. Ninguém é obrigado a gostar de Crowley ou aceitar a opinião dele. Mas não podemos ignorar o esforço e o trabalho dele.
Eu mesmo sou bastante seletivo em relação ao material como um todo. Não sou um “seguidor” de Crowley e tampouco um adorador. Eu apenas valorizo o trabalho de um grande autor e de uma pessoa que aprendi a respeitar pela qualidade do seu trabalho.

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Qual a Importância da Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada) na sua vida? Qual a importância da AMORC na sua vida? há ligação real entre elas ou não passa de invenção?

<Frater Goya>  Creio que respondi melhor durante o processo da minha jornada, mas acho importante dizer aos leitores a minha visão. Sei que o material do “Golden Dawn System of Magic” do Regardie já pertence a época da Stella Matutina (período pós 1900 fundada entre outros, por J.W. Brodie-Innes), e que existe o “The Complete Golden Dawn” entre outros livros que oferecem o material “original”. No entanto, independente de qual livro o estudante preferir, na minha experiência pessoal, o material da Golden Dawn representa o melhor curriculum para um estudante evoluir na magia sozinho ou em grupo. Quem optar por seguir sozinho, hoje temos os livros do casal Tabatha e Chic Cicero que permite percorrer o essencial do curriculum sem descaracterizá-lo em sua essência. A GD foi tão importante, que deu origem ao renascimento do paganismo (ou neo-paganismo), trouxe a magia sem rituais envolvendo sacrifícios de animais, e influenciou a própria wicca (através de Crowley e Gardner), e mesmo Crowley nunca conseguiu se afastar da GD, a ponto de o seu tarot (Tarot de Thoth) ainda segue as diretrizes básicas dadas no Liber T da GD. E também vale citar que qualquer Thelemita do planeta possui na sua estante um ou mais dos livros relacionados à ordem.

Sobre a AMORC devo dizer que fui membro por 12 anos na ordem, trabalhei na Grande Loja do Brasil no período do grande cisma com o Imperator Gary L. Stewart, organizei 4 convenções nacionais neste período, ajudei com artigos, fui membro de Loja e também parte da equipe de templo e iniciática, sempre na esperança de encontrar aqueles grupos lá dos livros que citei inicialmente. Mas durante esses 12 anos eu não encontrei aquela visão que buscava. No entanto, a AMORC foi importante na minha formação como administrador e parte do Conselho de uma ordem iniciática, em toda a organização, didática e produção de material. Dentro da ordem vi muitas coisas reprováveis (que não vale mencionar aqui), mas ao mesmo tempo a organização de distribuição e produção de material da AMORC era excepcional naquele período (1986-1998). Infelizmente, mais tarde fui descobrindo que muitos materiais “antigos e secretos” da Ordem sequer existiam realmente, e aqueles que eram publicados pertenciam a outros grupos, só para citar os dois mais famosos: a Rosacruz Hermética nunca foi da AMORC, ela é criação do McGregor Mathers para a Golden Dawn e seus segredos se referem ao templo da GD, não da AMORC, e também ao famoso livro “Símbolos Secretos dos Rosacruzes do séc. XVI e XVII, nunca foi da AMORC também. Este livro foi compilado e traduzido para o inglês por Arthur Edward Waite para a organização que ele criara, a Fraternidade Rosacruz, então, este livro nunca foi de nenhuma “versão prévia” da AMORC.
Em 1993 foi realizada a primeira iniciação do CIH, mas ainda utilizando o material da GD. A fundação oficial do CIH se daria em 1997, conforme o link que indiquei acima. E quando o CIH foi fundado formalmente neste ano (97), eu percebi que meu período na AMORC havia acabado. Ainda possuo muito carinho por diversas pessoas que conheci lá, mas me desliguei completamente da organização por não ver sentido em continuar numa organização que não estava mais em meu coração.

Em 2004 a AMORC tentou acionar-me pelo uso do nome Rosacruz em nosso material e domínio. Mas ao respondermos a provocação, a ideia de um processo foi abandonada pela AMORC e hoje no mundo inteiro o registro rosacruz.com pertence à AMORC, e no Brasil, pertence ao CIH. Para conhecer nossa resposta, leia http://cih.org.br/cih_new/?p=281 .

Finalmente, tirando alguns exemplos como os citados acima de publicação indevida de material alheio, não há nenhum vínculo formal entre a AMORC e a Golden Dawn, e isso também fica claro na introdução do livro “Commentaries on the Golden Dawn Flying Rolls”, na qual é dito: “Estas instruções são pertinentes para todos os grupos rosacruzes continentais (isto é, da Europa), com exceção àqueles cuja sede está em San José, na Califórnia (à época, a Suprema Grande Loja da AMORC se situava ali).

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No seu ponto de vista, a Cabala é Hermética ou é Judaica?

< Frater Goya>  A cabala é a fina flor do misticismo judaico, mas foi apropriada pelo hermetismo, e desde então existem pelo menos essas duas vertentes, a cabala judaica e a cabala hermética e a principal diferença entre elas (há muitas outras, mas começa nesse ponto), é que a cabala judaica não permite o uso de imagens e símbolos, e a cabala hermética os utiliza em larga escala.

Que poder a iniciação tem sobre as pessoas?
<Frater Goya> Defendo que a iniciação provoca uma ruptura espiritual. Não adianta dizer que representa mudança de estágio, blablabla, que isso representa apenas a parte “visível”, ou seja, os aspectos psicológicos e antropológicos de mudança de estado, mas diz muito pouco acerca da profundidade do fato em si. Para exemplificar, basta compreender que uma mulher depois que tem sua primeira menstruação, depois que rompe-se o hímen e depois que engravida, ela nunca mais retorna ao estágio anterior. São evidências da sua jornada pelo mundo e nada, nem nenhum poder poderá fazê-la retornar ao estágio anterior. A mesma coisa ocorre na iniciação, pois uma iniciação bem-feita irá catapultar o adepto um patamar acima.

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E no que essa leitura é diferente do famoso mudança de estágio que tanto ouvimos? 

<Frater Goya> As pessoas tendem a entender isso racionalmente, mas não compreendem no seu íntimo, da mesma forma que eu entendo racionalmente a gestação, mas não tenho como vivenciá-la por ser homem. Uma mulher que passou pela experiência pode comentar melhor sobre o antes e depois de uma forma que eu jamais serei capaz de traduzir. Da mesma forma, quando a iniciação ocorre, ela muda em você uma chave muito profunda e importante, como amputar um membro. Nunca mais a sua vida será a mesma. Se você fica no blablabla esquisotérico, você começa a acreditar que qualquer ritual meia-boca é uma iniciação, mas isso só faz de você um hipócrita ou um auto-iludido, mas jamais um iniciado.

O que você acha do cenário mistico/ocultista/esotérico atual?
<Frater Goya>  Existe cenário místico/ocultista/esotérico atual? Rsrsrsrs… Bem, hoje temos o meio esotérico bastante difundido, pelo menos se comparado com os últimos 20 anos. Mas olhando em detalhe, tenho visto ao mesmo tempo que temos uma certa abertura desses temas, também temos visto o surgimento de um conservadorismo muito grande, o que leva o pessoal mais para a religião do que para o esoterismo em si. E tenho visto muitas pessoas descompromissadas com o caminho, voltadas apenas para o resultado imediato. Isso é contraproducente dentro da ideia de desenvolvimento.

O que você acha do youtube e dos canais mistico-esotéricos?
 
<Frater Goya> Acho que a tecnologia é uma excelente alternativa para democratização do conhecimento esotérico. inclusive fiz algumas considerações a respeito dos novos encaminhamentos pós-covid19 https://youtu.be/-1r7NY8Lipw e acredito que isso irá mais uma vez se chocar contra o status quo do esoterismo vigente. No entanto, apesar de toda essa tecnologia e democratização, algumas coisas ainda vão permanecer, como segredos ocultos. Devo alertar os leitores que infelizmente, você não encontrará nenhum grande conhecimento de real importância na internet. Se você encontrou algo maravilhoso, entenda: “Não é o verdadeiro segredo”. E pq? Será que o egoísmo ainda vai imperar? Não é isso. O que ocorre é que a verdade se dá pelo empenho que vc dá a ela. Ou seja, vem da prática. E até o presente momento, não existe como compartilhar prática no ambiente virtual. Assim como comer ou ir ao banheiro, ninguém pode fazer isso por você. E se alguém diz que vai lhe dar a verdade, essa pessoa está mentindo e enganando você, apenas está tentando um jeito de criar um laço de domínio sobre você. Recuse.
Tradição ou inovação?

<Frater Goya> Você pode ser inovador mantendo laços com a tradição, se entendermos que tradição é o fio que passa eternamente de uma mão à outra. Mas se você pensa em tradição como conservadorismo esotérico, daí voltamos ao velho boca-a-ouvido. E ao mesmo tempo, inovando você consegue estar sempre um passo à frente. Alquimistas, astrólogos, cabalistas, sociedades secretas, sempre tiveram um elemento em comum: estavam todos à frente do tempo em que viviam. Por isso, ser tradicional significa mais inovar do que congelar no tempo.
E se pensarmos no contexto thelêmico, no livro da lei diz: “Ab-rogados estão todos os rituais, todos os ordálios, todas as palavras e sinais. Ra-Hoor-Khuit
tomou seu assento ao Leste no Equinócio dos Deuses, e que Asar seja com Isa, os quais também são um.” – Liber Al, I-49. Ou seja, os rituais para o novo aeon não são os mesmos dos Aeons passados.

Qual sua opinião sobre a Goécia?

<Frater Goya> É um sistema de magia eficaz, mas antigo. Quando pensamos em goécia é importante pensar que o sistema na origem pretendia resolver agruras do ser humano daquele período: descobrir tesouros, trazer objetos perdidos, curar doenças comuns cuja cura era ignorada, trazer parentes distantes… Muitas das funcionalidades da goécia daquele período simplesmente perdem o sentido nos dias de hoje. O sistema continua válido, mas creio que nossos anseios na maioria, não podem mais ser tão simplistas. Existe muita procura como se goécia fosse sinônimo de rebeldia ou de ser malvadão, mas no fundo acaba sendo mais uma curiosidade histórica do que algo totalmente funcional para o ser humano moderno.

Frater Goya, você já deu cursos de goécia, este ponto de vista não seria um contra-senso? 

<Frater Goya> Continuamos estudando velhos sistemas como historiadores continuam estudando antigas civilizações, e como disse, o sistema continua válido, pode ser aprendido e utilizado, e mesmo nos cursos eu comento a função reduzida do sistema diante dos dilemas da atualidade. Mas se você ainda deseja aprender a goécia, esta pode ser útil para você.

Qual a sua opinião sobre a Magia do Chaos?

<Frater Goya> É um sistema interessante, embora a meu ver, mal utilizado pela maioria. Devemos lembrar que os pioneiros da Magia do Chaos eram magistas profundamente dos sistemas clássicos de magia. Da mesma forma que um “Chef de Cuisine”  pode mudar qualquer receita melhorando-a ou simplificando-a, assim o magista pode moldar seu sistema simplificando e atualizando o método. No entanto, se você não possui sólida formação mágica, no geral, vai apenas brincar de fazer magia, semelhante a alguém que não sabe nem cozinhar um ovo direito terá dificuldades em fazer algo mais elaborado ou modificado.

Mas e as pessoas que mesmo sem conhecer a magia profundamente obtém resultados, o senhor nega isso?
 
<Frater Goya> Usando o exemplo acima, mesmo uma pessoa sem conhecimento de culinária pode fazer uma receita gostosa vez por outra. A questão é que conhecendo os métodos clássicos tradicionais e seus caminhos, você vai obter resultados com maior frequência. E da mesma forma, mesmo cozinheiros experientes erram uma vez ou outra. Se alguém pratica Magia do Chaos e tem 100% existe a grande chance dessa pessoa estar também se auto-iludindo em relação ao sistema. Muitos cientistas experientes fracassam por anos diante de novas propostas antes de obter sucesso.

Qual sua opinião sobre Deus?

<Frater Goya> A questão não é o que penso dele, mas o que “ele” pensa de mim. Rsrsrsrs. Brincadeiras à parte, eu tenho uma visão de D’us como uma forma de vibração conforme explico em algum dos meus diários publicados no blog Goya Grimório, e não em uma forma antropomórfica que irá me ajudar ou me condenar, é mais uma força criadora. Se é um Deus/Deusa ou muitos, na verdade D’us não é He ou She, é “it”. No mais, a minha opinião não pode sobrepor à sua, pois a tentativa de convencer alguém de alguma coisa é uma violência. E faz parte do conjunto de experiências individuais que cada pessoa deve passar, e não cabe a terceiros. É como tentar convencer um vegetariano a comer carne. Não faz sentido forçar o outro. Ele tem suas escolhas e sua visão de mundo. Inclusive pensando thelemicamente, que direito eu tenho de explicar algo dessa natureza para alguém? Meu respeito pela individualidade humana deve ser absoluta a ponto de deixar as pessoas acreditarem ou conhecerem o que elas precisam e devem conhecer. Não está nas minhas mãos a capacidade de convencer ninguém a respeito da existência de um ou mais deuses e muito menos se eles existem ou não.
  
Existe Reencarnação?

< Frater Goya> No CODEX-07 http://cih.org.br/cih_new/?wpfb_dl=8 eu explico o fruto de vários anos de pesquisa e vivência no caminho, junto com pitadas de orientação do SAG. Mas falando rapidamente, o desejo de uma reencarnação ou de permanência da personalidade após a morte é apenas um desejo egoísta e de uma visão de auto-importância tremendos, pois a pessoa se acha tão magnífica que precisa viver para sempre, somente para reafirmar o seu próprio ego. O espírito é perfeito e não precisa de evolução. O espírito se permite encarnar para auxiliar a matéria a se purificar. Karma é uma ação física a ser realizada NESTA vida, não em várias. Se eu precisava fazer um almoço hoje, não adianta faze-lo amanhã, porque ele será o almoço de amanhã e não o almoço de hoje resgatado. Inclusive a perspectiva de renascer sem conhecimento da vida prévia não faz sentido do ponto de vista thelêmico, pois como você será livre e terá liberdade se está atrelado a um passado que não se recorda e se você sempre tem uma conta pra pagar da qual não tem conhecimento da fatura?

Mas Crowley acreditava em reencarnação, não?

<Frater Goya> Crowley chegou a dizer que acreditava ser a reencarnação de Eliphas Levi, mas a meu ver isso era mais marketing e auto-importância do que uma crença verdadeira. Além disso devemos lembrar que Thelema é muito além do que aquilo que Crowley escreveu. Ele pode ter sido o profeta do Novo Aeon, mas como Moisés não entrou em Canaã, pode ser que o profeta do Novo Aeon estivesse condenado a falar sobre ele sem o conhecer em sua totalidade.

A Magia influencia na política?
<Frater Goya> Claro que sim. Ao longo da história humana, a influência da magia e do esoterismo como “segundo governo”, ou “o governo que manda no governante” sempre foi algo muito presente, e um caso fácil de se estudar é a influência de Rasputin nos eventos pré revolução Russa.

Existe uma guerra espiritual em relação a essa guerra político ideológica?

<Frater Goya> Sim, existe, mas no momento, faltam lideranças mágicas. Falo um pouco a respeito dessa guerra em um podcast meu https://youtu.be/o-h9tTKgLfo . E alguns podem estar fazendo rituais ou sigilos para ajudar, mas isso não vai funcionar. E por que não? Simples. Essas pessoas estão fazendo por sua própria honra e glória, por mais que não admitam isso, e não por um bem maior. Talvez até mesmo de forma inconsciente, mas a tentativa de fazer um sigilo e que ele resolva tudo, é presumir que você tem um poder pessoal imenso, capaz de mudar tudo, e isso é ilusão e até mesmo um problema psicológico, tipo complexo de Messias, Salvador do Mundo. Para fazer isso seria necessário um movimento de pessoas e ações coordenadas por muito tempo para realizar algo extremamente efetivo. No ditado popular: “Uma andorinha só não faz verão”. Mas as pessoas estão mais preocupadas em aumentar o número de seguidores no Youtube e Instagram do que realmente em ser útil aos seres humanos. É uma briga de eu, eu, eu. Nesse aspecto, tanto olhar pro próprio umbigo não o tornaria semelhante ao outro lado?

 

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E por que o senhor não tenta essa liderança? Se sabe o que precisa ser feito, por que não faz?

< Frater Goya> Por dois motivos básicos:

1) Thelema e o direito à liberdade são coisas tão sagradas que eu devo respeitar não somente a minha liberdade, mas a liberdade do outro, inclusive se o outro possui um caminho diferente do meu. Ou será que sou tão maravilhoso que tenho direito de dizer quem está certo e quem está errado? Não possuo complexo de Messias ativado nesse momento.

2) O universo busca o equilíbrio, então quanto mais eu fizer o bem, mais haverá mal a ser combatido. Quanto mais busco a saúde, mais atraio a doença, quanto mais busco a justiça, mais a injustiça prevalece. Então é preciso buscar a vida em equilíbrio, e não num sistema se sobrepondo ao outro. Ambos podem estar errados.

Você já sofreu perseguição por fanáticos religiosos? há muito preconceito ainda?

<Frater Goya> Sim, já em vários momentos e mesmo em cidades grandes como Curitiba ou São Paulo. Mais recentemente, num evento sobre educação, fui acusado em igrejas e na própria câmara de Vereadores de ser um Bruxo e usar meu poder para convencer as pessoas a fazerem as coisas do meu jeito. O preconceito e a idiotice são coisas que não conhecem limites. Enquanto houverem seres humanos, eles também caminharão de mãos dadas com a humanidade. Já estivemos em dias melhores. Essa atual onda conservadora está retornando com alguns sentimentos preocupantes como o preconceito e o ódio aberto.

Qual sua mensagem para quem está começando na senda?

<Frater Goya> O mais importante é: por que você pretende começar na senda? Poder, glória, riqueza? Se esse for algum dos motivos, mesmo que no final da lista, reavalie seus interesses. Existem caminhos mais fáceis e mais adequados para obte-los.

Que livros ler?

<Frater Goya> Depende da sua área de interesse, mas existem alguns que considero interessantes:
– Árvore da Vida – Israel Regardie (ou Magia Hermética pela Madras);
– O Poder do Mito – Joseph Campbel;
– Magia, Ciência e Religião – Malinowski;
– os CODEX do CIH – Como estudar magia http://cih.org.br/cih_new/?wpfb_dl=9(copie e cole no navegador para baixar o codex)
– Liber Aba – Crowley
– Magia sem lágrimas – Crowley

Clássicos a título de curiosidade, mas antiquados
– Dogma e Ritual da Alta Magia – Eliphas Levi;
– Doutrina Secreta – H.P Blavatsky
– Qualquer livro do Papus

Mas ainda mais importante do que ler, é praticar. A magia, se não puder ser aplicada ao seu cotidiano, não terá utilidade nenhuma.

Que locais Frequentar?

<Frater Goya> É mais fácil filtrar onde não frequentar.
1) Evite locais e pessoas que se digam sabedores de uma verdade importantíssima – como disse, ninguém a possui e todos a possuem, então não é um pseudo guru que vai dividir isso com você;

2) Evite grupos ou pessoas que afastem você de seus amigos ou família – qualquer grupo ou pessoa que faça isso tem alguma coisa pra esconder de você – mesmo que sua família não o apoie diretamente, é importante que a honestidade seja mantida, todos devem saber com quem você está e onde está;

3) Os programas de ensino devem ser claros – um grupo ou pessoa que se propõe a ensinar alguém deve ser capaz de expor tudo claramente. Argumentos como: “Isso é muito secreto pra você agora”; “Isso só será visto lá na frente”, demonstram pessoas ou grupos cujo objetivo é fazê-lo dobrar os joelhos, Lembre-se:  “O mistério é inimigo da verdade”.

São 3 conselhos super importantes e que podem economizar muita dor de cabeça, além de oferecer um filtro sem ser anti-ético.

Você conhece o RS? Como vê o Cenário aqui?

<Frater Goya> Minha família por parte de avô é dos colonizadores do RS, minha bisavó era dona do segundo distrito de Torres. Então eu possuo laços de sangue com o Estado. Além disso, já fui ao RS para dar aulas em diversas ocasiões e sempre é muito bom rever a todos.
Vejo o RS como um Estado um tanto isolado dos demais e muitas vezes acabo percebendo ele um tanto relutante  em trazer elementos de outros Estados ou fontes. Talvez seja uma percepção somente minha, mas falo como alguém de fora. Acredito que a troca de informações é sempre bem-vinda.

Poderia deixar uma mensagem final aos leitores do Blog Pelotas Occulta?

<Frater Goya> Eu espero que a entrevista tenha auxiliado os buscadores(as) do RS como um todo, e que isso sirva de motivação para crescerem em seus estudos. O caminho da Magia é longo e bastante solitário, e é importante buscar forças dentro de si mesmo a todo momento, pois são muitos desafios e todos dizem respeito somente a você, pois você é o(a) caminhante dessa jornada. Desejo que todos(as) tenham uma grande jornada rumo ao seu desenvolvimento mágicko e me coloco à disposição para aqueles que desejarem maiores detalhes em futuras entrevistas.


Atenciosamente,
Em L.L.L.L.,
Fr. Goya
Círculo Iniciático de Hermes
– Campo Mourão/Paraná –
http://www.rosacruz.com.br
http://www.cih.org.br
http://www.cih.org.br/grimorio
http://www.youtube.com/frgoya
http://oraculo.cih.org.br
http://www.twitter.com/frater_goya

~ por Rosemaat Abiff em 24/05/2020.

2 Respostas to “Entrevista com Adeptos”

  1. […] Entrevista com Adeptos […]

    Curtir

  2. Baita texto…virei fã do Frater recentemente Admiro o trabalho hercúleo tanto do entrevistador quanto do entrevistador. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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